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Jornada III

Giorgio Agamben. Il linguaggio e la morte. Un seminario sul luogo della negatività. Torino: Einaudi, 1982.

Terceiro dia

  • Da e diese (assim como there e this em inglês, hic advérbio de lugar e hic pronome demonstrativo em latim, mas também como ci e questo em italiano) são morfologicamente e etimologicamente conectados, ambos remetendo a uma raiz que tem em grego a forma τό e em gótico a forma pa, pertencendo, do ponto de vista gramatical, à esfera do pronome — mais precisamente do pronome demonstrativo —, categoria gramatical cuja definição constitui há muito um dos pontos mais controversos da teoria da linguagem.
    • na reflexão sobre as partes do discurso (μέρη της λέξεως, Arist., Poet. 1456b, 20), o pensamento gramatical grego chegou apenas tardiamente a isolar como categoria autônoma a do pronome
    • Aristóteles, considerado pelos gregos o inventor da gramática, distingue apenas nomes (ονόματα) e verbos (ρήματα), classificando todas as demais palavras que não são nem nomes nem verbos como σύνδεσμοι (ligamentos, Ret. 1407a, 20)
    • os estoicos, primeiros a reconhecer, entre os σύνδεσμοι, a autonomia do pronome (embora o tratassem junto ao artigo, o que não surpreende dado o caráter originalmente pronominal do artigo grego), definiram os pronomes como άρθρα δεικτικά (articulações indicativas), fixando-se assim pela primeira vez o caráter da δείξις, da indicação (demonstratio, na tradução latina), que, recolhido pela Τέχνη γραμματική de Dionísio Trácio, primeiro tratado gramatical em sentido próprio do mundo antigo, deveria valer por séculos como traço definidor específico da categoria pronominal
    • não se sabe se a definição do gramático Tirânio, que chama os pronomes σημειώσεις, refere-se a esse caráter dêitico, surgindo a denominação άντωνύμια, de onde deriva o latim pronomen, na gramática de Dionísio Trácio
  • No curso de seu desenvolvimento, a reflexão gramatical do mundo antigo operou uma ligação entre conceitos gramaticais em sentido estrito e conceitos lógicos, soldando assim as definições de algumas partes do discurso com a classificação aristotélica dos λεγάμενα πατά μηδεμίαν συμπλοκήν, isto é, com as dez categorias.
    • abrindo-se a Gramática de Dionísio Trácio, vê-se que a definição do nome e sua distinção em nome próprio (ιδίως λεγόμενον) ou comum (κοινώς λεγόμενον) pode, de um lado, ser ligada à definição aristotélica no Περί έρμηνείας, e, de outro, decalca, em sua exemplificação, a definição aristotélica da ουσία (“κοινώς μέν οιον άνθρωπος, ιδίως δέ οιον Σωκράτης”)
  • O entrelaçamento de categorias gramaticais e categorias lógicas, que aparece aqui já realizado, não é, contudo, um nexo casual que possa ser desatado tal como, em certo ponto, parece ter sido atado, mas, antes, como haviam intuído os gramáticos antigos ao atribuir a Platão e a Aristóteles a origem da gramática, categorias gramaticais e categorias lógicas, reflexão gramatical e reflexão lógica implicam-se originalmente uma à outra e são, portanto, inseparáveis.
    • o programa heideggeriano de uma “libertação da gramática da lógica” (Heidegger 1, p. 34) não é, nesse sentido, verdadeiramente realizável, devendo ser, ao mesmo tempo, uma “libertação da linguagem da gramática” e pressupondo uma crítica da interpretação da linguagem já contida nas categorias gramaticais mais elementares: o conceito de “articulação” (άρθροv), de letra (γράμμα) e o de “parte do discurso” (μέρος τοu λόγου), categorias que não são propriamente nem lógicas nem gramaticais, mas tornam possível toda gramática e toda lógica, e, talvez, toda επιστήμη em geral
  • Um evento decisivo, nessa perspectiva, foi a ligação do pronome com a esfera da substância primeira (πρώτη ουσία), obra de um gramático alexandrino do século II d.C., Apolônio Díscolo, ligação que foi acolhida pelo maior dos gramáticos latinos da Antiguidade tardia, Prisciano, professor em Constantinopla na segunda metade do século V (que escreve que o pronome substantiam significat sine aliqua certa qualitate), tendo importância determinante para a lógica e a teologia medieval e não devendo ser esquecida se se quer compreender o estatuto privilegiado que o pronome ocupa na história do pensamento medieval e moderno.
