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Filosofia Cristã
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A noção de uma “filosofia cristã” é considerada por Gilson como um contrassenso se tomada em sua essência formal, e por Heidegger como “ferro de madeira” e um mal-entendido, embora ambos reconheçam que o cristianismo pode fornecer conceitos que estimulam o trabalho filosófico, como o de criação, e que a metafísica moderna é impensável sem as representações fundamentais da dogmática cristã.
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Gilson afirma que a noção de filosofia cristã não tem mais sentido do que a de física ou matemática cristã, enquanto Heidegger a considera um contrassenso, mas ambos concordam que a metafísica moderna, de Descartes a Kant e ao idealismo alemão, é impensável sem as representações fundamentais da dogmática cristã.
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Apesar dessa concordância aparente, eles divergem profundamente, pois Gilson defende que nada é mais conforme à essência da filosofia do que “filosofar na fé”, enquanto Heidegger afirma que nenhuma teologia de tipo cristão pode sequer encontrar abrigo na problemática filosófica.
A divergência fundamental entre Gilson e Heidegger reside no fato de que, para o primeiro, a filosofia poderia ter surgido em qualquer lugar, enquanto para o segundo, a filosofia é, em sua essência, grega, e sua origem é tão íntima ao mundo grego quanto a da tragédia, sendo absurdo imaginar que uma filosofia cristã original pudesse surgir na Idade Média.-
Gilson sustenta que a prioridade cronológica da filosofia grega não prova que não tenha havido uma filosofia cristã, enquanto Heidegger afirma que a filosofia, na radicalidade de sua origem, é de tal natureza que foi prioritariamente do mundo grego que ela se apoderou para se desdobrar.
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Para Heidegger, a ideia de que a filosofia poderia ter surgido em outro lugar, como a revolução industrial, é insensata, pois a filosofia como metafísica não é uma “disposição natural” da razão humana em geral, mas um fenômeno intimamente ligado ao mundo grego.
A introdução do conceito judaico-cristão de criação na filosofia, segundo Heidegger, não representou um progresso, mas sim um desvio do curso inicial da filosofia, uma vez que a questão grega do ser do ente é mais radical do que a questão da origem do ente, que o cristianismo trouxe para o primeiro plano.-
Para Gilson, o conceito de criação, de origem bíblica, trouxe uma contribuição decisiva para a questão da origem radical das coisas, que para os gregos não teria encontrado como se colocar, devido à noção de causa eficiente estar oblitada.
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Heidegger, ao contrário, sustenta que a questão de uma origem radical das coisas é grega, mas não no sentido da criação, que remonta causalmente do ente ao ente, sem colocar a questão do ser do ente, que é mais radical e que o cristianismo tornou “superflua”.
Para Heidegger, a filosofia, ao longo de sua história, testemunha uma perda de radicalidade inicial, sendo conduzida e regida por representações inspiradas pelo cristianismo, o que ele chama de “declínio” ou “ocidente”, não no sentido pejorativo de decadência, mas como o afastamento da questão central do ser.-
O termo “declínio” não tem uma conotação pejorativa para Heidegger, mas indica que a questão do ser, que era central e radical no início da filosofia, foi sendo ofuscada pela questão de qual é o primeiro no ente, como se o ente tivesse se reinstalado diante do ser como um muro.
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O cristianismo interveio no debate filosófico tardiamente, quando o acesso ao ser já estava obstruído, reduzindo a questão metafísica à busca do que há de primeiro no ente, o que deu origem às “teologias do Antigo Testamento” que flutuam entre o necessitarismo e a contingência da criação.
O chamado “esquecimento do ser”, característico do declínio, é anterior ao cristianismo, que apenas tirou partido dele, e a filosofia grega já se deu na dimensão do declínio, embora nada tenha sido totalmente perdido do que brilhou no início.-
Mesmo na filosofia grega, o percurso se deu na dimensão do declínio e do esquecimento do ser, e, ao longo da história, nada se perdeu totalmente do início, mesmo quando a exaltação judaico-cristã do ente prevaleceu sobre a questão do ser.
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No curso da filosofia moderna, o que foi relativamente perdido tende a retornar, como se um apelo da fonte esquecida se fizesse ouvir através da muralha do esquecimento, sendo o abalo kantiano um fenômeno fundamental nesse retorno.
A história da filosofia é, para Heidegger, a “história do ser em sua clareira”, e o caráter onto-teológico da metafísica, que dá à filosofia seu estilo desde Aristóteles, decorre do esquecimento do ser, e não da recepção da dogmática cristã, que não é um acaso histórico.-
A recepção do Deus criador da Bíblia na imaginação dos metafísicos clássicos só foi possível porque algo mudou secretamente na relação do homem com o ser, e a filosofia medieval, em sua referência bíblica, é a verdadeira filosofia romana, que pensou muito além de meros escolares.
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Heidegger afirma que o que determina o ente em seu ser foi experimentado de maneira totalmente diferente na Idade Média do que em Aristóteles, mas não porque os teólogos medievais tenham entendido mal Aristóteles, e sim porque o próprio ser teria mudado, o que se mede pela “romanização do grego”.
A doutrina da criação, para Heidegger, é uma etapa intermediária entre o mundo grego e o “Weltbild” da modernidade, onde o homem se torna “senhor e possuidor da natureza”, e a filosofia cristã, ao denunciar os males da técnica, não viu que essa mesma senhoria é o prelúdio do que ela combate.-
A filosofia cristã viu bem o perigo da técnica, mas não viu que o apelo à senhoria divina é, na verdade, o prelúdio da senhoria humana, e o caminho não é apelar de uma senhoria a outra, mas retornar a um não-poder mais essencial, que é o pensamento do ser.
Heidegger não despreza a Escolástica, que foi um pensamento de ponta em seu tempo, mas, ao contrário de Gilson, que a vê culminar com Tomás de Aquino, Heidegger coloca mais alto Agostinho, cuja doutrina da criação “do nada” aparece como uma etapa intermediária entre a antiguidade e o pensamento por vir.-
Heidegger considera Agostinho uma “cabeça especulativa” e lhe presta homenagem na conferência “O que é metafísica?”, onde a criação “do nada” é uma etapa intermediária entre a antiguidade e o pensamento vindouro, e ele afirma que, sem sua proveniência teológica, nunca teria chegado ao caminho do pensamento.
Heidegger não coloca o cristianismo “debaixo do alqueire”, e afirma que a palavra do Evangelho é mais próxima da palavra grega do que a dos filósofos medievais, que a interpretaram com um material de conceitos derivados e desviados do grego, e ele guarda um velho amor pela teologia.-
Heidegger declara que, se um dia escrevesse uma teologia, o termo “ser” não poderia de modo algum intervir, pois a fé não precisa do pensamento do ser, e quando recorre a ele, já não é mais fé, sendo a experiência de Deus e de sua manifestidade algo que relampeja na dimensão do ser, sem que o ser possa ser um predicado de Deus.
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