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Memória

KOCH, Sabine C.; FUCHS, Thomas (ORGS.). Body memory, metaphor and movement. Amsterdam ; Philadelphia: John Benjamins Pub, 2012.

A fenomenologia da memória corporal

1. A memória não compreende apenas as recordações explícitas do passado, mas também as disposições, habilidades e hábitos adquiridos que influenciam implicitamente a experiência e o comportamento presentes, e essa memória implícita se baseia na estrutura habitual do corpo vivido, que nos conecta ao mundo por sua intencionalidade operativa, aparecendo em formas diversas classificadas como memória procedural, situacional, intercorporal, incorporativa, de dor e traumática.

2. A plasticidade vitalícia da memória corporal nos permite adaptar-nos ao ambiente natural e social, sobretudo nos entrincheirarmos e nos sentirmos em casa no espaço social e cultural, enquanto por outro lado as estruturas acumuladas na memória corporal são base essencial de nossa experiência de si e de identidade, pois a história individual e a peculiaridade de uma pessoa também se expressam por seus hábitos e comportamentos corporais.

3. Finalmente, sensações ou situações experienciadas pelo corpo vivido podem funcionar como núcleos implícitos de memória que, em circunstâncias adequadas, podem liberar seu conteúdo encerrado, como na famosa experiência da madeleine de Proust, e esse desdobramento ou explicitação da memória corporal é de particular importância para abordagens terapêuticas que trabalham com a experiência corporal.

4. Costuma-se entender a memória como a capacidade de lembrar certos eventos de nosso passado ou de reter e recuperar dados e conhecimentos, mas os fenômenos da memória de modo algum se restringem à recordação explícita, pois como já notava Descartes o tocador de alaúde também precisa ter uma memória nas mãos para tocar uma melodia com tal habilidade, e certamente se perderia se tentasse lembrar os movimentos singulares que um dia aprendeu deliberadamente.

5. Obviamente há uma memória do corpo apartada da recordação consciente, pois pela repetição e exercício se desenvolve um hábito, e padrões de movimento e percepção bem treinados se incorporam como habilidades ou capacidades que aplicamos na vida cotidiana como coisa natural, a marcha ereta, as habilidades de falar, ler ou escrever e o manuseio de instrumentos como a bicicleta, o teclado ou o piano.

6. Se, seguindo Merleau-Ponty, considerarmos o corpo não como o corpo físico visível, tocável e móvel, mas primordialmente como nossa capacidade de ver, tocar, mover etc., então a memória corporal designa a totalidade dessas capacidades, hábitos e disposições corporais tais como se desenvolveram no curso da vida de alguém.

7. Nos séculos XIX e XX os filósofos franceses Maine de Biran, Félix Ravaisson e Henri Bergson reconheceram e estudaram as capacidades habituais do corpo como um tipo independente de memória, e por exemplo a distinção de Bergson entre souvenir-image e mémoire habitude se refere a um tipo de memória voluntário e representativo, por um lado, e a um tipo involuntário e principalmente encenado, por outro.

8. Esse último tipo, a consciência de um passado de esforços armazenado no presente, é certamente também uma memória, mas uma memória fundamentalmente diferente da primeira, sempre voltada para a ação, baseada no presente e olhando apenas para o futuro, pois de fato não representa nosso passado mas o encena.

9. De modo semelhante, Merleau-Ponty, em sua Fenomenologia da percepção, descreveu o corpo habitual como a base de nosso ser-para-o-mundo, pois o corpo se estabelece em cada situação e nos ata ao mundo pelos fios invisíveis de sua peculiar intencionalidade operativa, fios que já se formaram em nossos primeiros contatos com o mundo.

10. Merleau-Ponty desenvolveu sua abordagem da memória corporal particularmente ao considerar o papel da intencionalidade operativa na formação de habitualidades, e ao considerar os casos de uma datilógrafa e de um organista enfatiza o tipo peculiar de conhecimento que lhes permite datilografar e tocar.

11. Enquanto primeiro têm de acostumar seus corpos ao instrumento pelo uso consciente das teclas, tanto a datilógrafa quanto o instrumentista finalmente realizam suas tarefas espontaneamente, sem recordar explicitamente a série de movimentos que têm de executar, e seu conhecimento, como diz Merleau-Ponty, está nas mãos, não nas mãos anatômicas é claro, mas em seu corpo vivido, e advém por meio de um esforço corporal e não pode ser objetivamente designado.

