1960-2
HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021
3 DE FEVEREIRO DE 1960
1. O seminário é introduzido com algumas notas preliminares: trata-se de passos de um sentido que concerne a todos na mesma medida, visando uma meditação inútil sobre o sagrado; não se busca polêmica, por exemplo contra Freud, nem a afirmação de um ponto de vista filosófico particular, como a filosofia da existência ou a ontologia fundamental; essa hora de seminário, na série de sua soma de trabalho, é uma espécie de luxo, cabendo a cada um aceder por si mesmo a esse ponto por detrás, se é que de resto ainda há algo aí; e pergunta-se o que é um seminário, remetendo-se a uma sentença em meio à conclusão de um seminário sobre a lógica de Hegel, conforme “Identidade e diferença”.
2. O andamento do seminário se volta para a compreensão de ser (Seinsverständnis) de acordo com a coisa, ou seja, por toda parte em estados junto ao ente, como no exemplo de alijar a identidade pelo pensamento, e como “doutrina”, considerando-se de maneira pensante o ser no ente enquanto tal; aborda-se também o ser-com (Mitsein) e a empatia, com uma conclusão referente a Lichtenberg, e a relação entre o inconsciente, a consciência e o Dasein.
3. A “compreensão de ser” (Seinsverständnis), título provisório usado em “Ser e tempo”, é elucidada com vistas à identidade, que implica retornar a algo, contar com algo e ter algo diante de si, como nos exemplos: a impossibilidade de voltar à noite para casa, a mesma porta, o mesmo paciente e as ciências, remetendo a “Identidade e diferença” sobre o incontornável nas ciências, onde o “ser” já está estabelecido e, de acordo com isso, decide-se o que “está sendo”, comparando-se com Heisenberg em “Física e filosofia”, e insiste-se na abertura e na interpelação do ser, ou seja, na clareira (Lichtung) “do” ser e na presença (Anwesenheit), sem que isso ainda tenha sido atentado, considerado ou levado ao “conceito” (Begriff) de ser, enquanto toda estada (Aufenthalt) é junto ao ente.
4. A compreensão de ser (Seinsverständnis) e a linguagem (Sprache) são consideradas em relação à saga (Sage) e à diferença entre ser humano e animal, particularmente no que tange ao “enquanto” (als), como no exemplo do cachorro e do osso – o cachorro atravessa o espaço, enterra e pega o osso –, mas essa descrição é redutiva, pois o “enquanto” implica algo como “osso de um bezerro”, o que remete a uma compreensão que não é meramente animal.
5. O ser-com (Mitsein) é discutido a partir da referência a Lichtenberg, que afirma que o fato de também um outro ser humano ter uma consciência é uma conclusão retirada por analogia (per analogiam) com base nas expressões e ações perceptíveis desse outro, para tornar compreensível seu comportamento; e que, psicologicamente mais correto, aduz-se a ele a própria constituição, ou seja, a própria consciência, numa identificação, mas mesmo onde a tendência originária para a identificação passa por uma prova crítica, a assunção de uma consciência se baseia em uma conclusão e não pode ter parte na segurança imediata da própria consciência, o que remete a Descartes e à proposição “De natura mentis, quod ipsa sit notior quam corpus”.
6. O ser-com (Mitsein) é caracterizado pelo “com” (Mit), que não significa um mero a mais ou ao lado, como no exemplo do chá com açúcar, mas diz respeito ao Dasein, implicando um com o outro, um co-pertencimento (Zugehörigkeit) a partir da escuta ao ser, no comportamento em relação à estada junto ao ente, e a comunicação (Kommunikation) é o fato de se estar no mesmo.
7. A referência a Lichtenberg é exemplificada pela pergunta “Como você vai?” – feita pelo cego ao paralítico – e pela resposta “Como você vê?” – dada pelo paralítico ao cego –, mostrando que o cego se dirige ao paralítico e se mantém junto a ele em seu mundo, enquanto o paralítico vê o cego e quase não percebe sua estada.
