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estudos:davis:hkc:linguagem

Linguagem

John T. Lysaker. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.

An orientation

1. O cerne dos pensamentos de Heidegger sobre linguagem reúne-se em A caminho da linguagem (GA12), décimo segundo volume de sua Edição Completa, tema que também surge em outras obras publicadas como o §34 de Ser e Tempo, “A origem da obra de arte” (GA5) e “Carta sobre o humanismo” (GA9), além de diversos cursos e manuscritos inéditos.

2. Por considerar Heidegger um fenomenólogo empenhado em desvelar os fenômenos tal como eles se mostram a partir de si mesmos, e não conforme paradigmas de conhecimento existentes, recusa-se aqui uma leitura cronológica que rastreie uma “visão” evolutiva, pois isso desviaria a atenção do próprio fenômeno da linguagem, sendo a advertência do próprio Heidegger de que o relato de uma nova visão sobre a linguagem pouco importa, dependendo tudo de aprender a habitar (wohnen) no falar da linguagem.

3. Heidegger busca conduzir a ter uma experiência (Erfahrung) com a linguagem, o que significa que algo nos acomete, nos atinge, nos sobrevém e nos transforma, sugerindo essa passagem que estamos dessincronizados em relação à linguagem, na medida em que é preciso estabelecer condições para a possibilidade de uma experiência daquilo que parece intimamente à nossa disposição, endereçando-se comumente a linguagem a caminho de outra coisa, e não sendo experimentada em sua plena dimensionalidade.

4. Explorar o fenômeno da linguagem não exige transcender nossa situação humana, envolvendo antes a tarefa um retorno a nós mesmos de modo mais originário, pois não se quer chegar a outro lugar, mas apenas, por uma vez, chegar aonde já residimos.

5. A questão de como a linguagem nos reivindica é também uma questão da essência da linguagem, sendo a observação de Heidegger que a linguagem acontece ao informar pré-reflexivamente o pensamento e a fala, não transformando ele a linguagem em objeto para apurar seus traços essenciais, mas buscando sua essência em seu próprio acontecer, localizado no modo como a linguagem reivindica o pensamento e a fala humanos.

6. Ao buscar a possibilidade de uma experiência com a linguagem Heidegger procede com cautela, pois posturas reflexivas infelizes podem estabelecer condições que tornem essa experiência improvável ou mesmo impossível, apoiando-se no termo Erfahrung entendido como uma espécie de sofrimento (Erleiden) no qual nos submetemos (sich fügen) à linguagem, de modo que a experiência, nesse sentido, nos assalta.

7. Heidegger procede de modos múltiplos: deslocando as intuições sobre a natureza da linguagem que solapam nossa capacidade de ter uma experiência com ela; empregando locuções incomuns como “a linguagem fala” (die Sprache spricht) para nos sintonizar a como a linguagem se dirige a nós; e frequentemente recorrendo a poemas particulares sob o pressuposto de que a linguagem do poema nos endereça de modo especialmente rico quanto ao modo como a linguagem fala.

8. Aprender a habitar o falar da linguagem não é ocupação avocacional para curiosos de esoterismos, mas concerne à nossa própria natureza e à natureza do próprio ser, abrindo “Carta sobre o humanismo” com a afirmação de que o pensar realiza a relação do ser com a essência do ser humano, sendo a linguagem a casa do ser, em cuja habitação o ser humano mora, sendo pensadores e poetas os guardiões dessa habitação.

Erros

1. Uma chave das muitas respostas de Heidegger ao fenômeno da linguagem está no esforço de deslocar visões que solapam experiências genuínas da linguagem, insistindo que não se deve compilar informação sobre a linguagem, por exemplo mediante comparações de diversas gramáticas, pois o objetivo é pensar como pertencemos à linguagem antes mesmo de decidirmos falar, ler ou refletir sobre algo, e nenhuma informação sobre línguas diversas exporá o caráter dessa relação.

2. Tampouco a apresentação de traços comuns a todas as línguas, o que Heidegger chama de metalinguagem, no sentido de língua universal, dará o que se busca, pois ao focar em como as línguas funcionam e nos elementos que contêm apenas encenará, em vez de explorar, como a linguagem nos reivindica, deixando impensada a essência da linguagem; o que se busca não é um fato sobre a linguagem, mas nossa relação com a linguagem tal que possamos propor “fatos”.

