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estudos:greisch:ot:31

§31 Afetação – compreensão

GREISCH, Jean. Ontologie et temporalité. Esquisse d’une interprétation intégrale de Sein und Zeit. Paris: PUF, 1994:§31

1. A segunda estrutura existencial que caracteriza o modo de ser-no-mundo do Dasein é o compreender (Verstehen), mantendo-se o princípio da co-originariedade entre as estruturas existenciais, de modo que a passagem da afetação ao compreender não equivale a uma transição das trevas para a luz, pois a afetação já comporta uma forma de compreensão e, reciprocamente, todo compreender é afetado (SZ 142).

2. Descarta-se de início o uso epistemológico do termo compreender, ilustrado pela célebre dicotomia diltheyana entre Erklären (explicar) e Verstehen (compreender), uma vez que o interesse não reside em confrontar modos de conhecer próprios das ciências naturais e das ciências do espírito, mas em verificar se um compreender primário, ou elementar, intervém na própria constituição do Dasein.

3. A resposta a essa questão será afirmativa, o que se justifica pela ideia, já sugerida desde o início, de que ser-aí significa compreender, na medida em que o Dasein é o ente para quem, enquanto ser-no-mundo, está em jogo o próprio ser, tese reforçada pelas noções conjuntas de abertura (Erschlossenheit) e significância (Bedeutsamkeit), e antecipada pelo próprio Dilthey, que em Der Aufbau já falava de um compreender elementar presente no agir mais cotidiano.

4. O compreender elementar é caracterizado inicialmente no registro ôntico, tal como a afetação fora caracterizada pelo fenômeno da Stimmung, de modo que a expressão compreender, em sentido bem elementar, designa algo como estar à altura de uma situação, poder enfrentá-la, dominá-la, o que corresponde a uma competência, um poder-fazer ou saber-fazer que pode até assumir, conforme as circunstâncias, o rosto da astúcia, da destreza ou da desenvoltura.

5. Essas qualificações ônticas fornecem apenas uma ideia aproximada da noção, cujo sentido estratégico consiste em arrancá-la do domínio indevido da epistemologia e da teoria do conhecimento, sendo necessário, em seguida, qualificar ontologicamente os modos de ser correspondentes, que dizem respeito a um poder-ser (Seinkönnen), a um ser-possível (Möglichsein, SZ 143) e, nesse sentido, a possibilidades existenciais.

  • o modo de ser em questão concerne a um poder-ser (Seinkönnen) e ao ser-possível (Möglichsein), remetendo a possibilidades existenciais (SZ 143)

6. Alcança-se aqui um ponto decisivo da exploração ontológica: o compreender introduz na ontologia a dimensão do possível, sem que isso configure uma ontologia modal como a de Nicolai Hartmann, pois Heidegger recusa a noção tradicional de possível opôsta à categoria do necessário, na qual, presa ao quadro do subsistente (Vorhandenheit), a possibilidade é pensada como um irreal ainda não realizado e ontologicamente inferior à efetividade e à necessidade (SZ 143).

7. Tomada em sentido existencial, a possibilidade constitui a determinação ontológica positiva mais originária e última do Dasein (SZ 144), superando-se assim a célebre oposição, formulada por Robert Musil na abertura de O homem sem qualidades, entre o sentido da realidade e o sentido do possível, uma vez que o Dasein não pode se compreender senão em termos de possibilidades.

8. A comparação estabelecida por Musil entre dois tipos de homem é existencialmente inadequada, pois enquanto o romancista descreve tipos e perfis psicológicos, cabe ao pensador caracterizar uma estrutura existencial válida para qualquer homem, definido por sua orientação constante para possíveis, sem que isso o converta em funâmbulo metafísico subtraído a toda restrição factual, permanecendo válida a facticidade e o ser-jogado próprio da afetação.

  • o Dasein frequentemente se encontra empenhado (hineingeraten) em possibilidades não escolhidas, à maneira de um cão em um jogo de boliche
  • “o Dasein é um ser-possível entregue a si mesmo, uma possibilidade de parte a parte jogada. O Dasein é a possibilidade do ser-livre para o poder-ser mais próprio” (SZ 144)

9. O compreender existencial constitui o saber dessas possibilidades, saber que não resulta de uma autopercepção imanente, pois nem a introspecção mais aprofundada revelaria o que já se sabe no cumprimento cotidiano da vida, definindo-se tecnicamente: “o compreender é o ser existencial do poder-ser próprio do Dasein mesmo, de tal modo que esse ser abre em si mesmo onde ele está consigo mesmo” (SZ 144).

10. Atribui-se ao compreender uma estrutura projetiva, na medida em que consiste em uma incessante exploração de possibilidades, sendo o projeto (Entwurf) a noção complementar do ser-jogado próprio da afetação, configurando-se a sequência:

11. O projeto constitui a constituição existencial de ser da margem de jogo do poder-ser factual (SZ 145), de modo que compreender é descobrir que toda facticidade comporta uma margem de jogo mínima, não sendo o real um fatum implacável, ainda que essa margem de manobra possa ser, em certos casos, extremamente estreita, sem que o Dasein deva por isso ser imaginado como planejador de sua vida, pois na vida os planos quinquenais fracassam quase tão seguramente quanto na economia planificada.

