3.1 Subjetividade corporificada
FUCHS, T. Ecology of the brain: the phenomenology and biology of the embodied mind. First edition ed. Oxford: Oxford University Press, 2018
1. A consciência não pode ser concebida como câmara invisível literalmente contida na cabeça e oculta por trás dos órgãos dos sentidos, pois não está contida no corpo físico, mas é corporificada, consistindo os atos conscientes em atividades integrais de um organismo vivo, autossustentado, sensível e móvel, cuja dimensão primária é a relação recíproca, homeostática, sensório-motora e ativo-receptiva com o ambiente, ainda que a consciência humana seja capaz de desacoplar-se em certa medida da interação presente para dirigir-se intencionalmente a re-presentações de objetos ausentes, virtuais ou possíveis, como lembranças, imaginações, fantasias e projetos, e de tomar posição diante de si, observar a própria experiência e refletir sobre si como sujeito, parecendo tornar-se um mundo interior próprio.
2. A capacidade humana de representação e de distanciamento de si não suspende o ser-no-mundo primário e corporificado nem converte toda experiência em representação ou duplicação do mundo numa mente separada como recipiente, pois o ser humano não é mônada consciente na qual se projeta uma imagem do mundo, mas ser vivo que habita seu corpo vivo como meio de experimentar o mundo, relação fundante descrita pela fenomenologia, sobretudo por Merleau-Ponty, como subjetividade corporal ou ser-para-o-mundo mediado pelo corpo vivido, de modo que a vida e o corpo vivido são a fonte fundante de toda realização da vida, inclusive das atividades conscientes, e esse enraizamento da consciência deve ser examinado antes de sua base orgânica.
3.1.1 O corpo como sujeito
1. Enquanto as ciências da vida descrevem e definem a vida de fora, como algo objetivo e determinável, a autoexperiência da vida tem a peculiaridade de residir precisamente numa retração de si, pois a realização da vida escapa à auto-observação imediata e precede sempre todo ato de determinação reflexiva.
2. Sentir fome não é ainda ter consciência da fome, nem sentir um sentimento é ter consciência dele, pois para perceber que se tem fome, sede, cansaço, alegria ou tristeza é preciso já ter ficado faminto, sedento, cansado, alegre ou triste, sendo impossível dizer o que eram antes de se tornarem conscientes, à semelhança de um ruído repetitivo latente só notado quando cessa e o silêncio retorna, já que uma experiência só se torna consciente ao adquirir certo grau de intensidade ou contraste, embora já fosse experiência desde o início.
3. A vida é o que já aconteceu e afetou o sujeito antes que ele o note claramente, e nas afecções corporais como fome, sede, dor, energia vital e fadiga revela-se que jamais se tem pleno controle de si, pois o que essencialmente constitui o ser humano é algo que ele não pode causar nem controlar, a atividade espontânea e autônoma da vida, brotada de um impulso elementar em direção a algo, pelo qual o corpo vivido se motiva autonomamente a buscar o que lhe falta, quer se sigam ou não esses impulsos, fonte energética da vida que se pode denominar, com Spinoza, conatus.
4. Mesmo os atos intencionais do pensamento e da ação não estão plenamente em mãos do sujeito, mas são antes deixados acontecer, naquilo que Merleau-Ponty chama de passividade da atividade, pois não é o eu que se faz pensar, assim como não é ele que faz bater o coração, sendo os movimentos do pensamento e do braço automovimentos que se pode apenas liberar e dirigir, e mais ainda as realizações involuntárias como respirar, adormecer, andar, chorar ou sentir alegria e raiva, que ocorrem por si e que o ato deliberado da vontade tende a perturbar, de modo que se experimenta em si uma fonte de devir, uma origem de espontaneidade e movimento que não se pode possuir nem definir com precisão, assim como a história de vida individual começa com uma pré-história inconsciente do si sem ponto evidente em que um desenvolvimento puramente biológico se converta em vida consciente.
