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Filosofia e Poesia

DUFRENNE, Mikel. The notion of the A Priori. Evanston, Ill: Northwestern Univ. Press, 2009.

1. Para passar da afinidade entre o homem e o mundo à sua possibilidade, seria necessário relacionar a dualidade do a priori a uma entidade superior, uma unidade que carregasse essa dualidade dentro de si, mas essa unidade não pode ser uma totalidade como a de Leibniz, pois o a priori confirma a dualidade em vez de anulá-la, e a afinidade entre os termos não os torna homogêneos.

2. A ideia de um a priori do a priori não pode recorrer à noção de virtualidade, pois a virtualidade já foi empregada para definir o a priori subjetivo, e ela se refere a algo atual, pertencendo a um sujeito atual, assim como o a priori objetivo é uma possibilidade que pertence ao mundo real, e não se pode fazer um ser da virtualidade, apenas um modo de ser.

3. O mundo poderia ser a entidade última da qual os dois aspectos do a priori derivam, mas esse mundo deve ser concebido como um mundo sem correlato, como a natureza naturante, que engendra tanto o sujeito quanto o objeto em uma gênese radical, e essa é a concepção de uma filosofia da natureza que pensa em termos de devir.

4. A identificação do pensamento e do Ser, como em Parmênides, leva a um monismo que supera a dualidade sujeito-objeto, mas essa identidade é problemática, pois o pensamento não é o pensamento de ninguém, e a ontologia que resulta disso tende a ser uma teologia, mesmo que secularizada.

5. A ideia de que o Ser é a luz que se revela, como em Heidegger, é uma tentativa de conceber uma unidade que precederia a dualidade, mas essa unidade é indistinta, e a identificação do Ser com o aparecer emascula o Ser, privando-o de sua realidade, opacidade e inércia, e a imagem pressupõe uma subjetividade na qual se reflete.

6. A filosofia não pode, sem se perder, ultrapassar o ponto em que descobre a dualidade e a afinidade entre homem e mundo, e esse é um fato que forma um fundamento, mas que não pode ser fundamentado além, e a filosofia deve aceitar que a metafísica é impossível, mesmo que a necessidade dela seja irrepressível.

7. A poesia, ao contrário da filosofia, parece transportar-se para além do dualismo, e o mundo deixa de ser o outro, sendo feito à medida e à imagem do homem, e a linguagem retorna ao seu estado primordial, onde as coisas têm alma e se assemelham a nós, e a natureza é humana, e a poesia é a expressão de uma experiência que se recusa a ser encerrada em um sistema.

8. O poético atesta a energia da física, uma energia medida que é ao mesmo tempo poder e graça, e essa energia constitui a alma do mundo, na medida em que regula e harmoniza tudo o que existe, e o poético é outro a priori que deve encontrar algo correspondente na estrutura transcendental do sujeito.

9. A poesia se move na esfera do sentimento, e há poesia quando algo nos é comunicado que só é comunicável dessa forma, e o sentimento exaltado pela poesia não tem objeto senão o mundo, que envia de volta a esse sentimento sua própria imagem, e a poesia purifica o sentimento, retendo apenas seu componente noemático.

10. A poesia expressa o acordo entre o homem e o mundo, e ela o vive e o faz viver, mas o mundo da poesia não é apenas subjetivo, pois os mundos particulares representam possibilidades do mundo real, e a poesia não mente, mas não fala do mundo total, e não resolve os problemas levantados pela filosofia.

11. A filosofia pode refletir sobre a poesia e encontrar nela um projeto relacionado ao seu, mas não deve imitá-la, pois a filosofia é reflexão, e sua ferramenta própria é a análise, e sua virtude peculiar é o rigor, e a experiência filosófica deve ser continuamente conceituada, não revivida, e o filósofo deve provar-se fazendo filosofia.

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