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Verdade
BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.
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O acesso fundamental ao mundo é a familiaridade, a abertura (Erschlossenheit), o ser-em, sendo a asserção, junto aos fenômenos correlatos de proposição, juízo e conhecimento, derivada da abertura, inferindo-se daí que a verdade ou falsidade das asserções é igualmente derivada de um tipo mais fundamental de verdade, chamada verdade primordial
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Não se oferece uma teoria da verdade concorrente com relatos tradicionais, como as teorias da correspondência, da coerência ou verificacionista, mas antes uma fenomenologia da verdade que ajuda a resistir à tentação de construir de saída uma teoria filosófica da verdade
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Essa fenomenologia da verdade se desenvolve em três estágios, trabalhando-se em §44a a fenomenologia da verdade das asserções, argumentando-se em §44b que a verdade das asserções depende de uma forma mais primordial de verdade, e sustentando-se em §44c, de modo um tanto enganoso, que a verdade é relativa ao ser-aí (Dasein)
A Verdade das Asserções
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As visões dos filósofos sobre a verdade são diversas, mas é possível identificar um consenso tradicional que endossa uma concepção de verdade amplamente conforme ao que se chama teoria da correspondência da verdade
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A teoria da correspondência afirma que uma sentença ou crença é verdadeira quando corresponde ao mundo, à realidade ou aos fatos, buscando explicar a intuição básica sobre a verdade expressa por Aristóteles ao dizer que dizer do que é que não é, ou do que não é que é, é falso, ao passo que dizer do que é que é, e do que não é que não é, é verdadeiro
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A teoria da correspondência interpreta a verdade como relação entre a mente ou o significado e o mundo, impondo assim um modelo sujeito-objeto à verdade, ao qual a fenomenologia sempre se opõe, começando-se por isso com uma fenomenologia da verdade destinada não a construir outra teoria, mas a sustentar o esforço de ater-se à intuição básica e resistir à construção de uma teoria da verdade
A fenomenologia da verdade é abordada pela via da experiência da confirmação, uso que induziu alguns leitores a supor que se ofereceria uma teoria verificacionista da verdade, segundo a qual uma asserção é verdadeira quando se possui evidência que a verifica-
A verdade é abordada em termos da experiência da confirmação porque, para trazê-la ao foco, é preciso encontrar experiências em que ela seja saliente, sendo a verdade, como outras condições de fundo em Ser e Tempo, normalmente autoapagante, saliente apenas em situações de avaria, de modo que grande parte do que se diz cotidianamente é verdadeiro sem que se preste atenção à verdade como tal, atentando-se a ela apenas quando está em questão
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No exemplo de um vizinho que telefona avisando haver um urso no quintal, a surpresa leva a olhar pela janela dos fundos e constatar o urso ali, não se experimentando ao descobrir a verdade da asserção do vizinho uma relação de correspondência entre suas palavras e o urso, ou entre seus pensamentos e o urso, ou entre algum significado ideal e o urso, mas antes experimentando-se o urso como estando no quintal, tal como o vizinho o descreveu
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O próprio ente que se tem em mente se mostra tal como é em si mesmo, isto é, mostra que, em sua identidade consigo mesmo, é justamente tal como é exibido na asserção como sendo, tal como é descoberto como sendo, não se comparando representações entre si nem em relação à coisa real, não sendo o que se demonstra um acordo do conhecer com seu objeto, nem menos do psíquico com o físico, nem tampouco um acordo entre conteúdos de consciência entre si, sendo o que se demonstra unicamente o ser-descoberto do próprio ente, esse ente no como de sua descobertura
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A noção de identidade consigo mesmo é enfatizada por se rejeitar a ideia de que a verdade seja uma relação entre dois itens, o objeto e ideias, representações, conteúdos e afins
Dizer que uma asserção é verdadeira significa que ela descobre o ente tal como ele é em si mesmo, devendo o ser-verdadeiro, a verdade, da asserção ser compreendido como ser-descobridor-
Uma asserção comunicativamente exibe entes em algum respeito determinado, sendo verdadeira quando os entes que exibe são justamente como a asserção os exibe
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Ernst Tugendhat, numa crítica célebre, argumentou que a verdade não pode ser ser-descobridor porque todas as asserções descobrem, o que implicaria que todas as asserções são verdadeiras, considerando a maioria dos estudiosos hoje que Tugendhat se equivocou, pois uma asserção ser verdadeira não é simplesmente descobrir ou exibir entes, o que todas as asserções fazem, mas descobrir ou exibir os entes justamente como eles são
