Ge-stell
Hans Ruin. DAVIS, Bret W. Martin Heidegger: key concepts. Durham: Acumen, 2010.
1. Junto a suas saudações ao décimo encontro anual do Heidegger Circle nos Estados Unidos em 1976, Heidegger enviou um breve escrito, um dos últimos de sua mão, no qual retoma a questão que se tornara talvez a mais persistente preocupação de suas últimas décadas, a saber, a questão da técnica, isto é, a necessidade de refletir criticamente sobre a crescente tecnologização do mundo na modernidade, afirmando que um mundo marcado pela técnica é também um mundo caracterizado pelo esquecimento do ser.
2. O conceito mais importante nesse contexto, com o qual Heidegger buscou captar o caráter essencial dessa transformação, é o de Gestell, traduzido usualmente como enquadramento (enframing), termo que como conceito filosófico é um neologismo, hifenizado como Ge-stell para indicar que extrai seu sentido de uma série de conceitos relacionados construídos em torno do verbo stellen (colocar, pôr), como herstellen (produzir) e vorstellen (representar).
3. Para compreender o significado e a importância da noção de Ge-stell no pensamento de Heidegger como um todo é necessário considerá-la não apenas no contexto de seu pensamento sobre a técnica, mas também no contexto de sua compreensão do sentido do ser e de suas transformações históricas, tornando-se claro que o tema designado por Ge-stell não é algo inteiramente novo que emerge apenas nos escritos do pós-guerra, mas está enraizado já em suas primeiras tentativas fenomenológicas de elucidar o sentido do ser e da existência humana, sobretudo em suas elucidações críticas da filosofia de Aristóteles.
Tecnologia e arte: crítica e recuperação da technē grega
1. Um texto-chave nesse contexto é o livro sexto da Ética a Nicômaco de Aristóteles, no qual technē, cuja tradução latina é ars, é definida como uma das cinco capacidades ou virtudes intelectuais principais, tendo a ver com o fazer ou criar (poiēsis) algo novo segundo uma capacidade racional reflexiva, e assim também com a verdade e a falsidade, sendo essa passagem de importância singular por conter o núcleo tanto da concepção grega da técnica quanto do sentido ontológico genuíno do fenômeno da técnica como tal.
2. O confronto interpretativo mais intenso de Heidegger com os escritos de Aristóteles ocorre nos anos formativos do início da década de 1920, período do qual data o chamado “Relatório Natorp” de 1922, texto que contém não apenas o esboço de sua orientação filosófica básica, sistematizada anos depois em Ser e Tempo, mas também as primeiras formulações decisivas para compreender seu pensamento sobre a técnica e a antecipação do conceito de Ge-stell.
3. Ao designar a natureza mais fundamental do ser pelo termo ousia (substância), Aristóteles teria sido guiado por uma compreensão do ser como algo fabricado, na poiēsis, e assim como algo colocado à mão, como algo que foi produzido (Hergestelltsein), sendo na metafísica grega o ser pensado, em sua essência geral, como algo produzido e apreendido na linguagem por meio de seu eidos, sua forma visível, sendo esse modo de fazer o ser aparecer e assim ser verdadeiro o modo da technē.
4. Essa conclusão não é uma simples hipótese descritiva sobre o primeiro surgimento de uma conceitualidade metafísica, possuindo também potencial crítico, pois ao questionar a validade da configuração conceitual original abre-se também um espaço para a reflexão crítica sobre a herdada compreensão e sentido do ser, entendendo e assim conceitualmente construindo a metafísica o ser segundo um modelo de produção.
5. Quando Heidegger publica Ser e Tempo cinco anos depois, o núcleo de seu argumento é a crítica a uma metafísica substancialista que compreende o ser em termos de ser-simplesmente-dado (Vorhandenheit), não partindo, contudo, essa crítica do sentido técnico grego do ser, mas antes da construção moderna, cartesiana, do sentido do ser como pura extensão no espaço, pressupondo essa compreensão uma perspectiva distanciada que contempla a natureza como mera extensão material calculável.
6. Para desconstruir essa compreensão da coisidade como objetividade simplesmente dada, Heidegger recorre à palavra grega para as coisas, pragmata, que etimologicamente significa aquilo com que nos ocupamos na práxis, entidades sempre contextualmente significativas inseridas num mundo circundante de ocupações, sendo seu modo de ser a manualidade (Zuhandenheit), cuja significatividade pressupõe precisamente que não sejam objetificadas, mas vividas num contexto referencial pré-reflexivo.
