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estudos:beaufret:towarnicki:dasein-1992
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A obra de Heidegger surge cada vez mais como uma reflexão sobre os Tempos modernos, cabendo situar o itinerário ou caminho de pensamento a partir de Sein und Zeit, publicado em fevereiro de 1927, livro que faz Heidegger passar da clandestinidade universitária a uma celebridade de alcance internacional
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O livro desconcerta seus leitores quanto ao modo de abordá-lo, e o próprio Jean Beaufret esperava ouvir falar do tempo, quando na verdade Heidegger lhe falou do ser em sua oposição ao étant
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Sein und Zeit seria assim o livro da diferença entre ser e étant, ainda que o termo diferença não figure tematicamente nessa obra, surgindo apenas na locução diferença ontológica no curso Problèmes fondamentaux de la phénoménologie, ministrado em Marburgo no semestre seguinte à publicação
Interrogado sobre por que era preciso sublinhar essa diferença, responde que ela está sempre presente onde há filosofia e metafísica, mas em parte alguma pensada como tal, sendo o tempo, no título L'Être et le Temps, o nome que a diferença entre ser e étant assume ao ser trazida à linguagemQuanto à importância de distinguir melhor essa diferença, explica que ela constitui o elemento subjacente e atuante de toda a história da filosofia, sem jamais ter sido, como tal, posta em linguagem, havendo apenas precedentes não decisivos-
No diálogo platônico Hipias Maior, perante a pergunta de Sócrates sobre o Belo, Hípias responde apenas com o exemplo de uma bela moça, sem perceber a diferença entre “o que é belo” e “o que é o Belo”, preferindo por fim o ouro, o que ilustra a ameaça do ser pelo étant
Questionado se Heráclito e Parmênides, antes de Platão, já haviam percebido essa diferença, responde que a apreenderam ainda mais que Platão ou Aristóteles, citando o verso mais insólito do poema de Parmênides, esti gar einai, “é em verdade ser”, comparado a um verso de Alfred de Vigny, e concluindo que todo o poema de Parmênides gira em torno do serReconhece que essa questão fundamental da filosofia, a questão do ser, jamais fora formulada antes de Heidegger, sendo a filosofia grega, e depois toda a metafísica ocidental, uma tentativa milenar de corresponder a uma pergunta ainda não posta-
Em Aristóteles, a pergunta ti to on, “o que é o étant”, recebe como resposta o divino, to theion, mais étant que o natural ou o humano, ao passo que outro aspecto de sua filosofia busca responder o que é ser para o étant, respondendo com noções como categoria e energeia
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Aristóteles chega assim a distinguir ser de étant, mas também a confundir ser com o que há de mais étant no étant, sem compreender que o próprio do ser é ser intimamente ameaçado pelo étant
Observa-se que em Sein und Zeit Heidegger fala do sentido do ser, depois da verdade do ser, e por fim, insatisfeito com esses termos, de sítio, de contrada e de topologia do ser, ao que Beaufret responde que Sein und Zeit já é, de ponta a ponta, uma topologia do ser, pois há ser apenas onde há tempo, sendo o tempo o topos do serSobre o desconcerto dos leitores diante das obras posteriores a Sein und Zeit, e a distinção proposta por Richardson entre um Heidegger I e um Heidegger II, relata que o próprio Heidegger lhe dissera não lhe terem reprovado por não repetir o mesmo desde Sein und Zeit, negando tratar-se de dois indivíduos distintos, mas de um aprofundamento da mesma problemática-
Menciona ter escrito um estudo chamado Le chemin de Heidegger, no qual afirma não ser tudo contemporâneo no pensamento de Heidegger, tratando-se de um caminho que se inventa a si mesmo à medida que avança, cuja primeira etapa após Sein und Zeit é a conferência de Bremen de 1930, L'essence de la vérité
Interrogado sobre o que traz o livro de 1927, responde que L'Être et le Temps faz aparecer o ser em sua distinção do étant sob o horizonte do tempo, mas limitado, de ponta a ponta, à analítica do Dasein, tratando do tempo como temporalidade do Dasein e ainda não do tempo como temporalidade do ser-
O termo Dasein, empregado correntemente por Kant como equivalente de existentia, é pronunciado por Heidegger com acento deslocado, DaSEIN em vez de DAsein, e só pode ser traduzido pela estranha locução être-le-là
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Compara o Dasein heideggeriano ao ego cogito cartesiano, ambos pontos de partida para a questão do que é, mas distingue-os pelo fato de o je pense cartesiano visar a coisa como objeto diante de si, enquanto o Dasein se abre imediatamente à presença das coisas, ilustrando com o exemplo da janela e da lua, únicas para todos, ao contrário das múltiplas luas do sujeito cartesiano
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Esclarece que Dasein designa a um só tempo o homem e a abertura que o constitui, aproximando-o do termo grego psyché, e cita Aristóteles, para quem a alma é à sua maneira todos os étants, sem que isso signifique identificação, mas presença imediata sem anteparo
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Precisa que o Dasein visa mostrar que a consciência não é dimensão fundamental, mas derivada e devedora de séculos de filosofia, mencionando a tradução em curso de Sein und Zeit por François Vezin, na qual Dasein permanecerá intraduzido, e relata a observação do helenista Wolfgang Schadewaldt sobre a intraduzibilidade do termo, à semelhança de logos ou tao
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Quanto à temporalidade própria do Dasein, explica que o fenômeno originário do tempo não é a sucessão dos instantes, mas a Gleichursprünglichkeit der Ek-stasen, a contemporaneidade das ekstases de passado, presente e futuro, correspondente ao instante de Kierkegaard
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Ilustra essa contemporaneidade com o exemplo de Descartes fundando um presente a partir do geômetra grego Apolônio e dirigindo-se no Discours de la méthode a seus futuros neveux, e com a distinção de Nietzsche entre história monumental, antiquária e crítica, associando esta última ao vers de Mallarmé sobre “o virgem, o vivaz e o belo hoje”
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