12. Merleau-Ponty afirma que o hábito expressa nosso poder de dilatar nosso ser-no-mundo ou de mudar nossa existência apropriando-nos de novos instrumentos, e perguntando o que é o hábito se não é forma de conhecimento nem ação involuntária, responde que é conhecimento nas mãos, que só surge quando se faz esforço corporal e não pode ser formulado separado desse esforço.

13. Esse tipo de memória foi descoberto e explorado pela psicologia cognitiva como memória implícita nas últimas três décadas, e pesquisas com pacientes amnésicos que ainda podem aprender tarefas motoras simples embora sendo incapazes de reter quaisquer novas memórias demonstraram a existência de múltiplos sistemas de memória, distinguindo-se consequentemente a memória explícita ou declarativa da memória implícita ou procedural.

14. A memória explícita contém recordações singulares ou informações que podem ser relatadas e descritas, podendo também ser chamada de saber que, enquanto em contraste situações ou ações repetidas se fundiram na memória implícita, por assim dizer, o que significa que se superpuseram umas às outras e já não podem ser recuperadas como eventos passados singulares, tendo se tornado um saber como tácito e difícil de verbalizar, pois teríamos alguma dificuldade de descrever, por exemplo, como dançar uma valsa.

15. Assim, a recordação explícita se dirige do presente para trás, ao passado, enquanto a memória implícita não representa o passado mas o reencena por meio do desempenho presente do corpo, e o que um dia adquirimos como habilidades, hábitos e experiência se tornou o que podemos fazer hoje, de modo que a memória corporal é nosso passado vivido.

16. Por outro lado, a memória implícita não é mero programa reflexo realizado pela máquina corporal, pois Merleau-Ponty concebeu corretamente o conhecimento corporal como uma terceira dimensão entre o movimento meramente imaginado e a execução motora, e a memória do corpo é uma refutação impressionante do dualismo entre consciência pura e corpo físico, pois não pode ser atribuída a nenhum dos dois.

17. Quando danço, os movimentos rítmicos se originam de meu corpo sem necessidade de conduzi-los deliberadamente, e no entanto vivo em meus movimentos, sinto-os de antemão e posso modulá-los segundo o ritmo que sinto, pois eu mesmo danço e não um fantasma num corpo-máquina, e os movimentos de meu corpo estão à minha disposição, estou consciente de minhas capacidades e assim me sinto à altura de minha tarefa presente como ser corporificado.

18. Em última análise, todas as capacidades adquiridas antes na vida apontam para uma capacidade primordial do sujeito corporificado, para um eu posso básico, e o corpo é assim o conjunto de predisposições e capacidades organicamente desenvolvidas para perceber e agir, mas também para desejar e comunicar.

19. Suas experiências, ancoradas na memória corporal, se espalham e se conectam com o ambiente como uma rede invisível que nos relaciona com coisas e pessoas, sendo o corpo, como escreve Merleau-Ponty, nosso meio permanente de tomar atitudes e assim construir presentes virtuais, isto é, de atualizar nosso passado e com isso nos fazer sentir em casa nas situações, e em sentido mais abrangente a memória corporal possibilita e define a intencionalidade operativa do corpo.

Formas de memória corporal

1. A memória corporal aparece em formas variadas, elaboradas em particular por Casey e Fuchs, e Casey distingue e descreve três tipos, a memória corporal habitual, traumática e erótica, enquanto a abordagem própria do autor inclui seis formas, a memória procedural, situacional, intercorporal, incorporativa, de dor e traumática, que não são estritamente separáveis umas das outras mas derivam de diferentes dimensões da experiência corporal, experiência que é no entanto um ser-para-o-mundo unitário.

1. Memória procedural

1. A memória procedural consiste nas faculdades sensoriomotoras e cinestésicas já mencionadas, que podem ser chamadas procedurais por se realizarem em processos dinâmicos, como sequências padronizadas de movimento, hábitos bem treinados, manuseio habilidoso de instrumentos e familiaridade com padrões de percepção.

2. Sem deliberação, minha mão e meu pé encontram a marcha e o freio do carro, meus dedos pressionam as teclas certas do teclado ou leio as figuras negras na página como escrita, e meu corpo antecipa os objetos em seus lugares, surpreendendo-me quando não os encontra ali, pois é possível saber datilografar sem ser capaz de dizer onde estão as letras que formam as palavras nas filas de teclas.

