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estudos:beaufret:towarnicki:6
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Interrogado sobre a afirmação de Dialogue avec Heidegger segundo a qual o desvelamento técnico do étant, oriundo do mundo da filosofia, é a verdadeira filosofia do nosso mundo, confirma que compreender a era da técnica exige remontar às fontes gregas da filosofia, observando que o termo técnica, tanto quanto filosofia, é palavra grega em francês, inglês ou alemão, surgida apenas no século XVIII, ausente em Descartes e atestada pela primeira vez em Diderot, que fala do técnico da pintura, dando origem já no século seguinte ao nome da Escola Politécnica
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Sobre em que sentido o fato de a palavra técnica falar grego seria esclarecedor, atribui a Heidegger o mérito de ter pressentido que termos como técnica e filosofia não são meros decalques do grego, à maneira de heliotrópio ou telefone, mas palavras carregadas de história pelas quais o pensamento grego persiste em nos iniciar através da distância crescente que nos separa de sua origem, comparando-os a outras palavras como ideia, energia, música ou política
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Questionado sobre como entender o termo técnica com ouvido grego, expõe a resposta heideggeriana de desviar-se do sentido corrente que a faz designar um modo da práxis por oposição à teoria, mencionando o papel de Marx nessa interpretação prática, ao inverter a fórmula de Auguste Comte, ciência donde previsão, previsão donde ação, em ação donde previsão, previsão donde ciência, posição partilhada por Proudhon e depois por Bergson, contra a qual Heidegger se recusa a entender a técnica como aplicação do teórico
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Sobre em que os gregos poderiam auxiliar, esclarece que o termo techne, de que deriva técnica, não tem sentido prioritariamente prático, sendo empregado por Platão como sinônimo de episteme, saber, e intervindo em Aristóteles como sujeito possível do verbo aletheuein, colocar a descoberto no domínio aberto da aletheia, como o Parthenon sobre a Acrópole
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Interrogado se a técnica em sentido grego equivaleria a um retorno do prático ao teórico, adverte contra a pressa em manejar a dualidade teoria e prática, lembrando que os gregos já conheciam essa distinção como se dando ao contrário, exemplificada pelo médico que trata a partir do que fora visto por último como causa da doença
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Situa antes dessa distinção o momento da techne, disposição primordial nem ainda teórica nem prática, anterior à distinção do teórico e do prático, contrastando-a com o mundo atual, em que o primeiro e principal, diante de qualquer coisa, é sempre a resposta possível à pergunta “quanto”, exemplificada pela divisão de uma torta segundo o rango social de cada um, no que Heidegger chama projeto matemático da natureza, mais bem formulado por Descartes
Questionado se não seria natural, diante de uma dificuldade, perguntar “quanto” e calcular, responde que para os gregos essa resposta precisa não era o essencial, mas apenas uma das dimensões do fenômeno, correspondente à categoria da quantidade em Aristóteles-
Ilustra com o Parthenon, que tem cerca de 68 metros de comprimento, 30 de largura e quase 20 de altura, mas é antes de tudo, e qualitativamente, um templo dórico, não a partir de suas dimensões matemáticas, e com o episódio do Fedro em que Sócrates relata a Pródico ter respondido, rindo, que um discurso não precisa de muitas nem de poucas palavras, mas exatamente das que precisa
Sobre por que a visão grega da techne teria sido suplantada pelo projeto matemático da natureza, declara a questão ainda em suspenso, formulando porém que a técnica não é, em sua essência, o lado prático da teoria, nem fonte desta, mas aquilo a partir de que, no mundo moderno, advém em sentido inverso a distinção entre teoria e práxis, cuja fronteira em parte alguma se manifesta claramente-
Cita a fórmula de Heidegger, dita em entrevista à televisão alemã por ocasião de seu octogésimo aniversário, segundo a qual é a ciência moderna da natureza, incluída a práxis correspondente, que tem fundamento nos desenvolvimentos essenciais da técnica moderna, e não o inverso