    • se o nome era a parte do discurso correspondente às categorias aristotélicas da substância (segunda) e da qualidade (ποιόν) — isto é, na terminologia gramatical latina, a parte do discurso que designa substantiam cum qualitate, uma substância determinada de certo modo —, o pronome situa-se, em relação a ele, ainda mais além, em certo sentido nos limites das possibilidades da linguagem, pois significa substantiam sine qualitate, a pura essência em si, antes e além de qualquer determinação qualitativa
  • Desse modo, a dimensão de significado do pronome vinha, de algum modo, a coincidir com aquela esfera do puro ser que a lógica e a teologia medievais identificavam como dimensão de significado dos chamados trascendentia: ens, unum, aliquid, bonum, verum.
    • esses termos (cuja lista coincide aproximadamente com os πολλαχως λεγάμενα aristotélicos, entre os quais se encontram dois pronomes, aliquid e unum, embora os gramáticos antigos discutissem sua natureza pronominal) eram ditos “transcendentes” por não terem acima de si nenhum gênero em que pudessem ser contidos e a partir do qual pudessem ser definidos, sendo, como tais, os maxime scibilia, aquilo que sempre já é conhecido e dito em todo objeto apreendido ou nomeado e além do qual nada pode ser predicado e conhecido
    • assim, o primeiro dos trascendentia, ens, não significa nenhum objeto determinado, mas antes aquilo que é sempre já apreendido em todo objeto apreendido e predicado em toda predicação, nas palavras de são Tomás: illud quod primum cadit sub apprehensione, cuius intellectus includitur in omnibus, quaecumque quis apprehendit
    • quanto aos demais trascendentia, eles se convertem (convertuntur) com ens, na medida em que acompanham (concomitantur) todo ente sem acrescentar a ele nada de real, significando unum, assim, cada uma das dez categorias indiferentemente, pois, tal como ens, significa aquilo que está sempre já dito em todo enunciado pelo próprio fato de proferi-lo
  • A proximidade do pronome com a esfera dos trascendentia — fundamental para a articulação dos maiores problemas teológicos — recebe, contudo, no pensamento medieval, uma determinação essencial justamente através do desenvolvimento do conceito de demonstratio, retomando as gramáticas especulativas medievais a noção de δείξις dos gramáticos gregos para tentar precisar o estatuto do pronome em relação aos trascendentia, enquanto estes denotam o objeto como objeto em sua universalidade, o pronome — diz-se — indica, ao contrário, uma essência indeterminada, um puro ser, todavia determinável através de atos particulares de cumprimento que são a demonstratio e a relatio.
    • pronomen — lê-se em um texto gramatical do século XIII — est pars orationis significans per modum substantiae specificabilis per alterum unumquodque… quicumque hoc pronomen ego, vel tu, vel ille, vel quodcumque aliud audit, aliquid permanens apprehendit, non tamen ut distinctum est vel determinatum nec sub determinata apprehensione, sed ut determinabilis est sive distinguibile sive specificabile per alterum unumquodque, mediante tamen demonstratione vel relatione (Thurot, p. 172)
  • A demonstração (ou, no caso do pronome relativo, a relação) cumpre e preenche o significado do pronome, sendo por isso “consubstancial” a ele (p. 173), e, na medida em que contém ao mesmo tempo um modo particular de significação e um ato indicativo, o pronome é, portanto, a parte do discurso em que se realiza a passagem do significar ao mostrar: o puro ser, a substantia indeterminada que ele significa e que, como tal, é, em si, insignificável e indefinível, torna-se significável e determinável através de um ato de “indicação”.
