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3 Presente

TREMBLAY, Jacynthe. Auto-éveil et temporalité: les défis posés par la philosophie de Nishida. Paris: l’Harmattan, 2007.

O tempo como autodeterminação do presente

1. O autodespertar conserva sua importância ao longo da filosofia de Nishida, mas passa a ser compreendido como basho, de modo que sua relação com a temporalidade não fique limitada a um acontecimento psicológico ou à atividade de um sujeito transcendental.

1 — O não ser do tempo

1. A pergunta pela origem e pela possibilidade de pensar o tempo põe em questão sua representação como curso retilíneo que avançaria de um passado infinito para um futuro infinito.

2. O futuro ainda não chegou e o passado já passou, de modo que nenhum dos dois pode ser tomado simplesmente como algo presente e disponível ao conhecimento; essa dificuldade aproxima a interrogação de Nishida da de Agostinho.

3. A possibilidade de medir o tempo depende da questão mais fundamental de seu ser: o passado já não é, o futuro ainda não é e o presente só é temporal porque deixa de ser, razão pela qual a própria existência do tempo se mostra paradoxal.

4. Embora o uso cotidiano da linguagem permita falar do passado, do presente e do futuro como algo compreensível, essa familiaridade não basta para explicar o que é o tempo.

5. A dificuldade de atribuir ser ao passado e ao futuro torna igualmente problemática sua medida, ainda que seja habitual falar de tempos passados ou futuros como longos e curtos.

6. O presente tomado isoladamente não resolve a questão da medida, pois o passado e o futuro precisam ser compreendidos nele como memória e expectativa, modalidades pelas quais se tornam possíveis um passado lembrado e um futuro esperado.

7. Se o presente fosse divisível e tivesse duração, parte dele já seria passado e parte ainda seria futuro; considerado como instante indivisível, porém, não possui extensão, dificuldade que também orienta a reflexão de Nishida.

8. O tempo que passa pode ser percebido e medido pela consciência, ao passo que o passado consumado e o futuro ainda inexistente parecem escapar a toda medida justamente por não serem presentes.

9. A memória e a expectativa permitem restituir ao passado e ao futuro uma presença própria, sem que os acontecimentos recordados ainda existam ou os acontecimentos previstos já tenham ocorrido.

2 — O presente-basho

1. O tempo não retorna ao instante anterior, e passado e futuro só podem ser conhecidos a partir do presente: ambos se orientam para ele, do qual o mundo provém e ao qual retorna.

2. A compreensão do presente como basho torna decisiva a diferença entre o instante que se tenta fixar e o âmbito no qual passado e futuro podem aparecer e ser compreendidos.

3. O presente constitui o centro móvel da realidade e engloba passado e futuro; por isso, a determinação temporal exige um âmbito que contenha a mudança sem se reduzir a mais um ponto da sucessão.

4. O passado desaparece e o futuro nasce no presente, enquanto o tempo se extingue e surge a cada instante como continuidade da descontinuidade.

5. Cada instante toca o nada absoluto porque desaparece ao ocorrer; o presente que engloba os momentos temporais não recebe sua determinação de algo situado atrás dele e se compreende como universal do nada.

6. Nem mesmo o presente da consciência é um ponto imóvel numa linha, pois a consciência contém dinamicamente seus objetos, e o presente constitui tanto o centro da realidade quanto a forma da memória e do conhecimento.

7. A autodeterminação do presente possui a estrutura de uma autoidentidade contraditória, na qual passado e futuro não são apenas momentos sucessivos, mas termos que se opõem no próprio âmbito de seu aparecimento.

8. O mundo histórico não se determina exclusivamente pela causalidade do passado nem pela finalidade do futuro: no presente, o passado já passou sem estar inteiramente ausente, e o futuro ainda não chegou embora já se anuncie.

  • O que foi criado ingressa no passado e, por sua autonegação, participa da constituição de um futuro e de um novo sujeito criador.

9. O presente é o lugar temporal no qual passado e futuro se vinculam por negação recíproca, conservando sua oposição em vez de se fundirem numa identidade simples.

10. A oposição entre passado e futuro possui a mesma estrutura da oposição entre sujeito e meio no mundo histórico, pois ambas se desenvolvem mediante negação recíproca no âmbito que as engloba.

11. Termos contraditórios somente podem opor-se porque se encontram em um basho comum; a contradição passa, assim, a ser compreendida em seu surgimento e em sua transformação, e não apenas como incompatibilidade lógica.

  • A oposição e a síntese implicam-se contraditoriamente, pois nenhuma oposição concreta se estabelece sem um ponto de contato.

12. No mundo histórico, o tempo constitui o modo pelo qual se produz a passagem do criado ao criador, e a forma do presente exprime essa produção efetiva de realidade.

13. Quando a produção apenas repete o mesmo, o tempo aparece como progressão retilínea e o presente se reduz a um instante vazio, tal como ocorre no tempo físico concebido como repetição.

