Epifenômeno
JONAS, Hans. Poder o impotencia de la subjetividad. Barcelona: Paidós, 2005.
II. A tese da ineficácia do psíquico (o argumento do epifenômeno)
1. A tese do epifenômeno substitui a proibição física de causas psíquicas pela afirmação de que o próprio psiquismo carece de força causal, ajustando previamente a subjetividade à suposta inviolabilidade da determinação física e preservando o equilíbrio psicofísico mediante a completa subordinação do espírito ao corpo.
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A primazia concedida ao domínio físico decorre da existência de uma ciência determinista que o descreve com eficácia, enquanto não existe ciência equivalente que assegure autonomia causal ao psiquismo.
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Mesmo as concepções aparentemente equilibradas, como certos paralelismos psicofísicos, tendem ao materialismo quando admitem que o corporal determina unilateralmente o espiritual.
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O epifenomenalismo não constitui fundamento primeiro da autarquia física, mas consequência deduzida da exigência de manter intacta a causalidade material.
1. O argumento da tese do epifenômeno
a) Primazia da matéria diante do espírito
2. A matéria pode existir sem espírito, ao passo que a experiência conhecida não apresenta espírito sem matéria organizada, razão pela qual se atribuem à matéria autonomia e originariedade, enquanto o psiquismo é considerado condicionado, derivado e dependente de organismos, sistemas nervosos e cérebros.
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A natureza inerte e grande parte da natureza viva testemunham a existência de matéria desprovida de subjetividade.
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Toda modalidade conhecida de experiência subjetiva aparece associada a formas determinadas de organização material.
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A inexistência de exemplos comprovados de espírito incorpóreo favorece a prioridade ontológica da matéria e a secundariedade do espírito.
3. A matéria organizada não seria apenas condição prévia da existência do espírito, mas também causa determinante de sua atividade e de todos os seus conteúdos, de modo que sensações, sentimentos e processos mentais poderiam ser extrapolados como efeitos fisicamente produzidos.
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A causação física da experiência sensorial e de certos sentimentos pode ser demonstrada em casos particulares.
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A partir desses casos, estende-se a interpretação causal aos processos mentais mais complexos, embora tal extensão ainda não tenha sido demonstrada de maneira equivalente.
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Os fenômenos interiores são assim compreendidos como conteúdos provocados no substrato físico e integralmente dependentes dele.
4. Aquilo que foi causado pelo substrato físico não possuiria causalidade própria, pois seria apenas expressão subjetiva do processo material, incapaz de agir sobre o que expressa, de retroagir sobre sua origem ou de determinar autonomamente seu desenvolvimento interior.
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A aparência subjetiva não poderia emancipar-se do estrato físico que a produz.
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A expressão não pode modificar aquilo de que é expressão sem deixar de ser mera expressão.
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O sentimento de autonomia e de autodeterminação possuiria somente o valor ilusório de um como se.
b) A integridade da determinação física
5. A determinação física é concebida como completa em sua própria esfera e fechada à intervenção de fatores heterogêneos, fazendo com que apenas a descrição neuromuscular da ação seja objetiva, enquanto a referência à vontade e à intenção é reduzida a transcrição simbólica de processos corporais.
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No exemplo de levantar o braço, o encadeamento cerebral, nervoso e muscular conteria toda a explicação causal necessária.
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A descrição subjetiva segundo a vontade e a intenção não acrescentaria eficácia ao acontecimento, mas somente traduziria inadequadamente sua estrutura física.
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A neurologia, a teoria da comunicação e a cibernética ampliam essa interpretação mecanicista às funções superiores da consciência e aos processos cerebrais mais complexos.
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Os êxitos iniciais na construção de modelos de funções mentais sugerem que essa explicação poderia avançar sem encontrar barreira fundamental.
6. A defesa da eficácia do espírito recebe o ônus de explicar como um produto do cérebro poderia emancipar-se de seu substrato e atuar retroativamente sobre ele, sobretudo como agentes não físicos poderiam provocar movimentos de partículas físicas.
