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estudos:beaini:1981:1

1 Linguagem como determinante do "Dasein"

BEAINI, Thais Curi. À escuta do silêncio: um estudo sobre a linguagem no pensamento de Heidegger. São Paulo : Cortez,  Autores Associados, 1981.

1. O homem é único por falar, e essa capacidade o distingue dos animais e das coisas, com os quais partilha apenas a característica comum de serem entes, entendendo-se por ente tudo o que pode ser encontrado no mundo.

2. Cabe explicitar as noções de ente e ser, bem como a noção do ente-homem, a fim de evitar dificuldades terminológicas ao longo da investigação.

1 Diferenciação Geral entre Ser e Entes: Especificidade do Ente Homem

3. Tudo o que é, todo ente, tem um ser, seja o homem, o animal, a planta ou o mineral, mas aquilo que os faz ser entes não é, por sua vez, um ente, e sim o Ser, sem o qual nenhuma experiência de ente seria possível, embora raramente seja tematizado, pois o homem se dispersa no ente a ponto de perder-se nele, não presta atenção ao ser e chega a supor que é o ente que engendra o Ser.

4. O homem cotidianamente só se interessa pelo ente, porque este é o que está à vista e aparece, ao passo que o ser do ente ordinariamente não aparece em si mesmo, sem que, contudo, se identifique com o ente ou possa ser reduzido a ele.

5. O ser apresenta-se, numa primeira abordagem, como ser-do-ente, pois o “é” se aplica inicialmente aos entes, como uma árvore, um animal ou o mundo, enquanto o ser propriamente não é do mesmo modo que o ente, sem por isso igualar-se ao vazio, já que constitui o fundamento sensivelmente imperceptível do ente, e é pelo pensar que se alcança o âmbito em que o “é” se emprega prioritariamente ao ser, entendido como luz que desvela o ente e o torna apreensível.

  • O “é” aplica-se aos entes de forma natural e até instintiva.
  • O ser, que não é um ente, é em si mesmo o fundamento do ente.

6. A mundanidade do mundo, isto é, a estrutura do mundo bíblico, do mundo romano e de todos os mundos, exemplifica o ser do mundo, válido para qualquer especificidade que este adquira, por ser a estrutura que faz o mundo ser mundo.

7. No opúsculo “Da Experiência do Pensar”, mostra-se como o “é” se aplica ao ente e ao ser: aquilo que é costuma ser tomado como ente, porque do ente se diz que é, mas, invertida a perspectiva, aquilo que é não é de modo algum o ente, pois o “é” só se dá ao ente quando este é abordado em relação ao seu Ser, de modo que no “é” se pronuncia o Ser, significando o Ser do ente.

8. O “é” aplicado ao ser deve ser entendido em sentido preciso, pois o ser nunca é do mesmo modo que os entes são, dizendo-se o “é” propriamente do ser enquanto ser, do ser em si mesmo.

9. Na conferência “Tempo e Ser”, para evitar confusões terminológicas, emprega-se o termo “dá-se” em vez de “é” para determinar o ser, reservando-se o “é” para o ente e sublinhando-se que o ser não é tomado como ser-do-ente, mas como o dom que se desvela.

10. A experiência com a palavra indica aquilo que se dá e que, contudo, não “é”, conforme explicitado por Ernildo Stein em seu comentário a Heidegger.

11. O ser não é como o ente, pois não ocupa lugar nem possui as características do ente, e nesse âmbito pode-se dizer que o ser não é, mas, como o “é” é aqui empregado com o mesmo sentido do “dá-se” heideggeriano, isto é, o ser enquanto desvelamento e presença, mantém-se o termo “é”, sem ignorar o sentido e a importância do “dá-se”.

12. Move-se cotidianamente em meio ao “é”, defrontando-se com ente e ser, sem, contudo, captar o significado deste último termo ou perceber que o ser se faz presente de modo próprio e diferente daquele pelo qual se manifesta o ente.

13. Não se sabe o que “ser” quer dizer, mas, desde que se pergunta “o que o ser é”, já se está em certa compreensão do “é”, sem poder fixá-lo conceitualmente, e o que é perguntado é o ser, aquilo que determina o ente como ente e a partir do qual o ente sempre já está compreendido, de modo que o ser do ente, não sendo ele mesmo um ente, reclama um modo de mostração originário, essencialmente distinto de todo modo de descoberta do ente.