3. Meus pensamentos se convertem imediatamente em padrões de movimento de meus dedos, e originalmente, ao aprender a datilografar, eu tinha de conectar cada tecla a certo movimento explicitamente, até que pelo exercício repetido se formou em minha memória corporal um padrão temporal unitário ou uma Gestalt temporal do movimento, até que finalmente pude esquecer as teclas singulares, pois já não se sabe como se faz o que se faz.

4. De modo semelhante, ao aprender a ler, a criança conecta as letras singulares às Gestalten ostensivas das palavras, que então reconhece de relance, até que finalmente apreende fluentemente o significado da frase inteira, e através das letras singulares, que agora recuam da consciência explícita, a criança se dirige intencionalmente ao significado das palavras.

5. Como se vê, a memória procedural desonera nossa atenção de uma abundância de detalhes, facilitando assim nossos desempenhos cotidianos, e funciona no pano de fundo sem ser notada, lembrada ou refletida, tornando-se o corpo e os sentidos um meio pelo qual o mundo é acessível e disponível.

6. Somos capazes de dirigir nossa atenção à Gestalt e ao significado do que encontramos, e a ação é facilitada porque podemos visar sua meta em vez de notar cada movimento singular, e a vontade se torna livre já que os meios e componentes corporais do agir recuam para o pano de fundo, bastando uma intenção primária dirigida a metas para liberar o arco completo da ação.

7. Enquanto seus dedos movem as teclas, o pianista é capaz de se dirigir à música mesma, de escutar seu próprio tocar, e assim a liberdade e a arte se baseiam essencialmente na memória tácita do corpo.

8. A memória corporal medeia assim a experiência fundamental de familiaridade e continuidade na sucessão dos eventos, desonerando-nos da necessidade de constantemente nos orientarmos de novo, e a aprendizagem corporal significa esquecer o que aprendemos ou fizemos explicitamente e deixá-lo afundar no saber inconsciente implícito, adquirindo com isso as habilidades e disposições de perceber e agir que compõem nosso modo muito pessoal de ser-no-mundo.

9. Como disse William James, é princípio geral da psicologia que a consciência deserta de todos os processos em que já não pode ser útil, e de modo incisivo poder-se-ia dizer também que o que esquecemos se tornou o que somos.

2. Memória situacional

1. A memória implícita não se confina ao corpo mesmo, mas se estende aos espaços e situações em que nos encontramos, sendo portanto também uma memória espacial que nos ajuda a nos orientarmos no espaço de nossa morada, no bairro, em nossa cidade natal.

2. A experiência corporal está particularmente ligada a interiores que, com o tempo, se impregnam de referências latentes ao passado e de uma atmosfera de familiaridade, e morar e hábito se baseiam ambos na memória do corpo, como mostrou Bachelard em sua Poética do espaço.

3. Bachelard observa que além de nossas memórias a casa em que nascemos está fisicamente inscrita em nós, sendo um grupo de hábitos orgânicos, e depois de vinte anos, apesar de todas as outras escadas anônimas, recapturaríamos os reflexos da primeira escada e não tropeçaríamos naquele degrau bastante alto, e o ser inteiro da casa se abriria fiel ao nosso próprio ser.

4. Empurraríamos a porta que range com o mesmo gesto, encontraríamos o caminho no escuro até o sótão distante, e o tato da menor aldrava permaneceu em nossas mãos, e as casas sucessivas em que vivemos sem dúvida tornaram nossos gestos banais, mas ficamos muito surpresos, ao retornar à velha casa após uma odisseia de muitos anos, de encontrar que os gestos mais delicados, os gestos mais antigos de repente ganham vida, ainda perfeitos.

5. Em suma, a casa em que nascemos gravou em nós a hierarquia das várias funções de habitar, e todas as outras casas são apenas variações sobre um tema fundamental, sendo a palavra hábito gasta demais para expressar essa ligação apaixonada de nossos corpos, que não esquecem, com uma casa inesquecível.

6. Naturalmente as situações são mais que entidades espaciais, pois são unidades holísticas inseparáveis da percepção corporal, sensorial e atmosférica, como um jogo de futebol num estádio estrondoso, um passeio de barco no mar espumante ou uma caminhada noturna pela cidade iluminada.

