User Tools

Site Tools


obra:ga89:2021:1959-11

1959-11

HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Organizado por Peter Trawny (2018). Traduzido por Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2021

A. SEMINÁRIO DE ZURIQUE, NOVEMBRO DE 1959

1. O seminário é identificado por seu local e data, sem qualquer desenvolvimento adicional de conteúdo.

2. O que se apresenta como faltante em cada ocasião é, primeiramente, a experiência psiquiátrica aliada aos conhecimentos médico-científicos, e, em segundo lugar, o modo de pensar em sua historicidade e instantaneidade; a concessão (Zugeständnis) ao imediatamente inútil e inaplicável é, contudo, também uma aplicação (Anwendung), e a concordância (Einverständnis) se dá em um estado de coisas inaparente, percorrendo o curso da história mundial e indagando sobre os caminhos nos quais se está metido.

3. O caráter “socrático” do pensamento consiste em um deixar-alcançar (ein Gelangenlassen) que desperta e acena para a clareira (Lichtung) do ente enquanto tal, interpelado e discutido, e para o ser preciso humano em meio à veritação (Wahrnis), experimentando-se a si mesmo como já pertencendo aí, para então repensar o esquecimento do ser (Seinsvergessenheit).

4. O diálogo, que se busca ordenar em alguma medida, enfrenta a diversidade de linguagens e possui uma intenção limitada: o pertencimento à clareira do ente enquanto tal e o sobreapropriado (Übereignet) em meio ao acontecimento (Ereignis), preciso para a veritação (Wahrnis) do desvelamento (Entbergung) do ente e para o aí velamento (Verbergung), que constitui o esquecimento do ser, distinguindo-se entre ciência e meditação (Wissenschaft und Besinnung) e deixando de lado a representação de que se trataria de uma “filosofia” particular, para se ater à coisa mesma do pensar e à sua querela, em direção ao “fenômeno”.

5. A concordância (Einverständnis) com o segredo afirma que o inaplicável do que há a ser pensado abriga em si a sustentação possível do voltar-se para, e que a retração (Entzug) se aplica à veritação de tudo, porém no acontecimento apropriador (Ereignis).

6. A questão da concordância (Einverständnis) pergunta como se pode despertar em meio à clareira (Lichtung) enquanto tal do ente enquanto tal, e, ao mesmo tempo, como experiência da sobreapropriação (Übereignung) em meio ao acontecimento (Ereignis) no desvelamento do ente enquanto tal, considerando esse desvelamento mesmo e o ente enquanto tal, e também o uso (Gebrauch).

7. As teses derivadas da oposição entre ciência e meditação (Wissenschaft und Besinnung) estabelecem que nenhuma ciência consegue, à sua maneira, experimentar e determinar a própria essência do seu “saber” (comportamento fundamentado), e que a ciência “não pensa” no sentido dos pensadores – sentença ofensiva –, embora ela já sempre pense, o que remete à definição do ser humano como ζωον λόγον έχον.

8. As diversas linguagens se manifestam de modo ôntico (ontologicamente) e de modo ontológico (ônticamente), com essas diversidades co-pertencendo na essência da linguagem (Wesen der Sprache), como exemplificado pela linguagem dos doentes esquizofrênicos e a linguagem do médico, referindo-se a distintas formas de expressão.

9. O exame pro-visório (Vor-läufige) indica que ainda não se deve criticar Freud, mas apenas ver que ele precisou fazer suposições (Voraussetzungen) – jogo de forças, tendências umas contra as outras e colaborando em “trabalho” ou “desempenho” – e que essa suposição, enquanto indicação da compreensão de ser normativa e diretriz, remonta a Platão e ao ente chamado “alma”.

10. A interpretação (Interpretation) da “ciência natural” precisa indagar de onde ela surge e como se dá, considerando positivamente a organização técnica da vida e da profissão médica, e negativamente os limites entre o que é explicável pelas ciências naturais e o que é compreensível como ser racional, comunicação racional e compreensão de si mesmo, questão que envolve a “razão” e sua origem, e que não pode ser resolvida se ambos – ciência natural e técnica – não forem experimentados em termos da história do ser (Seinsgeschichte).

11. A tentativa de um diálogo, que pode “malograr”, enfrenta a questão de qual língua se fala, sendo que as diversas línguas – a práxis médico-científica e a filosofia – não resultam do simples fato de se reunir em diálogo, mas da linguagem enquanto tal, que diz o ente e diz o ser, e nessa ambiguidade essencial (wesentliche Zweideutigkeit) mantém-se a compreensão de ser (Seinsverständnis), a partir da qual se deve explicitar a ambiguidade da linguagem.

12. O acordo para o diálogo exige ouvir com diversos “ouvidos”, considerando que há ainda outra escuta sem “ouvido”, pois não se ouve porque se tem ouvidos, mas se tem ouvidos na medida em que se pode ouvir, e ouvir significa deixar-se interpelar discursivamente e tocar pela fala, antes de tudo pelo ser do ente.

13. A linguagem (Sprache) é falada em diversas línguas – a língua da ciência e práxis psicoterapêutica e a língua da filosofia –, mas trata-se da mesma língua, do mesmo, apenas onde algo diverso se copertence mutuamente, sendo a linguagem em si ambígua e plurissignificativa em um sentido essencial, remetendo à verdade (Wahrheit) – uma verdade, um enunciado verdadeiro, um estado de fato efetivo – e à essência do verdadeiro, enquanto totalidade, e a ambiguidade essencial, ôntico-ontológica, fala a partir da diferença (Differenz), cuja origem permanece em questão.

14. Em Zurique, são trazidas coisas que não se gosta de ouvir porque despertam um âmbito no qual, sem experiência, já se habita, mas que ainda não se considera seriamente: o âmbito da perplexidade (Ratlosigkeit).

15. A referência a Aristóteles em “De anima” trata da enteléquia (ἐντελέχεια) e da distinção entre o saber como disposição (ἐπιστήμη) e o saber como atividade (θεωρεῖν), comparando o sono e a vigília, e remete também ao início da Metafísica (Metaphysik Γ 1), indicando a complexidade e a dobra (Einfalt e Zwiefalt) do acontecimento apropriador.

obra/ga89/2021/1959-11.txt · Last modified: by 127.0.0.1