GEVIERT
É somente com base nessa concepção “cosmológica” do mundo que se pode compreender que, em sua palestra de 1950 sobre “A Coisa”, Heidegger possa afirmar que os Quatro — terra e céu, divinos e mortais — são o “mundar” do mundo, aquilo que constitui o mundo. Mundo é aqui o nome da unidade de um evento quádruplo que não pode ser explicado por outra coisa, nem fundamentado em outra coisa. Isso significa que as quatro “regiões” do mundo não podem ser consideradas como realidades separadas, explicáveis umas pelas outras ou fundamentadas umas nas outras. Heidegger insiste no fato de que cada uma delas é o espelho das outras, retomando assim uma ideia hölderliniana fortemente expressa nos grandes poemas do último período, a de um reflexo do céu pela terra e pelos rios.
Para pensar a não-substancialidade e a pertença essencial das Quatro, Heidegger, assim como Fink, recorre ao conceito de jogo, que implica uma relação dinâmica entre os diferentes elementos: “Esse jogo que faz aparecer, o jogo de espelho da simplicidade da terra e do céu, nós o chamamos de ‘o mundo’. O mundo é na medida em que joga esse jogo. Isso significa: o jogo do mundo não pode ser nem explicado por outra coisa, nem compreendido em sua essência a partir de outra coisa.” Nessa concepção cosmológica e não metafísica do mundo como ser último não fundamentado em outra coisa, é preciso ressaltar que o ser humano sempre desempenha um papel importante. Os mortais são participantes ativos do mundo, e, como tais, são inseparáveis dos outros três elementos. Mas o são na qualidade de mortais, ou seja, como seres capazes de morrer, e não simplesmente como seres vivos. Isso nos remete à Carta sobre o Humanismo, na qual Heidegger afirmava que a metafísica não pensa a humanitas do homem, mas apenas sua animalitas, mesmo quando vê na razão ou no espírito a diferença específica do homem. A metafísica define o homem como um ser entre outros e o considera um ser separado, sem ser capaz de ver nele o que constitui a dignidade de seu ser, a saber, sua participação no processo de revelação. Para conceber o Da-Sein como um ser que participa do advento do ser, é preciso conceber o homem como um ser para a morte, como mortal, e não como razão ou espírito, ou seja, como participante, por meio de uma parte de si mesmo, do eterno. Mas o que significa “ser capaz de morrer”? Heidegger explica isso em sua palestra de 1951 intitulada “Construir, habitar, pensar”: “Os mortais são os homens. Chama-se-lhes mortais porque podem morrer. Morrer significa: ser capaz da morte enquanto morte. Somente o homem morre; ele morre continuamente, enquanto permanece na terra, sob o céu, diante dos divinos.” A existência humana, enquanto participação no mundo do mundo, é uma morte contínua e não uma “vida”. O que significa morrer continuamente, existir como mortal no sentido em que Heidegger já o entendia em Ser e Tempo? Significa permitir que a morte exerça poder sobre nós, existir relacionando-nos com o fim do nosso Dasein, pensar nele tendo como pano de fundo um Dasein que já não é mais. Significa considerar a morte como a possibilidade extrema, ou seja, como a única possibilidade absolutamente irrealizável, e assim tomar consciência de nossa passividade em relação a nós mesmos, daquilo que nos torna algo além de sujeitos. É isso, o fato de não sermos os senhores do ser, que constitui a humanitas do homo humanus e que, ao mesmo tempo, torna possível o mundar do mundo.
Mas, assim como, longe de já sermos verdadeiramente humanos, é necessário, ao contrário, que os homens da metafísica, os seres vivos racionais, se tornem mortais, da mesma forma o mundo não está já dado, mas ainda está por vir: “O mundo é o jogo de espelhos ainda oculto dos Quatro: terra e céu, mortais e divinos”, afirma Heidegger em 1949 em sua palestra em Bremen intitulada *Die Gefahr* (O perigo). O fato de o mundo, enquanto unidade dos Quatro, ainda se recusar a se revelar, de ainda se retirar para o ocultamento, decorre do próprio destino do pensamento ocidental, que, desde Parmênides até o próprio Heidegger, sempre subordinou o pensamento do mundo ao do ser: “O mundo é a verdade do desdobramento do ser. Caracterizamos assim o mundo em relação ao ser. O mundo, representado dessa forma, está subordinado ao ser, enquanto, na verdade, o ser só se desdobra a partir do mundo oculto do mundo. O mundo não é um modo do ser, não está a ele submetido. ” O evento do mundo, no sentido do Geviert, não pode, portanto, significar, em si mesmo, senão o desaparecimento do ser — e, com ele, do nada — no mundo: “Quando o mundo surge por si mesmo pela primeira vez, o ser se desvanece, mas, com ele, também o nada, no mundo. » Não é, portanto, de se surpreender que, no texto que dedicou a Jünger em 1956, Heidegger, após ter riscado com uma cruz a palavra “ser”, a fim de se proteger de “esse hábito quase inextirpável de representar o ser como um oposto que se mantém em si mesmo e que só então, às vezes, se manifesta ao homem”, acrescente que esse sinal da risca em forma de cruz não tem apenas um sentido negativo, mas que «indica os quatro do Cadran e sua união no Lugar onde essa cruz se cruza».
A esse lugar onde a representação metafísica do ser como grande objeto revela seu caráter ilusório, do mundo, só podemos nos aproximar se nós mesmos não nos colocarmos mais como sujeitos. Aquilo a que seria então possível nos abrir não são mais os “objetos”, mas a inaparência e a proximidade das coisas. Pois é nelas que o mundo se manifesta. O evento do mundo só pode, de fato, ocorrer a partir do momento em que o que é não aparece mais sob a figura da autossuficiência do que se mantém em oposição (Gegenstand) e em si mesmo (Selbststand) e em que não é mais o ab-soluto, mas, ao contrário, a junção (Fuge) que constitui o verdadeiro sentido do ser. Desses mortais que habitam o mundo, nos quais os homens de Hoje devem se tornar, poder-se-ia dizer, então, que são “no sentido estrito da palavra, aqueles que estão dotados de coisas (die Be-dingten)”, ou seja, os condicionados, aqueles que “deixaram para trás toda pretensão ao absoluto”.