7. Os diferentes sentidos, visão, audição, tato, paladar e olfato, participam em combinações variadas da percepção situacional e da memória corporal por ela deixada, e sobretudo qualidades intermodais, sinestésicas e expressivas contribuem para o caráter atmosférico das situações, como contornos suaves, ruído crescente, derrota amarga, acolhida calorosa, mar tranquilo ou paisagem montanhosa majestosa.

8. Elas criam a impressão peculiar de uma situação que é armazenada como um todo na memória intermodal do corpo, e estar familiarizado com situações recorrentes é o que chamamos experiência, que se baseia na interação do corpo vivido com o mundo e é um saber prático e não teórico.

9. Pessoas experientes reconhecem imediatamente o que é essencial ou característico de uma situação complexa, desenvolveram um sexto sentido, um sentimento ou intuição para isso, e reconhecem padrões familiares onde outros apenas se irritam ou ficam desamparados, como no futebol o goleador que tem faro para situações perigosas na área penal ou o marinheiro que pressente os menores sinais da tempestade que se forma.

10. Ou tomando um exemplo da medicina, a psiquiatra experiente em seu diagnóstico considera não apenas os sintomas singulares e os dados anamnésicos, mas a impressão inteira que obtém do paciente e de sua situação de vida, e quanto mais cresce sua experiência mais facilmente reconhecerá a doença já no primeiro contato.

11. Tal conhecimento pode não ser completamente expresso em palavras, pois o encontro com um paciente deprimido se caracteriza por certa percepção atmosférica não analisável em elementos singulares, e nenhum manual pode substituir a própria experiência de um diagnóstico e sua coloração peculiar.

12. O saber corporal implícito só pode ser descrito por expressões como como é ou como se sente, por exemplo como é dançar uma valsa, como é conversar com um paciente deprimido, como o barro deve parecer ao ser girado ou como cheirava em casa no Natal, e por isso nem a habilidade de um artesão experiente nem a intuição diagnóstica de um psiquiatra podem ser transmitidas discursivamente ao aprendiz, que tem de experienciá-las em primeira mão, imitando o mestre e assumindo uma atitude corporal semelhante no trato com a situação.

3. Memória intercorporal

1. Entre as situações mais importantes estão naturalmente nossos encontros com outros, e assim que temos contato com outra pessoa nossos corpos interagem e se compreendem, ainda que não possamos dizer exatamente como isso se produz, e Merleau-Ponty chamou essa esfera de compreensão corporal pré-reflexiva de intercorporalidade.

2. Essas interações corporificadas são determinadas em tão grande medida pela experiência anterior que podemos falar de uma memória intercorporal, implicitamente e inconscientemente eficaz em cada encontro.

3. Com o progresso da pesquisa sobre o desenvolvimento podemos agora compreender melhor a história da memória intercorporal, pois essa pesquisa mostrou que o desenvolvimento motor, emocional e social na primeira infância não prossegue em trilhos separados mas se integra pela formação de esquemas afetivo-interativos.

4. Desde o nascimento a memória procedural do bebê incorpora um extrato de experiências repetidas e prototípicas com outros significativos, adquirindo assim padrões diádicos de interação ou esquemas de estar-com, como mamãe-me-alimentando ou papai-brincando-comigo.

5. Resulta daí o que Stern chamou de saber relacional implícito, um saber corporal de como interagir com outros, como se divertir juntos, como eliciar atenção ou como evitar a rejeição, sendo uma memória organizada temporalmente, musical, para o ritmo, a dinâmica e as subtonalidades inaudivelmente presentes nas interações com outros.

6. Essa intercorporalidade precoce tem efeitos de longo alcance, pois as interações precoces se transformam em estilos relacionais implícitos que formam a personalidade, e como resultado de processos de aprendizagem em princípio comparáveis à aquisição de habilidades motoras as pessoas mais tarde moldam e encenam suas relações segundo os padrões adquiridos em suas experiências primárias.

7. Esses estilos relacionais implícitos também se expressam na postura habitual do corpo, e assim a atitude submissa diante de uma figura de autoridade implica componentes de postura e movimento, como tronco curvado, ombros erguidos e movimento inibido, componentes de interação, como distância respeitosa, voz baixa e inclinação a consentir, e de emoção, como respeito, embaraço e humildade.