7. É a partir dessa perspectiva que se torna possível desenvolver a análise do mundo como algo mais que uma constelação de corpos materiais, sendo o fenômeno primário do mundo um contexto de significação em que sempre já estamos lançados, e o mundo objetificado das entidades calculáveis representado pela ciência natural, de fato, um fenômeno secundário que brota do mundo vivido mais originário como sua modificação teoricamente mediada.
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Torna-se confuso, na perspectiva da crítica anterior à metafísica da substância, que aqui não é a compreensão instrumental e técnica grega do ser que explica um esquecimento original, mas ao contrário é o artefato, a ferramenta ou utensílio, sob a forma dos pragmata gregos, que é trazido à tona como alavanca crítica contra a compreensão cartesiana distanciada e objetificante da natureza na modernidade.
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A ontologia desenvolvida em Ser e Tempo poderia assim ser descrita como uma ontologia do artefato e da ferramenta, já que se argumenta que o ser da manualidade é mais fundamental que o ser-simplesmente-dado, secundário e teoricamente mediado, chegando Heidegger a afirmar que a manifestação original da natureza é também uma manualidade.
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Se a natureza é compreendida segundo o modelo do utensílio ou da manualidade, a análise fenomenológica pareceria reinstalar precisamente aquela determinação subjetivista e antropocêntrica do mundo que também buscava transcender, o que explica por que Heidegger posteriormente se distancia dessas análises.
8. Um texto importante a esse respeito é “A origem da obra de arte” (1935-6), que marca um passo adicional na genealogia do técnico no pensamento de Heidegger, ao afirmar que o ser da obra de arte não pode ser apreendido nem segundo o modelo de entidades simplesmente dadas nem segundo o modelo da ferramenta manual, e que também a natureza não pode, ao fim, ser compreendida segundo nenhum desses modelos, sendo antes caracterizada por um auto-emergir elusivo (eigenwüchsig).
9. A obra de arte é um modo muito especial de reunir e deixar aparecer o ser da natureza, que não a consome como matéria-prima para projetos próprios, mas antes a deixa vir à presença por si mesma, sendo nesse sentido a obra de arte um “acontecer da verdade”, ao contrário do que ocorre em Ser e Tempo, no qual o modo da instrumentalidade obstruía a apreensão do fenômeno genuíno da natureza; ainda assim, como a palavra grega para arte (Kunst) também é technē, e o artista é um technites, há uma herança positiva da compreensão grega de technē, não como produção de instrumentos manuais, mas como um trazer poético algo à sua presença.
10. Pode-se descrever o desenvolvimento do pensamento de Heidegger a partir da época do ensaio sobre a obra de arte precisamente em termos desses dois sentidos divergentes de technē: por um lado, a technē como artefato fabricado funciona desde o início da metafísica como matriz para pensar o ser como entidade desconectada, um pensamento metafísico que se afirma definitivamente na modernidade; por outro, a technē como arte emerge como via singular para pensar o acontecimento da verdade sem objetificar o ser, mas permitindo-o prevalecer em sua dupla natureza, ao mesmo tempo presença e ausência.
Do trabalhador e da visão de mundo ao Ge-stell
1. O lado mais “negativo” do técnico, e a emergência de Heidegger como pensador crítico da técnica moderna, não pertence apenas a seu período pós-guerra, sendo o confronto decisivo com a técnica de data anterior, mais ou menos simultâneo à composição do ensaio sobre a obra de arte, época em que se inicia seu diálogo crítico com o pensamento de Ernst Jünger.
2. Em 1932 Jünger publica o ensaio distópico O Trabalhador (Der Arbeiter), no qual busca pensar a modernidade na esteira da análise nietzschiana do niilismo como perda de uma fonte transcendente de sentido, vendo Jünger, veterano condecorado da Primeira Guerra Mundial, o surgimento de um novo tipo ou configuração (Gestalt) do ser humano, o trabalhador, entrado numa relação simbiótica com a máquina e com a técnica na forma de operário ou soldado, manifestação completa de uma vontade de poder.