12. O Dasein só existe projetando-se para possíveis, sem ter necessariamente consciência clara e distinta daquilo para o qual se projeta, de modo que, contrariamente à ideia de uma intencionalidade sinônima de tematização, a tematização amputa justamente o projetado de seu caráter de possível, definindo-se: “o compreender é, enquanto projetar, o modo de ser do Dasein no qual ele é suas possibilidades como possibilidades” (SZ 145).

13. A definição do possível não como categoria lógica, mas como modo de ser, coloca-se em pleno paradoxo, expresso à sua maneira pela última estrofe do poema Cello-Einsatz de Paul Celan, no volume Atemwende:

  • “tudo é menos do que / é, / tudo é mais”

14. Essa estrofe pode ser aproximada de uma declaração precisa de Heidegger no § 31, segundo a qual, se existir significa factualidade (Tatsächlichkeit) no sentido do simples ter-lugar, a compreensão, enquanto sentido do possível, sempre nos conduziu para além dela, sem que isso deixe para trás a própria facticidade.

  • “o Dasein é constantemente 'mais' do que ele é factualmente… Em compensação, ele nunca é 'mais' do que ele é facticamente, porque o poder-ser pertence essencialmente à sua facticidade. Mas o Dasein, enquanto ser-possível, tampouco nunca é 'menos', se é verdade que ele é existencialmente aquilo que ainda não é em seu poder-ser” (SZ 145)
  • torna-se assim compreensível por que tornar-se si mesmo pode ser apreendido como uma tarefa que incumbe ao Dasein

15. Descrita a estrutura fundamental do compreender, cabe precisá-la examinando seus modos de realização, fundamentalmente dois — autenticidade e inautenticidade, já introduzidos no § 9 —, o primeiro ancorado no si-mesmo e o segundo no mundo, acrescentando-se ainda que, em ambas as vertentes, a compreensão pode ser verídica ou falaciosa.

16. Vezin traduz echt/unecht de modo demasiado fraco por “verdadeiro” ou “não”, quando poderia, como fez Martineau, traduzir por “autêntico” e “inautêntico”, o que corresponde melhor ao sentido habitual dos termos em alemão.

17. É difícil responder ao que correspondem essas duas modalidades em cada um dos registros, uma vez que nenhum exemplo é fornecido, permanecendo essa uma questão a ser retomada posteriormente.

18. O restante do parágrafo é dominado pela questão de saber se o compreender equivale a um ver e a que tipo de ver ele corresponde, retomando-se a tese, já estabelecida desde a definição do trato cotidiano com o mundo, de que o Dasein não é opaco nem cego e de que a facticidade não é sinônimo de opacidade.

  • o trato cotidiano com o mundo foi definido em termos de circunspecção (Umsicht), que assume rostos diferentes conforme se volte para o outro (Rücksicht) ou para o ser como tal (Sicht) (SZ § 14)
  • essas expressões autorizam falar de uma certa transparência (Durchsichtigkeit, traduzida por Martineau como translucidez), que é o que se tem em vista ao falar de conhecimento de si

19. Questiona-se se isso corresponde ao triunfo do sentido visual, tão importante em muitas teorias tradicionais do conhecimento, censurando-se às filosofias tradicionais a supervalorização excessiva do papel da visão no ato de conhecer, o que reduz o homem a um simples espectador e o ser a um espetáculo oferecido ao olhar, ainda que se trate do olhar espiritual da contemplação no sentido do theorein grego.

  • outra forma de expressar esse primado do visual é o termo intuição (Anschauung), que levou certos pensadores a enraizar o discurso ontológico em uma intuição do ser
  • essa não é a via seguida por Heidegger: entre a intuição ontológica e a compreensão do ser (Seinsverständnis) é preciso escolher

20. Na perspectiva heideggeriana, o termo vista não exprime nada além do que já contém o termo abertura (Erschlossenheit), comportando a abertura sua própria luz, ou antes sua clareira (Gelichtetheit, SZ 147), introduzindo-se aqui pela primeira vez o léxico da Lichtung, que desempenhará papel considerável no pensamento ontológico posterior de Heidegger.

21. Do ponto de vista ontológico, a análise existencial do compreender faz avançar um passo decisivo, pois, tendo a exposição da questão do sentido do ser introduzido de modo dogmático a noção de compreensão ontológica — implicando a recusa de que o ser seja um conceito, sem no entanto refutar quem daí concluísse que ele deveria ser objeto de uma intuição —, a noção de compreensão do ser encontra agora uma primeira justificação.

  • “no projetar-se para possibilidades, a compreensão do ser já está antecipada. O ser é compreendido no projeto, não concebido ontologicamente” (SZ 147)

22. Uma última observação afasta um mal-entendido relativo à noção de transparência: partindo-se da descoberta de um mundo familiar que nos circunda, o compreender não garante que o mundo ambiente se torne mais tranquilizador ou mais controlável, mas antes, enquanto mundo repleto de possíveis, mais enigmático, sendo precisamente esse caráter enigmático da existência e do próprio ser que suscita o trabalho da compreensão.

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