8. Todas as nossas interações se baseiam em tais disposições corporais, emocionais e comportamentais integradas, que se tornaram segunda natureza como andar ou escrever, e fazem agora parte do que o autor chama de estrutura de personalidade corporificada.

9. A atitude tímida e submissa que encontramos em pessoas dependentes, sua voz suave, expressão facial infantil, indulgência e ansiedade, pertence a um padrão global de expressão e postura que é parte essencial de sua personalidade, e nossas atitudes básicas, reações típicas e padrões relacionais, numa palavra, toda a nossa personalidade se baseia na memória do corpo.

10. Em suma, cada corpo forma um extrato de sua história passada de experiências com outros armazenadas na memória intercorporal, e nas estruturas do corpo vivido os outros estão sempre implicados, sendo visados na expressão e intencionados no desejo, de modo que os padrões típicos de postura, movimento e expressão de uma pessoa só são compreensíveis quando se referem a outros efetivamente presentes ou imaginários.

11. As estruturas de personalidade corporificadas podem ser consideradas campos procedurais de possibilidade que se ativam no encontro com outros e sugerem certos tipos de comportamento, e como diz Merleau-Ponty não preciso procurar os outros em outro lugar, encontro-os em minha experiência, eles habitam as fendas que contêm o que me está oculto mas lhes é visível.

12. A estrutura corporificada da personalidade de alguém é portanto mais acessível no encontro intercorporal efetivo, pois o corpo vivido só pode ser compreendido por outros corpos.

4. Memória incorporativa

1. O desenvolvimento de estruturas de personalidade corporificadas na primeira infância não prossegue apenas por interações pré-reflexivas, mas a partir do segundo ano de vida inclui cada vez mais o que o autor chama de incorporações, isto é, a moldagem de hábitos corporais por atitudes e papéis assumidos de outros.

2. Isso acontece sobretudo por imitação e identificação corporais, e também nos adultos se pode observar subordinados adotando as expressões faciais, gestos ou atitudes características de seus superiores, e de modo semelhante, por identificação mimética, por exemplo em suas brincadeiras, crianças pequenas já adotam atitudes e papéis de outros, incluindo o papel de gênero, e os incorporam.

3. Com isso o corpo ganha um lado externo, torna-se um corpo-para-outros, portador de papéis e símbolos sociais, seja em poses deliberadas, no vestuário, no adorno ou na cosmética, e aprende-se a agir ou posar, mas também a representar e a inibir as próprias expressões espontâneas.

4. Assim a memória corporal se torna portadora do que na sociologia se chamou habitus, que pode ser entendido como um conjunto de disposições, habilidades, estilos, gostos e modos de agir socialmente aprendidos, muitas vezes tidos como evidentes ou que dispensam dizer, e adquiridos pelas atividades e experiências da vida cotidiana.

5. Segundo Bourdieu, o habitus designa a aparência social inteira de uma pessoa, incluindo postura, maneiras, gosto, vestuário, atitudes e modo geral de vida, e como sistema de padrões internalizados produz uma seleção de estilos de pensamento, percepção e ação específicos de cultura ou classe que os indivíduos tomam como seus mas na verdade compartilham com os membros de sua classe.

6. Bourdieu afirma que o habitus, história incorporada e internalizada como segunda natureza e portanto esquecida como história, é a presença ativa de todo o passado de que é produto.

7. As incorporações podem ser germe de desenvolvimentos neuróticos, pois podem causar uma ruptura no desempenho corporal espontâneo, e tornar-se consciente da própria aparência no olhar do outro suscita afetos centrais de autoconsciência como vergonha, embaraço e orgulho, que podem levar a disposições permanentes como timidez, suscetibilidade, vaidade ou tendências dramáticas.

8. Transtornos narcísicos ou histriônicos podem assim ser considerados uma adoção alienante de papéis e imagens que minam a autenticidade do si corporal primário, e outras atitudes internalizadas servem para inibir impulsos espontâneos mas indesejados, e Norbert Elias mostrou como o corpo foi submetido, no processo civilizador, a uma crescente disciplinarização da postura e do movimento para aumentar o controle afetivo individual.

