5. Ereignis
V. O acontecimento apropriativo. O vocabulário de sua essência.
Para a introdução a O acontecimento apropriativo
184. A entrada em delineação lexical do Ereignis (acontecimento apropriador) enquanto nome unitário para o jogo de doações — Ereignen (acontecer), Ver-eignung (apropriação-guardiã), Übereignung (transapropriação), Zu-eignung (apropriação-doação), An-eignung (apropriação), Eigentlichkeit (propriedade/autenticidade), Eignung (apropriação), Geeignetheit (apropriedade), Ent-eignung (desapropriação) e Eigentum (propriedade) — através dos quais o Anfang (início) se apropria do Anfängnis (inicialidade) e apropria o homem à guarda da Wahrheit des Seyns.
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O Ereignen, a Er-eignung, constitui-se como gegenwendig (contravertente) a partir do Aufgang (ascensão) anfänglich, que é a um só tempo Untergang (declínio) no Abgrund (abismo), mantendo velado o Unterschied (diferença) entre o Aufgehen e o que nele vem ao Scheinen (aparecer).
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A Nichtung (nadificação) própria do Ereignis, abissalmente distinta da Negativität (negatividade) hegeliana e da Negation (negação), é o que, seynsgeschichtlich pensado, subjaz tanto à Vollendung (consumação) da metafísica no idealismo absoluto de Hegel quanto à sua Verendung (finamento) na metafísica da vontade de poder.
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A Ereignung contém a Gegenwendigkeit do Ereignis nos dois modos que estimam o Unterschied e o Abschied: a Ver-eignung e a Übereignung.
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A Ver-eignung consiste na guarda abschiedlich do Ereignis no Abgrund de sua intimidade com o Anfang, velando este último de modo que a Verbergung permaneça gelichtet e não se dissolva em Entbergung (desvelamento).
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A Übereignung faz o Ereignis deixar essenciar a Lichtung como Inzwischen do Zeit-Raum (tempo-espaço), de modo que se ereigne o Da e o Da-seyn (aí-ser) como Wesung da Kehre (viravolta) — a verdade do Seyn como Seyn da verdade.
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A Zu-eignung diz que o Ereignis se übereignet à essência do homem e nela vela o Dasein (ser-aí) como Ereignis da Kehre, fundando a relação única entre o Anfang e o Menschenwesen, não com o homem em geral.
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A An-eignung apropria o homem instado (Inständigkeit, instância) à Vereignung e à Zugehörigkeit no Abschied, contendo a necessidade velada de que o homem, como histórico, se relacione de modo único com a morte, a qual jamais é um fim, pois sempre já pertence ao Anfang; nem a teologia nem a metafísica alcançam esse Wesen seynsgeschichtlich, e a consideração do Tod em Sein und Zeit decorre desse antever ainda não plenamente articulado.
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A Eigentlichkeit é a origem da Selbstheit (mesmidade) histórica do homem: este só é ele mesmo quando ereignet na verdade do Seyn, distinguindo-se a Selbstheit do Ichheit (eu-idade) metafísico-antropológico-moral, o qual, ao expandir-se no Wir (nós), apenas se torna mais selbstig (Selbstigkeit, egoidade); daí a crítica à noção de Auftrag (encargo) como tarefa autofabricada, opondo-lhe a Übereignung do Seyn como aquilo que o homem não precisa cumprir.
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A Verantwortung (responsabilidade) do Selbst geschichthaft consiste na Antwort (resposta) — não moral, mas ereignishaft — que a Sprache (linguagem) do homem oferece ao Wort (palavra) do Seyn, distinguindo-se a pergunta metafísica “O que é o homem?” (Was-sein, ser-o-quê, voltada ao animal rationale, animal racional) da pergunta seynsgeschichtlich “Quem é o homem?” (Wer-frage, pergunta pelo quem), que já reconhece a Selbstheit e remete à Eigentlichkeit e à Ereignung do Ereignis.
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A Eignung consiste na entrada do Seiende, antes seinlos, no Seyn, entrega que só o homem, e nenhum outro Seiende, verantwortet através da Sprache, ao passo que os deuses, se e como “são”, permanecem excluídos do vínculo imediato ao Seyn, dependendo do homem histórico para que a Lichtung do Seiende seja inständlich guardada.
