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Embriaguez e Êxtase

BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.

1. Tonalidade emotiva, embriaguez e êxtase

1. Um breve olhar sobre as manifestações da embriaguez [ Rausch ] facilita o acesso a um estudo antropológico das tonalidades emotivas elevadas, pois nela se apresentam, de forma extrema e impressionante, os mesmos fenômenos que retornam, de modo mais discreto, nas formas mais tranquilas das tonalidades elevadas, e uma breve análise preliminar da embriaguez pode traçar as linhas gerais para o desenvolvimento da exploração mais precisa das tonalidades emotivas elevadas.

  • A palavra “embriaguez” tem várias acepções: de um lado, designa os estados fisiologicamente condicionados de extrema exaltação psicológica, geralmente produzidos sob o influxo de entorpecentes, mas, de outro, refere-se aos estados que surgem, sem estímulo artificial, da vida íntima da própria alma, aproximando-se do entusiasmo [ Begeisterung ], embora se distinga por uma maior profundidade vital do envolvimento e por um aumento progressivo que faz o homem ficar verdadeiramente “fora de si”, equivalendo ao que do ponto de vista religioso é definido como êxtase [ Ekstase ].
  • Em sentido filosófico rigoroso, a embriaguez pode ser definida como uma tonalidade emotiva, pois tem seu caráter determinante: é um estado de ânimo em si indeterminado que orienta toda a experiência, mas se distingue das outras tonalidades pelo grau de agitação interior, sendo um estado excepcional relativamente mais raro e necessariamente passageiro, podendo ser considerada o caso limite extremo das tonalidades elevadas, onde as distinções mais sutis se esfumam enquanto os traços essenciais desse polo se manifestam de forma mais nítida.

2. A embriaguez dionisíaca no jovem Nietzsche

2. A compreensão do fenômeno global da embriaguez pode ser auxiliada por algumas interpretações e observações formuladas por Nietzsche, começando pela grande interpretação filosófica da embriaguez “dionisíaca” em “O nascimento da tragédia”, para encontrar nos escritos posteriores o ponto de partida da interpretação geral das tonalidades emotivas elevadas pela antropologia filosófica.

  • No passo crucial da obra, Nietzsche descreve que sob o encantamento do dionisíaco não só se restringe o vínculo entre homem e homem, mas também a natureza estranhada celebra sua festa de reconciliação com o homem, e cada um se sente não apenas reunido e reconciliado, mas até uno com o próximo, manifestando-se, cantando e dançando, como membro de uma comunidade superior e como obra de arte, sob o poder artístico de toda a natureza.
  • Os traços característicos dessa imagem grandiosa incluem: o restabelecimento da aliança entre os homens, que arranca o indivíduo do isolamento; um sentimento de harmonia com a natureza, que não se destaca mais como algo estranho, mas como familiaridade; uma verdadeira “união” entre os homens e com a Natureza, uma “unidade originária”; a ruptura dos limites da individualidade e a absorção do indivíduo em uma vida mais ampla; e, finalmente, essa experiência é considerada não uma ilusão, mas uma “revelação” de uma realidade mais profunda, dotada de força reveladora.

3. Desenvolvimentos no Nietzsche tardio

3. As experiências originárias da vida, que no jovem Nietzsche são reunidas numa visão heróico-panteísta, são aprofundadas pelo olhar psicológico do Nietzsche tardio, encontrando na “Vontade de potência” uma nova e definitiva exposição que, embora mais prudente na interpretação metafísica, revela uma maior riqueza na análise escrupulosa dos fenômenos.

  • Os aspectos sistemáticos dessa análise incluem: um aumento da consciência da força, onde o estado de prazer chamado embriaguez é exatamente um alto senso de potência, correspondendo a um “mais de força” real; uma transformação da consciência do espaço e do tempo, com uma maior espacialidade e a capacidade de abranger com o olhar uma vastidão maior, e uma suspensão do tempo, onde o passado não pesa e o futuro não ameaça, parecendo o tempo parar num “instante eterno” [stehendes Jetzt ].
  • A isso se acresce um aumento da sensibilidade, que refina o órgão para a percepção de coisas pequeninas e fugazes; uma mais intensa capacidade de compreender, uma “sensibilidade inteligente” onde a apreensão é imediata e os atos do compreender já estão contidos na percepção; e, finalmente, um mutado relacionamento com a realidade em geral, onde a “força transfiguradora da embriaguez” veste a realidade de uma nova forma, e a realidade não é mais sentida como um obstáculo, mas como o suporte fundamental com o qual o homem se sente profundamente ligado.

4. Tonalidades emotivas elevadas não derivadas da embriaguez

4. As manifestações da embriaguez servem para mostrar, através de um exemplo sugestivo, a direção ao longo da qual se devem pesquisar fenômenos correspondentes nas tonalidades emotivas elevadas de grau inferior, e as características gerais a serem detalhadas nas pesquisas subsequentes incluem, ao lado da intensificação geral do sentimento vital, uma transformação das formas “normais” da consciência, especialmente em três direções: transformação da consciência da comunidade, transformação da consciência da realidade e transformação da consciência do tempo.