14. O ser se mostra enquanto mostra o ente, pois é o que o constitui como ente, seu fundamento e sentido, e é por meio dele que o ente é conhecido como tal, o que torna o ser mais importante que o ente, embora o homem veja apenas o ente, nunca o ser que lhe dá a conhecê-lo.

15. Se o ser se mostra através do ente e não há ente sem ser, o caminho de acesso ao ser parte do ente, sendo o ser a essência do ente que o homem é e de tudo o que é.

16. A problemática do ser não se limita à sua relação com o ente, pois busca-se também o ser enquanto ser, o “Seyn”, o ser em sua essência, questão que exige apenas, neste momento, uma breve distinção entre entes e ser.

17. Se o ser é o que é perguntado e é sempre ser do ente, o interrogado na questão do ser não é senão o próprio ente, que deve primeiro tornar-se acessível tal como é em si mesmo para revelar sem falsificação os caracteres de seu ser, sendo ente tudo aquilo de que se fala, em que se pensa e com que se comporta, inclusive o que se é e o modo como se é, e residindo o ser na existência, na essência, na realidade, no ser-subsistente, na consistência, no valor, no “ser-aí” e no “há”.

18. Estabelecida a diferença entre os entes, tudo o que é, e o ser, aquilo pelo qual o ente é, cabe mostrar a diferença entre o homem e os demais entes.

19. A existência humana situa-se no âmbito da diferença fundamental entre entes e ser, pois o homem tem acesso ao que está implícito na manifestação do ente, isto é, ao ser como fundamento de toda manifestação, e por esse acesso difere de todos os outros entes e é dotado de palavra.

20. Para designar o homem, emprega-se o vocábulo alemão “Dasein”, classicamente traduzido para o francês por “être-là” e para o português por “ser-aí”.

21. O homem aparece antes de tudo como animal, com todas as características de um verdadeiro animal, organismo dotado de órgãos dos sentidos e instintos, biologicamente fraco e imperfeito, mas nada no mundo se compara a ele, o mais enigmático dos entes, pois a natureza é muda e só o homem fala, característica que o torna o mais poderoso dos entes.

  • O homem pertence à totalidade do mundo animal.
  • Do ponto de vista biológico, é um animal muito fraco e imperfeito.

22. O ser humano fala sem cessar, acordado ou em sonho, mesmo quando não profere palavra alguma e apenas escuta, lê, trabalha ou se abandona a nada fazer, e fala porque falar lhe é natural, não por uma vontade anterior à palavra, de modo que a definição tradicional do homem como ser vivo capaz de palavra não significa que ele possua a fala ao lado de outras faculdades, mas que é a palavra que o torna capaz de ser o ser vivo que é, sendo homem enquanto aquele que fala.

23. O animal dirigido pelo instinto obedece a sinais, sem acesso aos símbolos, isto é, àquilo que evoca algo abstrato ou ausente, e, como a linguagem é simbólica, restringe-se ao campo humano, de modo que o animal, por mais próximo do homem, reage de maneira dotada de sentido, mas não fala.

24. Símbolo é toda estrutura de significação em que um sentido direto, primário e literal designa por acréscimo outro sentido indireto, secundário e figurado, apreensível apenas através do primeiro, e não existe símbolo antes do homem que fala, pois é na linguagem que o cosmo, o desejo e o imaginário acedem à expressão, sendo sempre necessária uma palavra para retomar o mundo e torná-lo hierofania, assim como o sonho permanece fechado enquanto não é trazido ao plano da linguagem pela narrativa.

25. O animal está preso em si mesmo, em seu aqui e agora, tendo apenas as sensações que os entes lhe transmitem e reagindo ou não a elas, sem acesso à essência desses entes, sem poder compreendê-los e sem atingir o sentido neles oculto.

26. O homem tem a capacidade de captar conteúdos inteligíveis e revelar o sentido dos entes em sua linguagem, caracterizada como articulação dos sentidos, o que permite concluir que não existe linguagem animal.