3. Heidegger escreve que, com a figura ou configuração - a Gestalt - do trabalhador, a subjetividade do homem alcança sua completude como dominação da terra, rastreando na própria noção de Gestalt, que para Jünger servia como uma espécie de ótica ou eidética para captar a essência do presente histórico, uma herança da ideia platônica como aquilo que visualiza o ser numa figura ou essência fixa, sendo nessas reflexões ao mesmo tempo simpáticas e críticas ao pensamento do trabalhador que o pensamento de Ge-stell é primeiramente concebido.
4. O texto publicado mais importante do período anterior à guerra para o desenvolvimento do pensamento do Ge-stell é “A época da imagem do mundo”, conferência de 1938, que parte da posição de que aquilo que hoje necessita de meditação pensante (Besinnung) é a ciência e a técnica maquinal, desenvolvendo o argumento de que a técnica maquinal não é consequência da ciência, mas que ambas se enraízam num sentido mais fundamental de técnica, equiparado por Heidegger à metafísica moderna.
5. Nessa constelação metafísica o ser é compreendido como algo representado (vorgestellt) e visualizado de modo a ser disponibilizado para manipulação e domínio por uma vontade subjetiva, sendo até mesmo a arte e as humanidades atraídas para a órbita dessa constelação metafísica da técnica, tornando-se a arte fonte de prazer estético e organizando-se as humanidades segundo o mesmo padrão de produção de resultados das ciências naturais.
6. Todo esse desenvolvimento na maneira como o ser vem à presença remonta ao início da filosofia moderna, à concepção cartesiana de certeza, na qual o ser humano emerge como sujeito que projeta o mundo diante de si como objeto representado e explicado, tornando-se a própria questão da “imagem de mundo” moderna um sintoma de como o mundo aparece na modernidade, precisamente como uma imagem, uma projeção da visão representacional.
7. A resposta de Heidegger a essa condição não é escapar dela, mas confrontá-la como tal, desenvolvendo uma experiência da modernidade tecnológica como destino, isto é, como um enviar (Schicksal, Schickung) do ser dentro do qual estamos, destino que não deve ser aceito de joelhos, mas confrontado filosoficamente por meio de um novo modo de questionar e de escutar, por meio de um questionar poético e de uma meditação pensante.
8. Ao final da versão publicada de “A época da imagem do mundo” Heidegger acrescenta uma nota explicando a representação (Vorstellung) como um colocar (stellen) algo para fora de si mesmo, assegurando-o (sicherstellen), não sendo mais o ser aquilo que é presente, mas obtendo o sentido daquilo que é colocado diante de um sujeito como objeto (Gegenstand), estando com essa análise essencialmente posto o fundamento de seu pensamento posterior sobre a técnica em termos do Ge-stell, ainda que o próprio conceito só seja forjado dez anos depois, em 1949, no texto “Das Ge-stell”.
O “Ge-stell” como um passo além do domínio e da vontade
1. Após a guerra, durante os anos em que não lhe era permitido lecionar na universidade, Heidegger proferiu, em Bremen, em 1949, quatro conferências sob o título geral “Insight Into That Which Is”, sendo a segunda delas intitulada “Das Ge-stell”, primeira versão do texto que viria a se tornar “A questão da técnica”, desenvolvendo aí a semântica de stellen numa descrição da natureza e dos humanos como colocados diante de uma exigência exploradora.
2. Reúnem-se ali finalmente os diversos modos de Stellen de que falara em textos anteriores - Vorstellen (representar), Herstellen (produzir), Bestellen (encomendar/requisitar), Ausstellen (expor) e Verstellen (deslocar, distorcer) - forjando-os no novo conceito de Ge-stell, cujo prefixo Ge- implica um reunir-junto, tal como em Gebirge (cadeia de montanhas), designando Ge-stell a essência da técnica (Technik), essência que se afirma com o surgimento das ciências naturais modernas no final do século XVI, sendo, ao contrário da visão corrente, a técnica não resultado da ciência experimental, mas o inverso.
3. No Ge-stell a natureza se apresenta primariamente como fonte de materiais e energia a serem integrados num sistema maior de utilidade, descrevendo Heidegger, em passagem célebre, uma usina hidrelétrica moderna no rio Reno como tendo o efeito de construir o rio dentro da usina, obtendo também o papel dos humanos um novo sentido, sendo eles os que devem realizar essa ordenação ou requisição (Bestellen), mas ao mesmo tempo os que a ela estão expostos, como algo eles próprios requisitado e ordenado.