    • por isso, se faltam os atos indicativos, os pronomes — afirmam os gramáticos medievais retomando uma expressão de Prisciano — permanecem “nulos e vazios”: pronomina ergo, si carent demonstratione vel relatione, cassa sunt et vana, non quia in sua specie non remanerent, sed quia sine demonstratione et relatione, nihil certum et determinatum supponerent (Thurot, p. 175)
  • É nessa perspectiva histórica que se pode olhar, neste ponto, para a estreita implicação entre pronome — o “isto” — e indicação, que permite a Hegel transformar a certeza sensível num processo dialético.
  • Pergunta-se, contudo, em que consiste a demonstratio que preenche o significado do pronome, e como é possível que algo como o puro ser (a ουσία) possa ser “indicado”, tendo já Aristóteles, ao colocar o problema da δείξις da ουσία, escrito que não se indicará (a ουσία, o τί έστιν) com a sensação ou com um dedo (Sec. An. 92b).
  • O pensamento lógico-gramatical medieval — assim, por exemplo, a Grammatica speculativa de Tomás de Erfurt, que está na base da Habilitationsschrift de Heidegger sobre Duns Escoto — distingue aqui duas espécies de demonstratio: ela pode referir-se aos sentidos (demonstratio ad sensum), caso em que significa aquilo que indica, havendo então coincidência de significar e mostrar (hoc quod demonstrat, significat, ut ille currit), ou pode, ao contrário, referir-se ao intelecto (demonstratio ad intellectum), caso em que não significa aquilo que indica, mas outra coisa (hoc quod demonstrat non significat, sed aliud, ut haec herba crescit in horto meo, hic unum demonstratur et aliud significatur).
    • segundo Tomás de Erfurt, este é também o modus significandi do nome próprio: ut si dicam, demonstrato Joanne, iste fuit Joannes, hic unum demonstratur et aliud in numeros significatur
  • Pergunta-se de onde provém esse aliud, essa alteridade que está em jogo na demonstratio ad intellectum, e os gramáticos medievais dão-se conta de encontrar-se aqui diante de dois estatutos diversos de presença, um certo e imediato e outro em que já sempre se insinuou uma diferença temporal, sendo, por isso, necessariamente menos certo, permanecendo a passagem do mostrar ao significar problemática, ao menos neste caso.
    • um gramático do século XIII (Thurot, p. 175) chega a representar, fazendo referência explícita à união da alma com o corpo, o significado do pronome como uma união do modus significandi da indicação (que está no pronome) com o modus significandi do indicado (que está no nome indicado, qui est in nomine demonstrato)
    • a indicação que está em jogo no pronome consiste, aqui, na união de dois modos de significação, sendo, portanto, um fato linguístico, e não sensível, permanecendo o modo dessa união — salvo, como se verá, alguma referência significativa ao actus loquentis e à prolatio vocis — tão obscuro e indefinido quanto a união entre alma e corpo
  • Na intuição da natureza complexa da indicação e de sua referência necessária a uma dimensão de linguagem, o pensamento medieval toma consciência da problematicidade da passagem entre significar e mostrar que ocorre no pronome, mas não consegue dar-lhe solução, cabendo à linguística moderna realizar o passo decisivo nessa direção (o que, contudo, só foi possível porque, entre o pensamento lógico-gramatical da Idade Média e o nascimento da moderna ciência da linguagem, situa-se o desenvolvimento da filosofia moderna que, de Descartes a Kant até Husserl, é, em boa parte, uma reflexão sobre o estatuto do pronome Eu).
  • A linguística moderna classifica os pronomes entre os “indicadores da enunciação” (Benveniste) ou shifters (Jakobson), identificando Benveniste, em seus estudos sobre A natureza dos pronomes e O aparelho formal da enunciação, o caráter essencial dos pronomes (ao lado de outros indicadores da enunciação, como “aqui”, “agora”, “hoje”, “amanhã” etc.) no remetimento que eles operam à instância de discurso, sendo, com efeito, impossível encontrar um referente objetivo para essa classe de termos, cujo significado só se deixa definir através da referência à instância de discurso que os contém.
