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obra:ga90:8

8. "Figura" e Ser. A Figura do Trabalhador

Zu Ernst Jünger [2004]

Ver a questão da verdade; verdade e figura

Ver o tipo como a forma suprema da subjetividade

116. A figura

A figura é pensada como aquilo mediante o qual o homem se coloca, para além de si mesmo, em seu mais alto, o que primeiramente o fixa como animal, precisamente enquanto animal fixado e, com isso, libertado, atribuindo-se à figura do trabalhador validade planetária e ao espaço a ela correspondente uma extensão igualmente planetária, cuja dimensão é a totalidade.

  • a fixação (Feststellung) entendida não como mera imobilização, mas como o modo pelo qual o animal humano se liberta ao se fixar em sua figura
  • remissão explícita a passagens de O Trabalhador que atribuem à figura do trabalhador validade planetária e ao espaço que lhe corresponde extensão igualmente planetária, cuja dimensão é o total

117. “A figura”

Distinguem-se três sentidos sobrepostos no emprego jungeriano do termo: o conceito corrente de figura como totalidade contraposta à soma, próprio da teoria da forma (Gestalttheorie) e suas variações; o conceito bem compreendido de “ideia” em geral, segundo o qual toda entidade é sempre já configurada segundo o eidos, e não segundo relação de causa e efeito; e o papel destacado e a essência singular da “figura” no sentido do “tipo” do super-homem e de seu significado metafísico, entendida como núcleo de um campo de forças em torno do qual ela se dispõe.

  • constatação de que Jünger pensa de modo pouco claro, misturando indistintamente os três sentidos e nivelando-os: fala do sentido 2 quando afirma que se volta a pensar “novamente” a figura, do sentido 1 quando acentua o caráter de totalidade e vê tudo como configurado, e do sentido 3 quando concebe o trabalhador como “figura”
  • observação de que a figura do trabalhador é designada como “potência metafísica”, chegando mesmo a identificar-se pura e simplesmente “figura” com “metafísica”, subordinando a si a “matéria” e as “unidades orgânicas”, o que representa a última elevação do platonismo a partir de sua inversão e supressão

118. “Figura”

A figura equivale ao “metafísico”, isto é, à potência metafísica, tomada no sentido tradicional daquilo que, enquanto ente “eterno”, se subtrai a toda mudança, cabendo perguntar de onde provém essa postulação e qual sua verdade, bem como qual o fundamento de sua formulação moderna no sentido da figura, e como se determina a relação entre a figura do trabalhador e o homem.

  • remissão à caracterização do homem atuante e padecente como um médium de que a figura do trabalhador se serve, com a consequente indagação sobre o que significa médium e como este se constitui

119. A postulação jungeriana da “figura”

Não é decisivo aquilo que o próprio Jünger enfatiza, a saber, que a figura é mais do que a soma das partes, ou seja, totalidade, num conceito formal de figura, nem tampouco o ressurgimento de uma visão de “figuras” ligada à teoria da forma, na qual se mistura ainda a analogia física da figura como núcleo de um campo de forças; decisivo, ao contrário, é aquilo que Jünger não vê e que, conforme seu modo de pensar, não pode suficientemente perscrutar.

  • primeiro ponto: a postulação da figura é metafísica, o que o próprio Jünger reconhece ao identificar o metafísico com o “ser” da figura e com a figura enquanto tal, mas sem que se esclareça o que aqui significa metafísico, senão apenas que se postula um ente “eterno” e suprassensível ao qual os “fenômenos” e desenvolvimentos do devir se tornam “transparentes”, constituindo isso a estrutura fundamental platônica e geral da metafísica, sem contudo fundamentar ainda a postulação da figura de uma humanidade
  • segundo ponto: o fundamento dessa postulação reside na metafísica moderna, no sentido da postulação do homem como sujeito (Subjektum), e na interpretação do ser como representidade (Vorgestelltheit) daí decorrente, isto é, objetividade no sentido da relação sujeito-objeto
  • terceiro ponto: dentro de toda metafísica desse tipo, o decisivo é o estágio extremo dessa mesma metafísica, o ser como vontade de potência, somente a partir do qual se mostra, ainda a partir da essência da verdade, a necessidade de instaurar uma imagem do homem como imagem formadora da qual ele se confirma, sendo essa confirmação o mais alto que lhe é possível, isto é, a subjetividade, e ao mesmo tempo o mundo como “imagem”
  • indicação de que, ao contrário do que Jünger apresenta, as novas relações do trabalhador com o elementar, com a liberdade e com a potência não são consequências da postulação da figura, mas antes seu fundamento, sendo essas mesmas relações, por sua vez, consequência da inversão do platonismo, isto é, da correspondente interpretação do ser e da determinação da essência da verdade, o que revela que tal inversão jamais pode ser sua superação, mas conduz, ao contrário, a uma renovação do platonismo que já não sabe mais que o é

