GA9:89-90 – sujeito
Pelo fato de a compreensão do ser (Seinsverständnis) fazer parte do sujeito enquanto o ser-aí que transcende (transzendierenden Dasein), pode a ideia de ser ser tirada do sujeito.
Que resulta de tudo isto? Primeiramente, que Leibniz — mantidas todas as diferenças em face de Descartes — retém com este a certeza que o eu possui de si mesmo (Selbstgewissheit des Ich) como a primeira certeza (primäre Gewissheit) que ele vê, como Descartes, no eu (Ich), no (/termos/e/ego-cogito-hlex), a dimensão da qual devem ser tomados todos os conceitos metafísicos fundamentais (metaphysischen Grundbegriffe). Procura-se resolver o problema do ser (Seinsproblem) como o problema fundamental da metafísica no retorno ao sujeito (Rückgang auf das Subjekt). Apesar disso, permanece em Leibniz, como em seus precursores e sucessores, ambíguo este retorno ao eu, pelo fato de o eu não ser captado em sua estrutura essencial e seu modo específico de ser.
A função de fio condutor do ego é, porém, sob muitos pontos de vista, ambígua. Em relação ao problema do ser é o sujeito o ente exemplar (exemplarische Seiende). Ele mesmo dá enquanto ente, com seu ser a ideia de ser como tal. De outro lado, porém, o sujeito é enquanto aquele que compreende o ser; enquanto ente de natureza especial, o sujeito tem a compreensão do ser em seu ser; o que não quer dizer que ser apenas designe: ser-aí existente (existierendes Dasein).
Apesar do realce dado a autênticos fenômenos ônticos, o próprio conceito de sujeito permanece ontologicamente não esclarecido.
Por isso surge justamente em Leibniz a impressão de que a interpretação monadológica do ente é simplesmente um antropomorfismo (Anthropomorphismus), uma pan-animação em analogia com o eu (Allbeseelung nach Analogie mit dem Ich). Isto, porém, seria uma compreensão extrinsecista e arbitrária (äusserliche und willkürliche Auffassung). Leibniz mesmo procura fundamentar metafisicamente esta consideração analogizante: cum rerum Natura sit uniformas nec ab aliis substantiis simplicibus ex quibus totum consistit Universum, nostra infinite differre possit. “Pois, dado o fato de a natureza das coisas ser uniforme, não pode a nossa própria essência ser infinitamente diferente das outras substâncias simples de que se compõe todo o universo” (carta a de Volder, dia 30 de junho de 1704, Gerh. II, 270, Livro II, 347). O princípio ontológico universal aduzido por Leibniz para a fundamentação necessitaria, sem dúvida, por sua vez, de ser fundamentado.
Em vez de se mostrar satisfeito com a simplificante afirmação de um antropomorfismo, é preciso perguntar: quais são as estruturas do próprio ser-aí que devem tornar-se relevantes para a interpretação do ser da substância (Interpretation des Seins der Substanz)? Como se modificam estas estruturas, para adquirirem a qualidade de tornar monadologicamente compreensível qualquer ente, todos os graus do ser? (MHeidegger:210-211; GA9:89-90)
