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NATALIDADE E MORTALIDADE

JONAS, Hans. Entre le néant et l’éternité. Tr. Sylvie Courtine-Denamy. Paris: Belin, 1996

O nascimento (Gebürtlichkeit) é, juntamente com a morte (Sterblichkeit), a categoria que define a existência humana para Hannah Arendt ou, em suas palavras, a “natalidade” (Natalität) que contrabalança a “mortalidade” (Mortalität). Sejamos claros. Com “natalidade”, Hannah Arendt não está apenas cunhando uma nova palavra, ela está, na verdade, introduzindo uma nova categoria na doutrina filosófica do homem. Até agora, a morte tem estado no centro da reflexão, e a meditatio mortis, a meditação sobre a morte, nunca esteve muito longe do centro da reflexão religiosa e filosófica. Mas sua contrapartida, o fato de que cada um de nós nasce e aparece como um recém-chegado ao mundo, tem sido estranhamente negligenciada na reflexão sobre nosso ser. (Por exemplo, tudo o que Descartes conseguiu extrair desse fato infeliz foi a observação sombria de que, quando crianças, ou seja, antes de desenvolvermos um julgamento crítico, nossos educadores nos alimentavam com falsas opiniões: Discurso sobre o Método, Parte II). Portanto, Hannah Arendt está intencionalmente propondo algo novo quando diz: “a ação está ligada à condição fundamental da natalidade” (p. 43).


  • A natalidade, concebida por Hannah Arendt como categoria fundamental da existência humana em contraponto à mortalidade, introduz uma nova determinação filosófica ao afirmar que não apenas a morte, mas o fato de cada ser humano ter nascido e surgido como recém-chegado no mundo constitui dimensão decisiva da condição humana, deslocando o foco tradicional da meditatio mortis para a significação ontológica do nascimento. [p. 43]
    • A tradição filosófica e religiosa concentrou-se historicamente na mortalidade como eixo da reflexão.
    • O fato do nascimento foi amplamente negligenciado, inclusive por Descartes no Discours de la méthode.
    • A ação é vinculada por Hannah Arendt à condição fundamental da natalidade.
  • O novo começo que advém com cada nascimento só pode manifestar-se no mundo porque o recém-chegado possui a faculdade de iniciar por si mesmo um novo começo por meio da ação, o que confere à natalidade relevância decisiva para o pensamento político, assim como a mortalidade o teve para a metafísica ocidental desde Platão. [p. 43]
    • A ação é caracterizada como atividade política por excelência.
    • A natalidade é apresentada como fato decisivo para a teoria política.
    • A tradição metafísica privilegiou a mortalidade como categoria central.
  • O fato de cada homem ter começado a ser faz dele próprio um começo potencial, capaz de iniciar algo novo no mundo mediante a ação, pois enquanto initium ele encarna o princípio mesmo do começo e da liberdade que entrou no mundo com a criação do homem como alguém singular. [pp. 233-234]
    • Cada nascimento introduz um novo início no mundo.
    • A criação do homem implica a criação da liberdade.
    • A ação realiza em cada indivíduo o fato da natalidade.
  • A capacidade humana de começar algo novo significa que o improvável permanece possível e que o inesperado pode ser esperado, sendo essa disposição fundada na singularidade de cada homem, cuja diferença decorre do fato da natalidade que o introduz como alguém novo na comunidade humana. [p. 234]
    • A singularidade não se reduz a qualidades determinadas.
    • Cada nascimento repete simbolicamente o ato divino da criação.
    • A ação corresponde ao cumprimento da natalidade em cada indivíduo.
  • O privilégio da natalidade é ambivalente, pois constitui ao mesmo tempo fonte da grandeza e do perigo dos assuntos humanos, já que a fragilidade das instituições e das leis decorre do fluxo incessante de novos homens que introduzem contribuições inéditas por meio da ação e da palavra. [p. 249]
    • A instabilidade institucional não deriva de fraqueza da natureza humana.
    • A chegada contínua de novos indivíduos altera o domínio das relações humanas.
    • A ação e a palavra são os meios dessas contribuições.
  • Em contraposição à sentença do Eclesiastes de que nada há de novo sob o sol, afirma-se que os homens são a novidade que surge no mundo com o nascimento e que, ao agir, introduzem novos começos, enquanto o passado se fixa na linguagem e na memória coletiva. [p. 265]
    • O nascimento introduz novidade real no mundo.
    • A ação atualiza essa novidade.
    • O que foi transforma-se e se estabiliza na linguagem humana.
  • A esperança depositada por Hannah Arendt na natalidade manifesta-se na percepção de novos começos na juventude e na evocação de Goethe em Faust II, onde a renovação contínua da humanidade é celebrada como surgimento incessante a partir do solo, reiterando simbolicamente a fecundidade permanente do humanum. [Faust II, 3º ato]
    • A citação de Goethe expressa a repetição eterna do surgimento humano.
    • A referência aos estudantes como “as crianças” indica confiança no novo começo.
    • A natalidade é associada à renovação contínua do humano.
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