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estudos:fabris:2004:1.3
1.3 Contexto e gênese
FABRIS, Adriano. Essere e tempo di Heidegger: introduzione alla lettura. Roma: Carocci, 2004.
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1. A compreensão das questões enfrentadas por Ser e Tempo exige o recurso aos documentos heideggerianos precedentes, coevos ou pouco posteriores à sua elaboração, hoje disponíveis sobretudo na segunda seção da edição das obras completas, a Gesamtausgabe, iniciada em 1975 e prevista em 102 volumes, edição letzter Hand que evidencia configurar-se a reflexão heideggeriana como verdadeiro itinerário, um autêntico caminho de pensamento (Denkweg) do qual partem ulteriores veredas, por vezes interrompidas, devendo os próprios textos ser concebidos, segundo lema apposto pelo próprio Heidegger poucos dias antes de morrer no frontispício da Gesamtausgabe, como Caminhos, não obras (Wege — nicht Werke).
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2. Nesse percurso deve inserir-se também Ser e Tempo, não sendo mais lícito considerá-la obra autônoma e em si concluída, seja por seu inacabamento, seja pela remissão constitutiva de muitas de suas temáticas à elaboração proposta sobretudo nos textos preparados para a atividade didática.
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3. Após doutorar-se em 1913 em Friburgo com tese sobre A doutrina do juízo no psicologismo, obter em 1915 a livre-docência com dissertação sobre A doutrina das categorias e do significado em Duns Escoto e a venia legendi com lição sobre O conceito de tempo na ciência da história, Heidegger leciona ininterruptamente em Friburgo como livre-docente e assistente de Edmund Husserl até 1923, torna-se professor extraordinário em Marburg de 1923-24 a 1928, e retorna a Friburgo em 1928 à cátedra que fora de Husserl, lecionando oficialmente até 1956, com interrupções decorrentes da guerra e de posterior interdição do ensino, depois revogada, motivada por seu envolvimento como reitor e sua compromissão com o nacional-socialismo.
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4. Dos cursos do primeiro período de Friburgo e de Marburg emergem três motivos principais que se entrelaçam e encontrarão em Ser e Tempo elaboração particular: o confronto com o neokantismo e com a fenomenologia husserliana visando à transformação desta para fins bem distintos; a atenção a aspectos da vida cristã voltada à elaboração de original filosofia hermenêutica; e o repensamento da questão do ser numa perspectiva nova, que visa captá-lo em sua intrínseca temporalidade a partir da análise do ente privilegiado que nós mesmos somos.
O confronto com o neokantismo e com a fenomenologia
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1. Apesar de retomar de modo novo a questão tradicional do ser, própria da disciplina metafísica denominada ontologia, o problema do ser não constitui, inicialmente, o tema principal da investigação heideggeriana, dominada nos primeiros escritos e cursos por outros interesses solicitados pela conjuntura filosófica da época, marcada pela retomada da filosofia transcendental kantiana pelo neokantismo, tanto da escola de Marburg quanto da escola de Baden, bem como por desenvolvimentos na lógica formal e na fenomenologia husserliana, inaugurada pelas Investigações lógicas (1900-1901).
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2. Elemento comum a essas tendências é a oposição ao psicologismo, atitude segundo a qual as leis lógicas derivariam do funcionamento psíquico humano, oposição que leva Heinrich Rickert a elaborar lógica como doutrina pura dos valores e Husserl, nos Prolegômenos a uma lógica pura, a criticar o psicologismo e propor doutrina da intencionalidade capaz de captar evidências e leis puras irredutíveis às modalidades psicológicas de seu atingimento.
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3. Ao projeto husserliano de lógica pura, o jovem Heidegger contrapõe, já nos primeiros cursos como livre-docente, o de lógica radicada no âmbito da vida, lógica impura que, partindo da vida, pretende captar na vida a própria vida, superando-se assim a distinção entre sujeito e objeto pressuposta, não tematizada, tanto pela reflexão kantiana e neokantiana quanto pela filosofia dos valores de Rickert, configurando-se a vida, enquanto horizonte pré-teorético, como fenômeno privilegiado que exige não tanto ciência originária (Urwissenschaft) quanto ciência da origem (Ursprungswissenschaft), identificada com a fenomenologia.
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4. Impõe-se submeter a concepção husserliana a transformações particulares, não sendo a fenomenologia concebida, em Heidegger, como ciência do que é algo (o conteúdo noemático), nem como âmbito em que os vividos da consciência encontram fundamento último na estrutura do eu puro, mas como descrição das modalidades em que se articula a vida em e por si mesma, em sua faticidade, cabendo-lhe considerar sobretudo o como, o Wie-sein, e não o quê, o Was-sein, dos fenômenos, vindo o termo fenomenologia a indicar o método da investigação filosófica, articulado em parte construtiva e parte destrutiva.
A hermenêutica da vida cristã
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1. Não sendo possível captar os fenômenos originários em sua datidade imediata, dado que toda imediatidade pressupõe horizonte preliminar que lhe orienta o acesso, revelando-se mítica a pretensão de evidência, impõe-se identificar outra modalidade de investigação capaz de captar indiretamente aquilo que não pode ser fixado em termos objetuais, vindo ao encontro dessa exigência a hermenêutica, doutrina da interpretação desenvolvida no contexto religioso judaico-cristão, impondo-se assim a elaboração de uma lógica hermenêutica enxertada sobre o método fenomenológico.