    • pergunta Benveniste qual é a “realidade” a que se referem eu ou tu, sendo unicamente uma “realidade de discurso”, algo muito singular; eu não pode ser definido senão em termos de “locução” e não em termos objetivos, como ocorre com um signo nominal; eu significa “a pessoa que enuncia a presente instância de discurso contendo eu”, instância única por definição, válida apenas em sua unicidade, e essa referência constante e necessária à instância de discurso constitui o traço que une a eu/tu uma série de “indicadores” que, por sua forma e suas capacidades combinatórias, pertencem a classes diferentes, uns pronomes, outros advérbios, outros ainda locuções adverbiais, sendo este o objeto designado através de ostensão simultânea à instância presente de discurso, delimitando aqui e agora a instância espacial e temporal coextensiva e contemporânea à instância presente de discurso contendo eu (Benveniste 1, pp. 252-53)
  • Apenas através desse remetimento faz sentido falar de deixis e de “indicação”.
    • não serve de nada definir esses termos e os demonstrativos em geral através da deixis, como se costuma fazer, se não se acrescenta que a deixis é contemporânea da instância de discurso que porta o indicador de pessoa, sendo dessa referência que o demonstrativo extrai seu caráter sempre único e particular, que é a unidade da instância de discurso a que se refere; o essencial é, portanto, a relação entre o indicador (de pessoa, de lugar, de tempo, de objeto mostrado etc.) e a presente instância de discurso, e, assim que não se tem mais em vista, através da mesma expressão, essa relação do indicador com a instância única que o manifesta, a língua recorre a uma série de termos distintos que correspondem simetricamente aos primeiros, mas que se referem não mais à instância de discurso, e sim aos objetos reais e aos tempos e lugares “históricos”, donde as correlações: eu : ele; aqui : lá; agora : então; hoje : o mesmo dia (p. 253)
  • Nessa perspectiva, os pronomes — aqui como os demais indicadores, e ao contrário dos outros signos da linguagem, que remetem a uma realidade lexical — apresentam-se como “signos vazios”, que se tornam “plenos” assim que o locutor os assume numa instância de discurso, sendo seu objetivo operar “a conversão da língua em discurso” e permitir a passagem da língua à fala.
  • Num ensaio de um ano posterior ao de Benveniste, Jakobson, retomando em parte a definição do linguista francês, classifica os pronomes entre os shifters, isto é, entre aquelas unidades gramaticais especiais, contidas em todo código, que não podem ser definidas fora de uma referência à mensagem, desenvolvendo a distinção de Peirce entre o símbolo (associado ao objeto que representa por uma regra convencional) e o índice (que se encontra numa relação existencial com o objeto que representa), definindo os shifters como uma classe especial de signos que reúne as duas funções: os símbolos-índices.
    • um exemplo evidente é o pronome pessoal: eu designa a pessoa que enuncia “eu”; assim, de um lado, o signo “eu” não pode representar seu objeto sem lhe estar associado por uma regra convencional, e, em códigos diferentes, o mesmo sentido é atribuído a sequências diferentes, como “io”, “ego”, “ich”, “I” etc., sendo, portanto, eu um símbolo; de outro lado, o signo “eu” não pode, porém, representar seu objeto se não se encontra numa “relação existencial” com esse objeto, estando a palavra “eu”, que designa o enunciador, em relação existencial com a enunciação, da qual funciona como índice (Jakobson, p. 132)
  • Aqui, como em Benveniste, atribui-se aos shifters a função de articular a passagem entre significação e indicação, entre língua (código) e fala (mensagem), pois, como símbolos-índices, eles só podem preencher o significado que lhes compete no código através da referência dêitica a uma instância concreta de discurso.