120. Figura – Imagem do homem – Imagem do mundo

Esclarecem-se e criticam-se aqui os pressupostos do conceito jungeriano de figura, advertindo-se que esta não deve ser tomada no sentido formal-geral e sequer aristotélico, ainda que subsista uma referência histórica a ele, já que tudo é metafísica, sendo a figura antes a imagem formadora, fonte do ser de “medida e centro” da força plasmadora, e não mero “quadro” de um aspecto posto à distância.

  • distinção entre imagem prévia, imagem diretriz e contraimagem, remetendo-se à origem e à necessidade de tal imagem
  • crítica ao modo como Jünger apresenta a “figura” como historicamente constatável e calculável de antemão, quando essa constatação somente é possível no âmbito do próprio projeto de figura, sendo este, precisamente, a imagem do super-homem
  • afirmação de que uma tal imagem, enquanto imagem diretriz e contraimagem formadoras, só se torna necessária na efetividade compreendida como vontade de potência, no caos, isto é, na modernidade em geral
  • caracterização do mundo como “imagem” para o homem enquanto sujeito, no sentido do representado a ser produzido, isto é, da objetivação como dominação
  • consideração de que o mundo como “imagem” — figuração, caos dominado — somente é essencial ali onde o caos é postulado, exigindo então que a vida humana, colocada sobre si mesma, erija a partir de si, para si, sobre si e voltada a si uma imagem formadora, isto é, encontre a “figura”, sendo a autoconfirmação na figura a única forma de segurança e asseguramento, visto representar, no âmbito da liberdade moderna, o mais alto da subjetividade
  • observação de que a criação de imagem é essencial e necessária de modo diverso conforme a relação com o “mundo” e com o homem, ali onde a inversão do platonismo torna incondicional o abandono do ser, chegando somente então à extrema necessidade de criação de imagem, associada ao eterno retorno do mesmo e ao super-homem

121. O destacamento da “figura” contra “ideias” e “conceitos”

Contra o platonismo até então vigente, distinguem-se quatro momentos: na inversão do platonismo, o elementar acede à potência como caos; nessa inversão, enquanto libertação do caos, torna-se necessária uma nova medida; essa medida somente se torna possível a partir da própria vontade de potência, enquanto homem, porque a “vida” está colocada sobre si mesma; e a vontade de potência impele a humanidade à subjetividade extrema.

122. A figura

Articulam-se cinco momentos de exposição: a figura em geral e a postulação jungeriana da figura; o conteúdo da figura articulado entre o “elementar”, a liberdade e a potência; a referência da figura à essência do ser-homem, entendida como confirmar-se em algo e, por meio disso, doar segurança a si mesmo; a determinação dessa referência a partir de algo distinto da causalidade; e a referência de figura e liberdade, entendida a liberdade como trabalho e posse de potência, sendo o trabalho confirmação do ente na totalidade que “trabalho” é, e identificado com o “ser” que a figura mesma é.

  • caracterização negativa da figura: não é ideia (idea), não é idea qua perceptum, não é imperativo categórico nem dever-ser
  • caracterização, ainda assim, de seu caráter “subjetivo”, tanto no sentido mais alto, como essência do super-homem e como “perspectiva”, imagem formadora e, enquanto tal, “ser” no pensamento jungeriano de figura, quanto como decorrência da inversão do platonismo
  • remissão à origem da distinção entre eidos e hyle, rastreada até a fórmula vazia e desenraizada entre forma e conteúdo, determinante e determinável, já presente em Kant e em Salomon Maimon

123. O pensamento de figura

A figura é identificada como “arquétipo” (Urbild), remetendo-se à noção de tipo enquanto tentativa simultânea de superar o causalismo, de conservar a efetividade como eficácia e de elevá-la à pura capacitação de potência, cuja confirmação não se dá no êxito ou no efeito, mas na própria confirmação e cumprimento da figura, configurando a derradeira formação da subjetividade em meio à efetividade como eficácia, isto é, a capacitação da potência como figura suprema do próprio essenciar-se da potência.

