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GA76 Pré-conceito da Metafísica

Leitgedanken zur Entstehung der Metaphysik, der neuzeitlichen Wissenschaft und der modernen Technik [2009]

O Pré-conceito da 'Metafísica' esclarecido a partir do conceito de Physis de Aristóteles (Interpretação de Aristóteles Phys. B 1) Parmênides

  • Aristóteles não explicita o que sua observação intermediária contém de fundamental: que só é possível seguir corretamente sua exposição da essência da physis se se possui aquela capacidade de distinção decisória no domínio da abertura do ente — ou seja, se não se é seinsblind (cego para o ser).
    • Os pensadores gregos sabiam e tinham de saber dessa Seinsblindheit do homem, pois do contrário não seriam pensadores, isto é, não seriam Wissende des Seyns (sabedores do Ser).
    • Os ditos de Heráclito, a doutrina de Parmênides dos três caminhos e o mito da caverna na República de Platão testemunham como a Seinsblindheit foi experienciada e expressa no início da filosofia ocidental.
  • A recusa de uma pergunta equivocada sobre a physis aponta para a condição fundamental sob a qual unicamente a essência da physis pode ser apreendida e determinada mais precisamente.
    • A 'Física' de Aristóteles já é, em certo sentido, o que se chama 'Metafísica', e a Metafísica significa o que é 'difícil' de 'ver' nesse sentido.
  • A condição fundamental é o olhar aberto para aquilo que sempre já impera no Offene (aberto), onde todo desvio é um afastamento definitivo, acessível apenas por uma condução simples e expressa.
    • Esse olhar aberto olha da maneira que foi determinada no início da filosofia greco-ocidental como noein: Vernehmen e Vernehmung (percepção e apreensão).
    • O noein significa em seu conceito essencial duas coisas: Vernehmen como Hinnehmen (deixar vir a si) o que for-kommt no sentido do Hervor-kommen (advir do velado); e Vernehmen como Vor-nehmen (antecipar) na tomada receptiva.
    • O que o noein apreende é o Hervorkommen aus dem Verborgenen (emergência do velado); o que o noein visa chama-se einai, e o Vernommene (o apreendido) é o Sein (ser).
    • A interpretação corrente traduziu noein por 'consciência pensante' e einai como objeto da consciência, resultando em: Sein = Gedachtsein (ser = ser-pensado), o ser como abstração do pensamento — interpretação que passou a ser tomada como o mais antigo registro da concepção moderna do ser.
    • O dito de Parmênides: “to gar auto noein estin te kai einai” — “O Mesmo, pois, é tanto perceber quanto ser.”
  • Deixando de lado a história presente e passada da filosofia e suas 'repercussões' expressas e silenciosas, importa considerar apenas a má-interpretação ainda possível da interpretação ora dada.
    • A filosofia de Aristóteles, em que o pensamento puramente grego se consuma, vibra inteiramente na atitude fundamental que aquele dito de Parmênides exprime.
    • A posição de Aristóteles em relação à 'doutrina' de Parmênides é de importância inteiramente secundária para essa consonância originária na atitude fundamental.
  • O noein no sentido do Hinnehmen poderia ser facilmente distorcido em mera 'passividade' no sentido de deixar-se-passar-por-cima; ao contrário, o vocábulo grego noos, noun, noein significa o que chamamos 'farejar', 'farejamento' (Wittern, Witterung): o estender-se para fora e para adiante, o rastrear e pré-sentir antecipadamente, portanto a relação com algo ainda distante.
    • Os homens modernos, habituados ao 'sucesso', veem no eficiente palpável o real e o ente, e mal pressentem que e como no Er-spürten (no farejado) pode abrir-se o ser próprio.
    • O noein é uma relação originária: a prontidão que rastreia seu próprio âmbito e assim já o abre para o que sai de si mesmo e é o próprio Hervorkommen (emergência) e nada além disso.
  • O Hervorkommen aus dem Verborgenen (emergência do velado) emerge para o Unverborgene (não-velado), mais precisamente para a Unverborgenheit (aletheia).