3. Heidegger insiste que a essência da linguagem não deve ser pensada em termos de comunicação humana, não sendo a linguagem originalmente um meio pelo qual seres humanos expressam algo por meio de representações, evidenciando um enunciado cotidiano como uma expressão de estado subjetivo relacionada a assuntos mundanos, sem, contudo, esse relato explicar nossa relação básica com a linguagem, visto que cada uma de suas noções-chave já evidencia uma relação com a linguagem em que sentimento, ação e outro aparecem já atados à linguagem.

4. Nossa relação básica com a linguagem não é resultado de alguma decisão humana de representar, exprimir ou endereçar, pressupondo a maioria das decisões humanas essa relação, preferindo por isso Heidegger dizer que menos falamos a linguagem do que “a linguagem fala”.

Uma linguagem da essência

1. Heidegger chama a frase “a linguagem fala” de Leitsatz, uma “sentença-guia”, cujo trabalho inicial é negativo, conduzindo a considerar que os seres humanos não são os primeiros falantes, mas a linguagem, encontrando-nos, ao nos dirigirmos a outro ou ao pensar, já reivindicados pela linguagem, isto é, já pensando e proferindo palavras, frases e sentenças que nos vêm ao encontro, e não são por nós eleitas.

2. Se o falar da linguagem nunca nos é presente como um evento, nem mesmo como objeto a observar, então a linguagem acontece de um modo que não pode ser objeto próprio de representação conceitual, já tendo sido endereçados pela linguagem e a ela respondido antes de podermos formular algo como um conceito de linguagem, devendo por isso “a linguagem fala” ser lida como um exercício reflexivo, mesmo uma espécie de disciplina a ser praticada, voltando nossa atenção ao que nosso falar cotidiano pressupõe mas ignora.

3. A fala, tomada em si mesma, é escuta, é um dar ouvidos à linguagem que falamos, precedendo tal escuta toda outra instância de audição, embora de modo inteiramente discreto, não apenas falando nós a linguagem, mas falando a partir dela, sendo isso possível apenas porque em cada caso já se escutou a linguagem, endereçando-se a linguagem com palavras e frases que reivindicam pré-reflexivamente nosso pensar e falar.

4. Uma linguagem de essência só pode cumprir sua tarefa se renunciar a nomear a essência, mesmo a falar sobre ela, trabalhando antes para indicar ou apontar o que sempre já transcorreu em seu próprio dizer, abrindo-nos assim ao modo como habitamos na linguagem, pois não se quer chegar a outro lugar, mas apenas, por uma vez, chegar aonde já residimos.

5. O enigma reside na essência da linguagem: em seu falar a linguagem não simplesmente nos endereça e depois nos fornece uma palavra, frase ou sentença para nos exprimirmos aos outros a respeito de coisas, ações e eventos, sendo esses eventos de uma só peça, sendo o desdobramento essencial da linguagem o dizer como apontar (Sagen als Zeigen), dirigindo esse “apontar” da linguagem para longe de seu próprio endereçamento inicial e em direção ao que essa essência possibilita, uma vida articulada.

The house of being

1. Os entes sempre nos aparecem dentro de um mundo, dentro de um contexto de significados que banha as coisas, e um mundo, embora mais que a soma de suas partes, só existe por meio da inter-relação das coisas, concedendo o brilho do mundo às coisas sua essência, ao mesmo tempo que coisa e mundo devem diferir um do outro de um modo que ainda assim permita relação, nomeando Heidegger esse terceiro termo de “dif-erença” (Unter-Schied).

2. A dif-erença não é ela mesma outra coisa, nomeando antes a abertura de um mundo em que os entes acontecem, ou são reunidos, em relação uns aos outros, arranjando assim o mundo ou lhe conferindo brilho, expondo a linguagem, ao nos reconduzir ao sítio/evento onde coisa e mundo se desvelam ou aparecem, tanto em seu pertencer-junto quanto em sua dif-erença, a cena básica do ser-humano-no-mundo, encontrando-nos aí sempre ex-sistindo.

3. A linguagem é a “casa do ser” porque o ser humano não é apenas um ser vivo que possui linguagem entre outras capacidades, mas a linguagem é a casa do ser na qual o ser humano ex-siste ao habitar, pertencendo à verdade do ser e a guardando, sendo essa verdade marcada pela dif-erença que possibilita aos entes aparecerem dentro de um mundo e aos mundos brilharem com o fulgor de entes inter-relacionados.