27. A capacidade de uma atitude puramente simbólica é aparentemente impossível ao animal, que usa signos apenas quando o elemento-signo está unido ao elemento-significado por laços reais e manifestos no contexto da experiência atual, razão pela qual não goza de verdadeira distância em relação ao que vive, permanece dominado pelos conteúdos atuais da experiência e trata-os apenas em seu contexto individual concreto, o que, em linguagem heideggeriana, significa que o animal não participa da abertura, e as coisas não lhe aparecem nelas mesmas, mas somente para ele, reduzido à dimensão do vital.

28. O que dá ao homem a condição de falar é o fato de ser um ser de presença, ao passo que o traço comum aos demais entes é a ausência, isto é, a não-presença a si mesmos e àquilo que os cerca.

29. Somente ao homem, que tem acesso aos entes e consciência de si, torna-se possível uma interação com o mundo no qual se encontra e do qual participa.

30. Diferentemente do homem, o animal experimenta conteúdos de experiência sem estar posto diante de realidades e coisas, pois, embora possa ser recebido na presença como todo ente, não participa dela, não estando presente nem a si nem a outro, enquanto o acesso humano à presença implica não apenas uma experiência de fato do ente, em alguma medida reconhecível também no animal, mas uma experiência do ente enquanto ente, específica do ente humano e a partir da qual tudo nele deve ser compreendido.

31. Por estar fechado em si, o animal repete-se continuamente e não avança, e esse mesmo motivo o torna incapaz de conhecer os entes.

32. O homem, presente a si e a tudo o que o cerca, é o ponto de partida da interrogação sobre o ser, por poder entrar em contato com ele, uma vez que o desenvolvimento da questão do ser comporta a explicitação do ente que questiona em seu próprio ser.

33. Ao conhecer o ser, o homem o exprime, apresentando e manifestando aquilo de que teve experiência, e constitui-se essencialmente como aquele que tem o poder de trazer as coisas à luz, mesmo quando estas se retiram da presença meramente física, sendo o signo do ser por indicá-lo, enquanto o animal apenas usa signos.

34. O homem não é primeiro homem e depois, por acréscimo e ocasionalmente, um “mostrador”, mas é homem, antes de tudo, por ser atraído para aquilo que se retira e, nesse movimento, mostrar o próprio distanciamento, consistindo sua essência em ser tal mostrador e, portanto, um signo, isto é, algo que por sua constituição mais íntima indica, mas, como visa algo que se esquiva, indica sem poder interpretar imediatamente, permanecendo vazio de sentido, como expressa Hölderlin num projeto de hino ao dizer que somos um signo vazio de sentido, insensíveis, longe da pátria, tendo quase perdido a palavra.

35. O que caracteriza essencialmente o homem é poder relacionar-se com o ser, e, por ser aberto a tudo o que o cerca, ele existe em meio aos demais entes em contato contínuo com eles, modo de ser que assinala a própria condição humana.

36. Por conhecer o ser, o homem existe próximo a ele, proximidade que assinala sua vida, ao passo que a perda da relação com o ser-do-ente e com o próprio ser é sua morte, pois morrer significa deixar de viver e perder o sentido que unicamente o homem pode dar à sua vida, enquanto o animal apenas se extingue e acaba ao perecer.

37. Os mortais são os homens, chamados assim porque podem morrer, isto é, são capazes da morte enquanto morte, ao passo que o animal apenas perece, sem ter diante ou atrás de si a morte como morte, e a morte, como Arca do Nada, daquilo que em nenhum sentido é um simples ente mas que, entretanto, é a ponto de constituir o segredo do próprio ser, abriga em si o ser mesmo do ser, de modo que os mortais não recebem esse nome por terem uma vida terrestre finita, mas por serem capazes da morte enquanto morte, encontrando seu ser no abrigo do ser e sendo a relação que se efetua com o ser enquanto ser.

38. É o homem, como mortal, que faz com que as coisas venham a ser o que são, tirando-as da obscuridade em que se encontravam e tornando-se sua luz, ao dispô-las e estabelecer relações entre elas.

39. Estabelecida a diferença entre ser e entes e a eclosão do homem em meio aos entes como aquele que fala, evidencia-se que o homem, ao consentir ao ser, deixa as coisas serem e manifestarem-se em suas essências, aparecendo, assim, como alguém que é no mundo, sem o qual não poderia ser o que é.

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