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2 Intuição e vontade

NISHIDA, Kitarō. De la chose qui agit au soi qui voit. Tradução: Jacynthe Tremblay. Montréal: Les Presses de l’Université de Montréal, 2023.

1. Plotino afirmou que o criar da natureza consiste em intuir e que todas as coisas buscam a intuição do Uno, e o que melhor revela o sentido dessa intuição é o autodespertar (autoéveil), no qual o eu se conhece como objeto e conhecer é agir e criar, de modo que o eu não existe fora desse conhecer.

2. Costuma-se crer que não há autodespertar na sensação, mas então resta saber de onde provêm cores e sons, que não são produzidos por causas físicas, meras hipóteses explicativas, questão já posta por Plotino ao perguntar como impulsos e alavancas poderiam produzir a variedade das cores e das formas.

3. O que produz a cor deve ser a própria cor, e o que produz o som, o próprio som, pois o inteiramente originário, não produzido por outro, deve agir por si, de modo que conhecer-se significa que o espírito se move a partir de seu interior e cria por si mesmo.

4. Esse ato de criação se mostra melhor na intuição artística, em que agir é ver e ver é agir, e, embora Plotino considerasse o agir uma forma fraca da intuição, o ato de criação artística deve ser ao mesmo tempo conhecimento, pois, contra a ideia de que o agir segue o conceito e tem seu fim na intuição, em toda unidade final o fim retorna ao começo e o objetivo se vê quando seu estágio inicial se realiza.

  • A criação artística não é aplicação de um conceito prévio, mas ato que se conhece ao realizar-se.
  • A circularidade entre fim e começo caracteriza toda unidade finalística.

5. Na concepção habitual do agir, o movimento do mundo exterior interpõe-se entre fim e começo, fazendo dele, como em Plotino, forma fraca e imperfeita de intuição, e crê-se que só na “vontade interna” se vê o interior do coração, mas na intuição artística, desenvolvimento do conteúdo volitivo que transcende a posição intelectual, nenhum mundo exterior se intercala entre começo e fim, e a totalidade torna-se intuição unitária sem “espaço” nem “tempo”, em que o próprio agir se torna diretamente ver.

  • O agir comum permanece intuição imperfeita porque depende da mediação exterior.
  • A intuição artística supera essa mediação e une agir e ver sem intervalo.

6. Que os espíritos transcendam o espaço e interajam diretamente significa que englobam em si o agir assim compreendido, razão pela qual a intuição está no fundamento da consciência, que se torna tanto mais evidente quanto mais o espírito engloba o agir, tornando-se possível, sob forma de unidade teleológica, a concomitância de sentido e realidade.

7. Plotino pergunta se quem pode ver diretamente a verdade precisa buscar a ação, sombra da verdade, e sustenta que quanto mais espiritual alguém se torna, mais sua intuição se torna imóvel e separada do agir, mas a explicitação da intuição não nega o agir, e sim o engloba, assim como não suprime tempo e espaço, mas os inclui em si.

8. Conhecer as coisas significa também que o coração age, pois até o sujeito intelectual deve ser ato de construção, e não simples espelho que reflete as coisas, sendo as formas do sujeito cognoscente da ordem do dever-ser em relação aos atos cognitivos e o sujeito meramente passivo apenas um conceito-limite negativo.

9. Os intelectualistas sustentam que vontade e sentimentos, tomados como matéria de reflexão, se reduzem a objetos intelectuais, mas assim reduzidos seriam meras sensações orgânicas ou cinestésicas, quando na verdade são experimentados de novo a partir de uma posição transcognitiva, de modo que o sujeito intelectual não pode ultrapassar o sujeito volitivo, situando-se antes nele.

10. A unidade do eu reside na combinação imediata dos atos de consciência, semelhante ao puro ato de autoposição de Fichte, sendo o verdadeiro sujeito algo que age nesse sentido, uma ação sem agente, e, embora o eu seja de um lado eu que conhece e de outro eu que age, o primeiro não engloba o segundo por ser maior, mas une-se a ele.

11. Na intuição artística o eu que age é diretamente o eu que conhece e vice-versa, e, embora do ponto de vista do eu que conhece seu conteúdo pareça invariável e o processo de conhecê-lo exterior, como na tese plotiniana de que a parte racional do espírito é invariável e imóvel e o que dela procede apenas participa dela, na unidade teleológica não se separa o que se move do que não se move, avançar é recuar e mover-se é diretamente ver.

  • A perspectiva do eu cognoscente tende a fixar o conteúdo e a exteriorizar o processo.
  • A unidade teleológica dissolve a oposição entre movimento e imobilidade.

