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Crise do Ocidente

HENRY, Michel. Auto-donation: entretiens et conférences. 2e éd. Paris: Beauchesne, 2004.

  • O reencontro com a Universidade, agradecendo a Jean-Marie Brohm e Magali Uhl pelo convite, introduz o tema “A crise do Ocidente”, vasto demais para tratamento exaustivo, propondo-se apresentar apenas algumas pistas precisas
  • Distingue-se na crise do Ocidente uma dupla face, cultural e econômica, privilegiando-se a crise da cultura, da qual a crise da economia se revelará parte integrante, e retendo-se, entre os múltiplos ensaios sobre o tema, apenas a tese proposta por Husserl, fundador da fenomenologia
  • A explicação husserliana da crise da cultura, exposta na Krisis, é paradoxal: ao contrário de Spengler, que representa as culturas como organismos votados a apogeu e declínio, Husserl sustenta que a crise atual não decorre do definhamento mas do hiperdesenvolvimento de certas funções da sociedade e do espírito humano, isto é, do saber
  • O saber moderno, em seu próprio desenvolvimento, deixa de constituir um saber único para se multiplicar em saberes especializados, cada qual inventando vocabulários e metodologias próprios, a ponto de os melhores especialistas não se compreenderem mais entre si
  • Até o século XVII havia um saber comum servindo de solo à humanidade, e essa “unidade moral da humanidade”, na expressão de Husserl, e a sapientia universalis ainda sonhada por Descartes desagregaram-se com o estilhaçamento dos saberes, tornando a crise do saber uma crise da própria existência
    • essa análise husserliana, embora notável e verificável em qualquer colóquio onde cada expositor fala seu próprio dialeto, é recusada por assentar na presuposição contestável de identificar saber e saber científico
  • Contestando essa identificação entre saber e ciência, atribui-se ao saber científico uma origem precisa em algumas frases escritas por Galileu em 1602, ato archi-fundador tanto da ciência quanto do mundo moderno, do qual só a reflexão crítica pode libertar seus herdeiros involuntários
  • Esse ato nasce da decisão intelectual de Galileu de que conhecer o universo, do qual procede a ética, exige rejeitar todas as formas de conhecimento sensível em favor da geometria, única conhecimento verdadeiro dos corpos extensos situados no espaço
    • a proposição sensível “o céu é azul” é singular, aleatória e contingente, variando conforme o indivíduo e o dia, ao passo que a proposição geométrica “num círculo todos os raios são iguais” permanece racional e verdadeira para sempre
  • As ideias de Galileu, retomadas por Descartes na fundação da geometria analítica, instauram a ciência moderna como abordagem geométrico-matemática exclusiva das partículas microfísicas, horizonte imodificável dentro do qual doravante ocorrerão todas as crises
  • A crise da cultura, situada nesse horizonte da res extensa cartesiana, revela-se, apesar do sucesso extraordinário da ciência, uma crise das ciências europeias assentada em dois pressupostos jamais questionados por Galileu nem pela ciência contemporânea
  • O primeiro pressuposto concerne à natureza real, comparada por Galileu a um livro escrito em figuras geométricas, embora nenhuma dessas figuras — círculos, quadrados — exista em si na natureza material, exigindo, como assinala Husserl na Krisis, uma “prestação transcendental da consciência” que as cria
  • O segundo pressuposto concerne à estrutura de visibilidade dessas idealidades, pois o espírito só as conhece por vê-las, à maneira de Platão, para quem se veem as ideias, e não apenas as cores ou os sons, sendo esse “ver” o termo genérico para todo acesso sensorial a algo que se dá a certa distância, tornando-se fenômeno nesse horizonte de mundo em que a ciência trabalha
  • Referida assim por Husserl à crise do saber científico, essa crise apresenta uma lacuna que um pensador genial do século XVII, o mesmo que deu formulação matemática à física galileana, Descartes, virá a perceber
