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Arte
HAAR, Michel. Le Chant de la Terre. Heidegger et les assises de l’histoire de l’être. Paris: Herne, 1985 / The song of the earth : Heidegger and the grounds of the history of being. Tr. Reginald Lilly. Bloomington: Indiana University Press, 1993.
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A interpretação heideggeriana da arte, que promove uma transmutação radical da estética, define a obra de arte como a iluminação de uma “Terra” por meio de uma configuração que é o traço de um conflito entre um mundo, dimensão histórica, e uma Terra, solo pré-histórico.
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A Terra, na obra de arte, possui dois sentidos principais: o solo natal de um povo, onde as possibilidades realizadas na arte se enraízam, e o material tradicional (pedra, madeira, cor, som, linguagem) que, embora relativo a um reservatório natural, não se reduz a ele.
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O conflito entre mundo e Terra, expresso no “traço” da obra, une a historicidade do mundo e a historicidade da Terra, e é a partir desse conflito que a arte funda a história, revelando as possibilidades de um povo e dando raiz a um mundo ao seu redor.
A reflexão heideggeriana sobre a arte recusa a estética subjetivista, que se baseia no prazer do sujeito, para se concentrar na obra como “verdade se pondo em obra”, na qual o artista não é a origem absoluta, mas aquele que desenha a partir da reserva do ser que se lhe abre.-
O artista, como criador, extrai do conflito original entre a clareira da verdade e seu retraimento, e a obra de arte, ao surgir, não é uma ficção, mas uma verdade que se impõe como sendo anterior a ela, distinguindo-se do utensílio por apontar a verdade como tal.
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O traço da obra de arte, a configuração visível ou audível, é obscurecidamente prefigurado no traçado que une a Terra e o mundo, e a verdade se condensa e se pré-desvela nesse traçado, que é o projeto poético da verdade.
A Terra, para se tornar fenômeno, deve submeter-se à lei do aparecimento e entrar na clareira do ser, mas conserva sua própria essência como dimensão que, em si mesma, se rebela contra a fenomenalidade, sendo pensável como a possibilidade pré-histórica ou não histórica.-
A clareira do ser, ao des-densificar, torna possível a configuração visível e sensível da densidade latente da poesia, mas a obscuridade insondável da Terra, que a linguagem chama de “densidade”, refere-se a uma obscuridade que reside mesmo fora do jogo de luz e sombra que ocorre na clareira.
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A Terra é um fundamento que suportará a iluminação do projeto poético, um solo onde nenhuma possibilidade definida é prescrita, mas onde as possibilidades reveladas já estão inscritas como em seu próprio solo, numa anterioridade enigmática.
O projeto poético, ao se fundar implicitamente no solo terrestre, funda expressamente a Terra como seu fundamento, mas a essência desse fundamento, como possibilidade de outra ordem, não é um fundamento racional ou irracional, nem uma condição empírica, mas o terreno elementar onde tudo o que brilha na história encontra nutrição.-
A Terra, como fundamento que escapa à história do ser, pode permitir o advento de uma nova série de épocas que seria uma ruptura completa com a mera continuação da história ocidental, mas essa possibilidade permanece impensável, pois implicaria um colapso da época tecnológica planetária.
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O elo entre a receptividade da Terra e a superação da técnica é postulado, mas não elucidado, e a Terra permanece resguardada na lei inaparente do possível, que é ela mesma, sendo que apenas a união do pensamento e da poesia pode ensinar algo sobre sua essência.
A ontologia da arte estava ausente em Ser e Tempo, onde a arte era apenas uma diversão inautêntica, mas em Problemas Fundamentais da Fenomenologia, a descrição poética de Rilke sobre o muro de uma casa demolida é tomada como um documento do ser-no-mundo que torna visível o mundo como tal.-
A poesia é definida como o vir-à-palavra elementar da existência, que faz ver as coisas mesmas, mas o poeta, embora compreenda profundamente o mundo original, permanece com uma intuição natural e ingênua, sem um critério para distinguir o autêntico do inautêntico.