  • tentativa de pensar novamente e de modo ainda metafísico, executando esse pensar como experiência fundamental, o que, sobre o pano de fundo de um positivismo grosseiramente caricaturado, aparenta ser nova compreensão
  • reconhecimento de que algo de novo, de fato, se apresenta: o cumprimento do ser como eficácia objetivada em potência, sob a forma de figura, correspondente à vontade de potência nietzschiana
  • remissão à mônada leibniziana como substantia enquanto monas vis primitiva activa, não relacionada causalmente, mas segundo graus distintos de cunhagem a partir da mônada central, apontando-se aqui apenas uma eternidade vazia
  • referência complementar aos quanta de potência em O Vontade de Potência de Nietzsche

124. Figura e tipo

A figura é caracterizada como algo intuível e, contudo, não singular, mas cunhante, doador de essência, ente e efetivo, não a generalidade de uma regra, mas o único recortado e talhado de um aspecto constrangedor, definitivo, movendo-se o pensamento para longe do indivíduo, da regra, da prescrição e da vazia desejabilidade — “ideia”, “perceptum” — em direção ao que atua e é eficaz, e finalmente ao singular, devendo ser o próprio homem, mas nem o indivíduo nem o mero conglomerado, permanecendo sempre e antes de tudo em primeiro plano a figura do homem e da humanidade, o que só ocorre onde o homem já e apenas enquanto sujeito é pensado.

125. “Figura”. O trabalhador como única potência cunhante

O trabalhador é pensado como a única potência cunhante do espaço, do tempo e dos homens, distinguindo-se a figura, enquanto cunhante, da causa, visto que a causação designa aquilo segundo o qual algo segue outra coisa conforme uma regra, num sucessivo, ao passo que a cunhagem (Prägung) consiste antes num sobrepor-se determinante e exemplar, não em sucessão espacialmente orientada, mas em determinação prefigurante, aproximando-se da condição transcendental de possibilidade, ainda que permanecendo subjetividade, não fazendo seguir, mas subjugando e atraindo a si.

  • indagação sobre em que medida a cunhagem se situaria no conceito do vivente, e sobre a relação entre cunhagem e verdade no sentido da manifestidade, isto é, do projeto do ser
  • segunda determinação negativa: a figura não é “conceito”, “ideia” nem “mera intuição”, questionando-se o que significam tais termos em sentido moderno, isto é, como “esquema” (Schablone), sendo o perceptum algo pensado e não intuído, geral mas não eficaz, algo destacado e desligado, ao qual se contrapõe o schema grego

126. A figura do trabalhador. Sobre a posição fundamental de Ernst Jünger

O trabalhador é descrito como o novo dominador, dominador do domínio incondicional do mundo, portador da nova ordem mundial daí decorrente, portador da nova justiça enquanto “verdade”, figura criadora, o detentor incondicional do poder que, enquanto figura, representa tudo o que é configurado, todo ente que, como tal, tem direito à figura, de modo que o ente em sua totalidade propriamente é num único “ponto”.

  • caracterização do trabalhador, enquanto sujeito (Subjectum), como aquele que é o ente na totalidade, tendo sido outrora o homem esse mesmo Isso, remetendo-se a Parmênides
  • descrição do trabalhador como o afirmador vitorioso, que potencializa o ente na totalidade como vontade de potência, sendo, contudo, essa figura o servo do ente abandonado pelo ser e desprovido de verdade
  • citação da caracterização jungeriana dessa figura como substância nuclear simultaneamente ativa e passiva de nosso mundo, inteiramente distinto de qualquer outra possibilidade
  • indagação sobre o que aqui significa “substância”, remetida ao sentido hegeliano de “sujeito”

127. Trabalhador, figura e ser

O trabalhador pertence a uma ordem hierárquica determinada pela figura, devendo por isso ser visto metafisicamente, cabendo perguntar de onde e como provêm a figura e a ordem, respondida pela verdade do ente na totalidade e enquanto tal, sendo ainda mais essencial do que “o trabalhador” a revelação e o despertar do metafísico por meio dele, permanecendo em aberto de onde e como provém a figura enquanto tal, o caráter figural, o qual haveria de ser pensado como um essenciar-se (Wesung) do ser, ainda que não seja assim que Jünger pensa.