5. A vida não pode ser atribuída a uma consciência pura nem reduzida ao organismo físico, mas manifesta-se num movimento e numa subjetividade corporais básicos, como princípio fundante e não como objeto da experiência, precedendo sempre o tornar-se consciente, de modo que o si só se experimenta no modo de sua retração e tudo o que se planeja ou faz conscientemente se vive sobre o fundo corporal inconsciente que jamais se pode desvelar por completo, fundo que permeia todos os atos de percepção, pensamento e ação como meio transparente pelo qual se realizam, isto é, como corpo subjetivo.
6. Toda experiência consciente depende não apenas do corpo fisiológico, mas emerge do corpo subjetivo, que no nível mais básico é lugar de um vago sentimento de fundo de bem-estar ou mal-estar, vitalidade, energia ou fadiga, a autoafecção da vida ou sentimento de estar vivo, intimamente ligado ao corpo como fonte de impulso, espontaneidade e atividade, dimensão de vitalidade e conação que se pode chamar de corpo profundo, e que funciona ainda como caixa de ressonância de humores e emoções e como centro e meio de todas as percepções, movimentos e ações, sem que nem mesmo o suposto pensamento puro possa separar-se da consciência corporal, pois, embora seus conteúdos intencionais se movam livremente no tempo e no espaço, como atividades conscientes os pensamentos permanecem ligados à autoexperiência corporal e ao sentimento de presença.
7. O corpo vivido sustenta todas as realizações da vida, sobretudo quando funciona como meio despercebido e transparente do ser-para-o-mundo nas operações habilidosas como andar, pedalar, falar e escrever, sem jamais poder ser inteiramente apreendido pela atenção consciente, já que uma parte dele permanece sempre por trás da percepção como fonte e centro da realização da vida, de modo que todo sentir, perceber, imaginar, pensar e agir tem um sujeito corporal, o corpo vivido como sujeito natural, no dizer de Merleau-Ponty, antecedente e fundamento de todos os atos conscientes e reflexivos, sendo a consciência pura sem corpo subjetivo uma abstração dualista que não existe em parte alguma da experiência.
8. O corpo subjetivo é também o conjunto das habilidades e capacidades disponíveis, corpo habitual que contém os esboços prévios das realizações da vida e transmite a experiência fundante do eu posso, como quando se dança uma valsa porque o corpo vivido se move por si ao ritmo da música, sendo o próprio sujeito quem dança e não uma mente que comanda movimentos programados, ou quando se reconhece um rosto familiar porque a capacidade perceptiva já contém as pré-formas dos objetos sensíveis possíveis, conectando-se a condições e contrapartes adequadas do mundo circundante e dotando-as de affordances e sentido, de modo que o corpo subjetivo forma um sistema superior de organismo e ambiente manifesto no ser-para-o-mundo e na familiaridade fundamental com o mundo, não sendo inicialmente o corpo físico visto, tocado ou sentido, mas a própria capacidade de ver, tocar e sentir, não objeto no mundo, mas meio, campo ou capacidade que revela o mundo.
9. A partir dessas experiências primárias do mundo da vida, o dualismo de Descartes e o materialismo cartesiano de seus sucessores modernos revelam-se fundados numa dupla desencarnação, que objetiva o corpo subjetivo como mera coisa física e hipostasia o sujeito corporal como pura consciência do eu, e o reducionismo neurobiológico surge necessariamente do esforço de reunir essa consciência abstraída ao corpo físico objetivado, ou ao cérebro como pars pro toto, curto-circuito que de fato só se dá sob a forma de correlações, descritas depois como causações que relegam o sujeito desencarnado a epifenômeno, consequência que não decorre necessariamente do estudo do corpo físico ou do cérebro e pode ser evitada ao se considerar o ser humano como organismo vivo unificado sob um duplo aspecto, corpo subjetivo e corpo físico.
3.1.2 O duplo aspecto de corpo subjetivo e corpo físico
1. A pessoa é corpo vivido na medida em que seus estados subjetivos, experiências e ações estão ligados ao meio do corpo, mas é também corpo vivido para os outros, que a percebem diretamente em carne e osso em sua expressão, atitudes e atos, não como combinação de corpo físico e psique oculta, mas como unidade, de modo que quem estende a mão para cumprimentar não exprime por um movimento físico um ato mental interior como símbolo externo, mas está presente no próprio cumprimento e na mão oferecida.