  • Se isso é verdadeiro, aquilo que a reflexão lógico-gramatical da Idade Média apenas intuíra (na ideia da centralidade do actus loquentis e da prolatio vocis para o significado do pronome) está aqui claramente formulado: o significado próprio dos pronomes — enquanto shifters e indicadores da enunciação — é inseparável de um remetimento à instância de discurso, não sendo a articulação — o shifting — que eles operam do não linguístico (a indicação sensível) ao linguístico, mas da língua à fala.
    • a deixis, a indicação — em que desde a Antiguidade foi identificado seu caráter peculiar — não mostra simplesmente um objeto inominado, mas, antes de tudo, a própria instância do discurso, o seu ter-lugar, sendo o lugar indicado pela demonstratio, e a partir do qual somente toda outra indicação é possível, um lugar de linguagem, sendo a indicação a categoria através da qual a linguagem faz referência a seu próprio ter-lugar
  • Procura-se precisar melhor a esfera de significado que se abre nesse remetimento à instância de discurso, definindo-a Benveniste através do conceito de “enunciação”.
    • a enunciação — escreve ele — é a colocação em funcionamento da língua através de um ato individual de utilização, não devendo, contudo, ser confundida com o simples ato de fala
    • é preciso atentar à condição específica da enunciação: ela é o próprio ato de produzir um enunciado, não o texto do enunciado; esse ato é obra do locutor que mobiliza a língua por conta própria, sendo a relação entre o locutor e a língua que determina o caráter linguístico da enunciação (Benveniste 2, p. 80)
  • A esfera da enunciação compreende, portanto, aquilo que, em todo ato de fala, refere-se exclusivamente a seu ter-lugar, à sua instância, independentemente e antes daquilo que, nele, é dito e significado, indicando os pronomes e os demais indicadores da enunciação, antes de designar objetos reais, justamente que a linguagem tem lugar, permitindo assim referir-se, antes ainda do mundo dos significados, ao próprio evento de linguagem, dentro do qual somente algo pode ser significado.
  • A ciência da linguagem capta essa dimensão como aquela em que ocorre a entrada em funcionamento da linguagem, a conversão da língua em fala, mas, na história da filosofia ocidental, essa dimensão se chama, há mais de dois mil anos, ser, ουσία.
    • aquilo que sempre já se mostra em todo ato de fala (ανάγκη γάρ έν τω έκαστου λόγω τον της ουσίας ένυπάρχειν; Met. 1028a, 36-37), aquilo que, sem ser nomeado, está sempre já indicado em todo dizer, é, para a filosofia, o ser
    • a dimensão de significado da palavra “ser”, cuja eterna busca e cujo eterno extravio (άεί ζητούμενον καί άεί άπορούμενον; Met. 1028b, 3) constitui a história da metafísica, é a do ter-lugar da linguagem, sendo a metafísica aquela experiência de linguagem que, em todo ato de fala, capta a abertura dessa dimensão e, em todo dizer, faz antes de tudo experiência da “maravilha” de que a linguagem seja
    • apenas porque a linguagem permite, através dos shifters, fazer referência à própria instância, algo como o ser e o mundo se abrem ao pensamento
  • A transcendência do ser e do mundo — que a lógica medieval captava no significado dos trascendentia e que Heidegger identifica como estrutura fundamental do ser-no-mundo — é a transcendência do evento de linguagem em relação àquilo que, nesse evento, é dito e significado, constituindo os shifters, que indicam, em todo ato de fala, sua pura instância, a estrutura linguística originária da transcendência (como Kant havia perfeitamente captado ao atribuir ao eu o estatuto da transcendentalidade).
  • Isso permite compreender com maior rigor o sentido daquela diferença ontológica que com razão Heidegger reivindica como fundamento sempre esquecido da metafísica, correspondendo a abertura da dimensão ontológica (o ser, o mundo) ao puro ter-lugar da linguagem como evento originário, enquanto a dimensão ôntica (os entes, as coisas) corresponde àquilo que, nessa abertura, é dito e significado.