  • distinção fundamental entre ser e ente, a partir da qual tudo primeiramente se distingue e se articula
  • série de pares correlatos: figura e destino, ser e história, verdade “do” Seyn, acontecimento apropriador (Ereignis)

128. Figura e “essência”

A essência, isto é, o ser, é aqui apreendida como figura, relacionando-se a figura com a “consciência da figura”, com a “lembrança” e, por conseguinte, também com a “expectativa” e o olhar erguido, questionando-se que espécie de saber seja esse, ao passo que a figura se opõe, enquanto eterno, ao temporal, sendo pensada como “potência” efetiva, corpórea e necessária, restando em aberto se vinculante, coercitiva ou cunhante.

129. A figura

Trata-se aqui da figura de um ser-homem, sendo o ser-homem pensado como ser-sujeito, de modo que a figura constitui a subjetividade essenciante, objetiva, do sujeito, articulando-se sujeito e ente na totalidade, sendo aqui a essência da figura precisamente o trabalho.

130. “Figura”

Relaciona-se a figura ao pensamento nietzschiano de perspectiva como essencial à vida, articulando-se perspectiva e liberdade, perspectiva e verdade, verdade e justiça.

131. A figura do “trabalhador” (Essência da “figura”, tipo, cunho)

A figura é “um ser” ao qual se refere todo o dinâmico, tornando-se, por isso, “positiva” em vez de dissolvente, sendo ela, no sentido mais relevante, “um ser” — entenda-se, um ente —, de modo que o indivíduo é trabalhador ou não o é, não havendo aqui pretensão nem intenção, mas apenas ser e a “legitimação” para esse “que” (Daß).

  • remissão ao tipo em Nietzsche, n. 819 de O Vontade de Potência
  • caracterização da figura como o ser não submetido ao tempo, “corpóreo”, “efetivo”, “necessário”, não submetido aos elementos da terra e do fogo, pertencente à eternidade, ocultando-se sob todo movimento um ser em repouso
  • afirmação do “direito à figura”, que todo ente possui, consistindo em tomar-se a si mesmo por medida e em estar à altura de si mesmo, sendo a descoberta da própria figura o que torna capaz do sacrifício supremo
  • caracterização do trabalhador por um novo sentimento de responsabilidade nascido do trabalho e voltado para o trabalho
  • atribuição à figura de “plenitude do ser” e “força de cunhagem”, enquanto “potência repousante e pré-formada”, “força originária”, o efetivamente real
  • identificação da figura com a “substância”, questionando-se o sentido desta como o permanente, o que exerce potência, o eficaz, sendo o trabalhador caracterizado como o portador da substância heroica fundamental que determina uma nova vida

132. Jünger — Trabalho e trabalhador

O trabalho é pensado como esforço total, isto é, esforço rumo à mobilização total, entendida esta como transformação da vida em energia, configurando-se como armamento da força originária, sendo esse esforço, ele mesmo, trabalho no sentido mais alto, e constituindo representação da figura do trabalhador, de modo que o “trabalhador” e sua figura antecedem o “trabalho”.

  • caracterização do trabalho como “a necessidade mais íntima do mundo” e como “força originária”, pertencendo também à esfera do herói e do crente
  • distinção entre a mobilização total, referida à potência da vida, e a configuração (Gestaltung), que traz o “ser” “à expressão”, articulando-se mobilização total e configuração respectivamente como construção orgânica e como arte
  • observação crítica sobre a supressão da oposição entre orgânico e mecânico mediante o reconhecimento simultâneo de ambos, indicada como interpretação tipicamente moderna

[133. Figura e essência humana moderna]

Interroga-se em que medida o pensamento de figura e a essência da figura, como subjetividade objetiva, são pré-exigidos e pré-formados na essência do homem moderno, associando-se a necessidade da figura ao mundo enquanto caos, na esteira da inversão do platonismo.

134. A figura do trabalhador

Associam-se a figura do trabalhador e o Zaratustra enquanto tipo, ambos concebidos como contratipo, como sucede com tudo em Nietzsche, remetendo-se ao prefácio de O Anticristo, observando-se que, em Jünger, não há visão, mas antes o nome “trabalhador” persegue, já em seus primeiros anúncios, essa dupla figuração, ao mesmo tempo em que seu aparecimento é experimentado e coexperimentado no guerreiro da guerra mundial.

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