6. Burguês e Trabalhador
Zu Ernst Jünger [2004]
A distinção segundo seu “conteúdo”
A distinção como decisão
100. O destacar-se do trabalhador em face do burguês
O destacar-se do trabalhador em face do burguês deve indicar o positivo do trabalhador, isto é, aquilo que ele é: nem estamento, nem portador da sociedade, nem órgão da economia, sendo esse destacar-se, ao longo de todo o livro, não mera contraposição, mas separação e exclusão para dentro e para fora da alteridade.
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distinção que não se reduz a simples contraposição de cor contra cor, mas envolve, antes, cor contra dureza, pondo em jogo uma perspectiva orientadora distinta
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primeiro traço: não um estamento, e sequer estamento algum, isto é, não parte, mas o todo, o incondicionado
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segundo traço: não o todo enquanto ajustado numa relação contratual, mas o todo da potência que estabelece medida
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terceiro traço: não órgão da economia, e sequer economia alguma, mas dominação do mundo, de sorte que não utilidade e lucro, incapazes de doar liberdade, mas sacrifício e serviço, sendo a potência mesma aquilo que institui na liberdade
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afirmação de que tal destacar-se não se situa no elemento da pobreza e da opressão, mas ele próprio constitui elemento de plenitude e de domínio
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em Jünger, esse destacar-se do trabalhador em face do burguês consiste no apelo a uma outra efetividade, não simplesmente constatada como um dado subsistente, mas iluminada pelo sentido da vontade de potência e por esta na figura como potência formadora
101. O destacamento do trabalhador em face do burguês
Trata-se não de uma distinção no interior de uma mesma perspectiva, isto é, não de mera oposição, mas de uma decisão sobre o próprio projeto da perspectiva, isto é, sobre a alteridade e a figura, cabendo perguntar se essa alteridade não seria mera aparência, dissimulando uma homogeneidade em camada essencial, e se essa própria homogeneidade não constituiria, em sentido bem distinto, uma alteridade, de modo que o trabalhador surgiria apenas como o cumprimento do burguês tomado em sua incondicionalidade.
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liberdade entendida como soberania de si da humanidade na subjetividade
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economia enquanto potência que desenvolve a técnica, ainda que como desvio
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série articulada entre figura, potência, totalidade, liberdade e domínio
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questionamento sobre se a decisão pelo novo efetivo não seria antes o total esquecimento de uma efetividade muito antiga, ligada à potência e à eficácia enquanto energeia e physis
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indagação sobre como pensar uma figura e um tipo modernos, de maneira que o super-homem nietzschiano leve o platonismo, isto é, a metafísica ocidental em seu conjunto, a se cumprir na subjetividade da metafísica moderna
102. O conceito de “trabalho” e “trabalhador” em Jünger em relação ao conceito até então vigente. Questões
Interroga-se se o conceito de Jünger seria apenas generalização do conceito corrente de trabalho enquanto rendimento, ou do trabalho no sentido do trabalhador industrial referido à operação (Betrieb), articulando armamento e operação, e se, não sendo o caso, sua determinação essencial não estaria antes vinculada ao fenômeno do “trabalhador industrial”, o quarto estamento, e à mobilização total.
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busca de nexo que não seja generalização, mas projeto essencial (Wesensentwurf), orientado pela liberdade como perspectiva diretriz, de modo que Jünger enxergue no trabalhador industrial “o trabalhador” em seu próprio sentido, a partir da experiência da guerra material (elementarismo) e de volta a ela
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questão sobre o que permanece e o que somente na essência é apreendido: atitude, domínio e reivindicação de liberdade como relação com as potências elementares
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pergunta pela justificação desse projeto essencial, remetida ao tempo e ao cumprimento do sentido do tempo na guerra mundial, questionando-se se bastaria a mera conformidade à época
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caracterização do “trabalhador” como conceito histórico, isto é, algo que, em sentido essencial, porta e configura história e assim ele mesmo se torna história
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comparação entre a atitude de Jünger frente ao trabalhador e a do Abade Sieyès frente ao terceiro estamento, nada no presente, tudo no futuro
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afirmação de que o conceito de Jünger difere não apenas quanto ao “que” (soldado, guerreiro), mas quanto ao “como”, isto é, como figura e não como classe
103. Comparação entre o burguês e o trabalhador
Discute-se se essa comparação seria unilateral em detrimento do burguês, seja porque Jünger apresentaria apenas certos aspectos, tomando a segurança como valor supremo do burguês e assim seu lado negativo, seja porque seu próprio ponto de vista, a liberdade, seria insuficiente, na medida em que toma a liberdade em sentido essencial mas a refere à potência já numa interpretação determinada, à qual o burguês, precisamente, não guarda relação alguma.
