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obra:ga83:platao-parmenides

GA83 Platão, Parmênides

Seminare: Platon - Aristoteles - Augustinus [2012]

1. Platão, “Parmênides

  • Zenão afirma “ouk esti pollá” — “Não há muitos” —, indicando que a multiplicidade não constitui o “ser” no ente (mḕ pollà eînai), enquanto Parmênides sustenta “hén eînai tò pân” — “O todo [o ente enquanto tal] é um” —, de modo que a unidade constitui o “ser”.
    • O “ser” é compreendido como “ser-o-que” (Was-Sein), e esse “ser-o-que” possibilita o ser enquanto “ser-à-mão” (Vorhandenheit), como tò hó estin.
    • A pergunta que se impõe é por que o ser é tomado a partir dessas determinações “abstratas”, e se elas são realmente abstratas, ou se unidade e multiplicidade devem ser pensadas como constitutivas do ente, de tal modo que a multiplicidade pertence ao ser porque a negação (Nichtung) pertence ao ser.
    • Para a opinião cotidiana, os muitos são, e não se pode negar que os muitos são (tà pollà kaloúmena, egṓ — sý, tà álla), mas o problema é se a multiplicidade dos muitos, enquanto tal, constitui o ser, ou seja, se no que o entendimento comum toma como ente se encontra o ser.
    • Sócrates considera que a unidade como tal é, em si, multiplicidade e vice-versa, ou seja, que o “ser-o-que” em geral, enquanto tal, isto é, o ser, é fratura (Bruch) e contradição (Widerspruch), e isso não é impossível nem a ser rejeitado, mas é admirável (tháuma) e objeto de espanto (thaumázesthai).
    • O problema fundamental não é o fato ôntico de que algo é uno e múltiplo, mas que unidade e multiplicidade são “idênticas”, e é isso que constitui o verdadeiro objeto da pergunta sobre o “ser” enquanto tal.
  • No problema da semelhança (homoiótēs), o ente semelhante (autà tà hómoia) torna-se dessemelhante (anómoia gignómena) — o que é admirável (téras) —, e a pergunta sobre como aquilo que é em si uno (hén) pode tornar-se muitos (pollá) remete ao problema central da participação (méthexis).
    • Sócrates aponta para a necessidade de mostrar que as determinações de ser (Seinsbestimmungen) como tal suportam em si o contrário, mantendo-se em relação com o contrário e distinguindo-se simplesmente nisso, o que ocorre tanto no âmbito dos entes visíveis (en toîs horōménois) quanto no âmbito dos entes apreendidos pelos discursos (en toîs logismoîs lambanoménois).
    • A pergunta fundamental — “Se os entes são muitos” (ei pollá esti tà ónta) — desdobra-se em duas questões: se a multiplicidade pertence ao ser do ente enquanto tal e se o múltiplo é ao lado do simples, ou se o que é, enquanto ente, é múltiplo, sendo esta última a única que corresponde ao problema condutor “o que é o ente” (tí tò ón).
    • A distinção entre essas duas questões não é claramente separada no diálogo, e a pergunta sobre por que isso ocorre remete ao fato de que o ser não “é” como um ente, mas enquanto “ente em sentido próprio” (óntōs ón) impulsiona para além do ser habitual.
  • A questão do “um – muitos” (hén – pollá) apresenta-se de três modos no todo do diálogo: a multiplicidade interna do uno (os seus esquemas — schḗmata — e os gêneros maiores — mégista génē — e sua comunidade — koinōnía), a multiplicidade das ideias (eídē) nas diferentes materialidades factuais (Sachhaltigkeiten), e a multiplicidade dos indivíduos (hékasta) pertencentes a cada uma das muitas ideias.
    • A pergunta de Zenão, “se os entes são muitos” (ei pollá), é ela mesma equívoca (vieldeutig), e por isso não pode ser abordada diretamente, sendo necessário antes esclarecer o que significa “muitos” e como a multiplicidade se relaciona com o ser.
  • A “ginástica” (gymnasía, 135 c sqq.) conduz à comoção (Erschütterung) da filosofia enquanto tal, fazendo surgir questões que se reúnem na pergunta condutora: “o que é o ente?” (tí tò ón), sendo as direções de resposta infrutíferas aquelas que tomam o ente como um (hén) ou como ideia (eídos), e a pergunta sobre o caráter de uno da ideia e o caráter de ideia do uno revela a questão da transcendência.