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A separação causal entre produto psíquico e substrato cerebral exigiria um modelo racional de interação.
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A dificuldade se torna especialmente grave quando se pretende explicar a passagem de uma determinação não física para um efeito físico.
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A impossibilidade antecipada de formular tal modelo é utilizada como reforço da tese epifenomenalista.
c) O critério da parcimônia
7. A incapacidade de explicar a gênese da subjetividade a partir dos processos materiais pode ser acolhida mediante o ignoramus et ignorabimus, mas a hipótese de uma causalidade psíquica reversa exigiria admitir uma segunda obscuridade teórica, tornando-se menos parcimoniosa do que a explicação unilateral do cérebro para a consciência.
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O epifenomenalismo admite sem explicação suficiente que processos cerebrais produzam experiências conscientes.
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A teoria interacionista teria de admitir tanto a passagem do físico ao psíquico quanto o retorno do psíquico ao físico.
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Quem aceita apenas a direção física para o subjetivo precisaria invocar a ignorância uma vez, enquanto quem admite reciprocidade causal precisaria invocá-la duas vezes.
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A unilateralidade é apresentada como opção de menor custo teórico, embora também permaneça causalmente obscura.
8. O conceito de epifenômeno evita postular transformação de energia física em energia não física, pois a consciência seria apenas aparência concomitante sem retirada de energia do sistema corporal e sem interferência no cálculo físico ulterior.
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A subjetividade não produziria diminuição mensurável da energia física nem alteraria a continuidade causal do cérebro.
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A admissão mínima de uma aparência consciente não precisaria justificar-se diante de uma hipótese mais complexa de interação.
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A maior parcimônia seria suficiente para deslocar o ônus probatório para os defensores da causalidade psíquica.
d) Superfluidade do fim subjetivo
9. Os fins subjetivos não exerceriam influência sobre o curso dos acontecimentos, pois sua presença consciente seria apenas reflexo do estado material do organismo, e a sucessão aparentemente orientada por eles procederia das mesmas condições físicas que já haviam produzido sua representação.
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O fim consciente não seria causa da ação, mas símbolo subjetivo de um processo material que se desenvolve independentemente dele.
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A representação de uma meta acompanharia a ação sem determiná-la.
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A aparente causalidade final poderia ser integralmente substituída pela causalidade eficiente dos mecanismos corporais.
10. A explicação socrática da permanência diante da morte por meio das ideias de justiça, dever e finalidade seria rejeitada em favor de uma descrição exclusivamente naturalista baseada em ossos, tendões, músculos e nervos, pois somente a descrição física explicaria propriamente o acontecimento corporal.
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A evidência subjetiva que atribui a conduta a razões e fins seria considerada ilusória.
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As descrições física e intencional não seriam complementares nem equivalentes, mas concorrentes.
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A única descrição causalmente pertinente seria a naturalista, enquanto a interpretação por motivos apenas duplicaria simbolicamente o processo real.
e) O critério da simulabilidade
11. A possibilidade de simular mecanicamente os efeitos da conduta sustentaria que tais resultados não exigem subjetividade, conforme o princípio cartesiano segundo o qual comportamentos animais estereotipados poderiam ser reproduzidos por autômatos idealmente construídos.
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A limitação técnica da simulação dependeria apenas da enorme variedade e do refinamento dos organismos naturais.
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A identidade dos princípios funcionais permitiria inferir, dos autômatos simples para os organismos complexos, que ambos operam mecanicamente.
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A diferença entre artefato e organismo seria de grau, complexidade e combinação, não de princípio causal.
12. Os efeitos especificamente humanos do pensamento racional, da linguagem e da adaptação livre a circunstâncias atípicas, antes considerados irredutíveis ao mecanismo, passaram a ser parcialmente modelados pela cibernética e pela teoria geral dos sistemas.
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Os modelos de adaptação dinâmica superam o automatismo reflexo rígido atribuído por Descartes aos animais.