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A hesitação de Heidegger em relação ao alcance ontológico da revelação poética ecoa a crítica platônica ao poeta, que é incapaz de dar conta do que mostra, sendo sua intuição verdadeira, mas cega, uma intuição sem conceito.
Durante o período da virada, a proximidade de Heidegger com Nietzsche é mais profunda do que uma simples afinidade, e a interpretação da arte em Introdução à Metafísica envolve a arte como domínio e contenção de poderes, num combate pelo desvelamento do ser.-
O esquecimento do ser e da profundidade abismal de seu retraimento parece incluir o esquecimento do poder, e a arte é compreendida a partir da experiência grega da técnica, como contenção das potências graças às quais os entes se desvelam.
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O combate pelo desvelamento do ser é interpretado como um ato de poder humano, no qual o artista, ao arriscar dominar o ser, deve aceitar o influxo do não-ser, e o desvelamento do ser é uma conquista que se dá na forma de um antagonismo constante.
Apesar da proximidade com Nietzsche, Heidegger nunca adere à ideia de que o artista e seu estado criativo subjetivo são a origem da arte, e a relação conflituosa e unitária entre Terra e mundo na obra de arte constitui uma resposta e uma explicação para a relação entre o Dionisíaco e o Apolíneo.-
A analogia entre Terra e Dionisíaco reside no fato de que ambas são potências adversas e complementares, engajadas numa luta implacável que deve se fundir para dar origem à obra, e o conflito permanece latente e invisível na obra, que é um terceiro termo.
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A diferença fundamental entre as duas interpretações da arte está na ancoragem da obra de arte no próprio desdobramento da verdade, onde a abertura do ser rege e ilumina tanto o mundo quanto a Terra, e seu conflito é precedido pelo conflito original da clareira.
A Terra do poema é a própria linguagem, que não pode ser reduzida a um instrumento de expressão, mas é o que faz os entes como entes virem à clareira, e a poesia, ao recuperar a Terra da linguagem, não se reduz à materialidade da palavra, mas faz sensível o poder de nomeação da fala.-
A poesia é a linguagem primordial de um povo, e o poeta só pode falar na esteira da linguagem, respondendo ao que a linguagem já trouxe silenciosamente para o aberto, e o poema primordial é o recolhimento da linguagem que diz o ser das coisas.
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A Terra da linguagem é, primeiro, a corporeidade da linguagem, que inclui a materialidade da voz, sua sonoridade e ressonância, e a visibilidade dos caracteres escritos, e Heidegger se distancia da filosofia tradicional da linguagem ao não propor o primado da voz sobre a escrita.
A ressonância da voz, como corporeidade da linguagem, é reconduzida à Terra compreendida como poder de surgimento autônomo e como corrente e crescimento não históricos, e a voz harmoniza o “físico” e o “espiritual”, o mundo e a Terra, dando a cada palavra sua entonação.-
A poesia, ao fazer aparecer a diferença entre o aparente e o não aparente, não cria um mundo fictício, mas faz a linguagem retornar ao seu poder de chamamento, e o poeta ouve a linguagem e repete sua fala, numa posição exatamente oposta à de Mallarmé, para quem a palavra poética é uma ficção.
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O ato do poeta que “escuta a linguagem” não é mágico, mas místico, na medida em que ele se desapossa de si mesmo para que uma fala fale através dele, e o canto da poesia reside na experiência da plenitude corporal da linguagem e no reconhecimento de seu poder radical de manifestação.
A poesia funda a história e mede a morada do homem em face do divino, sendo através dela que os homens são humanos, e o poeta, ao celebrar o “grande destino” do Ocidente, canta a necessidade, que lhe parece quase estrangeira, de seu próprio canto.-
O poeta responde ao sentido esboçado pelas palavras, um sentido que reside na própria Terra, na sonoridade das palavras, e que é igualmente um esboço de uma disposição, de uma atmosfera, pois o canto poético não é tanto uma “música”, mas uma sintonia.
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O canto do poeta, que não é uma expressão lírica de um destino particular, celebra a necessidade de seu próprio canto, e a poesia, ao se voltar para o poder de nomeação da linguagem, torna manifesto o fundamento que a linguagem é, um fundamento anterior à história.
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