14. No mundo biológico, a orientação para o futuro introduz finalidade e confere ao presente uma forma subjetiva, convertendo a simples progressão do passado ao futuro em uma relação circular.

15. A vida biológica já apresenta oposição entre passado e futuro no presente-basho e formação recíproca entre sujeito e meio, mas seu processo finalístico ainda não alcança a criação própria do presente histórico.

16. No mundo histórico e social, passado e futuro se opõem absolutamente no presente, e o que foi criado passa a criar aquilo que cria; a produção torna-se efetivamente criadora porque seus resultados participam da formação de novos agentes.

17. A criação histórica produz coisas novas mediante a oposição entre passado e futuro infinitos, transformando a sucessão retilínea em um movimento circular no qual o produzido intervém na própria produção.

18. A dialética da vida histórica conserva o passado no presente sem simplesmente repeti-lo: suas múltiplas negações abrem futuros possíveis, e da intensificação dessa oposição surge um mundo novo.

19. Na dialética prática, oposição e síntese constituem-se reciprocamente como forma efetiva da produção do mundo, sem que a síntese suprima a contradição entre passado e futuro.

20. O presente histórico contém um elemento que o transcende, pois, ao englobar passado e futuro e adquirir forma, nega sua identidade estabelecida e se forma expressivamente.

21. O mundo histórico constitui-se de um presente a outro porque passado e futuro se unem por negação recíproca; sua forma presente é, ao mesmo tempo, seu modo de produzir novos sujeitos e novas realidades.

22. O presente assume o passado e traz consigo a possibilidade do futuro, de modo que a sucessão temporal inteira adquire sentido a partir do âmbito presente que a engloba.

23. A coexistência de inúmeros instantes confere ao presente o caráter de basho: cada presente reúne uma multiplicidade temporal sem se converter, por isso, em um espaço físico extenso.

24. A pergunta pelo lugar do passado e do futuro conduz à compreensão de que ambos somente podem existir enquanto presentes, embora os acontecimentos passados já não ocorram e os futuros ainda não tenham ocorrido.

25. A investigação do lugar dos acontecimentos narrados e previstos exige reconhecer uma multiplicidade interna ao presente, para além de sua definição como instante sem extensão.

26. O presente pode ser simultaneamente destituído de extensão física e basho do passado e do futuro, porque o âmbito que os engloba não é um recipiente espacial mensurável.

27. A questão pelo lugar do tempo conduz à distinção entre o presente-basho e o presente cronológico da atenção, situado, ele próprio, naquele âmbito mais abrangente.

28. A relação entre esses dois sentidos de presente depende da autodeterminação do presente-basho, que contém o passado, o presente cronológico e o futuro sem se confundir com qualquer um deles.

3 — O presente, forma da memória e da previsão

1. A relação entre passado, presente e futuro se estabelece a partir do presente, pois a memória vincula aquilo que passou ao que ainda permanece significativo, enquanto a previsão antecipa o que ainda não chegou.

2. O passado permanece acessível pela memória, cuja amplitude permite conservar imagens, pensamentos e experiências sem reduzir sua presença à ocorrência atual dos acontecimentos recordados.

3. A memória constitui um âmbito no qual se situam também o esquecimento e a própria capacidade de lembrar; essa inclusão pertence à realidade da experiência, em vez de funcionar apenas como comparação figurada.

4. Recordar um acontecimento passado significa encontrar no presente sua imagem conservada, pois o acontecimento deixou de existir enquanto ocorrência, embora sua marca ainda possa ser evocada.

5. As expressões de lugar associadas à lembrança mostram que a imagem do passado é encontrada na memória presente, abrindo a questão pelo âmbito no qual ela permanece acessível.

6. O presente-basho pode ser compreendido como lugar de surgimento do passado enquanto memória e do futuro enquanto expectativa, sem que a presença de ambos dependa de sua existência como acontecimentos atuais.

7. A concepção habitual da memória supõe que uma experiência intuída seja posteriormente conservada e recuperada; as representações assim retidas também participam da construção do pensamento.

8. A memória não consiste em simples depósito de representações, pois seu conteúdo constitui conhecimento da realidade e se aprofunda com o próprio si; lembrar é uma intuição dos acontecimentos em sua mudança.

9. A formação da lembrança requer, no fundo da memória, uma intuição que desapareça com cada instante sem simplesmente se perder, condição pela qual um fato já passado pode continuar acessível no presente.

10. A memória realiza uma continuidade da descontinuidade ao reunir acontecimentos individuais distintos sem apagar sua separação; sua unidade permanece disjunta e se torna mais determinada quanto mais se ajusta à singularidade dos fatos.

11. O futuro situa-se na expectativa ou na esperança, assim como o passado se situa na memória; uma ação futura pode ser antecipada agora, embora só venha a existir como acontecimento quando for realizada.