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Máquinas capazes de jogar xadrez oferecem exemplos práticos de atividades anteriormente associadas exclusivamente à inteligência.
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A possibilidade teórica de reproduzir funções superiores amplia o campo do simulável e do substituível para além do comportamento animal elementar.
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A diferença entre os processos humanos e os mecanismos artificiais tende a ser interpretada como contínua, quantitativa e estrutural.
13. Aquilo que fosse perfeitamente imitado deixaria de ser mera simulação e passaria a constituir duplicação funcional, de modo que o original não poderia conter princípios adicionais além daqueles necessários para sua reprodução integral.
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Uma imitação imperfeita fundada somente em diferenças de grau indicaria a possibilidade teórica de uma imitação perfeita.
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Todo experimento de simulação bem-sucedido possuiria força probatória quanto ao tipo de ser do processo reproduzido.
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Caso uma conduta orientada a fins pudesse ser objetivamente duplicada, suas representações subjetivas não seriam indispensáveis para a obtenção do resultado.
14. A economia explicativa favorece a hipótese epifenomenalista ao considerar supérfluos os conteúdos subjetivos que não sejam necessários à reprodução funcional da conduta, reduzindo a consciência e a finalidade psicológica a acompanhamentos inoperantes.
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A simulabilidade corporal reforçaria a antiga hipótese da impotência geral do espírito.
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O fim psicológico possuiria apenas caráter putativo de autoria, sem contribuição operacional efetiva.
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A consciência teleológica seria um como se inexplicável, porém funcionalmente inútil.
2. Crítica
15. A crítica deve começar de modo imanente, examinando tanto a coerência formal e conceitual do epifenomenalismo quanto sua explicação causal da subjetividade como aparência fictícia e faculdade impotente, para somente depois levar suas consequências conjuntas a uma redução ao absurdo.
a) Força da posição materialista
16. A pretensão materialista possui força considerável porque a permanência da matéria e a fugacidade do espírito são empiricamente evidentes, sobretudo na morte, quando desaparece a consciência enquanto os elementos corporais continuam existindo.
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A matéria apresenta independência e estabilidade diante da transitoriedade da vida psíquica.
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A mortalidade constitui o argumento mais forte em favor da prioridade ontológica da matéria e da existência secundária do espírito.
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As dependências conhecidas entre estados mentais e acontecimentos corporais reforçam a anterioridade do substrato material.
17. A evolução favorece inicialmente a hipótese de um monismo material, pois começou como acontecimento puramente físico e somente depois, em formações surgidas da própria matéria, permitiu o comparecimento da subjetividade sem participação de um espírito previamente existente.
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A história da natureza não exige a presença originária de uma mente para explicar o aparecimento dos organismos.
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A consciência surge tardiamente em estruturas materiais específicas.
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O ônus probatório parece recair sobre quem nega que a matéria seja fundamento suficiente do espírito.
b) Primeira visão panorâmica dos argumentos contrários
18. A prioridade empírica e ontológica da matéria não implica a inutilidade do que dela resulta, pois a dependência causal de um efeito não o reduz necessariamente a aparência sem eficácia nem o impede de tornar-se novo início dentro da cadeia das condições.
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O fundamento ontológico não determina a futilidade do fundamentado.
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A origem material da subjetividade não demonstra sua inexistência real nem sua completa passividade.
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Um efeito pode tornar-se causa de consequências posteriores sem deixar de depender de condições antecedentes.
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Formas causais mais complexas podem surgir no desenvolvimento e retroagir sobre os estratos dos quais procedem.
19. O surgimento da subjetividade não pode ser explicado apenas a partir do conceito físico de matéria como simples extensão, pois a matéria capaz de produzir consciência deve significar algo mais amplo do que a construção conceitual elaborada pelas ciências naturais em oposição ao espírito.
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O conceito estritamente físico não contém recursos suficientes para deduzir qualidades subjetivas.
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A matéria requerida pelo monismo materialista teria de possuir potencialidades ainda desconhecidas.