A objeção de que não se teria oferecido propriamente um relato da verdade, mas apenas descrito o que é experienciar uma asserção como verdadeira, encontraria como resposta que esse é exatamente o ponto-
Essa posição se aproxima do minimalismo contemporâneo sobre a verdade, associado sobretudo ao trabalho de Paul Horwich, que se expressa em idioma diferente do aristotélico mas chega a algo semelhante à intuição básica já discutida, segundo a qual Lulu é fofa é verdadeiro se e somente se Lulu é fofa, sendo o predicado de verdade um dispositivo que licencia citação e dissitação, isto é, licencia inferir da asserção de que Lulu é fofa para a asserção de que Lulu é fofa é verdadeira, e vice-versa
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Trabalhar isso de modo tecnicamente adequado exige certa ginástica lógica complexa, mas o essencial é que a visão minimalista evita construir uma teoria da verdade e rejeita ver a verdade como propriedade das asserções, concordando nesses pontos com a abordagem aqui adotada
Verdade Primordial
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Muito mais é dito no §44, mas não como elaboração de uma teoria da verdade, situando-se antes a verdade das asserções em seu contexto fenomenológico, sendo a asserção uma forma derivada de interpretação
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A função de exibição exercida pela asserção só é possível com base no ter-prévio (Vorhabe) do entendimento, de modo que as asserções só podem ser verdadeiras ou falsas no contexto da familiaridade básica ou compreensão do mundo, compreensão intrinsecamente ligada ao fenômeno da abertura, razão pela qual a abertura é nomeada verdade primordial
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Com e através da abertura há descobertura (Entdecktheit), de modo que somente com a abertura do ser-aí se alcança o fenômeno mais primordial da verdade
Uma possibilidade é entender a abertura como condição de possibilidade da descobertura, de modo que, sem abertura, não haveria descobertura, mas há muitos fenômenos que dependem da abertura, como a disposição afetiva do medo, sem que por isso a abertura seja chamada medo primordial, exigindo-se algo mais-
A preposição com talvez aponte para o modo como a descobertura necessariamente acompanha a abertura, sendo o ser-em-meio-a entes intramundanos elemento constitutivo do cuidado (Sorge), de modo que a descobertura dos entes faz parte do pacote que se recebe com a abertura, havendo outros fenômenos igualmente parte desse pacote, como a linguagem, sem que a abertura seja chamada linguagem primordial, exigindo-se ainda algo mais
A descobertura não está apenas fundada na abertura nem é apenas consequência necessária dela, mas é uma forma de abertura, compartilhando ambas o caráter de desvelamento ou desencobrimento, termos por vezes usados nesses contextos, sendo ambas modos pelos quais fenômenos se tornam acessíveis ou se tornam acessíveis ao ser-aí, não sendo, contudo, equiprimordiais, pois a abertura é mais fundamental por instituir os próprios termos sobre cujo pano de fundo a descobertura ocorrePara poder asserir que o café está frio ou que o tempo parece de chuva, é preciso compreender café e chuva, não apenas as palavras café e chuva, mas os próprios fenômenos-
Compreender um fenômeno é projetá-lo sobre um campo de possibilidades, exigindo apreensão prática do lugar do café na vida humana, em particular da significância do café frio em oposição ao quente, e do lugar do tempo na vida humana, em particular da significância da chuva para as várias coisas que se poderia fazer no dia
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Esses campos de possibilidade constituem o que se chama sentido (Sinn) dos fenômenos, termo que não se refere ao sentido linguístico ou semântico, chamado significação, mas a um sentido existencial mais amplo, sendo necessário, para asserir algo sobre o tempo de modo a exibir os entes tal como são, apreender o campo de possibilidades em termos do qual os entes exibidos pela asserção fazem sentido
O problema levantado por Tugendhat poderia parecer ressurgir, pois compreender o sentido de tempo e chuva é condição para asserir qualquer coisa, sem ainda distinguir verdade de falsidade, já que se deve compreender o sentido de chuva simplesmente para poder fazer a asserção, seja ela verdadeira ou falsa-
A abertura é verdade primordial por instituir os termos para a descobertura, fornecendo ambas, descobertura e abertura, acesso aos entes e ao mundo, ainda que em níveis distintos de análise, sendo preciso mostrar como o acesso fornecido pela abertura pode ser verdadeiro ou falso em algum sentido reconhecível desses termos
