Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:benoist:fenomenologia-e-percepcao-2013
FENOMENOLOGIA E PERCEPÇÃO (2013)
BENOIST, Jocelyn. Le Bruit du sensible. Paris: Cerf, 2013
-
Surge uma ambiguidade na lição fenomenológica sobre percepção: tratar-se-ia de solução original do “problema” ou de dissolução do problema por recondução mais originária ao que é perceber.
-
Alternativa: solução versus dissolução.
-
Ênfase na origem do perceber.
À primeira vista, a fenomenologia responde ao “problema da percepção” com simplicidade radical ao reconhecer na percepção um poder intrínseco de realizar aquilo que causa espanto e que outras filosofias tentam explicar externamente.-
“Cortar o nó górdio” como gesto metodológico.
-
Poder intrínseco atribuído à percepção.
A resposta fenomenológica vale em vários níveis porque o “problema da percepção” se divide em subproblemas, aos quais a fenomenologia responde de modo análogo.-
Pluralidade de subproblemas.
-
Estrutura repetitiva da resposta fenomenológica.
Um primeiro subproblema supõe que afecções internas permitiriam construir acesso a objetos externos, levando à pergunta sobre como, a partir do “dado em mim”, se infere o objeto fora de mim, como se a percepção fosse inferência implícita.-
Afecções como “eventos internos” e objeto como exterior.
-
“Dado” como presença ao espírito e objeto como ausente.
-
Hipótese inferencial: do efeito ao objeto.
A fenomenologia rejeita a explicação inferencial e afirma que a percepção abre por si mesma à exterioridade, sendo percepção do objeto e não de um sintoma interno como sensação, pois sem esse poder constitutivo não haveria percepção.-
Exterioridade como traço próprio do perceber.
-
Recusa de sensação como “sintoma” do objeto.
-
Poder constitutivo: condição de ser percepção.
Outro nível do problema recai sobre o caráter parcial de toda percepção (ver sempre por uma face), mas uma certa filosofia transforma esse fato em falso problema ao concluir que se percebe apenas a face e não o objeto, exigindo acréscimo para saltar ao todo.-
Parcialidade como fato e não como prova de insuficiência.
-
Raciocínio do “salto” do parcial ao completo.
-
Reiteração do esquema de acréscimo externo.
Exige-se precisão e rejeita-se a tese de “ver o que não se vê”, pois a outra face não é atualmente vista e nada impede que a outra face da lua seja de queijo verde, e negar isso confunde percepção com conhecimento.-
Recusa do otimismo que dissolve o não-visto.
-
Lua e “queijo verde” como exemplo de indeterminação legítima.
-
Confusão criticada: percepção versus conhecimento.
O ponto decisivo fenomenológico sustenta que não ver a outra face não implica não ver o objeto como um todo, pois ao ver uma face vê-se o objeto, num caráter global necessário da percepção.-
Globalidade como simultaneidade do ver-face e ver-objeto.
-
Necessidade estrutural desse caráter global.
A globalidade não garante saber do que se vê, permitindo ignorar de que objeto é lado o lado visto ou errar sobre isso, como nos cenários de fachadas de western, mas o visto é sempre dado no espaço com volume e profundidade.-
Possibilidade de erro conceitual sem perda de objetualidade.
-
Profundidade e volume como traços do percebido.
-
Exemplo: decorações de rua em westerns.
A percepção não se constrói por soma de superfícies mais cálculo, pois tal cálculo só funcionaria se as superfícies já fossem percebidas como superfícies de um volume, de modo que perceber já ocorre no espaço.-
Crítica ao modelo “pontilhista” de superfícies.
-
Circularidade do cálculo do volume.
-
Espaço como condição do aparecer.
Rejeita-se uma concepção evidencial da percepção, pois seguindo Austin vê-se pão e não sinais de pão, e quando se veem sinais (migalhas) eles são dados como coisas tal como o pão, já que perceber é entrar na profundidade das coisas e não recolher superfície para raciocinar.-
Austin: pão versus sinais de pão.
-
Caso especial: migalhas como sinais dados do mesmo modo.
-
Profundidade como meio do verdadeiro aparecer.
-
Percepção não como inferência a partir de superfície.