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A Geeignetheit designa o Seiende recolhido em seu Sein anfänglich gemäß, sucedendo, no outro Anfang, à sequência metafísica de ousía, Anwesenheit (presença), Wirklichkeit (realidade efetiva), Gegenständlichkeit (objetividade) e Wille zum Willen (vontade de vontade), e fundamentando a Einzigkeit de cada Seiende como Einzelnes de uma Vereinzigung (singularização), distinta da Besonderung (particularização) metafísica regida pelo principium individuationis (princípio de individuação).
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A Ent-eignung retira do Seiende sua Zuweisung ao Anfang, privilegiando o Sein como Anwesenheit sobre o Seyn e conduzindo, através do Übermensch (super-homem) nietzschiano, à Seinsvergessenheit (esquecimento do ser) que torna o homem notlos e prepara a Verwüstung final em que nem mesmo o Seiende subsiste; dessa Ent-eignung provêm as figuras metafísicas da arché (princípio), do Principium, da causa suprema, do Absoluto e, por fim, da Totalität (totalidade) como vazio último do Wille zum Willen.
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O Eigentum nomeia a Zeit — como Frist — da entrada da verdade do Seyn no Wesen anfanghaft er-eignet, unificando abissalmente o Unterschied e o Abschied sem provir de um Eines previamente subsistente, e correspondendo-lhe, no plano humano, a história do Adel der Armut (nobreza da pobreza), riqueza anfanghaft que se doa e permanece intocável por todo desgaste.
185. A determinação do Wort como Schatz que o Anfang abriga em si, precedendo toda Bedeutung e todo Wortlaut (som da palavra), e cuja escuta seynsgeschichtlich se opõe à apreensão metafísico-antropológica da linguagem como Vermögen e à redução do vínculo entre Seyn e homem a uma Erklärung antropológica do Verhältnis com o Seiende.
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A Stimme (voz) do Wort estima o Wesen do homem à verdade do Seyn, sendo a Stimmung (disposição) ereignishaft não um estado afetivo, mas o próprio Ereignis do Wort como zueignende Aneignung, lautlos em seu Wesen e anterior a qualquer sentido ou som.
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A Sprachlosigkeit (mudez), tomada habitualmente como estado excepcional de ausência da fala, revela-se antes o Zeichen em que Stimmung e Wort podem, em sua Zusammengehörigkeit anfänglich, abrir-se, desde que se pense a partir da verdade do Seyn e não a partir da Sprache como posse de palavras.
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Do “ist” — a palavra aparentemente mais vazia e pobre — provém a Fülle articulada de todas as palavras, casos e flexões, de modo que o pensar seynsgeschichtlich, ao escutar o Wort nas palavras da Sprache, se distingue do pensar metafísico, para o qual o Sein pertence apenas à Seiendheit (entidade) e a Sprache permanece instrumento técnico-gramatical.
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A tentativa de dizer o Wort des Seyns em meio ao domínio ainda vigente da Sprache metafísica esbarra em limites que o próprio pensamento metafísico não pode ultrapassar, exigindo o recurso a Leitworte (palavras-guia) que alcancem o Bezug ao Seyn em sua mais ampla Gegenwendigkeit.
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A Anthropologie (antropologia), ao erigir o homem em Subjekt (sujeito) e converter a pergunta pelo homem na questão “O que é o homem?”, constitui a última Ausartung do Humanismus (humanismo) e a forma derradeira da metafísica em via de Verendung, tornando-se, por isso, imune tanto à confirmação quanto à polêmica externas.
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A pergunta pelo Bezug do Seyn ao homem, e não apenas sua resposta, é de Wesen anfanghaft, exigindo a Erfahrung do Ereignis e o Gehorsam (obediência) à palavra do Seyn, contra a tentação de reabsorver esse vínculo na Auslegung metafísica do Seiende.
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A Achtsamkeit (atenção) ao Einfache do Seyn — a Kehre — permite escutar o Wort do qual a Sprache provém, cujo uso está submetido à Gesetz do Anfang, culminando na exigência de trazer o Wort des Anfangs à linguagem tanto no Nennen da Dichtung (poesia), que funda o que permanece, quanto no Sagen do pensamento, que leva a verdade do Seyn ao Austrag (deslinde).
