Desejo
STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.
O desejo. Que significa “Não cedas de teu desejo”?
1. A leitura do último capítulo do Seminário 7 de Lacan sobre a Ética da psicanálise surpreende não apenas pelo conteúdo transmitido, mas pelo problema introduzido em seu título, Os paradoxos da psicanálise, ou: Agiste em conformidade com teu desejo?
2. A exposição explicita e radicaliza os elementos implicados na expressão paradoxos e num silêncio sobre a fala que percorre as análises, acentuando-se um paradoxo entre ética e psicanálise ao mesmo tempo em que resta interrogação sobre o vetor que sustenta esse paradoxo, a saber, a questão da fala.
3. A relação do homem com o desejo e a determinação do lugar a partir do qual essa relação assume relevância operacional exigem distinguir entre o modo teórico de abordar a ética da psicanálise e a questão do lugar que a clínica representa como palco dessa mesma ética.
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Lacan reconhece a ética como juízo sobre nossa ação, sugerindo em seguida que a ética também se refere a uma ação que comporta um juízo, descrito como implícito.
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O termo implícito deve ser lido não como elemento secundário e dependente, mas como aquilo que, embora oculto, sustenta o juízo sobre a ação, remetendo a uma dimensão em que a ação de um juízo equivale a um operar, um comportar-se, um enunciado de um comando.
4. Instaura-se assim uma ambiguidade que não pode ser eliminada, mas deve ser pensada, esclarecida pela afirmação lacaniana de que a presença do juízo dos dois lados é essencial à estrutura, o que implica sempre duas margens entre as quais algo se situa ou acontece.
5. Lacan afirma que a análise fornece algo que se coloca como medida de nossa ação, procedendo por um retorno ao sentido da ação, o que situa a psicanálise na dimensão moral, apoiando-se na hipótese freudiana de que a ação humana possui um sentido escondido para o qual se pode dirigir.
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Esse sentido escondido implica isolamento de planos, havendo, no nível da vivência, um sentido mais profundo que a guia, não sendo as coisas as mesmas quando as duas camadas são separadas.
6. Lacan sintetiza o motivo dessas duas camadas na revisão da ética a que a psicanálise conduz, a relação da ação com o desejo que a habita, reconhecendo a natureza do desejo no âmago da experiência humana pela pergunta “agiste conforme o desejo que te habita?”, pergunta que só pode ser feita no contexto analítico e permanece profundamente marcada de ambiguidade.
7. Lacan introduz então a expressão ceder de seu desejo, propondo que a única culpa possível, na perspectiva analítica, é ter cedido de seu desejo, sendo o desejo aquilo que suporta o tema inconsciente, ligando-se assim ceder de seu desejo ao próprio destino do sujeito e à estrutura mesma.
8. Aproximamo-nos assim da formulação quase imperativa “não cedas de teu desejo”, permanecendo por explicitar por que se fala do ceder de seu desejo além do nível descritivo de um bom conselho, já que ouvir essa frase introduz efetivamente na dimensão clínica da psicanálise.
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Charles Melman resume que o inconsciente freudiano não é a soma do que escapa à consciência, mas o lugar onde se busca reconhecer o sujeito de um desejo ignorado pelo próprio locutor, especificado por seu estatuto clínico e por sua relação estreita com a verdade.
9. “Não cedas de teu desejo” introduz no estatuto clínico da psicanálise um universo em que se move o sujeito do desejo, abrindo-se para ele o espaço de uma outra ética, diferente do juízo negativo sobre a ação, consistindo antes num modo de ser por meio de um modo de proceder.
10. Traduzir o comando que vem do enunciado, e não o enunciado que vem de um comando, permite duvidar de que “ne cède pas sur ton désir” seja simplesmente um enunciado, abrindo-se nele um abismo simbolizado por reticências que apontam para o que falta, separando “não ceder” e “teu desejo” em duas margens sustentadas por aquilo que não está presente.
11. Considerar “não cedas de teu desejo” como comando de um enunciado produz sentido diferente de percebê-lo como enunciado de um comando, movendo-se a decifração entre dois comandos que se enfrentam, o do “não cedas” e o do “ao teu desejo”, topando-se com o paradoxo entre a cena da superfície e a outra cena que a psicanálise inaugura.
12. Estamos, assim, diante de um enunciado omitido em outro enunciado, cuja ambiguidade só sai de seu encobrimento quando põe em perplexidade quem o escuta, sugerindo-se a leitura “não cedas — quando falas — de teu desejo”, em que a passagem pelo abismo se dá no movimento do desejo que acontece na fala.
13. A estratégia do duplo enunciado, ao introduzir a fala acompanhada de forma adverbial temporal, retira do enunciado aparentemente imperativo a rigidez de comando, deslocando-o para uma condição temporal que acompanha a fala e faz o “não cedas” perder a onipotência da imperatividade.
14. Ao convertermos o comando do enunciado em enunciado de um comando, caímos numa condição bifronte demarcada pelas margens do “não cedas” e do “de teu desejo”, separadas por um abismo que, para a cena de profundidade, recebe o socorro do próprio falar, de modo que cair é sempre cair falando, o que constitui amparo para quem cai.
15. As duas margens, vizinhas mas separadas como duas montanhas, só se atravessam pelo território da fala, exigindo docilidade ao enunciado de um comando já sempre recebido pelo desejo por meio de uma compreensão vinda da outra cena, não redutível à lógica de um comando, mas à lógica do desejo.
16. A aposterioridade que a psicanálise decifra como enigma aproxima-se de resposta quando a lógica do desejo é suspensa nas ocasiões do “quando falas”, momento privilegiado de escuta em que as duas margens se encontram como surpresa.
17. A imagem de vizinhança separada, evocando a afirmação de que poetar e pensar são vizinhos que habitam montanhas separadas, aplica-se igualmente a “de teu desejo” e “não cedas”, vizinhos mas separados pelo “quando falas”, devendo o enunciado emanar de um lugar ocupado por quem se manifesta, configurando-se como enunciado autorreferido, um enunciado do desejo.
18. A estratégia de decifração do enigma consistiu em produzir a diferença entre as duas margens fundadoras de um abismo, socorrido pelo “quando falas”, de onde emergem as estruturas do sujeito da psicanálise, sempre posto nessa dupla estrutura ligada à importância do falar.
19. Do enunciado de um comando emerge a ética da psicanálise, distinta de qualquer outra ética por não se originar do comando de um enunciado que impõe limites, convocando antes para a liberdade entendida como deixar acontecer, no “quando falas”, o sintoma do desejo, sem exigir submissão.
20. A ética da psicanálise distingue-se da ética filosófica ligada ao caráter, o ethos com épsilon, encontrando seu lugar no ethos com eta, onde o desejo encontra morada, não sistematizável, acontecendo no enunciado do comando “não cedas de teu desejo” um falar sempre da ordem do sintoma que atravessa o abismo do “quando falas” para desafiar quem escuta a encontrar o retorno do recalcado.
21. Falar em ética da psicanálise aponta, assim, para a morada do desejo constituída pelo acontecer, no “quando falas”, da outra cena, elemento que produz a diferença entre as duas éticas e que se percebe, na outra margem, como movimento em que se desvela a verdade do sujeito na ordem do desejo, restando um enigma a ser aberto pela estratégia de produção da diferença entre as duas margens, ao longo do caminho de mão dupla entre o comando de um enunciado e o enunciado de um comando.