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Não existe conceito exaustivo dessa matéria ampliada nem inventário completo das leis naturais capazes de explicar a emergência da consciência.
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O ignoramus não autoriza tratar um modelo incompleto como se fosse integralmente suficiente.
20. A simulação permanece incompleta enquanto não reproduzir também a subjetividade que acompanha os efeitos corporais, comprovando apenas que certos resultados físicos podem ser obtidos por mecanismos puramente físicos, e não que os mesmos resultados ocorram sem participação do espírito nos casos em que a consciência está presente.
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A reprodução do comportamento externo não equivale à duplicação integral do processo que o origina.
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Um autômato pode imitar efeitos planejados por seus construtores sem demonstrar que a ação humana original foi produzida sem consciência.
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A simulabilidade prova uma possibilidade causal física, mas não a exclusividade dessa causalidade.
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A prioridade da matéria pode ser conservada sem aceitar a passagem ilegítima para a tese do epifenômeno.
21. A hipótese epifenomenalista excede a prioridade material ao introduzir consequências que entram em contradição com princípios gerais do ser e do pensar, revelando seu caráter artificial e sua incapacidade para resolver o problema psicofísico.
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A dependência da subjetividade não exige que ela seja causalmente nula.
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O conceito de epifenômeno foi construído especificamente para preservar a autonomia material, mas seu alcance ontológico ultrapassa o que as evidências permitem.
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A crítica lógica preliminar prepara uma análise imanente mais detalhada antes da redução ao absurdo.
3. Crítica imanente do conceito de epifenômeno
22. O epifenômeno designa a aparência psíquica que acompanha unilateralmente determinados processos físicos cerebrais, enquanto estes permanecem autônomos e a consciência derivada se apresenta como produto totalmente heterônomo de uma realidade alheia.
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O acompanhamento é unilateral e não recíproco.
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O processo físico produz a aparência consciente, mas não recebe dela qualquer influência.
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A subjetividade é concebida como fenômeno secundário sem autonomia ontológica ou causal.
a) O primeiro enigma ontológico: criação da alma a partir do nada
23. A consciência apareceria sem marcar diferença no desenvolvimento do processo cerebral que a produz, pois seu surgimento ocorreria sem intervenção, despesa ou modificação causal do substrato físico, como simples aparência do funcionamento material.
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A produção do psiquismo não constituiria desempenho adicional do estrato originário.
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Nenhum custo físico acompanharia o aparecimento da experiência consciente.
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A subjetividade permaneceria em si mesma sem alterar a série material da qual deriva.
24. A origem do epifenômeno equivaleria a uma criação a partir do nada, porque nada seria causalmente empregado para produzi-lo, embora sua existência represente algo novo e distinto da inexistência, contrariando precisamente o princípio físico de conservação que a teoria pretende proteger.
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Caso houvesse dispêndio físico, o balanço material seria afetado e a hipótese perderia sua função.
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Caso não houvesse dispêndio, um efeito real surgiria sem custo causal.
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A criação da alma a partir do nada constitui o primeiro enigma ontológico ao qual o epifenomenalismo precisa resignar-se em nome da física.
b) O segundo enigma ontológico: a inoperância daquilo que foi provocado fisicamente
25. Aquilo que teria surgido sem custo causal também precisaria permanecer sem consequência, pois qualquer eficácia da consciência modificaria o processo físico acompanhado e violaria a autonomia material que o epifenomenalismo procura assegurar.
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A impotência do espírito deve ser combinada com sua dependência da matéria.
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A geração da subjetividade precisa ser simultaneamente gratuita e causalmente estéril.
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Somente algo produzido sem dispêndio poderia permanecer sem efeito sobre a causa que o gerou.
26. A consciência acrescentaria uma diferença descritiva à realidade, mas nenhuma diferença dinâmica, existindo como presença real sem transformar o restante das coisas nem participar da determinação do organismo consciente.
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O ser dotado de consciência não agiria como age por possuir consciência.
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Ele possuiria consciência apenas porque se comporta segundo prescrições físicas já completas.