4. Não se deve ler essa afirmação nos moldes do construtivismo social, pois, segundo Heidegger, o nomear da linguagem não distribui títulos nem aplica termos, mas chama para a palavra, o que significa que, ao reivindicar o ser humano, o falar da linguagem não constrói uma coisa como uma quase-categoria kantiana, mas ao chamar um ente “à palavra” a linguagem o chama para a cena do aparecer mundano que a linguagem abre, arranja e assim indica, sem a linguagem fabricar os entes.

5. A linguagem, ao permitir que os entes se tornem conspícuos em seu aparecer, não apaga a distinção entre aparência e realidade, mas antes a emprega, reunindo por exemplo o nome “disco de hóquei” nossas experiências do objeto, de modo que cada uma se torna aparência daquilo que é irredutível a qualquer uma delas isoladamente, sendo a linguagem a casa do ser por preservar, se atentarmos a seu falar originário, a verdade do ser, isto é, o desvelamento dos entes, como cena fundamental de nossa existência.

O poeta como fundamentador do ser

1. “O puramente falado é o poema”, afirma Heidegger em “Linguagem”, sustentando “A origem da obra de arte” que a linguagem do poema preserva a essência originária da linguagem, que é também um tipo de poesia em sentido mais amplo, o de poiesis, pensada como um fazer, ou deixar-desvelado, sendo a poesia de Hölderlin em particular considerada uma Ursprache, língua originária, por fornecer linguagem felizmente sintonizada com o falar originário da linguagem.

2. A poesia nada mais é que o vir-à-palavra elementar, o desvelar-se da existência como ser-no-mundo, tornando-se com isso articulado o mundo pela primeira vez conspícuo para aqueles que antes eram cegos, sendo a poesia fundação, o fundar efetivo daquilo que perdura, e o poeta o fundador do ser, sendo aquilo que chamamos de real no cotidiano, ao fim, irreal.

3. O engajamento de Heidegger com a poesia estende-se por toda sua carreira, tratando explicitamente de poetas como Friedrich Hölderlin, em três cursos de conferências e uma coletânea de ensaios, além de textos sobre Rainer Maria Rilke, Georg Trakl, Johann Peter Hebel, e correspondência sobre Eduard Mörike, reunindo o volume 13 da Edição Completa ainda pequenos escritos sobre René Char e Arthur Rimbaud.

4. Alguns poemas desdobram uma linguagem originária que funda o ser ao figurar o evento do desvelamento, fazendo-o por meio de uma linguagem de essência que dramatiza o evento da essência, o modo como os entes ocorrem, não sendo isso um evento de construção, mas antes, por meio de figuras que estabelecem o brilho do mundo, uma linguagem originária que funda e fundamenta ao nos expor à dimensão diferencial de mundo e coisa.

5. Enquanto o brilho do mundo medieval banhava tudo na luz de uma criação divina, de modo que todo ente brilhava como ens creatum, Hölderlin, lido por Heidegger, funda um mundo quadripartite (Geviert), dimensão demarcada por terra e céu bem como mortais e divindades, presentes como ausentes, encontrando-se jarros e pontes sempre sobre a terra, sob o céu, em relação ao próprio ser mortal e num meio hoje dessacralizado.

6. A fundação poética é um evento histórico e assim sujeito a decisões históricas que não fluem de escolhas humanas individuais ou agregadas, podendo mesmo ocorrer que nosso mundo pertença a uma poiesis inteiramente não poética no sentido da linguagem do poema, tendo em mente aqui a técnica global, o que Heidegger chama Ge-stell, o enquadramento, termo que se pode chamar “não-poético” porque, ao apresentar todo ente como energia a organizar segundo aparatos produtivos como o mercado global, apaga sua própria poiesis.

7. Encerra-se com o pensamento de Heidegger sobre a técnica por dois motivos: primeiro, porque rememora a luta histórica à qual pertence seu trabalho, contrastando muitos de seus engajamentos com a poesia seu próprio pensar poético com o pensar calculador da técnica global; segundo, porque o fracasso da técnica global em se conhecer de modo genuíno sublinha precisamente o que permite à linguagem do poema oferecer uma linguagem de essência, uma linguagem que recua sobre si mesma e figura sua própria essência, devendo a fundação poética “poetizar a essência do poeta” para nos permitir habitar o falar da linguagem, expostos ao jogo diferencial de mundo e coisa na verdade do ser.

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