4. É nesse texto que Heidegger faz a única observação filosófica explícita que jamais fez sobre os campos de extermínio nazistas, cuja disposição industrializada de vidas e corpos humanos é comparada ao modo como a natureza também é explorada na sociedade tecnológica moderna, indicando essa presença inicial que foi por meio dessa compreensão da técnica e do Ge-stell que Heidegger tentou, em seu próprio pensamento, lidar filosoficamente com essas atrocidades indizíveis executadas por uma sociedade industrial moderna bem organizada.
5. Com a forja do conceito de Ge-stell como modo de resumir e trazer à consciência toda uma constelação de fenômenos em torno de como os entes se apresentam aos humanos, Heidegger alcança um meio para reivindicar ter pensado a essência da modernidade, permitindo esse conceito ver como a natureza se apresenta como recurso a explorar, mas também como os próprios seres humanos são concebidos como entidades redutíveis a recursos.
6. O Ge-stell não é apenas um modo de descrever uma tendência em como as coisas se apresentam, mas, talvez mais importante, um modo de descrever como os próprios seres humanos são convocados a apresentar as coisas a si mesmos dessa maneira, não sendo o Ge-stell algo externo aos seres humanos e sua vontade livre, mas um modo pelo qual essa vontade se orienta, sendo uma pretensão desafiadora (herausfordernder Anspruch) que desafia o ser humano a ordenar aquilo que se apresenta como fundo-de-reserva disponível (Bestand).
7. A insistência em compreender e experimentar o Ge-stell como uma pretensão ou exigência é crucial, pois é por meio dessa formulação que Heidegger também se distancia das análises de Jünger, ainda orientadas para apreender, numa visão totalizante, a essência da modernidade sob o domínio de um olhar teórico, buscando Heidegger antes um modo de pensar que incorpore o como do pensar em seu quê, trazendo o pensar a uma consciência pensante do que realiza em seu próprio modo de conceitualizar o ser.
8. Pensar o Ge-stell do modo indicado por Heidegger é, portanto, também trazer à consciência o tecnológico no próprio pensar, o impulso interior para o domínio, de modo a, em última instância, libertar-nos desse impulso e assim talvez ser mais livres, estando essa estratégia bem presente nas linhas iniciais de “A questão da técnica”, que começa afirmando que a tarefa do pensar em relação à técnica é “construir um caminho até a técnica”, um caminho por meio da linguagem que conduzirá a uma nova relação, explicitamente caracterizada como “livre”.
9. O caminho para essa realização procede ao abordar a questão da essência da técnica de um novo modo, recusando a abordagem comum segundo a qual a técnica seria um meio para um fim, um instrumento para a ação, sugerindo Heidegger que se atente antes a como a técnica traz à tona a verdade, retomando a passagem da Ética a Nicômaco para transmitir que a technē tem a ver com trazer à tona o verdadeiro no sentido de desvelar algo, deixando-o vir à sua aparência.
10. O modo como a técnica desvela a natureza é como “exploração” ou “requisição” (Herausfordern), desvelando-a como aquilo que pode e deve ser requisitado, mas também desvelando o próprio ser humano a si mesmo como aquele que é “requisitado a requisitar a natureza” (herausgefordert die Natur herauszufordern), formulação concentrada do pensamento de que o Ge-stell, como essência da técnica, manifesta-se como uma exigência inerente ao próprio ser humano, aspecto e consequência de sua liberdade, não sendo um destino no sentido de algo ordenado por um poder superior, mas um modo como os humanos encontram a natureza e a si mesmos.
11. Como tal destino, o Ge-stell não é definitivo, mas algo em relação ao qual se pode estabelecer uma relação mais livre ao escutar sua pretensão (Anspruch), permitindo-a ressoar precisamente como tal, como uma “pretensão libertadora”, marcando o Ge-stell, ao fim, uma situação muito ambígua, pois no perigo evidente inerente à modernidade tecnológica contemporânea reside também um potencial salvador, condicionado, contudo, a que o ser humano alcance uma relação pensante e reflexiva com aquilo que é, tal como se desvela no Ge-stell, tomando ao final Heidegger explicitamente essa ambiguidade em termos da dupla herança grega da technē, que outrora também significou “trazer o verdadeiro para o belo”, pertencendo a essa possibilidade esperançosa da técnica a de trazê-la de volta a um sentido de desvelamento poético, primeiramente levado adiante pelas artes, também conhecidas pelos gregos como technē.
