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Ser e Terra
HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985 / The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993.
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A compreensão habitual da existência humana como dependente de uma natureza orgânica e animal, baseada em evidências intuitivas e confirmada pela tradição metafísica que vê o homem como um animal dotado de razão, é abalada pela descrição heideggeriana do ser-no-mundo, que recusa qualquer fundamento natural objetivo e exterior à estrutura do mundo.
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A fenomenologia, ao mostrar o primado da percepção sobre outros atos de consciência, apenas retomou e consolidou a evidência metafísica ordinária de que o homem é uma extensão da natureza animal.
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O ser-no-mundo heideggeriano não admite um fundamento natural como algo objetivo e existente em si, pois tudo o que se pode dizer ou experimentar sobre fenômenos naturais está necessariamente situado dentro do mundo, entendido como horizonte de compreensão prática e não como totalidade ôntica.
A posição de Heidegger, embora forte por afirmar que todo sentido e todo ser, inclusive os impulsos naturais, devem se inscrever no horizonte de um mundo, encontra um limite na questão de saber se a essência e a origem dessa natureza podem ser situadas “no mundo”.-
Apesar de todo ser da natureza encontrado pelo homem ser intramundano, a intramundanidade não pertence ao ser da natureza, deixando um resíduo inacessível, assim como o fenômeno kantiano deixa a coisa em si.
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O Heidegger inicial reduz a natureza a uma variedade de ser equi-mental, como a floresta como depósito de madeira, recusando a reivindicação de uma vida autônoma dos seres naturais como um primado do ser subsistente em si.
A partir da virada dos anos 1930, surge um novo pensamento sobre a natureza elementar sob os nomes de “Física” e “Terra”, que se aproxima do próprio ser, sendo discutido extensamente nos cursos sobre Hölderlin, Heráclito e Parmênides.-
A identidade entre física e aletheia, entre o surgimento nativo das coisas e seu desvelamento, é afirmada em vários textos, nos quais a física é apresentada como o próprio ser, o surgimento inaugural de tudo o que é presente.
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Essa natureza, afastada das determinações metafísicas de substancialidade e força interna, é identificada com o próprio mostrar-se da verdade, na medida em que se mostra precisamente ao se esquivar e ao se manter resguardada.
A questão sobre a distinção entre a espontaneidade da natureza e a espontaneidade dos fenômenos em geral permanece, pois, se há identidade entre física e ser, também deve haver diferença, e a relação de subordinação entre ser como aletheia e física ou Terra não é uma relação de derivação.-
A Terra não é a aparência do ser nem o nome de seu recolhimento, e seu poder próprio e autônomo permaneceria impensado, levantando a questão sobre o que distingue o “por si mesmo” da natureza da aparente espontaneidade dos fenômenos em geral.
Para o Heidegger de Ser e Tempo, não há raízes terrestres que sustentem a presença humana no mundo, e a natureza, especialmente a elucidada pela fisiologia, não ajuda a compreender algo fundamental sobre a presença no mundo, sendo o abismo que separa o homem da animalidade talvez mais profundo do que o que o separa do divino.-
A compreensão da animalidade é radicalmente limitada ao horizonte aberto pela compreensão do mundo humano, sendo o “mundo animal” um mundo mais pobre e menos aberto.
A equivalência proposta entre física e aletheia torna-se enigmática, pois a estrutura comum de desvelamento e recolhimento não esclarece a especificidade dos seres ou das manifestações da ordem natural, e seria implausível supor que a natureza é completamente histórica.-
O surgimento puramente “físico” parece exigir uma força, uma espontaneidade particular de produção repetitiva, cíclica e rítmica, e uma opacidade e massa que devem ser chamadas de materiais, reconhecendo na física um elemento irredutível a toda historicidade.
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Atribuir à natureza o status de “material dotado de força” reintroduziria uma metafísica do fundamento natural, o que não é o intuito do conceito heideggeriano de física ou Terra, que não rompe com o esforço fenomenológico anti-romântico de estabelecer a irredutibilidade do Dasein ao orgânico.
A questão sobre como falar da Terra, se é impossível falar fora do ser, leva a uma “razão bastarda” que faz o fundamento noturno e não manifesto do mundo manifestar-se na claridade da verdade, pois a Terra é o que retorna e se fecha em si mesma, sendo seu segredo inexpugnável.-
A Terra não é a substancialização da dimensão de recolhimento do ser, mas a aparição concreta da física na medida em que ela se retira, e a esfera do mundo pode ser misturada com a Terra por meio de um “conflito” onde nenhum é vencedor ou vencido.
A redescoberta da Terra significa uma reintegração do “sensível” e do corpo na meditação de Heidegger, aparecendo em interpretações da mão, visão e audição como pertencentes a uma dimensão “terrestre”, que se distingue do espaço fenomenológico do “corpo próprio” e do sensível platônico por depender de uma sintonia afetiva que sempre o envolve.-
A dimensão terrestre, para ser revelada e ter sentido, depende de uma disposição afetiva que remete a um já-aí, a um passado nunca presente que tem a ver com o que a tradição chama de natureza, mas que também participa da transcendência e da possibilidade de projeção para além do espaço onde o Dasein se encontra de fato.
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