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estudos:beaufret:dialogos:ai-da-1974

Aí (da)

JBDH3:89

O mais surpreendente nesse ser que é mais do que animal, o homem, é de fato que a máxima manifestação de seu ser foi inicialmente sustentada por sua própria relação com o divino. É assim que o homem grego, segundo um fragmento de Hesíodo, é aquele “a quem os Imortais se mostraram antiphaniquement presentes em seu tempo”. Mas de onde os deuses se revelaram assim aos homens? Dos quatro cantos do que é, sendo o próprio homem parte disso, ou melhor, sendo que em seu ser existe um mundo inteiro. Esse “aí”, que é o fundo do próximo e do distante, assim como de tudo o que até aqui existe e de tudo o que ainda não existe, é nele que o homem, já encontrando-se aí, é tomado por ele, é atingido pela abertura para aquilo que se abre a ele na medida de um mundo onde, até onde a vista alcança, tudo é presença e rosto, oferenda ou recuo, coisa ou sinal. Assim nos se apresenta, no mais próximo, a região do ser cujo estudo a filosofia empreenderá em uma reviravolta até o ser do olhar inicialmente fixado no existente. O homem, enquanto existente cuja característica é o ser-aí, “tem uma relação — ou mesmo uma relação privilegiada — com a própria questão do ser” (S. Z., p. 8), pois “ele se mantém ek-sistente no próprio Aberto do ser, ao mesmo tempo em que suporta a provação deste” (W.M. ?, p. 14). Mas o ser, se por isso nos é mais secretamente próximo do que qualquer existente, não é, em hipótese alguma, nada que exista. É com ele que um nada nos visita. O francês designa o ser dizendo: há. Há, por exemplo, uma casa no prado, um astro na noite. Mas “há” não é, em si mesmo, nem casa, nem prado, nem astro na noite, nem nada semelhante. Que o ser exista não deixa de ser, dirá Heidegger, a maravilha das maravilhas. O pensamento comum se interessa pelo que há, sem nunca se preocupar com o “há”. A filosofia grega, ao contrário, subverte o pensamento comum ao se dedicar a meditar, em tudo o que há, apenas isto: o lampejo do ser — “há”.

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