A percepção em profundidade não é adição a um perceber mais originário e limitado, mas é a própria percepção com seus aléas, exigindo reconhecer nela mesma a dimensão que outras abordagens tentam explicar externamente.-
Profundidade como essência do perceber.
-
Aléas: possibilidade de engano sem perda do caráter perceptivo.
-
Rejeição de explicação extrínseca.
Um terceiro tipo de capacidades que causa espanto refere-se a constâncias fundamentais percebidas como intrínsecas, cuja obtenção parece exigir explicação.-
Constâncias como foco do terceiro eixo.
-
Espanto diante de regularidades perceptivas.
O conteúdo perceptivo parece homogêneo, como no caso da folha branca que reflete luz de modo desigual e ainda assim aparece globalmente como mesma cor, levantando a hipótese de síntese posterior de percepções parciais.-
Exemplo clássico: folha branca sob sombras e luzes.
-
Homogeneidade global apesar de contrastes locais.
-
Hipótese: síntese de fragmentos coloridos.
A síntese pode ocorrer em alguns casos, mas tomá-la como regra é problemático porque as supostas unidades básicas já teriam de ser percebidas como homogêneas, e a própria percepção natural fornece o modelo dessa homogeneidade, permitindo um golpe de vista globalmente branco{15}.-
Dependência de unidades já homogêneas.
-
Percepção natural como referência e modelo.
-
“Golpe de vista” como dado de brancura global.
A fenomenologia responde que a percepção pode isso: perceber coisas, percebê-las em suas dimensões e percebê-las com determinação sensível (cor, unida ou manchada) mesmo onde contingências sugeririam indeterminação, sem intervenção de juízo, pois a percepção é potência de unidade sensível.-
Determinação sensível como traço próprio do perceber.
-
Unidade sensível produzida sem requalificação judicativa.
-
Percepção como potência de unificação.
A mesma linha se aplica de modo ainda mais marcante às constâncias dinâmicas.-
Transição do estático ao dinâmico.
-
Ênfase em estabilidade através de variações.
Sob variação gradual da iluminação, a folha branca continua a aparecer como branca dentro de certos limites, preservando a “mesma cor” como identidade perceptiva.-
Estabilidade sob mudanças contínuas.
-
Identidade perceptiva de cor em limites determinados.
Há casos de constância apenas judicativa (julgar a rosa vermelha ainda vermelha à noite sem vê-la do mesmo modo), mostrando diferença entre constância conceitual e constância perceptiva.-
Exemplo: rosa vermelha à noite.
-
Julgamento de não-mudança sem igualdade do ver.
-
Constância conceitual sem constância perceptiva.
O fenômeno visado é diferente: o brilho e variações não impedem a rosa de aparecer vermelha de modo constante através delas, e isso provém da percepção, que fixa relativamente propriedades do objeto como fato primeiro.-
Fixação relativa de propriedades pelo perceber.
-
Variações atravessadas sem perda do aparecer constante.
-
Fenomenologia como reconhecimento de fato primeiro.
A constância perceptiva do tamanho parece ainda mais significativa, pois a percepção parece executar sem juízo o trabalho de determinação identificável do objeto.-
Tamanho como caso limite de determinação.
-
Aparente “trabalho do juízo” realizado pelo perceber.
No exemplo de Sean Kelly, a amiga que se afasta no campus não aparece menor a dez passos do que a três, e isso não é só crença, mas modo de aparecer em que a percepção atribui a mesma dimensão.-
Sean Kelly: amiga se afastando no campus.
-
Diferença entre “não crer menor” e “não aparecer menor”.
-
Atribuição imediata de mesma dimensão.
A atividade de seguir um objeto à risca (keep track of something) pode ser específica, sustentando manutenção de tamanho contra uma imagem pontilhista de variação incessante.-
Seguimento como prática perceptiva fundamental e particular.
-
Crítica ao modelo pontilhista de alterações contínuas.
Atribuir tamanho não exige ver primeiro “de perto” e depois acompanhar o afastamento, pois mesmo à distância no Main Quadrangle de Chicago, sem distorções atmosféricas ou efeitos de multidão, a percepção tende a dar ordem de grandeza correta e não um modelo reduzido.-
Main Quadrangle da Universidade de Chicago como cenário.
