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Técnica
HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985 / The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993.
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A fenomenologia da técnica em Heidegger não rompe com a fenomenologia inicial, mas o afastamento do termo visa deixar o caminho do pensamento sem nome, e a introdução do conceito de “essência” da técnica, ausente em Ser e Tempo, exige um esforço para compreendê-lo para além da redução eidética husserliana ou do eidos platônico.
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Para a fenomenologia de Ser e Tempo, o que se mostra “a partir de si mesmo” é o fenômeno, e o ser dos fenômenos é essencialmente oculto, embora o Heidegger inicial acreditasse que essa dimensão oculta fosse acessível pela temporalidade individual, descobrindo-se depois que o que é mais essencialmente oculto pertence à história.
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A essência da técnica não é algo técnico, e a técnica não é um mero instrumento nas mãos da humanidade, mas um projeto metafísico que marca os entes em sua totalidade e tem o caráter do próprio Ser.
A técnica, em sua essência, reúne sob uma unidade os fenômenos dispersos da época, como a homogeneização planetária, o desenraizamento, a perda do sentido da proximidade e a constituição de imensos estoques de energia, que são manifestações da essência que os governa.-
A ciência moderna e o Estado totalitário são apenas “consequências necessárias” da técnica, e a ciência, ao perseguir a matematização da natureza, serve ao projeto mais geral do enquadramento tecnológico, respondendo à necessidade de sua essência.
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Todos os domínios particulares, como a arte, a cultura e a política, são atualmente “equipados”, e o equipamento, que aparece com a necessidade de confiar cada domínio a uma direção única e centralizada, também constitui uma manifestação da essência da técnica.
O termo “essência” tem um duplo sentido: por um lado, refere-se ao próprio ser como “ser que se desvela”, e por outro, preserva os traços metafísicos acumulados durante a história do ser, que é a história da metafísica, e a essência é o que mantém o ser em termos de um desvelamento anterior.-
A essência de um fenômeno é inacessível em termos dos processos próprios ao domínio ao qual pertence, e a essência da técnica, sendo metafísica, é mais oculta do que qualquer outra coisa, porque os princípios que a constituem se tornaram a realidade do real e, portanto, evidentes por si mesmos.
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Os princípios metafísicos, ao se realizarem na técnica, sofrem uma transmutação que os torna difíceis de reconhecer, como a vontade que se torna vontade de vontade, e a técnica “realiza” a metafísica moderna, para a qual querer é posicionar o ser como objeto e o objeto como racional e calculável.
A vontade de vontade é equivalente a produzir para produzir, e a técnica explora a terra para explorá-la e acumula energia para acumulá-la, não para responder a qualquer necessidade “real”, obedecendo apenas à sua própria lógica interna e não a uma vontade humana.-
O enquadramento prossegue a metamorfose final de todas as atividades de objetivação, e não se trata mais de colocar diante de si um mundo objetivo como imagem, mas de provocar a natureza, extraindo dela o que há de mais constantemente presente e transformável: a energia.
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A técnica não requer mais o mero objeto, mas um “reservatório” de forças sempre disponíveis e de produtos estritamente calculados, no qual todas as diferenças, inclusive entre sujeito e objeto, se perdem na massa uniformemente calculável, e o homem, por sua vez, já não é sujeito, mas o “operador do reservatório”.
A transmutação do princípio de razão na essência da técnica ocorre sob a forma de uma assimilação discreta e multiforme, na qual a racionalidade se torna puramente pragmática e funcional, servindo à eficácia do enquadramento, e a informação pela informação é um dos avatares modernos do princípio de razão suficiente.-
A cibernética, como ciência da autorregulação, baseia-se na instrumentalização das mensagens informativas e no caráter estritamente operacional de todo processo, construindo sistemas fechados nos quais a informação circula em um círculo fechado de acordo com uma retroalimentação perfeita.
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A técnica tem uma necessidade essencial da cibernética para poder dissociar completamente o “reservatório” de qualquer relação com o fundamento, e a ambiguidade metafísica do fundamento é reabsorvida na clareza funcional da racionalidade tecnológica.
A consumação da metafísica não marca um fim, mas o início de seu reinado, e Heidegger chama essa época de “decaimento” da metafísica, que dura mais do que a história da metafísica até agora, e nenhuma força humana ou outra pode impedir o desenvolvimento perfeitamente autônomo da vontade de vontade e do enquadramento.-
A interpretação retrospectiva da história do pensamento confere uma estrutura teleológica à história do ser, que se torna a pré-história da técnica, na qual todas as grandes posições metafísicas se complementam e se sucedem segundo uma ligação guiada pelo resultado final.
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O conceito de “preparação” da técnica pressupõe uma maturação na história, mas os pensadores metafísicos só podem “preparar” a técnica do ponto de vista de um conhecimento retrospectivo que está ciente dos resultados, e Heidegger fala de um “conhecimento amplo e essencial” que só pode ter sua origem num pensamento da história do ser.