9. A educação, a escola e o exército foram as instituições clássicas de uma restrição dolorosa do corpo, e Heinrich Heine caricaturou um exemplo histórico de tais incorporações ao escrever que os soldados prussianos pareciam ter engolido a vara com que um dia foram batidos, e de modo semelhante nas personalidades anancásticas de hoje encontramos frequentemente uma fixação rígida da postura corporal, uma inibição da respiração abdominal e dos movimentos expressivos, tudo servindo de meio de autocontrole contra impulsos indesejados ou ameaçadores.

5. Memória de dor

1. Isso leva ao tipo seguinte de memória corporal, a memória de dor, pois é bem sabido que experiências dolorosas são levadas à memória do corpo, como no provérbio de que a criança queimada teme o fogo, e o adulto também pode se dar conta dessa conexão ao entrar no consultório do dentista, tensionando-se, recuando ou se esquivando instintivamente quando a dor ameaça.

2. Não é apenas a recordação consciente que estabelece tais associações impressivas, e em 1911 o neurologista francês Claparède descreveu o caso de uma paciente amnésica que não podia armazenar nenhuma informação nova por causa de uma lesão cerebral, tendo de se apresentar a ela de novo a cada dia, pois ela nunca conseguia lembrá-lo.

3. Um dia ele escondeu um percevejo na mão ao cumprimentá-la e a paciente, com um sobressalto, retirou rapidamente a mão, e no dia seguinte ela recusou cumprimentá-lo mas não conseguiu explicar por quê, pois seu corpo tinha aprendido que a mão do médico significava perigo sem que ela mesma o soubesse.

4. Assim, experiências de dor se inscrevem efetivamente na memória corporal, e por isso uma educação baseada na pressão, na coação e na intimidação sempre soube usar a dor como meio disciplinador, como escreveu Nietzsche de modo incisivo no segundo ensaio de sua Genealogia da moral, afirmando que uma coisa tem de ser queimada para permanecer na memória, pois só o que continua a doer permanece na memória, e que quando o homem decidiu fazer para si uma memória isso nunca aconteceu sem sangue, tormentos e sacrifícios.

5. Até a palavra dor deriva do latim poena, que significa punição, e experiências dolorosas não apenas acompanharam o desenvolvimento da moralidade mas também podem levar a doenças psicossomáticas, pois quase metade de todos os pacientes com transtornos de dor somatoforme sofreu dor grave ou violência na infância, por exemplo tendo sido frequentemente punidos fisicamente.

6. A reativação da memória de dor pode ocorrer mesmo após longo período de latência, e experiências de humilhação ou fracasso mais tarde na vida podem então desencadear síndromes de dor aguda que permanecem inexplicáveis para os próprios pacientes, sendo isso efeito não apenas da memória implícita de dor mas também da memória relacional.

7. Pela alternância constante entre punição e afeto as crianças podem aprender que dor e sofrimento estão ao menos conectados à atenção dos pais, e dores psicogênicas podem mais tarde se tornar crônicas porque os pacientes aprenderam inconscientemente que suas expressões de dor são recompensadas com atenção pelos familiares.

8. Assim não apenas a dor se inscreve no corpo, mas também as situações e relações que estavam conectadas à sua primeira ocorrência.

6. Memória traumática

1. A impressão mais indelével na memória corporal é causada pelo trauma, isto é, a experiência de um acidente grave, de estupro, tortura ou ameaça de morte, sendo o evento traumático uma experiência que pode não ser apropriada e integrada num contexto significativo.

2. Como na memória de dor, instalam-se mecanismos de evitação ou negação para isolar, esquecer ou reprimir o conteúdo doloroso da memória, e o trauma se retira da recordação consciente mas permanece tanto mais virulento na memória do corpo vivido, como se fosse um corpo estranho.

3. A cada passo a pessoa traumatizada pode deparar com algo que evoca o trauma, que é reatualizado em situações ameaçadoras, vergonhosas ou de algum outro modo semelhantes ao trauma, mesmo que a pessoa não esteja consciente dessa semelhança.

4. Vítimas de acidentes podem entrar em pânico quando a situação presente de trânsito de algum modo se assemelha às circunstâncias traumáticas anteriores, mulheres estupradas enquanto dormiam podem sempre despertar na hora em que a agressão ocorreu, e as antigas dores de uma vítima de tortura podem reaparecer num conflito presente e corresponder exatamente às partes do corpo que foram expostas à tortura, pois o corpo recorda o trauma como se estivesse acontecendo de novo.

