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obra:st:cotidianidade-mac

COTIDIANIDADE (CASANOVA)

Alltäglichkeit

O existir cotidiano traz consigo, para Heidegger, um modo específico de o ser-aí concretizar a si mesmo, de ele cuidar de si. Imerso na semântica sedimentada que se acha em jogo na cotidianidade mediana, o ser-aí transfere a responsabilidade pelo seu ser para o mundo circundante, recebendo do mundo circundante os limites no interior dos quais ele necessariamente precisa se movimentar. O mundo não faz naturalmente nada pelo ser-aí, nem chega a efetivamente tomar por ele qualquer resolução quanto ao que ele precisa, pode, quer ou deve fazer. No entanto, na medida em que o projeto do existir cotidiano se faz a partir da articulação de sentidos fornecidos pelo mundo e da escuta às orientações dadas pela totalidade significativa (significância) sedimentada, esse projeto cotidiano acaba sempre a cada vez por se realizar no interior de limites fáticos previamente determinados pelo mundo. O ser-aí pode cotidianamente ser o mais diverso possível, ele pode assumir uma quantidade imensa de comportamentos, mas ele precisa ser diverso no interior daquilo que o mundo fático abre como os limites inexoráveis da diversidade e da diferença. Para que um tal domínio prescritivo da semântica fática sedimentada se quebre e seja possível consequentemente pensar algo assim como uma ressignificação dessa semântica e uma retomada de uma relação diversa com os próprios fenômenos, é necessário antes de mais nada uma crise singularizante do ser-aí, crise essa que sempre traz consigo ao mesmo tempo uma confrontação do ser-aí com a sua própria negatividade e um despontar do mundo em sua historicidade constitutiva. Em meio à confrontação com o seu caráter de poder-ser, o ser-aí se vê diante da possibilidade de assumir a responsabilidade por seu ser e haurir exatamente daí o sentido, em virtude do qual se estrutura o campo existencial que é o dele. Pensado em termos da noção de cuidado, uma noção mais do que estrutural em Ser e tempo, isso significa o seguinte: a confrontação com o seu caráter de poder-ser pode levar o ser-aí a assumir plenamente sobre si o cuidado que ele é e tem necessariamente de ser em relação a si mesmo, retirando da própria negatividade constitutiva de seu ser o sentido de seu existir. Ele é ao mesmo tempo necessariamente cuidado, porque não há nenhum comportamento do ser-aí que não determine o seu ser e porque, com isto, sendo, ele cuida de um modo ou de outro de si . No momento em que assume sobre si o peso (102) de seu ser e retira de sua própria negatividade o sentido propriamente dito de seu existir, essa assunção traz consigo uma série de consequências para o modo como o ser-aí experimenta o ser-no-mundo que ele é. Em primeiro lugar, em meio ao existir cotidiano, o ser-aí projeta para o futuro o campo de poder-ser que é o seu, de tal modo que ele articula a partir desse horizonte a facticidade sedimentada do mundo circundante em meio ao ser decaído no tempo presente das ocupações medianas. Tal existir é possível, por sua vez, na medida em que o mundo fático sedimentado fornece não apenas os significados com os quais o ser-aí se encontra incessantemente familiarizado, mas também os sentidos em virtude dos quais o ser-aí pode desdobrar de maneira confiável o seu próprio poder-ser. Na medida em que os sentidos fornecidos pelo mundo fático se esvaziam e o ser-aí se vê confrontado com o seu caráter de poder-ser, interrompe-se exatamente tal dinâmica. É importante entender nesse caso o que está efetivamente em jogo aqui.

*Casanova, Marco Antonio. Eternidade frágil: ensaio de temporalidade na arte. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2013 (MAC2013) *

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