Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:grondin:temporalidade-zeitlichkeit-1987
TEMPORALIDADE [ZEITLICHKEIT] (1987:55-60)
GRONDIN, J. Le Tournant dans la pensée de Martin Heidegger. Paris: PUF, 1987
[…] o que impulsiona a preocupação [Sorge]? Como o Dasein é caracterizado como o ser para o qual esse mesmo ser está em jogo em seu ser, a resposta é óbvia: o sentido da preocupação não pode ser outro senão o ser do Dasein, uma concepção que devemos especificar agora. A preocupação é, mais precisamente, sobre o poder-ser (Seinkönnen) do Dasein. Quando o homem lida com o ser em geral, é sempre o seu poder-ser que está em questão. O ser do Dasein é um ser de tensão. Em outras palavras, o futuro constitui o ser do Dasein. O sentido da preocupação reside no futuro e, consequentemente, como veremos, no tempo.
-
A compreensão da estrutura tensional do Dasein exige a tematização deste ente a partir do futuro enquanto possibilidade existencial, recusando-se a definição do porvir como um instante pendente de realização na cronologia.
-
Oposição à ontologia da simples presença ou Vorhandenheit.
-
Crítica à redução do futuro a um presente que ainda não é.
-
Inadequação da objetivação do poder-ser em um momento vindouro.
A descoberta de uma concepção originária do tempo fundamentada na facticidade do Dasein opera uma mudança de paradigma em relação à ontologia clássica ao deslocar o peso ontológico do presente para o futuro.-
Superação das escolhas ontocronológicas não refletidas da metafísica.
-
Caracterização clássica do futuro como presente sem realidade e do passado como presente que a perdeu.
O privilégio concedido ao futuro não implica a negligência das demais dimensões temporais, rejeitando-se a hierarquização piramidal e a oposição entre momentos características da ontologia da substância.-
Crítica ao caráter mensurável do tempo objetivo como deturpação do tempo originário.
-
Precedência da disposição da existência pelo tempo sobre a tentativa humana de assegurar sua disponibilidade.
A simultaneidade essencial das dimensões temporais revela que o Dasein vive seu passado como um ter-sido ou Gewesenheit que condiciona constitutivamente seu poder-ser e exige a apropriação da facticidade de seu arremesso.-
Substituição do termo passado por ter-sido para indicar a atualidade do ter-sido-projetado.
-
Recusa da concepção do passado como algo situado atrás ou fora do sujeito.
-
Possibilidade de assunção do passado pela memória explícita ou seu esquecimento na inautenticidade.
-
Vínculo entre o esquecimento existencial e o esquecimento do ser na história da metafísica.
O horizonte da presença constitui-se como o ponto de encontro repleto de sentido entre o projeto passado e a projeção do poder-ser, onde o instante surge impregnado pelo cuidado e não como um agora fugaz entre dois não-seres.-
Etimologia alemã de Gegenwart como aquilo que aguarda adiante.
-
Contraste com a forma vazia do tempo em Aristóteles e Immanuel Kant.
-
Influência da experiência do tempo dos primeiros cristãos na concepção do jovem Martin Heidegger.
-
Manifestação do tempo como apelo de um kairos e não como chronos anônimo.
O fenômeno unitário da temporalidade ou Zeitlichkeit define-se pela interligação originária onde o ter-sido nasce do futuro e libera a partir de si o presente.-
Caráter indissociável das três dimensões temporais.
A unidade da trindade temporal reside no processo de autotemporalização, cuja descrição exige uma terminologia elusiva para evitar a reificação do tempo como um ente simplesmente dado e afirmar sua condição como clareira do ser.-
Recusa em tratar a temporalidade como objeto da ontologia da substância.
-
Paralelo com a prudência aplicada por Martin Heidegger à exposição de Immanuel Kant sobre os limites da clareza.
-
Necessidade de ilustração fenomenológica para responder à questão do sentido do ser.
A redefinição heideggeriana da compreensão desloca o foco do processo cognitivo intelectual para uma competência existencial prática de saber-fazer e autoorientação, apropriada posteriormente por Hans-Georg Gadamer para desafiar a metodologia tradicional das ciências humanas.-
Análise da locução alemã que vincula o entender ao ser capaz de realizar algo.
-
Exemplificação com habilidades práticas de cozinheiros ou professores em contraste com a teoria.
-
Caráter reflexivo que implica o autoentendimento em todo ato de compreender.
-
Definição de interpretação ou Auslegung como desdobramento das possibilidades da existência.
-
Crítica à tradição epistemológica de Wilhelm Dilthey.
-
Fusão entre compreender e aplicar significado à situação específica.
A fundamentação da compreensão prática em Hans-Georg Gadamer recorre ao conceito aristotélico de phronesis para sustentar que a sabedoria reside na atualização concreta do bem na ação e envolve necessariamente o autoconhecimento do agente.-
Polêmica de Aristóteles contra a ideia abstrata do bem em Platão.
-
Distinção entre a aplicação situacional e o relativismo ético.
-
Valorização da proximidade e atenção do sujeito como modo de conhecimento.
-
Pertinência do conhecimento interessado para as ciências humanas e sociais.
-
Manutenção da reflexividade heideggeriana fora da hermenêutica da existência preocupada.
estudos/grondin/temporalidade-zeitlichkeit-1987.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