12. Intuir não se separa das múltiplas relações e processos, mas consiste em apreender a essência do impuro purificando-o e tornando-se ação pura, de modo que ver apenas com os olhos não é intuição e o conhecimento adequado também é intuição nesse sentido, e, assim como uma luz que não ilumina infinitamente longe não está na luz, o que emana da parte primeira e imóvel do espírito deve ser, em relação a ela, algo necessário e não contingente.

13. Agir é intuição no sentido de que o espírito retorna a si, de modo que não só ver, mas também pensar é intuição, embora o que mais propriamente merece esse nome talvez esteja no autodespertar volitivo, em que agir verdadeiramente é diretamente conhecer.

14. Os desejos não provêm das coisas, mas são satisfeitos porque partem do eu e a ele retornam, dependendo de suas exigências que a água seja objeto de desejo, de modo que, sendo os desejos criação do eu, satisfazê-los é construir e ver objetivamente o eu, e saborear a água é ao mesmo tempo conhecê-la e ver o eu, parecendo os desejos saciados pela água quando na verdade o são porque o eu se vê em si.

15. Se intuição significa que o espírito se desenvolve e retorna a si, o si se intui verdadeiramente nesse ato, e no instante em que se vê uma cor, se ouve um som ou se pensa uma verdade, cor, som ou verdade se intuem, mas esses atos não são completos em si, não retornam ao início e formam um sistema aberto.

16. Quando, ao contrário, o ato de consciência retorna a si, unindo fim e começo, isto é, quando o próprio ato desperta para si, há uma forma de vontade, e só então se podem conhecer os fenômenos do espírito, pelos quais os atos despertam para si e se objetivam, o que requer situá-los a partir do “ato dos atos”, que os determina como tais.

17. Por isso, segundo Plotino, todos os seres se estabelecem pelo Uno, o “bem”, e todos tendem a ele, que retorna a si e se intui sob forma de vontade, forma pela qual todo ato de consciência retorna a si e se intui, residindo o agir no ver, como no autodespertar o próprio ato de reflexão é intuir-se, e, como o ato não pode conhecer-se enquanto agente e ação estão separados, intuir é, para ele, tornar-se o próprio ato puro.

  • O Uno plotiniano é aqui interpretado como bem que retorna a si na forma da vontade.
  • O modelo do autodespertar mostra que refletir sobre si e intuir-se coincidem.

18. Tudo o que existe é algo que age, e o agir do espírito significa que ele se vê, consistindo a vontade em que um ato do espírito se vê continuamente e a intuição em que retorna ao princípio, sendo ver-se, para o si, estar satisfeito, ao passo que vontade e conhecimento se separam quando os atos não conseguem unir-se, isto é, quando não despertam para si.

19. Como estabeleceu Agostinho, passado, presente e futuro estão no espírito, o passado na memória, o futuro na esperança e o presente na intuição, devendo a realidade verdadeira ser ao mesmo tempo objeto de conhecimento e objeto de esperança, e a verdade eterna adequada é vista na combinação desses dois extremos, conhecimento e esperança.

20. O “amor intelectual” de Espinosa deve ser o bem infinitamente ativo de Plotino, intuição de si inobjetivável em qualquer sentido, de modo que o intuir-se do ato consiste antes em estar satisfeito que em conhecer, pois o que é exterior a um ato torna-se mero objeto intelectual, enquanto no conhecimento adequado conhecer é estar satisfeito e a satisfação volitiva está nele contida, devendo o ato ver-se a partir da posição da vontade.

21. Plotino afirma que “a inteligência deve ter dois poderes, o de pensar, para ver o que está nela, e o de ver o que está além de si mesma: é uma intuição que recebe seu objeto; primeiro a alma apenas o vê; depois, ao vê-lo, torna-se inteligência e une-se a ele. O primeiro desses poderes é o ato de contemplar próprio de uma inteligência sábia; o segundo é a inteligência que ama”, e, de fato, o espírito não pode ver-se quando vê as coisas em si, pois sujeito e objeto se separam, mas quando, pela intuição, vê o que está além de si, o ato se conhece a partir do ato dos atos e desperta para si.

  • Ver as coisas dentro de si mantém a separação entre sujeito e objeto.
  • Ver o que está além de si, pela intuição amorosa, é o que permite ao ato despertar para si.

22. O processo volitivo significa que o ato se conhece desse modo e se une ao Uno, sendo a vontade processo intuitivo que procede do Uno e a ele retorna, de modo que, se do ponto de vista do conhecimento o agir parece inútil a quem intui a verdade, do ponto de vista da vontade todo agir é indispensável como conteúdo da intuição, e do ponto de vista do Uno tudo deve tornar-se conteúdo intuitivo, sem caminho direto nem desvio para o que transcende o espaço, estabelecendo-se também no Uno a oposição entre movimento e imobilidade.