  • Como transição da agitação da embriaguez para tonalidades mais quietas e tranquilas, a descrição de Baudelaire da tonalidade emotiva que preenche o homem de felicidade é particularmente adequada, onde o homem se sente ao mesmo tempo mais artista e mais justo, mais nobre, num estado que ele define como uma verdadeira graça, uma excitação angélica, onde todas as forças encontram equilíbrio e a imaginação não arrasta o sentido moral para aventuras perigosas.
  • Esse estado, onde “todas as forças se encontram em equilíbrio”, não possui os sintomas premonitórios da embriaguez, sendo imprevisível e intermitente, e distingue-se pela particular tranquilidade, apresentando-se como um puro exemplo da tonalidade emotiva da felicidade.

5. O surgimento da tonalidade emotiva da felicidade

5. Diferentemente da embriaguez, que tem uma causa mais ou menos externa, nas tonalidades emotivas felizes é significativo que elas surjam no homem de modo imperceptível e sem uma razão definível, “apoderando-se” dele, mas não podendo ser produzidas por ele mesmo, e esse fato tem um particular aspecto ético, pois o ser humano, embora atinja seu autêntico cumprimento apenas nesse estado, não pode nunca criá-lo com seu próprio esforço, permanecendo a felicidade o dom de uma divindade caprichosa, uma “verdadeira graça”.

  • O processo que determina essa tonalidade emotiva feliz subtrai-se à observação direta, pois qualquer tentativa de observação a sufocaria, e é da natureza dessas tonalidades que elas apanhem a pessoa quando menos se espera, e a memória retrospectiva só pode arrancar partes desse processo, de modo que o homem “desperta” para sua felicidade, frequentemente coincidindo com o despertar do corpo, como nos versos de Baudelaire sobre os dias em que o homem se desperta com um gênio virgem e vigoroso.
  • É particularmente significativo o fato de essas tonalidades surgirem sem motivo aparente, especialmente quando nascem diretamente da escuridão da vida inconsciente, e a relação entre os estados de felicidade e as horas da manhã é essencial, quando, ao amanhecer, surge no homem uma nova serenidade, cujo sentido profundo de “dormir sobre” uma questão difícil não está apenas no tempo, mas na força esclarecedora da serenidade matutina.
  • As descrições poéticas desse sentimento de felicidade matinal, como no prólogo da segunda parte do Fausto de Goethe, mostram como o sentimento de felicidade em que o homem se encontra ao despertar se traduz instantaneamente numa nova atividade, que, num ímpeto de confiança na vida da Natureza, provoca uma nova resolução moral.

6. A força transformadora da felicidade

6. No sentimento de felicidade não ocorre apenas que o mundo apareça mais belo, mas o próprio homem é diferente, tornou-se melhor, sentindo-se mais artista, mais justo, mais nobre, e o que na embriaguez podia parecer uma supervalorização ilusória das próprias forças, nessas horas mais calmas e claras adquire um grau superior de realidade, pois penetra e transforma toda a pessoa em suas extremas profundidades.

  • A primeira coisa a ser observada nessa nova disposição afetiva é uma nova confiança, pois o homem que se encontra numa tonalidade de sofrimento e desespero não é capaz de crer nem de confiar, e a fé e a confiança não podem ser obtidas pela força, mas se formam apenas com o despertar de um sentimento de felicidade, como suas consequências necessárias e inelutáveis, tanto na relação com as outras pessoas quanto em todos os outros relacionamentos da vida.
  • É apenas desse atitude que escorre um olhar livre dos próprios preconceitos, aberto às belezas do mundo e disposto a compreender cada coisa em si mesma, e o que é decisivo é que esse estado de extrema beatitude não se imobiliza na passividade de um simples estar bem, mas necessariamente impele para uma prova de atividade, uma decisão enérgica em que a tensão acumulada pode se descarregar, revelando o exato significado vital da felicidade e distinguindo-a de um vazio prazer.
  • Das diferentes testemunhas resulta a verdade, extremamente importante do ponto de vista filosófico, de que o ser humano atinge o pleno cumprimento de sua íntima essência apenas num estado de profundíssima satisfação interior, sendo o último e mais perfeito dos estados de felicidade, a beatitude [ Seligkeit ], ao mesmo tempo o estado em que o homem é mais plenamente ele mesmo.
  • Carus, comentando o uso da língua alemã, conclui que o conceito de beatitude é o único estado perfeitamente conforme à alma, no qual ela possui em si a suprema calma, verdade e clareza, e que o alcance desse estado é a tarefa mais alta de todo o desenvolvimento psíquico, e a “personalidade” [ Persönlichkeit ] se realiza plenamente quando a alma atinge o mais alto e puro grau de beatitude, pois a plena e pura ressonância do divino na alma humana só é possível no estado da beatitude, realizando-se a alma como pessoa e como caráter quando, através de uma formação interior, alcança o sentimento da verdadeira beatitude.
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