2. O corpo revela-se como corpo físico por objetivação, já presente na experiência cotidiana em que adquire exterioridade como outros objetos visíveis e tangíveis, mas sem jamais constituir-se, como notou Husserl, como objeto pleno contraposto ao sujeito, exibindo o fenômeno peculiar das sensações duplas, como quando a mão direita toca a esquerda e se sente tanto o tocar de um objeto externo quanto o ser tocado, ponto de conversão da subjetividade em objetividade e vice-versa, de modo que o corpo vivido nunca é apenas sujeito nem apenas objeto, mas sujeito-objeto, ao mesmo tempo Leib e Körper.
3. A objetivação do corpo ocorre frequentemente nas perturbações da realização habitual da vida, como num movimento desajeitado, numa queda involuntária, na exaustão, no mal-estar, na lesão ou na doença física, experiências em que o corpo se aliena e se mostra obstinado, frágil ou vulnerável, alienação que culmina diante do cadáver de outrem e que motivou essencialmente a pesquisa médica e fundamenta toda objetivação científica do corpo, pela qual o indivíduo é corpo objetivo ou físico como totalidade de estruturas anatômico-materiais e processos fisiológicos objetiváveis sobretudo na perspectiva médica de terceira pessoa.
4. Husserl reconduziu esses aspectos a duas atitudes possíveis dos seres humanos uns diante dos outros, a atitude personalista primária, na qual se relacionam como corpos vividos e que fundamenta o mundo da vida comum, e a atitude naturalista, na qual aparecem como corpos físicos e o corpo subjetivo se torna objeto mensurável da natureza, mudança de atitude que o médico realiza diariamente quando cumprimenta a paciente vendo seu olhar amistoso ou ansioso e logo depois examina seus olhos com o oftalmoscópio como órgãos físicos, momento em que, visto de perto demais, o olhar desaparece, pois o corpo vivido só pode ser percebido holisticamente.
5. Ambas as atitudes dirigem-se, contudo, à mesma entidade, o organismo ou a pessoa viva, pois o corpo vivido como lugar de sensações e afecções e como meio da realização da vida e do contato com os outros não é construto do cérebro misteriosamente projetado no espaço externo, mas o próprio organismo sob o aspecto de sua vitalidade holística manifesta subjetiva e intersubjetivamente, e o corpo físico objetivado não é mero objeto, mas ainda o corpo de alguém, sem o que nenhum neurocientista poderia relacionar suas observações do cérebro à experiência de uma pessoa, de modo que a mesma entidade pode ser considerada, como uma figura reversível à maneira do cubo de Necker, de duas maneiras distintas e intransferíveis, sendo o corpo o ponto de conversão em que o sujeito se revela encarnado e, segundo Merleau-Ponty, um terceiro gênero de ser entre o sujeito puro e o objeto, que mina o dualismo entre interior e exterior.
6. Plessner fundamentou antropologicamente ambas as atitudes e o duplo aspecto de corpo vivido e corpo físico no conceito de posicionalidade excêntrica do homem, que, diferentemente da posição cêntrica do animal em seu ambiente, designa a capacidade humana de relacionar-se consigo e com a própria existência corporal, perceber-se de fora, da perspectiva possível dos outros, e confrontar-se pela reflexão, o que estabelece uma relação ambivalente com o corpo, ora meio e centro despercebido da realização da vida, ora instrumento conscientemente usado ou obstáculo, ora ser e existir, ora objeto, de modo que a pessoa humana é ser corporal e ao mesmo tempo extracorporal, vivendo em tensão com sua existência física à qual está inteiramente ligada.
7. A unidade ambivalente da subjetividade corporificada manifesta-se como duplo aspecto espacial, em que o espaço corporal subjetivo vivido e o espaço corporal objetivo físico normalmente coincidem sintopicamente, não idênticos, mas coextensivos, como quando uma picada de alfinete na mão dói precisamente no ponto visível, pois a mão não se dá como duas, uma física e outra lugar da dor, mas como unidade físico-estesiológica, no dizer de Husserl, o que justifica que o médico procure a causa da dor no lugar onde ela é sentida, embora a dor não esteja localizada na mão anatômica, mas apenas na mão vivida, de modo que as perspectivas interna e externa podem coincidir espacialmente, permanecendo distintas por princípio, e o espaço corporal subjetivo se insere no espaço do organismo vivo sem ser idêntico a ele.