5. Assim a vítima reexperiencia repetidamente sentimentos de dor, ansiedade e terror, combinados com fragmentos de imagens intensas, e sobretudo a memória intercorporal da pessoa traumatizada mudou profundamente, pois ela retém um senso de estar indefesa, sempre exposta a uma possível agressão.

6. A memória sentida de uma intrusão estranha no corpo abalou irreversivelmente a confiança primária no mundo, e toda pessoa se torna uma ameaça potencial, e Jean Améry escreve que o sobrevivente da tortura já não poderá se sentir em casa, seguro e familiar em lugar algum do mundo.

7. Um exemplo impressionante de memória traumática se encontra também na autobiografia do escritor judeu Aharon Appelfeld, que na infância sobreviveu apenas escondendo-se nas florestas da Ucrânia por cinco anos, e ele relata que desde a Segunda Guerra Mundial se passaram mais de 50 anos, que muito esqueceu, sobretudo lugares, datas e nomes de pessoas, e no entanto sente esse período com todo o corpo.

8. Appelfeld diz que sempre que chove, quando fica frio ou tempestuoso, retorna ao gueto, ao campo ou às florestas onde passou tanto tempo, e que a memória evidentemente tem raízes antigas no corpo, bastando às vezes o cheiro de palha suja ou o grito de um pássaro para lançá-lo longe e profundamente dentro de si.

9. Ele afirma que tudo o que aconteceu então foi impresso nas células de seu corpo, não em sua memória, e que as células do corpo parecem lembrar melhor que a memória embora esta seja destinada a isso, e mesmo anos após a guerra não andava no meio da calçada ou da pista mas sempre junto à parede, sempre apressado, como alguém que foge.

10. Diz que dizia não me lembro e no entanto há milhares de detalhes, e que às vezes o cheiro da comida, a umidade nos sapatos ou um ruído súbito basta para levá-lo de volta à guerra, pois a guerra o agarrou até a medula.

11. Aqui é uma fase inteira de vida que deixou seus traços na memória corporal, e esses traços são ainda mais duráveis do que as memórias autobiográficas podem ser, pois sensações corporais, os sentidos do paladar, do olfato ou da audição, e até certas condições meteorológicas podem bastar para subitamente reviver o passado, e o estilo assombrado de caminhar junto às paredes ainda reflete o comportamento do fugitivo.

Considerações finais

1. Após o panorama das formas mais importantes de memória corporal, retorna-se à polaridade entre memória explícita e implícita, e tornou-se óbvio que não há separação estrita entre esses sistemas de memória, pois a memória corporal não representa o passado mas o reencena, e precisamente por isso também estabelece um acesso ao próprio passado, não por imagens ou palavras mas pela experiência imediata e pela ação.

2. Ela pode assim inesperadamente abrir uma porta para a memória explícita e ressuscitar o passado como se estivesse presente enquanto tal, e sensações ou situações experienciadas pelo corpo vivido podem funcionar como núcleos implícitos de memória que, em circunstâncias adequadas, podem liberar suas memórias encerradas, o que se pode chamar de explicitação.

3. É bem sabido que uma intenção esquecida pode muitas vezes ser recuperada ao retornar ao lugar onde foi formada, e em particular sensações de olfato ou paladar, melodias conhecidas ou as atmosferas de lugares familiares possuem a capacidade de reviver o passado, estando por assim dizer carregadas das mais intensas recordações que conhecemos.

4. Se retorno ao lugar de minha infância muitos anos depois, meu antigo ver reaparece e meus antigos sentimentos reemergem, e ao mesmo tempo sou tomado por uma alienação e perplexidade peculiares porque o passado revivido coincide estranhamente com minha vida atual.

5. Assim o reconhecimento revela uma temporalidade particular, pois enquanto a memória explícita insere as lembranças numa cronologia do passado, no reconhecimento passado e presente literalmente coincidem, o que chega perto de uma experiência mística.

6. No famoso episódio da madeleine de Proust, o narrador reconhece o gosto de um bolo molhado no chá conhecido de sua infância, e um sentimento avassalador o invade, pois assim que o líquido morno misturado às migalhas tocou seu paladar um arrepio o percorreu e ele parou, atento à coisa extraordinária que lhe acontecia, tendo um prazer requintado invadido seus sentidos, algo isolado, destacado, sem sugestão de origem.