12. As imagens presentes da memória remetem a acontecimentos passados, enquanto sinais e causas presentes permitem prever acontecimentos futuros; em ambos os casos, aquilo que se vê atualmente não é o próprio acontecimento ausente.

13. A previsão é possível porque sinais existentes no presente anunciam algo que ainda não ocorreu, conferindo ao futuro uma forma de presença sem antecipar sua realização efetiva.

14. O presente reúne o conhecimento do que passou e a esperança do que virá, articulando memória e previsão em uma mesma experiência da realidade.

15. Como basho da memória e da previsão, o presente engloba ambas: o passado situa-se na memória, e a memória, por sua vez, situa-se no presente que lhe confere forma.

4 — A autodeterminação do presente

1. A memória, a intuição direta e a expectativa correspondem, respectivamente, ao presente do passado, ao presente do presente e ao presente do futuro; essa articulação exige distinguir o lugar que engloba os tempos da atenção voltada ao agora.

2. A pergunta pelo lugar do passado e do futuro encontra na vida do espírito uma resposta formulada em termos de interioridade, embora permaneça aberta a relação precisa entre esse lugar e as imagens pelas quais se recorda ou prevê.

3. O passado e o futuro tornam-se compreensíveis quando o presente se fixa como atividade que os engloba; o movimento do mundo, assim, provém do presente e a ele retorna.

4. A expressão «presente do presente» exige distinguir o presente cronológico do presente-basho, em vez de considerar este último apenas uma versão ampliada do instante atual.

5. O «presente do presente» significa que o presente se determina em si mesmo, segundo uma estrutura análoga àquela pela qual o si se vê no si; o decisivo é o âmbito no qual essa determinação ocorre.

6. O presente-basho não possui um determinante anterior: se algo situado atrás dele determinasse seu conteúdo, o passado voltaria a comandar o presente; sua autodeterminação é, por isso, autodeterminação do nada.

7. O tempo cronológico situa-se no presente-basho e, ao ser por ele englobado, encontra sua própria autonegação, razão pela qual sua continuidade contém uma contradição constitutiva.

8. O presente cronológico pertence à ordem do ser, enquanto o presente-basho constitui o âmbito de sua emergência mediante a autodeterminação do nada que o engloba.

9. A determinação do nada ultrapassa e contém a autodeterminação do presente sem avançar por uma sequência objetiva de pontos; seu movimento ocorre por saltos.

10. Essa determinação descontínua engloba e nega o tempo retilíneo, constituindo elementos independentes precisamente ao interromper sua continuidade.

11. A determinação-basho estabelece elementos que, ao se negarem, continuam a se autodeterminar temporalmente; assim, a passagem de um presente a outro ocorre por salto.

12. O tempo verdadeiro nasce e desaparece a cada instante como unidade de instantes individuais descontínuos, constituída pela autoidentidade contraditória e pela autodeterminação do presente.

13. O presente é o ponto em que o nada se autodetermina: nele o passado infinito desaparece, o futuro infinito nasce e o tempo se constitui como continuidade da descontinuidade.

5 — A passagem ao agora eterno

1. A amplitude do presente nishidiano se revela quando sua função de basho é acompanhada até um âmbito capaz de englobar também o próprio presente.

2. Passado, presente e futuro cronológicos situam-se no presente-basho e dele provêm como suas determinações, adquirindo um sentido diverso daquele de uma simples sucessão temporal.

3. As expressões «presente do passado» e «presente do futuro» também aparecem invertidas como «passado do presente» e «futuro do presente», deslocamento que acentua a proveniência dos tempos a partir do presente.

4. A formulação segundo a qual passado e futuro pertencem ao presente exprime a necessidade de algo que englobe a mudança para que a determinação temporal seja possível.

5. «Passado do presente» e «futuro do presente» designam não só a inclusão de ambos no presente, mas também sua constituição como direções de sua autodeterminação.

6. A lógica do basho permite aprofundar a pergunta pelo lugar dos tempos, pois distingue o âmbito que os engloba dos acontecimentos recordados, presentes ou esperados que nele se situam.

7. Embora conserve as mesmas palavras, «presente do presente» também muda de sentido na companhia das expressões invertidas: o primeiro presente designa então o basho, enquanto o segundo designa o presente cronológico nele situado.

8. A alternância entre as duas formulações acompanha a presença das noções de eternidade e de agora eterno, indicando uma ampliação da estrutura que engloba o tempo.

9. O presente do presente, enquanto autodeterminação interior do presente, possui o teor da eternidade e abre a compreensão do autodespertar do nada como surgimento incessante de um agora novo.

10. O tempo e a história são determinações do agora eterno: a passagem do passado infinito ao futuro infinito ocorre no mundo do presente que se autodetermina e no qual os indivíduos se situam.

11. O presente-basho, que engloba os momentos cronológicos, situa-se por sua vez no agora eterno, a partir do qual as relações entre si, autodespertar, indivíduo e história adquirem uma dimensão mais abrangente.

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