8. O duplo aspecto espacial pode ser descrito também como diferença entre espacialidade relativa e absoluta, pois como objeto ou coisa física se ocupa um lugar que muda em relação a outras coisas no espaço físico, enquanto como sujeito corporal vivo se ocupa sempre um lugar próprio e inconfundível do qual não se pode sair, sendo o corpo vivido o ponto zero de toda orientação, um aqui absoluto que jamais se torna um ali, que coincide com um lugar no espaço objetivo e permite, por exemplo, saltar uma vala e aterrissar no lugar certo, de modo que espaço absoluto e relativo se sobrepõem, sem que o aqui absoluto seja idêntico ao lugar relativo ocupado, já que ele sempre se move com o sujeito.
9. O duplo aspecto do corpo evidencia-se também nas relações intersubjetivas, em que o outro aparece primariamente como unidade animada e corporal, presente em carne e osso, e não como portador anatômico de uma vida interior inacessível apenas suposta por inferência, sendo a corporeidade a base da intersubjetividade, pois nas interações corporais não se atribuem estados interiores abstratos aos outros, mas se experimentam suas expressões faciais, gestos e comportamentos no contexto da situação como expressão direta de suas sensações, sentimentos e intenções, de modo que a percepção primária do outro não se funda numa teoria da mente nem em inferências sobre um mundo interior invisível, mas na intercorporeidade, comunicação corporal e empatia recíproca entre sujeitos corporificados, e só secundariamente se passa à atitude objetivante e ao exame científico do corpo físico alheio.
10. A subjetividade é essencialmente corporificada, sendo o corpo não mero conteúdo ou objeto da consciência, mas, como corpo vivido, base constitutiva do próprio sujeito, de modo que todos os sentimentos, pensamentos, percepções e ações são experimentados como seres corporais subjetivos e ao mesmo tempo como seres físicos, o que suscita a questão da natureza de um corpo físico capaz de exibir esse duplo aspecto, composição complexa de matéria física que funciona ao mesmo tempo como portadora de atos de vida conscientes e unificados.
3.1.3 O duplo aspecto da vida
1. Esse corpo deve ser um organismo vivo, entidade indivisível que funciona como todo composto e ao mesmo tempo se estende no espaço, e deve exibir um caráter duplo em suas manifestações vitais, que representam de um lado configurações específicas de processos fisiológicos, inclusive neuronais, e de outro constituem experiências e atividades do indivíduo como entidade viva completa, de modo que o organismo deve ser também sujeito.
2. O organismo vivo é, num sentido, entidade composta de processos fisiológicos e, noutro, sujeito de atos de vida, sejam impulsos e afetos passivos como prazer, dor, fome ou medo, sejam atividades como pensar, perceber, mover-se e agir, e todas as proposições sobre sensações, percepções ou ações exigem um ser vivo na posição de sujeito gramatical, exigência fundada também ontologicamente, pois, embora sustentados por processos fisiológicos singulares, tais atos são gerados pelo ser vivo como um todo, que existe como totalidade e prossegue sua vida por meio deles, de modo que são os seres humanos, e não seus cérebros, que se movem, percebem ou pensam.
3. A concepção da vida sob duplo aspecto distingue-se fundamentalmente do quadro convencional do problema mente-corpo, pois os atos de vida emocionais, cognitivos ou volitivos não são transferidos para uma esfera puramente mental, permanecendo sempre eventos corporificados e físicos, mas justamente por isso não representam processos singulares em regiões específicas do corpo descritíveis pela física, aparecendo antes como atos e experiências do ser vivo inteiro como organismo físico unificado, indivisíveis em parte mental e parte fisiológica, já que as condições psíquicas são sempre condições de um organismo vivo e todo viver experiencial é uma forma de viver.