-
Condições normais de perspectiva e ausência de efeitos deformantes.
-
Ordem de grandeza percebida sem sequência de aproximação.
Há componente de rotinas e experiência, pois erros são mais prováveis com objetos pouco familiares à visão distante, e conhecimentos sobre objetos ajudam a interpretar percepções.-
Rotinas perceptivas e “juízos naturais”.
-
Familiaridade como moduladora de erro.
-
Conhecimentos como auxílio interpretativo.
O erro seria tratar a percepção como dado bruto não interpretado que só depois seria marcado como coisa e como coisa de certo tamanho, pois o aparecer já vem como aparecer de algo e de certa dimensão até certo ponto, dimensões intrínsecas ao objeto percebido.-
Rejeição do “dado bruto” neutro.
-
Coisa e tamanho como já presentes no aparecer.
-
Determinação parcial como traço intrínseco do perceber.
Mesmo sem identificar o que é, o que aparece no campus aparece com tamanho determinado, e “determinado” significa aparecer como tendo a mesma dimensão que teria se aparecesse mais perto.-
Determinação sem identificação conceitual.
-
“Mesmo tamanho” como estrutura do aparecer comparável.
-
Determinação não necessariamente precisa.
Trata-se de fato perceptual sem contribuição de faculdades superiores, e a resistência das constâncias perceptuais na própria percepção mostra poder de determinação independente de interpretações.-
Independência de juízo e de faculdade “superior”.
-
Resistência do perceptivo à interpretação.
-
Constância como evidência do poder do perceber.
Retoma-se a intencionalidade da percepção como poder de dar objeto verdadeiro (não sombra), com determinação própria de objeto, realizada por si mesma sem juízo, embora o dado perceptivo já se assemelhe minimamente ao objeto de um juízo por conter definições primitivas como tamanho.-
Intencionalidade como doação de objeto no sentido forte.
-
Independência em relação a julgamento e cognição não perceptiva.
-
Semelhança mínima com objeto de juízo (tamanho, definição).
-
Saber perceptivo imediato sem exame crítico.
Nessa perspectiva, a percepção parece fazer sozinha o que seria atribuído a outra potência, pois já executa parte do trabalho de determinação e antecede o juízo, em vez de oferecer dados impróprios à espera de interpretação.-
Determinação como trabalho já feito no perceber.
-
Percepção como condição do juízo.
-
Crítica ao modelo de dados impropriamente dados.
Esse poder parece enigmático por soar como obra do juízo sem juízo, e análises intencionalistas reforçam o mal-estar ao restringirem esse “juízo sem juízo” a um nível básico e truncado de objetividade mínima (tamanho, distância, precisão grossa).-
Enigma: obra do juízo sem julgamento.
-
Correctivo intencionalista: nível básico e limitado.
-
Objetividade mínima como horizonte truncado.
A leitura em termos de objetividade mínima pode repousar em descrição incorreta da experiência, exigindo reexaminar o suposto fato da constância (por exemplo do tamanho) e esclarecer o que se afirma ao invocá-lo{16}.-
Dúvida sobre a descrição fenomenológica assumida.
-
Questão: em que consiste o “fato” alegado.
-
Reorientação para o sentido da invocação.
Ao ver a amiga a cinquenta passos e depois perto, não surge inclinação a atribuir tamanho diferente, mas isso pode dizer respeito menos à percepção e mais a um conceito aplicado ao que é percebido.-
Identidade de atribuição como dado inicial.
-
Dúvida: trata-se de percepção ou de aplicação conceitual.
-
Conceito como possível foco do fenômeno.
Pode não haver sentido em espantar-se de que objetos mantenham tamanho ao se afastar em condições normais do mundo mesoscópico, pois o próprio conceito ingênuo de “mesmo tamanho” se funda em como objetos aparecem a dois e a cinquenta passos, tornando gramaticalmente errado julgar aparências por um conceito que elas constituem.-
Universo mesoscópico e condições normais como horizonte.
-
Conceito natural fundado nas aparências.
-
Erro de gramática: aplicar o conceito contra sua base.