Uma reflexão sobre a linguagem mostra que fazer uma asserção exige usar uma língua, não sendo as línguas meros blocos inertes para construir asserções, envolvendo o próprio vocabulário usado uma perspectiva sobre o mundo implícita na língua-
Debates sobre a língua usada para descrever pessoas são por isso tão politicamente carregados, sendo os confrontos políticos recentes sobre como falar de pessoas trans ou não binárias, sobre como lidar com pronomes, mais do que mera disputa por palavras, ignorando quem responde a tais debates com indiferença o que está em jogo neles, incorporando a língua usada para descrever a nós mesmos e aos outros toda uma conceitualidade (Begrifflichkeit), conceitualidades capazes de desvelar melhor ou pior o mundo, podendo por isso ser verdadeiras ou falsas
A língua usada para descrever pessoas trans, ou para falar de povos indígenas, de raça e etnia, não é verdadeira ou falsa em virtude de corresponder ou não ao modo como o mundo é, razão pela qual os fatos da biologia não podem refutar a ideia de que mulheres trans são mulheres, podendo-se avaliar conceitualidades inteiras em termos de outros traços, como serem cruéis, libertadoras, justas ou injustas-
O ponto a reter, ao reconstruir a concepção de verdade primordial, é que essa abordagem permite formular tais questões, sem respondê-las
A análise poderia se estender ainda às teorias científicas naturais, discutíveis também em termos de verdade primordial, embora essa linha de pensamento não seja desenvolvida em Ser e Tempo, exigindo distinguir entre uma teoria científica propriamente dita, proposta para explicar um conjunto definido de fenômenos, e a conceitualidade em que essa teoria se enquadra-
Teorias que compartilham uma conceitualidade podem competir entre si, e só por isso se pode dizer de uma teoria que ela é simplesmente verdadeira enquanto uma concorrente não é, descobrindo as asserções implicadas por uma teoria os entes tal como são, ao passo que as implicadas por uma concorrente não o fazem
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Quando teorias científicas não compartilham uma conceitualidade, as questões se tornam muito mais difíceis, perguntando-se em virtude de que um modo científico de pensar o mundo seria melhor que outro, questões discutidas, por vezes sob o título de incomensurabilidade, desde a publicação de A Estrutura das Revoluções Científicas de Kuhn em 1962, havendo muito a dizer que não é dito aqui, apenas se estabelecendo o modo como tais questões deveriam ser abordadas, sem respondê-las
Uma afirmação intrigante sustenta que a abertura mais primordial, e de fato mais autêntica, em que o ser-aí, como poder-ser (Seinkönnen), pode ser, é a verdade da existência, tornando-se esta existencial e ontologicamente determinada somente em conexão com a análise da autenticidade do ser-aí-
Isso poderia sugerir que os desvelamentos do mundo só podem ser primordialmente verdadeiros se forem autênticos, não se dizendo nada sobre os termos em que se pode discutir a verdade ou falsidade de um desvelamento de mundo, talvez simplesmente porque tais termos são geralmente fáticos, concernindo a conceitualidades concretas e a modos concretos pelos quais podem desvelar ou encobrir
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O foco em Ser e Tempo recai sobre os modos pelos quais as conceitualidades usadas para falar da existência humana revelam ou ocultam nosso ser, argumentando-se na Divisão II que o ser do ser-aí é desvelado de modo especialmente claro na autenticidade, sendo apreender esse desvelamento e viver de acordo com ele a verdade da existência, e por isso a forma mais primordial de verdade, por ser ontológica
A afirmação do §44c de que a verdade é relativa ao ser do ser-aí não pretende endossar relativismo sobre a verdade em sentido convencional algum-
Não se admite a noção de que duas pessoas possam acreditar em coisas contraditórias sendo ambas verdadeiras, nem se nega que as visões em que se tem maior confiança, como as leis da lógica, sejam vinculantes para o que se diz e pensa, negando-se assim que a verdade seja deixada ao critério do sujeito
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O ponto é antes que, se a verdade é um aspecto de algumas asserções, e mais basicamente do desvelamento fundamental do mundo, então os portadores de verdade são aspectos da própria atividade, sendo as asserções e o desvelamento do mundo verdadeiros ou falsos, não proposições atemporais que carregariam verdade independentemente das línguas usadas e dos mundos desvelados
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Antes de descobertas as leis de Newton, elas não eram verdadeiras, o que não implica que fossem falsas, ou mesmo que se tornariam falsas se onticamente nenhuma descobertura fosse mais possível, sendo o ponto apenas que há verdade somente enquanto o ser-aí é e enquanto o ser-aí é, concluindo-se não poder haver verdades atemporais ou eternas porque o ser-aí não é atemporal nem eterno
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