4. A maioria das teorias contemporâneas da filosofia da mente parte de duas entidades fundamentalmente distintas, corpo e mente, ou processos físicos acessíveis na perspectiva de terceira pessoa e processos mentais supostamente acessíveis apenas na perspectiva de primeira pessoa, domínios que precisam ser reconectados por construções teóricas que geralmente reduzem a base fisiológica da mente a processos cerebrais, tratando os processos mentais como idênticos, epifenomênicos, supervenientes, emergentes ou dualisticamente independentes em relação aos neuronais, mas em todas essas soluções o ser vivo ou a pessoa como um todo deixa de aparecer como entidade fundamental, de modo que processos mentais e cerebrais só podem ser diretamente relacionados ou curto-circuitados.
5. Contra essa dicotomia, a concepção do duplo aspecto toma o próprio ser vivo como entidade primária, cujas manifestações vitais podem ser consideradas tanto como atos integrais corporais, emocionais e intelectuais experimentados subjetivamente quanto como processos fisiológicos em qualquer grau de detalhe, exibindo o ser vivo um duplo aspecto, como corpo vivido experimentado subjetivamente na perspectiva de primeira pessoa e percebido pelos outros na atitude personalista da segunda pessoa, e como corpo vivo correspondente à unidade composta do organismo com todas as suas estruturas e processos fisiológicos observáveis na perspectiva de terceira pessoa, distinção que se pode exprimir também como corpo-sujeito e corpo-objeto, desde que o corpo-sujeito permaneça perceptível pelos outros na perspectiva de segunda pessoa.
6. Epistemologicamente esses aspectos são complementares, com descrições intransferíveis que exibem apenas certas correlações e semelhanças estruturais, mas ontologicamente são aspectos do ser vivo como unidade, manifesta entre outras coisas na coextensividade fundamental de corpo subjetivo e corpo físico, e como o organismo vivo e seu processo vital fundamentam ambos, o duplo aspecto não significa novo dualismo ontológico, mas um monismo mediado ou, em termos hegelianos, uma unidade dialética de unidade e diversidade, em que os aspectos são características objetivamente distintas de um único ser vivo.
7. O termo dualismo de aspecto deve ser evitado por designar hoje o dualismo psicofísico de aspecto derivado de Spinoza e Ernst Mach e revivido na teoria da identidade, segundo o qual processos mentais e materiais ou mente e cérebro são dois aspectos de um mesmo evento não identificável independentemente, sem consideração por uma unidade subjacente do organismo vivo, como dois lados de uma moeda sem a própria moeda, razão pela qual se fala de duplo aspecto ou dualidade de aspecto do organismo vivo ou da pessoa.
8. A dualidade de aspecto geral do ser vivo define-se nos seres humanos como duplo aspecto pessoal, já que a pessoa é o ser vivo capaz de tomar posição diante de sua existência corporal primária e de aparecer a si e aos outros como corpo subjetivo e corpo físico, de modo que a posição excêntrica humana fundamenta a dualidade de perspectivas sobre si e a distinção entre atitude personalista e atitude naturalista.
9. Com algumas restrições, a complementaridade desses aspectos compara-se aos dois lados de uma moeda, dos quais apenas um é visível por vez, sem identidade nem sobreposição, apenas com referência recíproca, sendo errôneo perguntar qual lado é a realidade efetiva que produz o outro, pois mesmo quando uma picada parece produzir dor ou a estimulação do lobo temporal parece produzir imagens recordadas trata-se apenas de estímulos aos quais o ser vivo ou a pessoa responde como todo com uma manifestação de dor ou uma reminiscência, de modo que eventos físicos podem ocasionar, mas não causar, manifestações integrais da vida.
10. Os atos de vida, diferentemente da esfera mental da filosofia da mente, não são meramente subjetivos, podendo ser experimentados na perspectiva interna da primeira pessoa e percebidos na perspectiva externa da segunda pessoa, perspectiva participante ou do nós em que as pessoas se percebem não de modo objetivante, mas como seres vivos, como mostram predicados como rir, sofrer dor, jogar tênis, falar ou cumprimentar, aplicáveis tanto pelo agente quanto pelo participante e designativos de um mesmo fato do mundo da vida indivisível em partes mentais e físicas.