    • Essa Unverborgenheit não está disponível de antemão como um espaço receptor para a emergência; ao contrário, o próprio Hervor-kommen, enquanto vige (Ereignis), traz consigo a Unverborgenheit como o Sein.
    • A aletheia pertence ao einai, a Unverborgenheit pertence ao Hervorkommen, isto é, ao Sein — e é por isso que o Ser como emergência traz consigo também a Verborgenheit (o velamento), pois somente na Unverborgenheit o velado torna-se manifesto como tal.
  • A Unverborgenheit pertence não apenas ao Sein (einai), mas também, ainda que de outra maneira, ao noein.
    • O Vernehmen (perceber), como Er-spüren e Vor-weg-nehmen, estende-se para aquilo de onde lhe deve vir algo; o próprio Vernehmen penetra na Unverborgenheit, que contudo lhe é atribuída somente através do e como o próprio Sein.
  • O Sein traz consigo também o Vernehmen e os conduz para dentro da Unverborgenheit; ambos têm em relação a ela, como ao Mesmo, uma 'relação': Sein (einai) e Vernehmen (noein) pertencem juntos na Unverborgenheit.
    • Esse Zusammengehören (pertencer conjunto) diz: eles são, nessa relação com a mesma Unverborgenheit, o Mesmo — “O Mesmo, pois, é tanto perceber quanto ser.”
    • O conteúdo mais íntimo e mais velado desse dito contém o aceno para esse 'o Mesmo'; por isso ele está na ênfase mais simples no início: “to gar auto” — “o Mesmo, pois” — é…
    • O dito não quer dizer algo sobre o noein nem sobre o einai em relação ao noein, mas isto: que eles são o Mesmo — e esse Mesmo é o propriamente dito.
    • O dito nomeia algo que é, em certo sentido, mais inicial do que Sein e Vernehmen — a aletheia; mas ela pertence novamente ao Sein e a ele somente e originariamente.
    • O dito é um dito sobre o Seyn mesmo e sua essência; ele não quer dizer que Sein e Vernehmen ('pensar') sejam a mesma coisa indiferente (Einerlei), pois assim o Mesmo desapareceria como indiferente, distribuído pelos dois.
  • O to auto — 'o Mesmo', a Unverborgenheit — não é interrogado em sua essência nem reconduzido ao seu fundamento essencial próprio, pois Parmênides apenas nomeia esse 'o Mesmo' sem desdobrá-lo.
    • Esse to auto, a aletheia, era para os gregos o Wesen des Seins (essência do ser) claramente configurado; e por isso foi experienciado também como aquilo que tinha de permanecer o âmbito inquestionável para todo perguntar.
    • Com o tempo, o noein e o einai se afastaram um do outro, tornando-se o que se opõe — duas 'partes', finalmente 'sujeito' e 'objeto'; mas o confronto teve de ser reconhecido ainda como relação, a saber, como relação entre o pensar e o 'ser'.
    • Essa relação foi então explicada ora a partir de um, ora a partir do outro dos dois 'lados'; foi tomada como o 'resultado' de um encontro causalmente atuante dos dois lados, ou, no melhor dos casos, como algo simplesmente dado com sujeito e objeto simultaneamente.
    • Na proposição “a relação entre sujeito e objeto é dada simultaneamente com sujeito e objeto” acreditou-se ter atingido o ponto culminante de toda visão superior — mas essa sabedoria não é prejudicada se tomada por uma ausência de pensamento, pois com sujeito e objeto está dada certamente essa relação, já numa determinada configuração; como, porém, são dados sujeito e objeto eles mesmos? Age-se como se tivessem caído do céu.
  • Nem a Idade Média e menos ainda a Antiguidade conheciam algo como sujeito e objeto — a pergunta que se impõe é não histórica, mas geschichtliche (histórica no sentido do acontecer): o que 'aconteceu' e 'acontece' para que a aletheia, a Wahrheit (verdade), se transforme na relação sujeito-objeto?
    • O que se ereignet (ocorre como Ereignis) para que o Sein mesmo permita essa Wandlung (transformação)?
    • Essa transformação encerra o Verhängnis (destino funesto) de que aquela relação originária ao Sein, para nós e para os que nos precederam, não foi destruída, mas lançada numa estranha Vergessenheit (esquecimento) — “De um brilho antigo ainda o reflexo tardio, perdido e irreconhecível.”
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