    • O que inquieta (das Beunruhigende) é a diferença onto-lógica enquanto lógico-eidética, e busca-se a mesmidade (Selbigkeit) pré-revelada enquanto tal em sua possibilidade, em relação ao reter (Behalten), à temporalidade (Zeitlichkeit) e à relação (Verhältnis), sendo a ousía (ousía) pensada como transformação (metabolḗ) e como constante vigência (beständige Anwesenheit).
    • Sócrates não vê saída para essa comoção da filosofia, e a “ginástica” (gymnasía) não é um mero exercício preliminar, mas o próprio filosofar (Philosophieren), um avançar para o problema do ser, no qual se deve ganhar a postura correta e desenvolver a visão interna (innere Sehweise).
  • A hipótese (hypóthesis) inicial de Zenão — “se os entes são muitos” (ei pollá esti tà ónta) — não é a colocação central da pergunta condutora, mas apenas uma ajuda (boḗtheiá tis) para a pergunta “se o ente é um” (ei hén estin tò ón), e Sócrates, ao desdobrar a questão do ser como problema da ideia (eídos), mostra que a simples participação (metálepsis) deve ser problematizada.
    • A “participação” (metálepsis) significa que um “ser-assim-e-assim” (ein Das-und-das-Sein) é uma co-posse (Beischhabe) de uma única ideia, de modo que os muitos indivíduos têm junto de si o uno, mas o admirável (téras, thaumastós) seria mostrar como a ideia, enquanto una (hén, tautón), torna-se outra (contrária), ou seja, como o que é em si uno torna-se muitos, e como esse devir (génese, metábolē) constitui o ser.
    • Parmênides delimita a amplitude da interpretação eidética do ente, abrangendo desde o “semelhante” (hómoion — relações), passando pelo “justo” (díkaion — fins, regra, medida), pelo “homem” e “fogo” (ánthrōpos, pŷr — entes disponíveis, “natureza” no grande e essencial), até o “cabelo” e a “lama” (thríx, pēlós — coisas insignificantes), questionando o caráter de ideia destes últimos.
    • Parmênides abala a “participação” (metálepsis) através de quatro aporias, colocando em primeiro plano o problema do uno (hén) em relação à ideia (eídos): o caráter de uno da ideia, a questão da participação como um todo (hólon) e a mera participação (méthexis), a possibilidade da participação no tempo e a participação como tornar-se semelhante (homoíōsis), mostrando que o caráter de ideia do uno é, no fundo, questionável (eídos ágnōston).
  • A “ginástica” (gymnasía), como desdobramento da hipótese (hypóthesis), não é um treino para outra coisa, mas o próprio filosofar, onde a hipótese é executada e se revela como transcendência (Transzendenz), e a pergunta fundamental que a conduz é “o que é o ente?” (tí tò ón), cujo suporte e sustentação (Austragen und Aushalten) da questão do ser é o verdadeiro dizer “sim” (Ja-Sagen) ao ente enquanto tal.
    • A pergunta “o que é o ente?” exige uma resposta provisória (vorläufige), que é ao mesmo tempo preliminar, não definitiva e que retorna à questão, porque se trata do ente enquanto tal, e a necessidade de um primeiro avanço (Vorlauf) para o uno (hén) conduz à unidade do ente no todo, à unicidade do ente enquanto tal e à mesmidade do ente enquanto tal no todo como caráter fundamental de seu ser.
    • A pergunta exige ultrapassar o ente (hinaus) e, ao mesmo tempo, retornar a ele, sendo o “ultrapassamento” a necessidade do projeto (Entwurf), que é um projeto que abrange e recolhe (ausholenden und in sich einholenden), e o projeto (das Entworfene) é o “para onde” (Woraufhin) do projeto, em distinção ao que é posto no projeto.
    • A resposta provisória “tò ón hén estin” (“o ente é um”) deve ser formulada como: “se o ente é um, o que é então o ser?”, e a pergunta é sobre o uno (hén) quando se pergunta pelo ser, não sobre o ente singular, mas sobre o ente enquanto tal, sustentando o avanço (Vorlauf) como resposta para o ente enquanto tal.