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A consciência seria algo para si e nada para tudo o mais.
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Tratar-se-ia de realidade inoperante surgida dentro do mundo e simultaneamente excluída de suas consequências.
27. A ausência de efeitos daquilo que foi fisicamente provocado constitui o segundo enigma ontológico, pois contradiz o princípio natural segundo o qual nada pode existir sem consequências e todo efeito deve participar do encadeamento causal.
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O epifenomenalismo preserva a física mediante uma exceção que a própria física não admite.
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A subjetividade seria causada, mas permaneceria sem capacidade de causar.
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O produto seria real o bastante para existir, porém irreal quanto a toda eficácia.
c) O enigma metafísico: a existência de uma ilusão em si
28. A impotência da consciência precisaria valer tanto externamente, em relação ao corpo, quanto internamente, em relação à autodeterminação do pensamento, pois qualquer causalidade entre conteúdos mentais permitiria ao psiquismo seguir caminho próprio e romper o paralelismo com o processo cerebral.
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Nenhum pensamento poderia produzir outro pensamento.
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Nenhuma decisão poderia surgir de uma deliberação consciente efetiva.
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A aparente determinação intencional do corpo deveria permanecer ilusória.
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A impotência externa somente poderia permanecer oculta caso estivesse acompanhada de impotência interna igualmente completa.
29. Poder e impotência da subjetividade devem valer conjuntamente para dentro e para fora, pois admitir poder interno e impotência externa dividiria artificialmente a consciência e a separaria do mundo e do próprio corpo cuja união a teoria deveria explicar.
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Uma consciência causalmente ativa em si mesma tenderia também a participar da ação corporal.
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A união da consciência com o mundo exige algum vínculo real, não a justaposição entre duas séries sem comunicação.
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O materialismo deveria negar tanto a causalidade interna quanto a externa para preservar coerência.
30. O epifenômeno converte a sucessão consciente em projeção contínua do substrato cerebral, comparável às imagens cinematográficas que parecem derivar umas das outras, embora cada quadro seja produzido separadamente pela fonte de projeção.
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Um estado consciente não procederá causalmente do estado anterior, mas do novo estado físico que o sustenta.
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A consciência refletirá o desenvolvimento cerebral como se possuísse desenvolvimento próprio.
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A deliberação será sucessão de signos subjetivos, não processo causal efetivo.
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A dinâmica consciente permanecerá ilusória mesmo quando suas conclusões coincidirem com ações corporais reais.
31. A continuidade do pensamento seria apenas continuidade da atividade cerebral que escreve sucessivamente os signos da consciência, sem permitir que o próprio texto subjetivo prossiga por força própria.
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O percurso causal avançaria de estado cerebral em estado cerebral.
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Cada estado físico produziria um equivalente consciente isolado.
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A projeção incessante criaria aparência de unidade e sequência em algo que, por si mesmo, permaneceria inoperante.
32. Nenhum pensamento engendraria outros pensamentos nem qualquer estado de consciência conteria causalmente o seguinte, fazendo com que todo pensar e toda autodeterminação sejam enganos internos que acompanham a ilusão externa de determinar o corpo.
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A crença de que o pensamento pode orientar a ação corporal seria uma ilusão situada dentro da ilusão de autonomia mental.
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A alma seria engano em si mesma, sem sujeito verdadeiramente capaz de ser enganado.
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O cérebro não pode ser enganado, pois não possui experiência subjetiva; o sujeito, por sua vez, já foi reduzido ao próprio engano.
33. A ilusão epifenomênica careceria de beneficiário, vítima, finalidade e função, pois seria produzida sem servir ao organismo, sem compensar qualquer esforço e sem contribuir para a adaptação ou para o desenvolvimento da realidade.
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A natureza material seria involuntariamente enganosa sem retirar qualquer vantagem desse engano.
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A intencionalidade seria signo daquilo que é inteiramente não intencional.
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A aparência de finalidade seria gerada por um processo que não possui finalidade e não obtém qualquer resultado por simulá-la.