Mesmo a formulação de que se vê “o mesmo tamanho” a diferentes distâncias é duvidosa, pois o visto é “mulher de cinco pés e meio a cinco passos” e “mulher de cinco pés e meio a cinquenta”, e como destacou Merleau-Ponty a distância entra fenomenologicamente no valor da “mesma” grandeza{17}.-
Merleau-Ponty: distância como componente do aparecer.
-
Valor pictural do tamanho dependente da distância.
-
Não identidade fenomenológica do dado.
A análise intencionalista, como no comentário de Sean Kelly a Merleau-Ponty{18}, erra ao separar o que aparece do modo de aparecer, pois para a percepção o que aparece a cada vez é algo diferente (tamanho-visto-a-x e tamanho-visto-a-y), sem separação interna entre coisa e maneira.-
Crítica ao “tri” na aparência.
-
Diferença perceptiva entre aparecer-a-x e aparecer-a-y.
-
Unidade do aparecer: não há duas camadas perceptivas.
Levar aparências a sério não implica a ficção de ver a amiga com poucos centímetros quando distante, pois isso exigiria uma métrica comum descontextualizada inexistente na percepção, já que o aparecer-longe é sui generis e confere valor próprio à noção intuitiva de tamanho.-
Rejeição da miniaturização literal.
-
Ausência de métrica descontextualizada no perceber.
-
Aparecer-longe como gênero próprio de aparecer.
Introduzir incommensurabilidade parece ameaçar o fato de que ambos os casos sustentam naturalmente o mesmo juízo de tamanho, levantando a questão de como experiências incommensuráveis fundamentam identidade simples de medida.-
Tensão entre diferença fenomenológica e unidade do juízo.
-
Problema: fundamento de identidade de medida.
-
Evidência prática de um único juízo motivado.
A resposta requer distinguir identidade exata instrumental, que a percepção não garante, de juízos ordinários aproximativos (como em feira), para os quais a percepção basta, pois os conceitos de tamanho e identidade usados são feitos à escala da percepção.-
Identidade exata como pergunta inadequada à percepção.
-
Juízos ordinários de “mais ou menos” como apropriados.
-
Conceitos ajustados à escala perceptiva.
Pressupõe-se uma gama de conceitos naturais ou ordinários ligados ao aparecer familiar, conceitos “fenomenológicos” no sentido de serem conceitos de seres que percebem.-
Conceitos nutridos pelo aparecer familiar.
-
Determinação conceitual indissociável do modo de aparecer.
-
Ordinário como melhor nome que “fenomenológico”.
Nesse nível, a identidade atribuída a objetos percebidos inclui que apareçam de um modo a uma distância e de outro modo a outra, e o conceito de identidade se constrói sobre essas aparências em vez de atravessá-las rumo a algo independente delas.-
Identidade não como entidade separada das aparências.
-
Construção conceitual baseada em padrões de aparecer.
-
Profundidade variável como condição do conceito ordinário.
Assim, aplicar adequadamente conceitos ao percebido não é surpreendente porque eles se alimentam do percebido e dele extraem seu princípio de determinação, de modo que o mesmo juízo em x e y decorre de conceitos constituídos por aparências do tipo “Z aparece em a e em b”.-
Conceitos constituídos por regularidades do aparecer.
-
Mesma aplicação conceitual como efeito dessa nutrição.
-
Juízo de identidade como juízo sobre a pertença das aparências a um gênero.
O sentido da identidade ordinária invocada é inseparável desse tipo de experiência, pois fora dela tal identidade não teria referência inteligível.-
Identidade ordinária como dependente do campo experiencial.
-
Referência do conceito delimitada pela percepção.
-
Sentido dado por experiências paradigmáticas.
O problema da constância pode ser falso porque supõe um sentido de constância dado em si que a percepção teria de alcançar, quando ao contrário é a percepção que dá sentido a constância e identidade, tornando possível falar em “constância perceptual”.-
Inversão: percepção como fonte de sentido das noções.
-
Constância como derivada do aparecer, não meta externa.
-
Crítica ao pressuposto de sentido autônomo.
A percepção dá menos um objeto do que aquilo em relação a que a noção ordinária de objeto faz sentido, de modo que objetos são concebidos segundo o modelo do percebido e não o inverso.-
Noção de objeto como modelada pelo percebido.