Confirma que o olhar técnico está na origem da ciência, como projeto matemático da natureza, tal como estivera na origem da ciência grega, sendo erro dos modernos reduzir o técnico ao prático, quando o prático, tanto quanto o teórico, faz parte do técnicoSobre a diferença entre a visão instrumental corrente da técnica e a abordagem heideggeriana de seu enigma, situa este último no vínculo com o sentido grego de techne, de modo que o uso da palavra técnica reintroduz em nosso mundo um pouco de pensamento grego que, sendo esclarecedor da essência mesma da técnica, permanece de início inteiramente oblitado, chegando a afirmar que técnica exprime a própria maneira como o mundo nos aparece, no sentido da aletheia gregaConfirma que o cientista e o técnico pertencem à mesma dimensão, a da técnica tal como reduzida desde Descartes ao projeto matemático da natureza, não havendo entre ambos fronteira realSobre a que conduz essa redescoberta, responde que ela permite ter uma relação mais livre com a técnicaConfirma que o problema, tal como Heidegger o coloca, não se resolve pela prioridade entre ciência e prática, já que a distinção entre teoria e prática nada esclarece essencialmente sobre a técnica, sem contudo eliminar tal distinção, já presente em Aristóteles ao afirmar que teoria e prática se relacionam anapalin, em sentido inverso-
Adverte que reduzir a técnica a essa distinção, como faz Marx, equivaleria a afirmar que entre a técnica antiga dos gregos e a técnica moderna há apenas diferença de grau, comparação tão absurda quanto dizer que entre uma igreja românica e uma gótica há mera diferença de grau, citando com humor a passagem da conferência de Heidegger sobre a essência da técnica em que turbinas, aviões a jato e motores de alta frequência seguem sendo vistos como meros meios para fins, tanto quanto um cata-vento ou uma serraria d'água na Floresta Negra
Interrogado sobre o que seria então a técnica, se não meio para um fim, responde que ela é a própria visão que o homem dos Tempos modernos tem do mundo, aquilo que Heidegger chama em Sein und Zeit, à página 362, o projeto matemático da naturezaSobre a datação histórica desse projeto, evocada pela citação de Galileu no Saggiatore de 1623, segundo a qual a língua em que está escrito o Livro da Natureza é a lingua matematica, e pela fórmula cartesiana do homem como mestre e possuidor da natureza, corrige que Descartes não tinha propriamente vontade de tornar-se mestre e possuidor da natureza, não devendo ser confundido com o homem da vontade de potência nietzschiana-
Situa entre Descartes e Nietzsche um caminho balizado pelos nomes de Leibniz, Kant, Fichte, Schelling e Hegel, sendo somente com Nietzsche que a calculabilidade, die Berechenbarkeit, se afirma formalmente como fundamento da dominabilidade, die Beherrschbarkeit, da natureza, segundo o voto não de Descartes mas de algo mais secreto, a vontade de potência
Confirma não haver em Heidegger nenhuma ofensiva contra a técnica nem denegrimento da ciência moderna, citando-o ao afirmar que seu propósito é trazer mais luz à essência de ambas do que aqueles que, partindo da práxis, antes acumularam obscuridade que esclarecimento, remetendo eventuais pregações contra a técnica aos ecologistas, e não a Heidegger, que em Friburgo vivia cercado do conforto proporcionado pela técnica, com discos e aquecimento central, e não numa cavernaQuestionado por que, apesar da vasta bibliografia sobre os perigos da técnica, ninguém parece atribuir importância às questões de Heidegger, compara-o a Cézanne, que também viveu na clandestinidade de Aix-en-Provence e escrevia ao filho que todos os seus compatriotas eram “uns imbecis” perto dele, lamentando que ninguém perceba que a presença de Heidegger no mundo é tão importante quanto a de Platão, Aristóteles, Descartes, Leibniz, Kant ou Hegel, e estranhando que seus compatriotas universitários não tenham compreendido terem sido contemporâneos de quem trouxe à palavra uma interpretação que invalida o que se costuma dizer sobre o assuntoInterrogado se não caberia à própria ciência pensar-se a si mesma, ou à filosofia oferecer esclarecimento mais fundamental sobre a técnica e as ciências a ela ligadas, responde que se trata antes do “passo que retrocede” da filosofia até um pensamento outro que a própria filosofia, no qual esta teria sua fonte, empreendimento que remete aos gregos não para neles permanecer, mas para retomar seu questionamento a partir de uma origem ainda velada, über das Griechische hinaus, para além do próprio grego, até seu início ainda inaparenteConfirma que é justamente isso que Heidegger, desde o início de sua conferência de 1953, chama ter uma relação mais livre com a técnica, esclarecendo que o comparativo “mais livre” é acréscimo seu, preferido ao absoluto “livre” empregado por Heidegger, ajuste que este teria aprovado inteiramenteestudos/beaufret/towarnicki/6.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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