34. A existência de uma ilusão em si, cuja própria distinção entre verdade e engano é parte do engano, constitui o enigma metafísico absoluto do epifenomenalismo.
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A ilusão não pertence a um sujeito independente, pois o próprio sujeito seria apenas fenômeno ilusório.
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A consciência que identifica ou sofre o engano já está incluída na aparência.
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O epifenomenalismo precisa admitir uma falsidade sem alguém que seja falsificado e uma experiência de engano sem sujeito real da experiência.
d) O enigma lógico: aparência aparente para si mesma
35. A analogia da tela ou do espelho explica apenas a sucessão dos conteúdos conscientes, mas não a própria subjetividade como dimensão permanente em que esses conteúdos aparecem, pois a tela subjetiva também precisaria ser produto aparente dos estados cerebrais.
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Os conteúdos mutáveis pressupõem um campo de presença que os reúne.
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A consciência não é apenas coleção de estados, mas dimensão que sustenta sua diversidade temporal.
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O presente subjetivo se estende entre passado e futuro e permite a confluência dos acontecimentos.
36. Caso a consciência como espaço de aparecimento seja reflexo difuso da atividade cerebral global, ainda seria necessário explicar o sujeito para o qual esse reflexo aparece e o ato pelo qual a aparência é reconhecida como aparência.
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A própria tela precisaria apresentar-se a si mesma.
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O sujeito da intencionalidade seria incluído na gramática interna da representação, não podendo ser separado como realidade autônoma.
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O eu que acompanha os fenômenos seria novo aspecto do mesmo processo de aparência.
37. A regressão conduz à ideia de que o sujeito da aparência seja epifenômeno do próprio epifenômeno, tornando o eu uma ilusão dos fenômenos psíquicos e a alma uma ilusão capaz de possuir ilusões.
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A pergunta sobre quem sofre a ilusão não pode receber resposta sem postular novo sujeito ilusório.
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Cada sujeito acrescentado exigiria outro plano de aparência que o sustentasse.
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A cadeia termina numa ilusão em si sem portador conceitualmente determinável.
38. A articulação linguística do epifenomenalismo desemboca numa representação imaginária diante de um espectador imaginário, na qual cenário, conteúdo e sujeito coincidem como aparência que aparece apenas para si mesma ou como nada refletido em nada.
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A hipótese encobre sua fragilidade mediante fórmulas cuja coerência lógica não pode ser reconstruída.
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A existência aparente deveria ser esclarecida sem confundir parecer de outro modo, parecer algo inexistente e efetivamente aparecer para um sujeito.
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Mesmo no sonho e na alucinação permanece o ser real do sujeito que experimenta a aparência.
39. O conceito extremo de epifenômeno não é compatível com lógica acessível, pois substitui o problema psicofísico por algo intrinsecamente inconcebível, embora essa dificuldade ainda produza suspeita teórica mais forte do que uma refutação conclusiva.
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Invocar algo impensável em si mesmo não resolve uma questão surgida no próprio pensamento.
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O mistério conceitual do epifenômeno é mais radical do que a dificuldade de compatibilizar interação psicofísica e conhecimento natural.
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A hipótese troca um problema sólido, ainda que difícil, por um impasse sem articulação racional.
4. O argumento atenta contra o conceito de natureza que pressupõe
40. O epifenomenalismo contradiz a teoria da natureza em cuja defesa foi concebido, pois transforma a consciência em exceção inexplicável aos princípios causais e de conservação que pretendia tornar invioláveis.
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A alma é privada de eficácia para preservar a causalidade natural.
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Contudo, seu nascimento sem custo e sua permanência sem consequência violam a própria causalidade.
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A teoria encarregada de defender a natureza acaba introduzindo nela uma anomalia única e gratuita.
41. Nada pode surgir gratuitamente nem permanecer sem consequência, de modo que a matéria teria de investir algo na produção da consciência e a diferença entre sua existência e inexistência deveria manifestar-se de algum modo no desenvolvimento da realidade.