-
Primazia do aparecer na constituição da objetualidade.
-
Rejeição do espanto por “ver objetos”.
Por isso, não faz sentido aplicar à percepção uma norma de objetividade que ela mesma ajuda a nutrir, seja para elogiá-la por concordância seja para denunciá-la por desvios.-
Norma derivada não pode julgar sua fonte.
-
Elogio e censura como simetrias do mesmo erro.
-
Percepção como condição de tais normas.
Uma certa filosofia simpática afirma uma “verdade” global da percepção, segundo a qual só há percepção onde há acesso à coisa mesma tal como é, e ilusão não seria percepção.-
Verdade global como critério definidor.
-
Ilusão excluída do domínio da percepção.
-
“Coisa mesma” entendida como coisa tal como é.
Essa análise repousa em erro de gramática porque, se percepção dá a coisa mesma, também a ilusão o faz enquanto percepção entre outras, já que o dar perceptivo não é nem verdadeiro nem falso, embora certas formas possam ser chamadas “ilusões” por interesses típicos.-
“Verdadeiro/falso” como categorias inadequadas ao dar perceptivo.
-
Ilusão como modalidade de percepção.
-
“Ilusão” como classificação local e pragmática.
No exemplo de Müller-Lyer, a tese de que num caso se vê “como é” e no outro se vê “falso” é contestada por Merleau-Ponty, pois na figura com setas os traços vistos não são iguais nem desiguais no sentido ordinário, por terem sido deslocados para outro espaço de visibilidade onde a métrica ingênua não se aplica, sem afetar a igualdade geométrica verificada por régua.-
Merleau-Ponty: análise inicial da ilusão em Phénoménologie de la perception.
-
Alteração do espaço de visibilidade pela figura.
-
Inaplicabilidade da métrica ingênua de igualdade/desigualdade.
-
Igualdade geométrica preservada por instrumento.
Uma ilusão não é “falsa”, mas percepção em desvio relativo frente a conceitos naturais enraizados em tipicidades, como no caso do bastão reto na água que aparece “quebrado” sem ser assimilável à visão de um bastão realmente quebrado, revelando inadequação de certos usos conceituais.-
Desvio relativo entre aparecer e perfil conceitual típico.
-
Bastão na água: aparecer “quebrado” como tipo distinto de experiência.
-
Inadequação do conceito natural em certo uso.
Dizer que o bastão não é visto reto na água mostra que o conceito natural de “reto” não se aplica a essa situação como protótipo perceptivo, indicando que o conceito carece de “dentes” para esse caso.-
“Reto” como atributo mediado por ver torna-se impraticável.
-
Protótipo perceptivo do conceito não inclui o caso.
-
Limites internos do conceito.
A situação é mais complexa porque conceitos naturais entrelaçam traços perceptivos e não perceptivos, permitindo aplicar “reto” ao que não parece reto por saber como o reto aparece em certas condições, mas isso não decorre só da conexão perceptiva do conceito e revela que o caso não integra seu perfil perceptivo, podendo ensinar “como isso aparece”.-
Entrelacemento entre percepção e saber não perceptivo.
-
Aplicação conceitual por conhecimento de condições de aparecimento.
-
Aparência nova como aprendizagem do perfil perceptivo ausente.
É erro crer que, por às vezes o percebido resistir a certos conceitos, ele resistiria sempre, como na tese de uma irreductibilidade geral do conteúdo perceptivo que negaria sentido a ver igualdade/desigualdade mesmo no caso ordinário.-
Crítica à generalização do desajuste.
-
“Irredutibilidade” como tese de um fosso permanente.
-
Caso ordinário distinguido de casos de ilusão.
A tese é errônea porque alguns conceitos (medidas industriais de precisão) não se referem à percepção, mas outros são feitos para ela, como a igualdade intuitiva de dois traços, de modo que é absurdo dizer que no caso ordinário os traços vistos não são iguais nem desiguais, já que tais determinações foram feitas sob medida para esse tipo de aparecer.-
Conceitos técnicos versus conceitos ajustados à percepção.
-
Igualdade intuitiva como exemplo de conceito perceptualmente fundado.
-
Ausência de fosso intransponível entre perceptual e conceitual.