  • O cogito cartesiano, ainda hoje mal compreendido, realiza, na análise do pedaço de cera das Meditações, uma verdadeira análise fenomenológica por variação, definindo com termos galileanos um corpo extenso cognoscível pelo entendimento puro, dando à revolução galileana o impulso matemático que fascinará doravante todas as disciplinas
    • Galileu, para permitir o conhecimento físico-matemático do universo, põe de lado todas as qualidades sensíveis, considerando que a organização fisiológica particular de cada animal induz a percepção das cores, que talvez nem existissem sem essa contingência biológica
  • Descartes realiza então uma contrarredução surpreendente, retomando as qualidades sensíveis descartadas por Galileu para afirmar que são as únicas coisas absolutamente certas, por serem modalidades da alma, definindo o homem pelo pensar como ser que sente e cujo sentir é um autossentir, uma cogitatio que se experimenta a si mesma imediatamente, de modo acósmico, independente do mundo
  • Prefere-se ao termo cogitatio o termo vida em seu sentido transcendental, isto é, a prova de si própria da dor, do calor, do frio, da fome, do medo, da angústia, mas também do ver, que vê tudo o que vê fora de si sem nunca se ver a si mesmo, sendo um ver vivo cujo acesso se dá por puro pathos, e do ouvir, que ouve sem nunca se ouvir, de modo que tudo o que se põe na origem do mundo, sensível ou inteligível, é dado a si mesmo numa espessura afetiva, numa carne que é pathos
  • Descartes duvidava tanto das verdades sensíveis quanto das racionais, como mostra a hipótese do Gênio Maligno e a experiência do sonho, em que tudo pode ser ilusório exceto a angústia experimentada, que existe tal como é sentida, qualitativamente, fundando-se aí o fundamento inabalável buscado por Descartes, chamado aqui de vida, já que todo vivente, mesmo o ver vivo, é sempre pathos
    • cita-se Jaspers a propósito de um pathos da certeza matemática ligado à coerção lógica, e Spinoza e Malebranche a respeito da necessidade do círculo, contrapondo-se a essas certezas a irredutibilidade da afetividade — angústia, medo, alegria, tristeza
  • Supõe-se que toda cultura, desde as origens da humanidade, seja determinada pela vida e não pela razão, reunindo as produções da vida, suas respostas pathéticas à angústia, à sensibilidade nas obras de arte, à ética como prescrições da própria vida e à religião como tradução de uma experiência fundamental do vivente, não havendo vida sem vivente nem vivente sem vida vivida por ele, sendo essa passividade fundamental um traço fenomenológico concreto
  • A exclusão da vida fenomenológica pelo ato proto-fundador de Galileu, ao fundar o saber moderno como conhecimento geométrico-matemático, destina o mundo assim concebido a uma inculturação cada vez mais total e radical, hipótese que coloca a questão de saber se existe propriamente uma cultura científica
  • Ilustra-se essa tese com o exemplo da visita ao sítio de Eleutera, na junção do Peloponeso e da Ática, cuja beleza fabulosa — um vale seco cercado por um muro de pedras louras, restos de uma antiga fortaleza banhada de luz grega — é rompida pela visão de uma linha elétrica de alta tensão a transpor o muro
    • essa linha elétrica, produto da técnica moderna deduzida exclusivamente da concepção galileana, é concebida sem qualquer consideração pelo efeito que produz sobre a sensibilidade de quem a contempla, sendo esse saqueio do mundo pela técnica moderna, filha primogênita da ciência moderna, fundado em direito e imune a qualquer crítica
  • Relata-se um segundo exemplo, a visita ao mosteiro de Dafni na Grécia, onde operários derrubavam de escadas os mosaicos das paredes e da cúpula, mosaicos feitos de tesselas de vidro ou pedra colorida cuja luz refratada produzia efeitos extraordinários, recobrindo todo o nártex e a cúpula do mosteiro
    • numa segunda visita anos depois, encontrou-se, no lugar dos mosaicos, quase apenas cimento
  • Extrai-se desse fato o ensinamento de que não se tem direito de destruir as obras de arte, observando-se o empobrecimento progressivo dos materiais artísticos ao longo da história ocidental, dos mosaicos às fresco, destas à pintura sobre madeira e desta à pintura industrial, o que torna incerta a durabilidade futura de obras como as telas de Van Gogh
