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Espacialidade

BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.

  • O mundo familiar não é apenas trama de para-isso e para-o-bem-de-que, mas espacial, sendo a familiaridade com o mundo familiaridade com lugares — a casa, o bairro, o trabalho —, locais existenciais e não fenômenos geométricos objetivos, incluindo sentido de proximidade e distância que não é medida de agrimensor, mas disponibilidade para a lida, capturada nos conceitos de lugar (Platz) e região (Gegend)
    • o utensílio tem seu lugar ou então está espalhado por aí
    • o mouse fica ao lado do teclado, diante da xícara de café, que por sua vez fica diante da tela, disposição existencial que confere aptidão para o uso
  • O utensílio é acessível em virtude do que Heidegger chama de de-distanciamento (Ent-fernung), que consiste em fazer a distância desaparecer, aproximando algo, o que não significa necessariamente proximidade física, podendo o utensílio estar à distância, no sentido heideggeriano, se estiver no lugar errado ou em posição incômoda
    • colocar distraidamente a espátula na geladeira torna-a indisponível, ainda que se esteja fisicamente ao lado da geladeira
    • salas de aula mal projetadas, com consoles enormes que prendem o instrutor à frente da sala em vez das antigas cátedras móveis, ilustram região malorganizada que mantém o utensílio à distância
    • alvos de tiro com arco devem estar objetivamente distantes, setenta metros nas Olimpíadas, para estarem no lugar certo
  • Na discussão do de-distanciamento, Heidegger parece confundir três tipos diferentes de proximidade e distância, havendo, além da proximidade ligada à disponibilidade do utensílio, uma dimensão de presença ao espírito, exemplificada pela rua distante contraposta a uma pessoa vinte passos à frente a quem se acena, e pelos óculos que, assentados sobre o nariz, retrocedem da experiência ao possibilitar ver objetos objetivamente mais distantes
    • David Cerbone observa que esses exemplos vão contra a lógica da análise heideggeriana do manual, pois a inconspicuidade favorece precisamente a manualidade próxima do utensílio
  • Um terceiro sentido de proximidade surge no exemplo do caminho objetivamente longo que pode ser muito mais curto do que outro objetivamente mais curto mas difícil de percorrer, exemplo que aponta para o problema mais fundamental da análise heideggeriana da espacialidade existencial: a impossibilidade de fenomenologia dessa proximidade e distância sem uma fenomenologia da corporeidade, ponto bem estabelecido por Cerbone, já que o corpo explica por que um caminho árduo para quem não é apto ou tem joelhos artríticos pode ser fácil para quem é apto
  • A acessibilidade conferida pelo lugar certo das coisas é também função da corporeidade, como a posição do mouse ao lado do teclado, que depende do comprimento dos braços e de ser-se destro ou canhoto, exemplificado pela mãe canhota do autor, que sempre move o mouse do lado direito para o esquerdo ao sentar-se em seu computador, e pelo layout triangular da cozinha, que aproxima pia, fogão e geladeira a um único passo entre si
  • A direcionalidade (Ausrichtung) é o modo de orientação espacial no ambiente, todo aproximar já tendo tomado de antemão direção para uma região a partir da qual o de-distanciado se aproxima, não sendo os lugares meras posições fixas para lembrar onde as coisas estão, mas guiando o agir, como no exemplo do triângulo da cozinha, podendo essa direcionalidade assumir caráter nefasto quando o layout de uma loja é planejado para levar clientes a comprar mais
    • lojas com caminho único por vários cômodos de produtos obrigam a olhar tudo o que vendem antes de pagar pelo item desejado
    • outras lojas reorganizam periodicamente os produtos para explorar a desorientação e fazer o cliente vagar entre dezenas de outros produtos
  • Heidegger parece ciente da importância da corporeidade para a direcionalidade, notando que dessa direcionalidade surgem as direções fixas de direita e esquerda, e que a espacialização do ser-aí (Dasein) em sua natureza corporal se marca de acordo com essas direções, embora reconheça que essa natureza corporal esconde problemática própria não tratada ali, e admita que tal constituição, embora constantemente usada, exige explicitação ontológica adequada, a qual não pode ser oferecida sem uma fenomenologia da corporeidade, que abriria espaço também para a discussão da deficiência, dada a centralidade do poder-ser (Können) na compreensão heideggeriana do entendimento
  • A discussão heideggeriana da espacialidade existencial resulta fundamentalmente falha por não desenvolver a fenomenologia da corporeidade necessária para dar sentido a algumas das distinções traçadas e evitar certas confusões cometidas
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