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Um processo material não pode ser indiferente ao fato de produzir ou não consciência.
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Algo próprio da causa deve transmitir-se ao efeito, mesmo quando se desconhece a equivalência exata dessa transmissão.
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Toda nova realidade deve representar alteração efetiva e não mera diferença verbal.
42. A consciência precisa introduzir alguma diferença transitiva no curso das coisas, ainda que o modo dessa eficácia permaneça desconhecido, para que o custo de sua gênese não desapareça e o equilíbrio da totalidade seja preservado.
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A diferença entre consciência e ausência de consciência não pode ser dinamicamente neutra.
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A ignorância quanto ao modo da interação não elimina a necessidade lógica de alguma consequência.
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Somente a participação causal do efeito impede que seu surgimento seja perda inexplicável no mundo.
43. O princípio determinista impede admitir algo produzido a partir de nada ou desvanecido em nada, razão pela qual a solução epifenomenalista se torna autocontraditória ao proteger a inviolabilidade causal mediante uma relação causal inteiramente excepcional.
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O materialismo, enquanto defensor do determinismo, está particularmente obrigado a evitar essa exceção.
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A produção de um efeito sem custo e a existência de um efeito sem eficácia rompem o próprio princípio que deveriam preservar.
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O vínculo entre cérebro e consciência transforma-se em invenção ad hoc sem paralelo nas demais regras naturais.
44. A hipótese epifenomenalista oculta uma ignorância mais grave do que a interação psicofísica, pois precisa explicar como algo pode surgir sem dispêndio e existir sem valor causal em um mundo concebido integralmente como interação.
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A interação psicofísica pode permanecer como problema teórico aberto sem destruir a coerência da consciência.
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O epifenomenalismo exige renunciar à própria inteligibilidade do nexo causal.
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A consciência teórica pode conviver com a dificuldade da interação, mas não com a negação de sua própria capacidade de pensar.
45. A hipótese, por ser fundamentalmente negativa, tende a tornar-se irrefutável, pois exige que a tese contrária seja previamente demonstrada, convertendo sua própria ausência de comprovação em vantagem indevida.
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A inexistência de eficácia psíquica não pode ser positivamente observada de maneira direta.
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O caráter indemonstrável transforma-se artificialmente em proteção da hipótese.
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A suspeita de fuga conceitual assume a aparência de certeza teórica.
46. A defesa da interação psicofísica suporta o ônus sempre prorrogável de mostrar sua compatibilidade concreta com o conhecimento físico, mas a negação da interação assume encargo ainda maior ao ter de demonstrar como uma causalidade unilateral sem reciprocidade pode ser compatível com o conceito geral de realidade.
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A confissão de ignorância diante de uma lei natural ainda desconhecida é teoricamente mais limpa do que a invenção de uma exceção que contradiga as leis conhecidas.
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A unilateralidade causal precisa explicar tanto a produção da consciência quanto sua completa esterilidade.
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O conceito de realidade como rede de relações torna problemática a existência de um efeito absolutamente isolado.
5. Crítica a partir das consequências: redução ao absurdo
47. A aceitação do epifenômeno produz consequências destrutivas para o conceito geral de ser, para o pensamento que pretende conhecê-lo e para a própria teoria epifenomenalista, tornando necessária uma redução ao absurdo de seu alcance ontológico e epistemológico.
a) Absurdidade de um ser enganoso
48. Um ser cuja contribuição mais elaborada fosse produzir uma fantasmagoria estéril da consciência não seria indiferente, mas ativamente absurdo ou perverso, pois criaria aparência de vontade, finalidade e interesse sem permitir que qualquer dessas dimensões tivesse eficácia real.
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A consciência não poderia ser justificada por função adaptativa, porque a finalidade é precisamente aquilo que a teoria declara ilusório.
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A seleção natural permite a permanência de traços neutros, mas não esclarece por que surgiria uma construção tão complexa e enganosa.
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A natureza produziria uma encenação sem espectador efetivo e sem vantagem para o organismo.