  • Os mosaicos de Dafni, do século XI, haviam sido corretamente restaurados no passado por reparos sucessivos guiados por uma sensibilidade estética atenta a restituir cor ou fragmento perdido, mas a ciência atual, alheia a essa sensibilidade, reduz sua abordagem à datação por carbono 14, decidindo eliminar tudo que não seja obra da mão original do artista
    • essa prática elimina na Europa inteira as restaurações sucessivas, deixando por vezes quase nada da obra original, como na capela pintada por Giotto em Roma da qual só resta um olho, e como nos mosteiros iugoslavos visitados durante seis anos, cuja arte mística hoje se encontra recoberta de cimento
  • Coloca-se então a dupla questão do que é a ética e do que é o ser humano, observando-se que a maioria dos pesquisadores das ciências da matéria e das ditas ciências humanas aplica os métodos e pressupostos do saber galileano, embora não haja fundamento possível para a ética nesse campo físico-matemático, já que partículas microfísicas e moléculas não são habitadas por desejo, vontade ou busca de reconhecimento
  • Retomando o exemplo da destruição dos mosaicos de Dafni e da datação por carbono 14, observa-se que nenhum tratado científico jamais afirmou que só deve subsistir numa obra de arte o que provém da mão do criador original, confundindo-se aqui ciência com cientificismo, catástrofe que atribui à ciência o que ela jamais disse
    • lembra-se que a maior parte dos templos japoneses, de madeira, já queimou e foi reconstruída, de modo que eliminar tudo que não seja mão original equivaleria a suprimir quase todas as obras existentes, cabendo somente à sensibilidade, à vida enquanto sensibilidade, decidir o que conservar
  • Não havendo lugar para a ética no universo galileano, contrapõe-se a situação anterior ao advento do saber físico-matemático, quando existiam religiões, formas de arte extraordinárias e uma ética rigorosa, exemplificada pelo mandamento radical de Moisés “Não matarás” (Deuteronômio, 5,17), cuja enunciação só pode provir da vida, jamais de sistemas inertes que nada veem, sentem ou sabem
  • Voltando à questão do que é um indivíduo vivente, distinguem-se duas respostas filosóficas clássicas: a que parte do mundo, fundando o princípio de individuação (principium individuationis) nas categorias de espaço, tempo e causalidade, como no exemplo de uma caneta singularizada por estar aqui e agora e por corresponder ao arquétipo de sua função
  • Os indivíduos humanos costumam também crer que sua individualidade responde a essas condições — nascidos em tal lugar e momento, de tal mãe e tal pai, homem ou mulher, conforme a carteira de identidade — mas nem o lugar no espaço, nem a posição no tempo, nem a conformidade a um arquétipo bastam para individualizar, propondo-se então, como defendido em ensaio anterior sobre o Cristianismo, que só há indivíduo na vida
    • a vida é o que se experimenta a si mesma à maneira da angústia num sonho, prova de si singular na qual o indivíduo é esse Si que se experimenta a si mesmo, ipseidade transcendental nascida unicamente na vida transcendental, hipóteses fundamentais tanto para a sociologia quanto para a psicologia
  • Do ponto de vista da ciência, isto é, dos processos inertes, nenhum indivíduo pode aparecer onde não há sentir, dado que um indivíduo só aparece nessa autoafecção de um Si, o que expõe a insuficiência do princípio de individuação retomado pelas ciências biológicas no caso da clonagem, capaz quando muito de produzir um autômato desprovido de Si, já que o Si só existe experimentando-se a si mesmo, jamais podendo “experimentar o outro” apesar da intersubjetividade
  • Concluindo, embora essas considerações justifiquem os esforços de interdisciplinaridade, exige-se uma reflexão prévia sobre os prolegômenos que tornam possível e conferem sentido a qualquer objeto empiricamente dado, sendo somente nesse retorno à questão, nesse recuo a que se deve dar sentido sistemático e radical, que a pesquisa se torna possível
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