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consideração sobre o positivo do burguesismo no século XIX e suas figuras, como Wilhelm von Humboldt e Jakob Burckhardt
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busca do lugar de uma comparação adequada, questionando-se por que precisamente o trabalhador seria tomado como parâmetro, e se o critério deveria situar-se na história dos alemães ou, mais essencialmente, na história do Ocidente
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indicação de que tudo depende da intenção que torna necessária a comparação, isto é, de uma meditação voltada para o porvir
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exposição de que Jünger fala de uma pseudo-dominação do burguês e mostra, ao mesmo tempo, que o trabalhador permanece inteiramente no âmbito interpretativo do burguês, não lhe sendo essa interpretação apenas imposta, mas o próprio trabalhador não se vendo, de fato, de outro modo
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reconhecimento de que a sociedade industrial é aceita e assumida como espaço vital possível de um povo, questão que remete ao novo princípio da revolução contra a sociedade industrial
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observação de que isso não atesta uma dominação efetiva do burguês, mas apenas outra espécie de “dominação”, que Jünger desvaloriza como pseudo-dominação, cujo sentido implica não apenas ausência de dominação efetivamente exercida, mas a própria essência da dominação jamais experimentada nem passível de sê-lo
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constatação de que Jünger situa o burguês numa perspectiva comparativa que este, de antemão, não reconhece como tal, o que pertence à essência de toda decisão fundamental, permanecendo em questão sua necessidade e sua essência
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colocação da questão pela origem do “trabalhador” no sentido inteiramente novo do “trabalhador industrial”
104. A essência da “sociedade”
A sociedade é empregada, num primeiro momento, em dois sentidos fundamentais: como nome para a convivência humana, o ser-uns-com-os-outros dos homens, e, num sentido mais estrito, como nome de uma configuração determinada dessa convivência no sentido da “sociedade burguesa”, em que ressoa essencialmente o conteúdo econômico, formalizando-se como acordo racional de interesses mediante promessa recíproca, ligando assim sociedade e contrato.
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terceiro sentido referido ao nexo velado da guerra de todos os cobiçosos contra todos, sustentado por troca, convenção e acordo como proteção
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sociedade compreendida ainda como intercâmbio de gentilezas nascido do jogo recíproco dos egoísmos individuais, produzindo a harmonia do todo
VI (continuação). Bürger und Arbeiter — Sociedade, estamento e classe
Ao conceito abstrato e liberal de sociedade, resultado e fórmula da própria ideologia da sociedade burguesa do século XIX, contrapõe-se a determinação de sociedade como nome de uma estrutura histórico-dialética, tomando-se a sociedade como configuração de dominação, intrinsecamente contraditória, que rompe a comunidade “primitiva” e traz consigo tensão e a necessidade da revolta e da transformação, movendo-se historicamente em si mesma.
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estamento e classe caracterizados como as configurações e efetividades das sociedades
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estamento definido como articulação social de cima para baixo, dos senhores e dos poucos, constituindo-se como associação fechada, fundada em nascimento, hereditariedade e conúbio, sob pretensão determinada enquanto lei interna de formação
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responsabilidades, exigências, tradição, estilo de vida, honra e ideal de vida apresentados como aquilo em que cada membro representa o estamento inteiro, não se tratando de privilégio nem de posição econômica especial
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observação de que o caráter estamental somente constitui força histórica quando disposição de ânimo e espírito conferem o típico que confere o próprio estamento, do que decorre essencialmente a luta de estamentos, a qual, todavia, jamais abala a sociedade como todo nem atinge o princípio de sua construção, permanecendo sempre o pensamento do todo nas partes, mesmo quando estas se combatem
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classe, em contraposição, associada às lutas de classes, tomando-se o burguês não como membro, mas como portador do futuro, e as classes como formadas pelo livre jogo dos interesses econômicos, conforme a observação de Spengler de que o burguesismo é o autêntico não-estamento
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classe definida como algo que surge “de baixo”, o proletariado moderno, que não aspira a ascender, mas a se tomar a si mesmo como o todo, nisso consistindo seu nivelamento rebaixador
105. Jünger
A sociedade tem por princípio fundamental a igualdade, configurando-se como sociedade proletária referida à população do globo terrestre, à população internacional.
[106. O conceito de “sociedade” em Jünger]
Jünger toma “sociedade” no sentido do século XIX, no registro econômico-sociável exemplificado pela sociedade anônima, pela sociedade de casamento e pela sociedade de viagem, reunidas sob o conceito de sociabilidade.