8. O ser-com (Mitsein) é abordado com a advertência para não se representarem “vivências” (Erlebnisse), pois assim nunca se tem uma ligação com os convivas; a empatia (Einfühlung) é questionada quanto ao seu “para o interior de onde?”, uma vez que o que é preciso já é previamente dado, mas permanece a questão de como.
9. No seminário de Burghölzli, são estabelecidos acentos concretos para a compreensão de ser (Seinsverständnis), onde “compreensão” (Verstehen) não significa, como no caso de alguém que entende de arte e se movimenta bem nesse campo, mas sim um projetar-se e encontrar-se na abertura (Offenheit) “do” ser, isto é, ter à sua volta o ente enquanto tal e manter-se aí e junto ao ente, o que constitui o elemento essenciante (Wesende) do ser humano; nisso, o ser humano como Dasein é estada no e exportação resolutora (Entschlossenheit) do “ai” (Da), ou seja, a abertura do ente; mas trata-se de uma compreensão de ser pré-ontológica (vorontologisch), em que o ser não é pensado enquanto tal, apenas a presença (Anwesenheit), e o um com o outro é corpo vivo (Leib) e Dasein, demarcando-se claramente em relação ao “a priori existencial da antropologia filosófica”.
10. Sobre o ser-com (Mitsein), a temática não é estabelecida fenomenologicamente como “intersubjetividade” (Intersubjektivität), pois isso parte de um “sujeito” por si e depois de algo diverso, o que já implica uma representação desmedida de que se sente em “si” (quem é esse “si”?) e se transpõe por empatia para além de si em direção ao outro, mas essa tentativa chega sempre tarde demais, porque o “eu” já está com o outro (“eles”, “tu”) no mesmo mundo, embora no interior desse mesmo mundo haja a maior diversidade, como no exemplo do espaço da “porta” e do passar uns com os outros por ela, enquanto a representação da porta e a blindagem inadequada pré-suposta dos coexistentes mostram a falência dessa abordagem; ademais, nunca se chega à intelecção da essência da práxis se não se liberar para a essencialidade una dos fenômenos, evitando-se tornar vítima das representações científicas correntes não explicadas.
11. Sobre o ser-com (Mitsein), o ser-si-mesmo (Selbstsein) do ser humano, conforme “Ser e tempo” §25, é definido pela conclusão de que a “substância” do ser humano não é o espírito enquanto síntese de alma e corpo vivo, mas a existência (Existenz), e esta é cuidado (Sorge) e ekstático (ekstatisch); a ekstase (Ekstase), por sua vez, é ligação com o ser e compreensão de ser, no “ser” presente, ou seja, uso (Gebrauch), habitar (Wohnen) e estada (Aufenthalt); o ser-“com” não é uma categoria, nem algo subsistente em si em adendo, mas um existencial (Existenzial): os outros são co-Dasein (Mitdasein), compartilhando o mundo, e a comunicação é tratada em §26, a partir do mundo comunicado, e remete-se aos pronomes pessoais e advérbios de lugar, sendo o ser-sozinho (Alleinsein) um modo dativo do ser-com.
12. O sistema psíquico (psychisches System) é comparado com uma máquina fotográfica, com lentes colocadas umas atrás das outras e seu funcionamento, e pergunta-se em que medida essa hipótese se revela insuficiente para considerar de maneira materialmente consistente o comportamento humano; a resposta de que falta o fotógrafo é supostamente correta, mas indeterminada, pois não esclarece a ligação do fotógrafo com o aparelho, que envolve desencadear a função, colocar o aparelho em posição em relação ao objeto que se presenta, e, além disso, o ato de apresentar e já ver o objeto no como (Wie) da tomada; se já houve o ver, então não se trata de uma câmera fotográfica, e o fotógrafo não é nenhum fotógrafo, apenas um ser humano.
