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estudos:beaufret:dialogos:methode-methode-1974
Método
JBDH3:28-32
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O termo método convida à meditação, sendo lido com frequência em Platão e depois em Aristóteles, mas ausente antes deles, uma vez que no poema de Parmênides figura apenas hodos e não ainda methodos, notando-se que a mesma palavra traduzida do grego não diz a mesma coisa a Platão e a Descartes
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Cita a passagem do Fedro segundo a qual, quando a coisa é importante, é preciso rodeá-la, sob pena de que tudo se esboroe, e observa que os circuitos platônicos são círculos cada vez mais estreitos, comparados na República ao cerco dos caçadores em torno da moita, exigindo o diálogo e a synousia de estarem juntos em torno da coisa mesma
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Observa que dizer de alguém que ele não cessa de rodear é dizer que ele platoniza, comparando esse gesto ao modo como Cézanne voltou a vida inteira em torno da pintura de Cézanne
Contrapõe a esse método platônico o método cartesiano, que não mais roda em torno da coisa estreitando círculos, mas avança por ordem dos objetos mais simples aos mais compostos, exemplificado pela equação de segundo grau como produto de duas equações de primeiro grau-
Observa que, em 1637, não há mais tempo a perder, se a tarefa da filosofia é tornar o homem mestre e possuidor da natureza, sendo o movimento que avança o que substitui a estação pensativa do entendimento platônico
Cita a caracterização husserliana de Descartes, na Krisis, como todo entregue a seu próprio objetivo, ao ponto de esboçar às pressas uma metafísica lamentável, ainda que estivesse no bom caminho, cabendo desengajá-lo do psicologismo transcendental que seria o contrassenso de seu pensamento-
Observa que Kant já trabalhara nesse sentido, mas permanecera preso a um psicologismo próprio, e que Husserl, em 1907, silenciando sobre Hegel e Nietzsche tanto quanto Bergson no mesmo ano, propôs-se escrever a verdadeira crítica da razão nas Cinco lições sobre a fenomenologia, transição entre as Recherches logiques de 1900 e as Ideen de 1913, preparando de longe a Lógica de 1927
Interroga-se sobre o objetivo de Husserl, fundar a ciência como Descartes ou Kant, notando que Descartes, mais diretamente interpelado que Kant, pergunta o que é a ciência como Cézanne perguntava o que é a pintura, meditando seu próprio ofício, no qual Leibniz observava que Fermat e Pascal o superavam, sendo Descartes superior apenas como fundador-
Identifica esse fundamento no inconcussum do ego cogito, mostrando que sua solidez é dupla, a da res cogitans trazida ao primeiro plano pelo método e a da solidez do próprio método, revelando o fundo despercebido da acusação de círculo vicioso feita a Descartes, mais envolvente do que a relação entre o cogito e Deus, desencerrada por Kant e aperfeiçoada por Husserl na diferença entre construção kantiana e constituição husserliana
Explica que a fraqueza cartesiana, segundo Kant e Husserl, está em que a solidez da coisa eclipsa a solidez do método, sendo este, na verdade, o próprio ego cogito em sua ocupação de só se dirigir a si mesmo, colóquio consigo mesmo que Hegel descreve como parecendo ocupar-se de outra coisa quando na verdade só se ocupa de si-
Define o método como o pensamento retornado sobre si mesmo, que só assim faz os objetos aparecerem objetivamente e não fantasticamente, ilustrando com o pedaço de cera, reduzido a nihil aliud quam extensum, e com a definição spinozana do método como cognitio reflexiva
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Cita o exemplo de Galileu, interrogado sobre por que supõe que um corpo em movimento continua indefinidamente sem obstáculo, respondendo mente concipio, e a resposta cartesiana cogitando, mostrando a força propulsiva da reflexividade do ego cogito, capaz de fundar uma marcha adiante que nada deve ao exterior, culminando na afirmação de Hegel, no Discurso de Berlim, de que nada escapa ao poder do Espírito
Descreve o advento da ciência moderna como esse retorno sobre si da ideia de método, citando a definição hegeliana do método não como simples meio de conhecimento, mas como alma imanente do próprio conteúdo, do qual nenhum objeto escapa-
Distingue essa observação pascaliana, que via nessa busca da busca o fundo do divertissement, preferindo os problemas aos métodos, da posição de Leibniz, para quem o método, que em Pascal permanecia limitado, é mais essencial que o problema, citando a carta de 1679 ao grão-duque de Hanover sobre a preferência por métodos em vez de soluções de problemas
Conclui situando esse primado do método sobre a ciência, reconhecido por Nietzsche como sinal dos tempos, na largada grega evocada por Husserl nas conferências de Viena de maio de 1935, remontando ao thaumazein platônico e aristotélico como origem histórica da theoretische Einstellung-
Cita a advertência husserliana sobre o mal-estar decorrente do revestimento conceitual que recobriu o mundo da vida, propondo uma dessenelização moderada, sem excesso, evocando a fórmula cartesiana a Chanut sobre agir “com medida e discrição”
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