    • a transcendência do ser em relação ao ente, do mundo em relação à coisa, é, antes de tudo, transcendência do evento de linguagem em relação à palavra, e os shifters — as pequenas palavras isto, aqui, eu, agora, através das quais, na Fenomenologia do Espírito, a certeza sensível crê poder apreender imediatamente sua própria Meinung — estão sempre já tomados nessa transcendência, indicando sempre já o lugar da linguagem

  • O entrelaçamento entre reflexão gramatical e reflexão teológica é, no pensamento medieval, tão estreito que o tratamento do problema do Ser supremo não pode ser compreendido sem referência a categorias gramaticais, sendo, malgrado as polêmicas ocasionais dos teólogos contra a aplicação dos métodos gramaticais aos textos sagrados (Donatum non sequimur), o pensamento teológico também pensamento gramatical, e o Deus dos teólogos também o Deus dos gramáticos.
  • Essa implicação tem seu lugar eletivo no problema do nome de Deus ou, mais geralmente, naquilo que os teólogos definem como problema da “translação das partes do discurso a Deus” (translatio partium declinabilium in divinam praedicationem).
    • segundo as teorias gramaticais, o nome significava, como visto, substantia cum qualitate, isto é, a essência determinada segundo certa qualidade, perguntando-se os teólogos o que ocorre quando um nome deve ser transferido para designar a essência divina, que é ser puro, e qual pode ser o nome de Deus, isto é, daquele que é seu próprio ser (Deus est suum esse)
  • Nas Regulae theologicae de Alano de Lille, a predicação de um nome à substância divina é descrita como um “tornar-se-pronome” (pronominatur) e um “perder forma” (fit informe) do nome.
    • todo nome, dado a partir da forma, dito a partir da forma, decai da forma; sendo todo nome, segundo sua primeira instituição, dado a partir de uma propriedade ou de uma forma, ao ser transladado para significar a forma divina, decai da forma a partir da qual foi dado, e assim, de certo modo, torna-se sem forma; o nome torna-se pronome, com efeito, quando significa a divina usia, pois significa pura substância, e, embora pareça significar sua própria forma ou qualidade, na verdade não a significa, mas a forma divina, como quando se diz: Deus justo, ou bom
  • Se o nome — referido à substância divina, que é pura substância e “forma formatíssima” — decai de seu significado e já não significa nada (nihil significat, nas palavras de Alberto Magno), ou se transforma em pronome (isto é, passa da significação à indicação), o pronome, por sua vez, ao ser predicado de Deus, “decai da indicação”.
    • sempre que por um pronome demonstrativo se fala de Deus, decai-se da demonstração, pois toda demonstração é ou ad sensum ou ad intellectum, mas Deus não pode ser apreendido pelo sentido, por ser incorpóreo, nem pelo intelecto, por carecer de forma, compreendendo-se antes o que ele não é do que o que ele é
  • Contudo, a função ostensiva do pronome é aqui mantida através do recurso àquela experiência particular da palavra que é a fé, pensada como lugar de uma indicação que não é nem sensível nem intelectual, pois em Donato a demonstração se faz ad intellectum, mas em Deus a demonstração se faz ad fidem.
  • É importante observar que a fé se define, aqui, como uma dimensão particular de significado, uma “gramática” particular do pronome demonstrativo, cujo cumprimento ostensivo já não se refere aos sentidos ou ao intelecto, mas a uma experiência que tem lugar unicamente na instância de discurso como tal (fides ex auditu).
  • Nessa perspectiva, com base na passagem da Sagrada Escritura (Êxodo 3.13) em que Deus, instado por Moisés a revelar-lhe seu nome (“si dixerint mihi: quod est nomen eius? quid dicam eis?”), responde “sic dices eis: qui est misit me ad vos”, o nome qui est, formado por um pronome e pelo verbo ser, é pensado como o nome mais congruente e “absoluto” de Deus.