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2. No início dos anos vinte, dedica-se à interpretação de momentos da vida cristã documentados sobretudo pelas epístolas de Paulo e pela reflexão de Agostinho, não constituindo tal atenção novidade, dada a formação pessoal e filosófica marcada pela frequentação de textos religiosos e teológicos, o apoio financeiro de instituições religiosas, a intenção juvenil de ingressar na Companhia de Jesus e os primeiros semestres na faculdade de teologia.
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3. No início de 1919, em carta a Engelbert Krebs, distancia-se definitivamente dos resultados dogmáticos do catolicismo e de seus pressupostos teóricos, considerando problemático e inaceitável o sistema do catolicismo, mas não o cristianismo e a metafísica, esta em sentido novo, decidindo dedicar-se a filosofia que não acolhe preliminarmente nenhuma opção de fé e que se configura, como dirá anos depois, como ateia por princípio (atheistisch).
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4. O confronto com o cristianismo assume dupla valência: de um lado, rastreiam-se, na autocompreensão da vida cristã, caracteres capazes de fornecer instrumentos para captar o ser-aí do homem, em oposição à tendência objetivante da filosofia grega — recuperação do enfoque hermenêutico, nova consideração da experiência, emergência da temporalidade da existência; de outro, a análise da vida cristã permite indicar novas modalidades para atingir seu significado autêntico, distintas da teologia liberal dominante.
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5. A recorrência, em Ser e Tempo e em cursos coevos, de conceitos de matriz religiosa — a concepção extática da temporalidade, a investigação sobre o ser-culpado (Schuldigsein) — deve ser entendida à luz do declarado projeto de tradução filosófica, efetiva laicização de temas teológicos reconduzidos a contexto não teológico, entrelaçando-se a esse motivo a questão do ser, ligada à atenção cada vez maior dedicada a Aristóteles, que chegaria a projetar-se em livro jamais publicado, substituído pela ontologia fundamental de Ser e Tempo.
A emergência e a imposição do problema do ser
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1. Nos primeiros cursos como livre-docente em Friburgo, o problema do ser emerge no âmbito das investigações fenomenológicas sobre a faticidade da vida, não devendo ser pensado à maneira da metafísica clássica, na terceira pessoa neutra do princípio parmenídico o ser é, mas captado como aquele ser que é sempre meu, manifestando-se o interesse por Aristóteles, explícito a partir do curso de 1921-22, mediante interpretação original em que a teoria é subordinada às razões da práxis, distinta da recepção medieval que desemboca no neotomismo rejeitado como sistema do catolicismo.
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2. O tema do eu sou, difundido na reflexão do pós-guerra em área germânica em direção filosófico-religiosa, como em Ferdinand Ebner (A palavra e as realidades espirituais, 1921) e Franz Rosenzweig (A estrela da redenção, 1921), assume, nas Notas sobre a Psicologia das visões de mundo de Karl Jaspers (1919-1921, inédito), função de trait d'union entre a interpretação fenomenológica da vida e a retomada do problema do ser enquanto tal, tema fundamental da filosofia grega que se tornará, cada vez mais decisivamente, a questão central dos últimos cursos de Friburgo, das lições de Marburg e de Ser e Tempo.
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3. Compreende-se assim tanto o interesse crescente por Aristóteles e pelas etapas posteriores da história da ontologia dominadas por suas escolhas teóricas — privilégio da linguagem apofântica, imposição de determinada interpretação da verdade — quanto a predileção por tratados aristotélicos como os de ética e física, mais do que os ditos metafísicos, capazes de aprofundar em seus momentos constitutivos a vida humana, o ser-aí, o homem, culminando esse projeto no último curso do primeiro período de Friburgo, anunciado em 1923 sob o título Ontologia e depois precisado como Hermenêutica da faticidade, dedicado à análise do caráter de ser do nosso próprio ser-aí.
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4. Tal tarefa, acompanhada de constante confronto com Aristóteles, Platão, a escolástica e a tardo-escolástica (Tomás de Aquino, Suárez) e o pensamento moderno e contemporâneo (Descartes, Kant, Husserl), prossegue nos cursos de Marburg, que antecipam e acompanham parcialmente a redação de Ser e Tempo, somando-se à intenção de elaborar ontologia fenomenológica do ente que somos a exigência de fundamentar adequadamente e articular sistematicamente o vasto material das interpretações propostas.
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5. Na perspectiva hermenêutica heideggeriana, fundamento converte-se naquilo que guia e orienta a interpretação, que descortina o horizonte no interior do qual se realiza toda relação do homem com as coisas e com os demais homens, horizonte pensado como ser, podendo assim a investigação inaugurada em Ser e Tempo — que responde à pergunta pelo sentido do ser — ser entendida também como busca do fundamento, embora em formas novas em relação à tradição.
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6. Na segunda metade dos anos vinte, a elaboração da questão do ser como busca do fundamento desenvolve-se não só mediante o diálogo com Aristóteles, mas também mediante insistente confronto com Kant, sobretudo o da Crítica da razão pura, não devendo a tarefa de fundamentar as relações do homem com o mundo ser cumprida, como para o Husserl das Ideias, mediante análise das estruturas da subjetividade transcendental, mas devendo antes o sujeito mostrar sua abertura constitutiva ao horizonte do ser, ainda que o modo kantiano de tratar a questão do fundamento — a investigação sobre as condições de possibilidade — seja em boa parte assumido em Ser e Tempo e reproposto na análise do ente que somos.
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