7. O narrador se esforça por explicitar o conteúdo autobiográfico dessa memória implícita, mas a princípio em vão, pois há apenas a familiaridade imediata e avassaladora do gosto, sem recordação de sua origem, e ele pensa que sem dúvida o que assim palpita no fundo de seu ser deve ser a imagem, a memória visual que, ligada àquele gosto, tenta segui-lo até sua mente consciente, perguntando se afinal alcançará a superfície clara de sua consciência.

8. Finalmente, após várias tentativas, o núcleo da experiência corporal implícita se abre e seu conteúdo autobiográfico aparece, e de repente a memória se revela, pois o gosto era o do pequeno pedaço de madeleine que nas manhãs de domingo em Combray, quando ia dizer bom dia a ela em seu quarto, sua tia Léonie costumava lhe dar, mergulhando-o primeiro em sua própria xícara de chá ou tisana.

9. Essa memória recuperada desencadeia então uma cascata de lembranças de infância, e de uma só vez um mundo inteiro desperta, pois naquele momento todas as flores de nosso jardim e do parque do Sr. Swann, os nenúfares do Vivonne, as boas pessoas da aldeia e suas pequenas moradias, a igreja paroquial e toda Combray e seus arredores, tomando forma e solidez, surgiram da xícara de chá.

10. A memória da madeleine de Proust esconde assim, dentro de um complexo de sensações corporais e recordações e significados implícitos apenas intuídos, o que se pode chamar de núcleo de sentido, um ponto nodal de recordação corporal em que o passado vivido por assim dizer se condensou e a partir do qual novos significados podem se desdobrar.

11. Emoções e impulsos vagamente sentidos podem tomar forma no sentir do corpo, implicando reverberações de conteúdos esquecidos ou reprimidos assim como pressentimentos e antecipações de um futuro possível, e desse modo a memória corporal também abre um caminho para o que está latentemente presente na própria vida de alguém e às vezes já conhecido num nível mais profundo.

12. Abordagens terapêuticas que se concentram nesse sentido sentido do corpo, como o Focusing, a terapia de movimento concentrativo, a terapia de dança e movimento e outras, podem ajudar os clientes a abrir os núcleos de sentido da memória corporal e desembaraçar seus motivos e sentimentos latentes.

13. Em suma, o corpo não é apenas uma estrutura de membros e órgãos, nem meramente um reino de sensações e movimentos, mas também um corpo historicamente formado cujas experiências deixaram seus traços em suas disposições invisíveis, e instalando-se em cada situação o corpo sempre carrega seu próprio passado para os arredores como um campo procedural de possibilidades.

14. Suas experiências e disposições permeiam o ambiente como uma rede invisível que se espalha de seus sentidos e membros, nos conecta com o mundo e o torna familiar, e cada percepção, cada situação é permeada por recordações corporais implícitas, pois como escreve Proust o que chamamos realidade é uma relação entre aquelas sensações e aquelas memórias que simultaneamente nos cercam.

15. A memória corporal é o portador subjacente de nossa história de vida e enfim de todo o nosso ser-no-mundo, compreendendo não apenas as disposições evoluídas de nosso perceber e comportar mas também os núcleos de memória que nos conectam mais intimamente com nosso passado biográfico.

16. E mesmo quando a demência priva uma pessoa de todas as suas recordações explícitas, ela ainda retém sua memória corporal, pois a história de sua vida permanece presente nas visões, cheiros, tatos e manuseios familiares das coisas, mesmo quando ela já não é capaz de dar conta da origem dessa familiaridade e de contar sua história de vida.

17. Seus sentidos se tornam os portadores da continuidade pessoal, de uma recordação mais sentida que conhecida, a memória tácita mas duradoura do corpo, e como escreve Proust, quando de um passado distante nada subsiste, depois que as pessoas morreram, depois que as coisas se quebraram e se dispersaram, ainda assim, sozinhos, mais frágeis mas com mais vitalidade, mais insubstanciais, mais persistentes, mais fiéis, o cheiro e o gosto das coisas permanecem por muito tempo suspensos, como almas, prontos a nos lembrar, esperando e esperando seu momento, entre as ruínas de todo o resto, e carregam sem vacilar, na gota minúscula e quase impalpável de sua essência, a vasta estrutura da recordação.

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