    • são Tomás define, em passagem decisiva, a dimensão de significado desse nome como aquela em que não se nomeia nenhum ser determinado, mas simplesmente, segundo uma expressão de Damasceno, “o mar infinito e indeterminado da substância”: ao quarto ponto deve-se dizer que os demais nomes dizem o ser segundo alguma outra determinação, assim como o nome sábio diz um certo ser, mas este nome qui est diz o ser absoluto e não determinado por qualquer outra especificação acrescentada, por isso Damasceno diz que ele não significa o que Deus é, mas, de certo modo, o mar infinito e quase indeterminado da substância
    • quando se procede em direção a Deus pela via da negação, primeiro nega-se dele os atributos corporais, depois também os intelectuais tal como se encontram nas criaturas, como a bondade e a sabedoria, e então resta apenas em nosso intelecto o fato de que Deus é, e nada mais, como numa certa confusão; por fim retira-se dele também esse próprio ser, tal como ele é nas criaturas, e resta então como numa treva de ignorância, através da qual, no que toca à condição terrena, ótimo é o modo de nos unirmos a Deus, como diz Dionísio, sendo essa uma certa obscuridade em que se diz que Deus habita (Super I Sent., d.8, q.1, a.1)
  • Nas últimas palavras dessa passagem, também a dimensão universalíssima de significado do nome “qui est” é ultrapassada, sendo também o ser indeterminado retirado para dar lugar à pura negatividade de “uma obscuridade em que se diz que Deus habita”.
  • Para compreender a dimensão de significado aqui em questão, para além da vagueza que se costuma atribuir à teologia mística (que é, antes, uma gramática particular, mas perfeitamente coerente), é preciso ter presente que, nesse limite extremo do pensamento ontológico, em que se capta — como obscuridade — o próprio ter-lugar do ser, a reflexão teológica cristã se solda com a reflexão da mística judaica sobre o nomen tetragrammaton como nome secreto e impronunciável de Deus.
    • são Tomás escreve a respeito desse nome que ainda mais próprio é o Tetragrammaton, que foi instituído para significar a própria substância incomunicável de Deus (adhuc magis proprium est Tetragrammaton, quod est impositum ad significandam ipsam Dei substantiam incommunicabilem)
  • Em hebraico, como em toda língua semítica, escreviam-se apenas as consoantes, sendo o nome de Deus transcrito pelo tetragrama IHVH (iod, hé, waw, hé), desconhecendo-se as vogais que entravam em sua pronúncia, porque, ao menos nos últimos séculos de sua existência nacional, era rigorosamente proibido aos israelitas pronunciar o nome de Deus.
    • nos rituais usava-se o nome Adonai, Senhor, certamente já antes da tradução dos Setenta, que sempre traz Κύριος, o Senhor; quando, no século VI, os massoretas introduziram os pontos vocálicos na escrita, em lugar das vogais originárias já desconhecidas, aplicaram-se ao tetragrama as do nome Adonai, assumindo assim o tetragrama, para os hebraístas renascentistas, a forma Jehovah, com um abrandamento do primeiro a
  • Segundo uma antiga interpretação mística — já atestada em Mestre Eckhart — o nome de quatro letras foi identificado com o nome qui est (ou qui sum).
    • deve-se notar que Rabi Moisés, tratando desta palavra sum qui sum (Livro I, cap. 65), parece querer que esse seja o próprio nome tetragrammaton, ou próximo a ele, nome santo e separado, que se escreve e não se lê, e que designa apenas a substância nua e pura do criador
  • O que aqui se pensa como suprema experiência mística do ser e como nome perfeito de Deus (a “gramática” do verbo ser que está em questão na teologia mística) é a experiência de significado do próprio gramma, da letra como negação e exclusão da voz (nomen innominabile, “que se escreve mas não se lê”), sendo o gramma, como nome inominável de Deus, a última e negativa dimensão da significação, experiência já não de linguagem, mas da própria linguagem, isto é, de seu ter-lugar no retirar-se da voz, havendo, portanto, também do inefável uma “gramática”: o inefável é, antes, simplesmente a dimensão de significado do gramma, da letra como último fundamento negativo do discurso humano.
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