    • O “exaíphnēs” (exaíphnēs) é a própria essência do uno (hén) e, com isso, de todo o todo (Ganze), e se o ser é, em si, relacional (verhältnishaft) e nulo (nichtig), então ele é, em si, múltiplo (pollá), e a diferença — enquanto separação (chorismós) — entre o uno (ideia) e os entes múltiplos não subsiste, mas sim a diferença entre o múltiplo e o múltiplo.
    • O ente não pode nem deve jamais ser colocado, enquanto ente, diante do ser, pois ele já é uno (hén) enquanto múltiplo (pollá), e o problema da diferença ontológica (ontologischen Differenz) deve ser determinado de novo, perguntando-se qual o papel da ideia (eídos) e qual a dimensão para essa diferença, que se anuncia na transformação (metabolḗ) e no “exaíphnēs”.
  • Se o “um” (hén) do ente não é “isto” e “aquilo”, então o não-ser (Nichtsein) pertence ao seu ser; se o ente, em seu ser, não é e é nulo, então ele é justamente “isto” e “aquilo”, e se o ente, em seu ser, é e não é, então ele é de modo alternante (umschlagig), e, sendo assim, ele é também, por essência, não, ou seja, ele “é” também a aparência (Schein), de modo que ao ser pertencem a verdade (Wahrheit) e a não-verdade (Unwahrheit).
  • O “exaíphnēs” (exaíphnēs, 156) não é uma mera contribuição lúdica de Platão para o problema do tempo, mas deve ser compreendido a partir do contexto do problema fundamental, e a “ginástica” (gymnasía) não é um mero treino de regras lógicas, mas o avanço para o problema do ser, onde a hipótese (hypóthesis) é a “suposição” ôntica que, ao ser desdobrada, revela a movimentação (Bewegtheit) da própria ideia (eídos) em sua comunidade (koinōnía) e em sua potência de comunidade (dýnamis koinōnías).
  • As nove estações (neun Stadien) da hipótese (hypóthesis) têm sua “dobradiça” (Angel) no terceiro estágio, onde o problema já indicado por Sócrates — a “identidade” de unidade e multiplicidade — vem para o centro, e a questão do “um” (hén) é a questão do ser, pois a pergunta “o que é o ente?” (tí tò ón) exige sustentar o ente enquanto tal, isto é, enquanto uno (hén).
  • A “ginástica” (gymnasía) é o filosofar que, ao exercitar a pergunta pelo ser, visa ganhar a postura correta e desenvolver a visão interna, em contraposição ao falar vulgar e apressado, e a hipótese (hypóthesis) deve ser tomada em sua amplitude, sendo desdobrada como “ginástica” (gymnasía) para que o caráter de ideia (eídos) se torne novamente manifesto em sua movimentação e comunidade (koinōnía).
  • A unidade do diálogo é tão forte que não se deve perguntar como as duas partes se conectam, e a interpretação que as separa é um equívoco; a “hipótese” (hypóthesis) em geral e a “suposição” ôntica estão em conexão interna com o problema fundamental da filosofia, que é a pergunta “o que é o ente?” (tí tò ón).
  • Hegel vê no “Parmênides” de Platão o documento e sistema do verdadeiro ceticismo, que destrói todo o conhecimento por conceitos do entendimento, e afirma que o primeiro passo da filosofia é conhecer o nada absoluto, e o diálogo conduz ao nada porque é a obra grandiosa que é, na medida em que a pergunta pelo ser, ao se desdobrar, revela a nulidade e a aparência como pertencentes ao próprio ser.
  • A noção de “ter” (échein) é pensada como “ter consigo” (An-haben), “trazer” (tragen), “ter junto de si” (bei-sich), de modo que o que é tido está presente em si mesmo, e a posse (héxis) é compreendida como o comportamento (Verhalten) em relação a algo, e a “comunidade” (koinōnía) ilumina o problema da “geração” (génesis), mostrando como a “habitação” (Habe) é a verdade da filosofia.
  • A “potência de comunidade” (dýnamis koinōnías) e o “poder-de-dizer-em-conjunto” (légesthai symphōneîn) apontam para os exercícios (Übungen) de sintonização (Stimmens) e de poder soar em conjunto (Zusammenstimmen können), onde a disposição (Gestimmtheit) é fundamental para o filosofar.
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