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VONTADE (LM2:13-19)
ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p. 196-201 / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]
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As considerações preliminares sobre o tempo revelam-se necessárias para a análise do ego volitivo, porque a Vontade — cuja existência foi negada por numerosos filósofos que jamais duvidaram da razão ou do pensamento — configura-se como órgão espiritual do futuro assim como a memória o é do passado, distinguindo-se por lidar não apenas com objetos ausentes re-presentáveis pelo espírito, mas também com aquilo que jamais existiu, ambivalência já sugerida pela língua inglesa, na qual will indica o futuro e to will designa a volição.
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A Vontade como órgão espiritual voltado ao futuro.
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Negação filosófica da Vontade apesar da confiança na razão.
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Diferença entre representar o ausente e projetar o inexistente.
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Ambivalência linguística como sintoma de incerteza conceitual.
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Ao voltar-se para o futuro, o espírito ocupa-se não de objetos, mas de projetos marcados por incerteza estrutural, pois, enquanto o passado se apresenta sob o signo da certeza, o futuro permanece radicalmente indeterminado, como demonstra o Testamento ou Última Vontade preparado diante da morte, revelando que a necessidade de querer é tão imperiosa quanto a necessidade de pensar, já que em ambos os casos o espírito transcende seus limites naturais ao projetar-se para além do que pode efetivamente experimentar.
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Projetos como conteúdo próprio da orientação ao futuro.
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Incerteza como característica essencial do porvir.
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Testamento como exemplo paradigmático da Vontade.
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Transcendência do espírito tanto no querer quanto no pensar.
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Aristóteles lançou as bases da posição filosófica frente à Vontade ao distinguir entre aquilo que é por necessidade e aquilo que é por acaso, kata symbebekos, isto é, por acidente ou contingência, reservando o nome hypokeimenon ao que subjaz e não pode não ser, enquanto os atributos que se acrescentam a esse substrato são acidentais e não pertencem à sua essência.
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Kata symbebekos como acidente ou contingência.
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Hypokeimenon como substrato necessário.
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Distinção entre essência e atributos acidentais.
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Hierarquia ontológica entre necessário e contingente.
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Os atos voluntários, sendo radicalmente contingentes e definíveis como aquilo que poderia não ter sido feito, inserem-se no domínio do acidental segundo as categorias aristotélicas, pois, pressupondo-se uma vontade livre, cada ato poderia ter sido omitido, de modo que tudo o que ocorre no campo dos assuntos humanos é prakton to endechomenon kai allos echein, isto é, aquilo que poderia também ser de outro modo, estatuto ontológico considerado inferior até a descoberta hegeliana do Sentido e da Necessidade na História.
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Ato voluntário como contingente por definição.
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Incompatibilidade entre vontade livre e necessidade.
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Prakton como o que poderia ser diferente.
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Hegel e a elevação ontológica da História.
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Aristóteles admitiu como exceção no âmbito humano a poiesis, distinta da praxis, pois na fabricação o artesão reúne matéria e forma preexistentes, produzindo um composto que já existia potencialmente, analogamente ao modo de ser das coisas naturais, nas quais o produto final está contido em potência na semente ou no sêmen.
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Poiein como fabricação e não ação.
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União de matéria e forma preexistentes.
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Noção de potencialidade anterior à atualização.
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Analogia com o crescimento natural.
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A exigência de que todo real seja precedido por uma potencialidade implica a negação do futuro como tempo autêntico, reduzindo-o a consequência do passado e tornando supérflua a concepção da Vontade como órgão do futuro, o que explica a ausência, na língua e no pensamento gregos, de um termo equivalente à faculdade da volição, substituída por expressões como thelein, boulesthai ou proairesis.
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Futuro como prolongamento do passado.
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Inexistência de termo grego para vontade autônoma.
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Thelein como disposição.
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Proairesis como escolha preferencial.
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A distinção grega entre voluntário, hekon, e involuntário, akon, não implica teoria da vontade livre, mas apenas diferencia atos praticados com plena posse das faculdades daqueles cometidos por ignorância ou coerção física, considerando voluntário todo ato cuja fonte do movimento reside no próprio agente.
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Hekon e akon como categorias jurídicas.
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Voluntário como ato consciente.
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Fonte do movimento no agente.
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Ato sob ameaça ainda classificado como voluntário.
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A ausência de teoria da Vontade na filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles harmoniza-se com o conceito antigo de tempo cíclico, identificado com os movimentos circulares dos corpos celestes e com os ciclos da natureza, segundo o qual todo vir-a-ser implica pré-existência em potência e até mesmo opiniões humanas se repetem com frequência infinita, convicção partilhada por Tucídides ao conceber sua obra como ktema es aei.
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Tempo como movimento circular.
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Vir-a-ser como atualização de potência.
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Repetição de eventos e opiniões.
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Tucídides e o paradigma eterno.
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A exaltação grega do extraordinário não contradiz o tempo cíclico, pois o pano de fundo dos anos circulares permite a inscrição do feito memorável, como em Homero e Tucídides, e Aristóteles, ao tratar da eudaimonia na Ética a Nicômaco, reconhece os altos e baixos acidentais, tychai, mas atribui maior durabilidade às energeiai kat areten, em torno das quais o esquecimento não cresce.
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Homero e os anos circulares.
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Tucídides e a grandeza memorável.
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Tychai como circunstâncias acidentais.
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Energeiai kat areten como atividades duráveis.
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O conceito cíclico de tempo tornou-se quase inevitável após a descoberta de um Ser eterno e imperecível, exigindo a explicação do movimento dentro dessa estrutura, como afirma Aristóteles ao sustentar a eternidade do todo celestial e como observa Nietzsche ao caracterizar o eterno retorno como aproximação entre mundo de Devir e mundo de Ser, contexto no qual a ausência da noção de Vontade entre os gregos contrasta com a afirmação hebraico-cristã de um início criador e com a conclusão de Santo Agostinho de que o homem foi criado para que houvesse um começo.
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Primazia do Ser eterno.
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Eternidade do cosmos segundo Aristóteles.
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Nietzsche e o eterno retorno.
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Santo Agostinho e a ideia de início.
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A consolidação da Vontade como faculdade distinta ocorreu na filosofia cristã, que abandonou o tempo cíclico em favor de uma história linear iniciada com Adão e culminando na morte e ressurreição de Cristo, acontecimentos únicos e irrepetíveis que introduzem a expectativa de um futuro além da vida terrena e levam São Paulo a explorar a complexidade da Vontade e de sua Liberdade.
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História linear cristã.
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Unicidade da morte e ressurreição de Cristo.
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Futuro além da vida terrena.
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São Paulo e a problemática da Vontade.
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A origem teológica do problema da Vontade explica que, no pensamento pré-cristão, a liberdade estivesse situada no eu-posso e não no eu-quero, sendo entendida como condição objetiva do corpo e capacidade de movimento conforme eleutheria, eleuthein hopos ero, isto é, ir conforme se queira, de modo que o critério da liberdade era o poder efetivo de agir e locomover-se sem coerção externa ou necessidade física.
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Liberdade como eu-posso.
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Eleutheria como liberdade de movimento.
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Ausência de coerção como condição.
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Diferença entre liberdade corporal e volição interior.
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