Não se segue daí que a percepção se torne conceitual, mas que ela participa crucialmente da determinação de certos conceitos, tornando possível sua aplicação ao que aparece.-
Participação da percepção na gênese de conceitos.
-
Manutenção da não-conceitualidade da percepção.
-
Aplicação conceitual como efeito dessa gênese.
O erro persistente é tratar a percepção como fornecedora de um “conteúdo” alternativo ao conceitual, como se houvesse lado a lado um conteúdo não conceitual (perceptivo) e um conteúdo conceitual.-
Critica ao paralelismo de “dois conteúdos”.
-
Percepção não como alternativa no mesmo sentido de conteúdo.
-
Confusão categorial subjacente.
O fato de traços aparecerem “nem iguais nem desiguais” em certos casos é mal interpretado como capacidade positiva de um universo fenomenológico contra-objetivo, quando na verdade expressa inadequação de um conceito em certo entendimento e não introduz nova determinação positiva.-
“Nem iguais nem desiguais” como diagnóstico de inaplicabilidade.
-
Recusa de “contra-objetividade” fenomenológica.
-
Condições de aplicação do conceito não reunidas.
O mesmo conceito pode aplicar-se de outro modo no mesmo caso (igualdade instrumental por decímetro), mostrando que a dificuldade é da avaliação intuitiva naquele contexto e não de uma suposta indeterminação positiva que rivalizaria com o conceitual.-
Igualdade geométrica preservada por instrumento.
-
Avaliação intuitiva como sem sentido em certos arranjos.
-
Distinção entre empregos do conceito.
É ilusório atribuir à percepção a determinação do que aparece no sentido do juízo para produzir objetos, mas também é incorreto transformar o indeterminado em indeterminável de princípio, pois o percebido é exatamente aquilo sobre que muitos juízos versam, já que esses juízos foram formados à medida das coisas percebidas.-
Dupla crítica: objetificação por juízo sem juízo e indeterminabilidade absoluta.
-
Percebido como tema primário de muitos juízos.
-
Formação conceitual orientada ao percebido.
O projeto de “determinidade indeterminada” que abre uma “fenomenologia” fundada em subreption decorre de inquietude de que, sem determinação própria, a percepção seria caos e não alcançaria coisas, apenas não-coisas como sensações e superfícies instáveis.-
Subreption como deslocamento indevido de exigências.
-
Medo de caos perceptivo como motivação.
-
Não-coisas: sensações, superfícies, formas sem estabilidade.
Essa inquietude se revela absurda porque o dado perceptivo é perfeitamente determinado como aquilo que é, e aparições como Müller-Lyer ou o efeito de movimento após fixar uma queda d’água são aparecimentos específicos e identificáveis, aparecimentos de coisas, sem necessidade de validação prévia por padrões externos.-
Determinação como especificidade do aparecer.
-
Exemplos: Müller-Lyer e pós-imagem de movimento após queda d’água.
-
“Aparecer de coisas” como caráter do fenômeno.
Problemas de validação surgem quando se pergunta por padrões (tamanho, medida, padrão), mas essa validação pressupõe já estar no meio das coisas por percepção, que é o acesso primordial e profundo a elas.-
Validação como questão secundária e derivada.
-
Padrões e medidas como exigências externas.
-
Percepção como condição do questionar validatório.
A fenomenologia tem papel ambíguo ao afirmar que na percepção são dadas as “coisas mesmas”, pois isso pode ser apenas reconhecimento de evidência do real dado, mas também pode degenerar em tentativa de justificar que o real é realmente dado, como se fosse preciso assegurar a ipséidade do real.-
Dupla leitura: evidência simples versus justificação.
-
“Coisas mesmas” como fórmula de ambiguidade.
-
Tentação de provar o que se vive como dado.
A fenomenologia fica suspensa entre aceitação da evidência de uma facticidade (percepção) e tentativa de demonstrar sua possibilidade, e ao seguir a segunda via recria o problema e perde de vista a percepção, que sempre dará menos do que se exige por não ser seu problema.-
Facticidade como núcleo da percepção.
-
Demonstração como gesto que desloca e obscurece.
-
Problema criado ao tentar “fechar” o problema.
estudos/benoist/fenomenologia-e-percepcao-2013.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