11. Strawson descreveu tais enunciados como predicados pessoais, atribuíveis à pessoa de dentro e de fora e logicamente primários, sendo a distinção das perspectivas secundária, pois a pessoa não se compõe de partes físicas e mentais ou de comportamento e experiência, mas esse duplo sentido vale também para animais superiores, nos quais se percebem atos de vida como suportar dor, assustar-se ou buscar presa, e Strawson não distingue claramente as perspectivas de segunda e terceira pessoa, participante e observadora, oposição unilateral entre primeira e terceira pessoa com negligência da segunda que constitui uma das raízes mais significativas do problema cérebro-mente e de suas aporias.
12. A existência de predicados pessoais não elimina inteiramente a diferença entre perspectiva interna e externa, preservando-se a singularidade dos fatos subjetivos, ponto decisivo para perceber o corpo físico como corpo subjetivo de uma pessoa e centro de um mundo, mas essa exclusividade da subjetividade é limitada, pois nenhum ato de vida é suficientemente caracterizado pela perspectiva interna, designando a pessoalidade uma unidade primária de interior e exterior na qual a esfera privada é apenas um componente, e como ser pessoa implica sempre estar em relação com outros, jamais é possível conhecer-se adequada e completamente a partir da perspectiva de primeira pessoa.
13. Os atos de vida da pessoa existem em sentido interno e externo, abrangendo experiência vivida e comportamento expressivo, ao passo que o corpo vivo ou objetivo com seus processos fisiológicos só pode ser percebido na perspectiva observadora de terceira pessoa e na atitude naturalista, na qual se distinguem ainda a visão física, que descreve o corpo como entidade material de determinado peso e composição, e a visão biológico-sistêmica, que o considera organismo, sistema integral e funcional em troca com o ambiente, ponto de vista integrativo que corresponde ao aspecto integral dos atos de vida sem com ele se confundir, pois toda pesquisa sobre sistemas dinâmicos e organismos permanece presa à atitude objetivante e jamais se converte em percepção de atos de vida, já que, segundo Hans Jonas, a vida só pode ser conhecida pela vida e perceber e investigar um ser vivo como tal exige participar de sua vida, sobretudo no caso dos seres humanos.
14. A dimensão física não se opõe ao psíquico ou mental, mas aparece em ambos os aspectos, como corpo vivido e como corpo vivo, de modo que o problema mente-corpo, dualisticamente pré-estruturado e hoje abreviado como problema mente-cérebro, se reinterpreta como problema corpo vivido e corpo vivo, como também o concebeu Thompson, sendo o organismo vivo em todos os seus atos integrais, inclusive emocionais e intelectuais, um ser físico, uma única substância material e viva, um indivíduo, para cuja materialidade integral falta um conceito adequado, já que o termo psicofísico nasceu de base dualista, ao passo que o sentido aristotélico originário de phýsis como natureza viva resume com precisão essa dimensão, designando uma entidade natural que, como o corpo vivido, é sua própria fonte de movimento e é concebida por analogia com a autoexperiência como unidade de subjetividade e objetividade.
15. O físico refere-se, portanto, tanto ao corpo subjetivo ou vivido quanto ao corpo orgânico ou vivo, e aplicando o conceito de phýsis nesse sentido ampliado pode-se caracterizar o corpo subjetivo como a natureza que se é e o corpo físico como a natureza que se tem, conectando a fenomenologia da existência corporal à tradição aristotélica, pela qual o corpo da pessoa é ao mesmo tempo corpo vivido fenomenal, experimentado subjetivamente e percebido pelos outros como phýsis animada, e corpo fisiológico-orgânico, sendo sob ambos os aspectos uma substância física, vivida e viva unificada.
16. Somente compreendendo a experiência e a ação humanas primariamente como atos de um ser vivo torna-se possível superar o dualismo de cérebro e mente e conceber o cérebro como órgão da pessoa humana, o que exige descrever o organismo vivo e o cérebro nele contido de modo que as experiências conscientes se tornem apreensíveis como atos de um ser vivo, concepção básica a ser aprofundada na investigação subsequente.