A interpretação de Nietzsche como a “penúltima etapa” do processo que leva à vontade de vontade é problemática, pois reduz o pensamento de Nietzsche à essência tradicional da metafísica, encerrando-o em constrições muito precisas, como a necessidade de a vontade de poder enunciar o que é o fundamento.-
A redução de Nietzsche à metafísica tradicional parece ignorar os textos que rejeitam a centralização e a “ficção da essência”, e a concepção do Além-do-homem como protótipo de uma humanidade conforme à essência fundamental da técnica parece difícil de conciliar com os textos que o apresentam como um ser gentil e apartado do poder político.
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A violenta distorção da obra de Nietzsche por Heidegger permanece enigmática, especialmente a tentativa de fazer do pensador da ficção e do jogo aquele que, aperfeiçoando a própria sistematicidade hegeliana, antecipa o mundo dos robôs e dos computadores.
O perigo da técnica consiste na convergência da história no Uno, na medida em que a técnica governa o ser de todos os entes, reunindo em si todo o real, todo o possível e todo o verdadeiro, e ameaça a relação do homem com o ser, pois o enquadramento tende a se impor como o modo de desvelamento presumidamente único.-
O homem tem a vocação de “vigiar sobre a essência da verdade”, mas a fixação da verdade no enquadramento e do pensamento como pensamento calculador exilaria o homem de sua essência, e um ser humano totalmente adaptado ao mundo técnico já não seria humano, pois o ser já não seria para ele digno de questionamento.
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A ameaça do perigo não é a morte que seguiria a uma explosão nuclear, mas a possibilidade do que Heidegger chama de “morte da essência humana”, quando todo modo de pensamento que não seja o pensamento calculador for expulso pela vontade de vontade.
O perigo, como a errância, é uma dupla perda, o esquecimento do esquecimento, pois a dissimulação ou o retraimento do ser se torna imperceptível e inacessível, e a ausência de sofrimento e de angústia é apenas um sinal do agravamento do esquecimento, indicando o afastamento da diferença ontológica.-
A salvação, que estaria ligada ao poder salvífico, seria a possibilidade de o ser aparecer novamente em sua dimensão intacta, de modo que o retraimento pudesse ser percebido como tal, o que é impedido na história presente.
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Ver a ausência de salvação como tal significa experimentar a errância como tal, e essa insistência no olhar parece situar a salvação no lado da lucidez teórica, mas a essência não pode ser dominada pelo olhar, pois ela não é posta por ele.
A salvação não está na ação humana empírica, pois a ação depende do possível, e o possível depende do ser, e o pensamento que descobre a essência não é o que conduz à salvação, mas a salvação só pode vir do próprio ser, ou seja, da técnica, não como fenômeno, mas como essência.-
Ao pensar a técnica para além de suas aparências, pode-se ver novamente a diferença do ser e dos entes e a pertença do homem ao ser, e a técnica não é o que salva porque se transforma milagrosamente, mas o fato de que, através dela, o homem é apropriado ao ser.
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O homem não se salva pela contemplação, mas recebe a salvação quando, no extremo desamparo, é tocado pelo ser, e a salvação no fundo do abismo está ligada ao que Heidegger chama de Ereignis, o evento de apropriação que escapa à história da metafísica e abre uma dimensão não histórica.
O pensamento do Ereignis não é um misticismo, mas leva o princípio da fenomenologia heideggeriana à sua conclusão, pois só se pode “tornar visível” o que se mostra “a partir de si mesmo” se, por si mesmo, isso se volta para nós, nos olha, e o olhar fenomenológico não é o doador de sentido, mas recebe todo o sentido da clareira do ser.-
O primeiro olhar não é o olhar pelo qual inspecionamos os entes, mas o clarão ou “relâmpago” do Ereignis que rasga a noite do mundo tecnológico, e a essência não é o que apreendemos, mas o que nos apreende, e nós somos os “olhados” no olhar.
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A técnica, ela mesma, é “ainda olhar”, e a fenomenologia, ao investigar as condições de uma possível arte de viver, abandona a neutralidade para enfrentar a ameaça radical da tecnicização do mundo e da instrumentalização do pensamento.
O questionamento do Heidegger tardio torna-se mais explicitamente ético ao indagar como viver com a técnica, sendo necessário evitar toda atitude evasiva que consista em condená-la como “obra do diabo” ou em refugiar-se em uma torre de marfim.-
É preciso usar os aparelhos e as máquinas, mas manter sempre distância deles, nunca esquecer de ter consideração por eles, permanecendo sempre aberto ao seu “segredo”, ou seja, à essência oculta da técnica.
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A serenidade para com as coisas, que significa deixar os objetos da técnica serem para que possam ser recebidos em sua própria essência, mostra que a ontologia é indissociável de uma ética situada para além de toda moral normativa.
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A ética de Heidegger não consiste em preservar unilateralmente o ser dessa “morada” que a técnica tende a destruir, mas em que os humanos possam viver com uma “força igual” uma vida e um pensamento duplos, inclinados tanto para o universo tecnologicamente arranjado quanto para o mundo pensado como a casa de uma morada mais original.
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