49. Um automatismo corporal silencioso seria apenas hipótese estranha, mas não contraditória; a contradição surge quando o mecanismo é acompanhado de uma música subjetiva que finge orientar movimentos já integralmente determinados.
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A aparência de vontade, desejo e temor não seduziria o corpo, pois este já está fisicamente prescrito.
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A consciência não enganaria sequer a si mesma, uma vez que ela própria foi definida como ressonância sem poder.
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A aparência de missão, risco e interesse seria produzida onde não existe missão, risco ou margem efetiva de ação.
50. O epifenômeno converte a natureza em comédia do interesse, fazendo surgir um ser ao qual se atribui poder, finalidade e responsabilidade inexistentes, embora essa representação não beneficie nem prejudique qualquer participante real.
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A encenação subjetiva não serve a um fim externo ou interno.
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O engano não possui vítima, autor consciente nem resultado.
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A própria finalidade do engano é declarada ilusória pela teoria.
51. O espírito enganador de Descartes ainda preservava sujeitos reais, intenção maliciosa e possibilidade de prazer no engano, enquanto a natureza epifenomenalista seria eternamente surda e, ao mesmo tempo, produziria gratuitamente um discurso cujo sentido mais próprio consiste em poder ser ouvido.
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A hipótese cartesiana mantém uma estrutura inteligível de agente, vítima e propósito.
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O epifenomenalismo elimina todos esses elementos e conserva apenas a aparência vazia do engano.
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A natureza falaria defeituosamente sem que alguém pudesse ouvir ou se beneficiar dessa fala.
52. A atribuição desse absurdo à natureza para evitar seus enigmas recai contra a própria teoria, pois transforma o conceito de ser em caricatura cujo único aspecto surpreendente seria a possibilidade de ser levada a sério.
b) Absurdidade de uma teoria que arruína as teorias
53. A consequência decisiva não é apenas a deformação da natureza, mas a autodestruição da própria ideia de teoria, pois o epifenomenalismo nega ao pensamento o poder necessário para formular, julgar e sustentar qualquer doutrina verdadeira.
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Toda teoria pressupõe que o pensamento possa elevar-se sobre determinações alheias ao espírito.
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A investigação exige liberdade para avaliar representações segundo normas de verdade.
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Mesmo uma teoria falsa testemunha alguma capacidade autônoma de pensar e julgar.
54. Ao declarar o pensamento causalmente impotente, o epifenomenalismo elimina sua própria condição de teoria independente e reduz suas proposições a efeitos cerebrais que não podem reivindicar validade racional.
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Uma sucessão de estados físicos não pode justificar por si mesma a verdade da interpretação que a acompanha.
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O materialista extremo precisa excetuar implicitamente seu próprio pensamento para que sua doutrina possa existir como afirmação racional.
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A tese não pode conceder a si mesma essa exceção sem contrariar sua definição universal da essência do pensar.
55. Diferentemente do paradoxo do cretense mentiroso, que ainda pode introduzir uma exceção circunstancial, o epifenomenalismo formula uma sentença geral sobre o pensar e é integralmente engolido por ela.
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Não é possível afirmar que todo pensamento é impotente e simultaneamente reservar eficácia cognitiva à própria afirmação.
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A teoria não pode estabelecer sua verdade sem admitir o poder de pensamento que nega.
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A universalidade da tese impede qualquer saída autorreferencial coerente.
56. A redução ao absurdo é dupla, porque a hipótese atribui à natureza a produção de uma fantasmagoria inútil e simultaneamente torna impossível o conhecimento teórico com que pretende descrever essa mesma natureza.
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Ao acusar a natureza de impostura em nome da própria natureza, a tese destrói a pretensão de falar de suas leis e de sua inteligibilidade.
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Ao negar a liberdade operativa do pensamento, elimina a condição mediante a qual qualquer teoria pode ser aceita ou recusada.
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A doutrina se aniquila ao declarar impossível a atividade cognitiva necessária para sustentá-la.