23. A intuição não consiste em refletir estaticamente as coisas, como as veem os olhos, mas em que sujeito e objeto se tornem ação pura e o espírito se desenvolva, razão pela qual pode ser compreendida como vontade, cujo ponto culminante é a intuição, pois o espírito começa e termina com a vontade, que se torna intuição quando consegue unir-se a ela, formando um círculo.

24. Para ver assim as coisas que agem é preciso um círculo infinitamente grande que as englobe, razão pela qual tudo é intuído no Uno, que tudo engloba e em nada é englobado, e para ver imobilizando o que se move é preciso, além disso, algo que se mova por si, sendo o Uno movimento infinito no sentido de englobar infinitamente o que se move e vê-lo imobilizando-o, embora a vontade não seja mero movimento ou mudança, pois o fim está contido no começo e o próprio objetivo, invariável e imutável, é o que produz as mudanças.

25. A afirmação de Plotino de que “o tempo é a imagem da eternidade” tem significado profundo, pois só vê o tempo o que nutre em si insatisfação, e não há tempo no que está satisfeito em si, que é a eternidade.

26. O Uno, bem que é fim de todas as coisas e para o qual todas se movem, deve ser imutável e absolutamente satisfeito em si, como o primeiro motor (first mover) de Aristóteles, unidade invariável de atos infinitos, e, embora ao falar de unidade dos atos se pense logo numa unidade imóvel, essa não passa do caput mortuum de Hegel, pois o si examinado não é o verdadeiro si, que vê o eterno e imutável tornando-se ato puro, manifestando-se assim o verdadeiro e o belo eternos.

27. A vontade infinita é um processo que alcança a intuição do Uno, no qual há concomitância de movimento e imobilidade e de imobilidade e movimento, e tomá-lo por mistério incompreensível seria retornar ao si que pensa, pois o que se reflete no domínio dos objetos de conhecimento, a história do si irrepetível, é antes sombra do si que o verdadeiro si agente.

28. O si agente é invariável diante das mudanças do tempo, sendo o eu, como causa do que se move, também seu fim, e quanto menor o intervalo entre causa eficiente e causa final, mais o eu se torna, transcendendo o tempo, unidade de atos puros, ao passo que a mudança temporal surge quando ambas se separam.

  • O si parece fluir no curso do tempo eterno porque se veem como si todos os si refletidos.
  • O Uno, unidade de todos os atos, sem nada exterior a si e si de todas as coisas, une-as e é movimento infinito, permanecendo eternamente em si mesmo.

29. Separadas causa eficiente e causa final, a primeira reduz-se a meio vista a partir da segunda, mas, sendo movida por ela, a subordina, agindo ambas mutuamente, e a verdadeira causa final deve englobar a eficiente, pois esta age no tempo e segundo seu curso, enquanto a final age fora dele, tornando-o sua expressão, e é regressão do tempo, que permite vê-lo como algo invertido.

30. Tudo passa no tempo, mas o próprio tempo, estacionário, forma uma unidade teleológica formal, sendo a unidade teleológica tempo dotado de conteúdo e o tempo já uma intuição formal, e a eternidade, união do que procede do princípio e do que a ele retorna, união de movimento e imobilidade, é a intuição em que se vê a verdade eterna.

  • Disso depende que os conhecimentos purificados num a priori sejam, cada um em sua posição, verdade eterna.
  • As diversas belezas artísticas têm valor eterno porque cada uma, a partir do “ato dos atos”, é autodespertar do próprio ato e, portanto, intuição.

31. Ao pensar o tempo vê-se a forma de um ato que desaparece a cada instante, e não há tempo num sistema fechado, sendo visível apenas num sistema aberto, podendo ser visto como combinação que parte de um sistema fechado rumo ao sistema que está por trás dele e o engloba.

32. Observado o mundo tridimensional a partir do bidimensional, a unidimensionalidade de ambos é o eixo do tempo, e, vivendo-se num mundo tridimensional, uma das dimensões do mundo quadridimensional de Minkowski deve ser o eixo do tempo, mas quando o ato é objeto de reflexão a partir da posição dos atos, o tempo é englobado numa posição superior e torna-se processo de desenvolvimento volitivo, e quando o ato dos atos desperta para si e se faz criador, a vontade perde sua realidade e torna-se intuição, cuja unificação infinita é o Uno, intuição da intuição.

  • A analogia dimensional mostra o tempo como eixo que liga um nível de mundo a outro mais englobante.
  • A vontade é superada e consumada na intuição quando o ato dos atos se torna criador.
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