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obra:ga69:1.2

1.2 Confrontação

11. A refutação (Widerlegung) revela-se impossível na filosofia genuína não por qualquer incapacidade contingente, mas porque ela sequer alcança o âmbito da verdade próprio à filosofia, o qual decide sempre a verdade do ser, sendo essa impossibilidade radicalmente distinta de uma opinião pessoal fundada em razões bio-históricas, de uma discussão “racional” entre sistemas e pontos de vista a serem aceitos ou rejeitados, ou de qualquer questão referente à pessoa do pensador.

  • O que é essencial, em lugar da refutação, é a contra-dição (Wi(e)der-spruch), entendida como reiteração, ou seja, um dizer, uma asserção fundamental sobre o ser e sua verdade, que exige o saber mais profundo e uma meditação diretriz jamais realizável mediante mera exposição sobre o certo e o errado, mas apenas como questionamento que conduz a e para uma experiência fundamental.
  • Esse questionamento nunca é alcançado por um “problema” científico, o qual precisamente deixa em aberto, sem interrogar, o ser dos entes, positividade própria da ciência, constituindo antes a liberdade suprema e a vinculação no sentido da insistência perseverante na verdade do ser.
  • O dizer é reiteração em duplo sentido, do contra (wider) e da renovação inceptiva (wieder): o “contra” não concerne a uma inverdade no sentido de incorreção ou insustentabilidade, mas a uma verdade que não é suficientemente inceptiva, ao passo que o “re-” (wieder) indica que se pensa sempre e fundamentalmente o mesmo, e que a irrefutabilidade recíproca não significa mera inconciliabilidade, mas apenas o indício de que se pergunta sempre pela mesma coisa, o que, contudo, exclui simultaneamente toda equiparação e todo rebaixamento.
  • Aquilo que se pergunta — a verdade do ser — é o mais simples e, por isso mesmo, o mais agudo, não tolerando rebaixamento algum, de modo que a unidade essencial dos pensadores consiste precisamente em sua irrefutabilidade e separação recíprocas, unidade à qual pertence a liberdade mais profunda, una com a insistência perseverante na história do ser, razão pela qual a contra-dição genuína é não apenas o mais simples, mas, enquanto tal, o mais raro.
  • A contra-dição é histórica e, por isso, seu âmbito jamais é alcançável historiograficamente, pelo conhecimento de uma época e de seus assuntos e opiniões, mas somente a partir de um questionamento que busca a verdade do ser.
  • Toda a filosofia até agora, sob a forma da metafísica, gera a aparência de uma “ciência”, sobretudo por autodenominar-se e considerar-se como tal, impondo-se padrões inadequados, razão pela qual se espera dela um “efeito” que jamais poderia ter, sendo o efeito que lhe é próprio ou não experienciado em seu caráter abissal, ou desfigurado de modo biológico, psicológico ou historiológico.
  • A contra-dição não é refutação, isto é, não é a apresentação e fundamentação de proposições opostas sobre algo objetivo, mas o sondar do fundamento de uma posição fundamental inceptiva na verdade do ser e a insistência perseverante nela, não podendo a filosofia jamais influenciar ou alterar diretamente os entes, o efetivo, sendo capaz, todavia, de algo mais essencial, quando o é, o que ocorre apenas raramente: um salto na história do ser, salto que sonda de modo mais inceptivo o fundamento da verdade do ser.

12. O historicismo da modernidade, ao possibilitar e por vezes exigir “posições” ou “atitudes” (Haltungen) — conceito ele mesmo moderno, ligado à liberdade do subjectum —, distingue-se essencialmente da história do ser, articulando-se em três modos fundamentais de postura de uma humanidade e de suas gerações perante sua época.

  • No primeiro modo, segue-se os “tempos”, querendo-se estar com eles e neles encontrar confirmação de si mesmo — a “modernidade” — de tal maneira que se deve mesmo estar com eles, sendo os “tempos”, isto é, o “presente”, vistos de modo distinto a cada vez, seja em seus germes, isto é, no mais novo por vir, seja em primeiro ou segundo plano.
  • No segundo modo, permanece-se constantemente contra os “tempos”, na medida em que se está fora deles e, no entanto, deles se serve, lançando-os como oposição — modo exemplificado pela cristandade e, de maneira historiográfica, por todos os “renascimentos”.
  • No terceiro modo, alguns poucos saltam à frente dos “tempos”, não apenas rumo ao seu “futuro” (o do presente), mas rumo a uma história essencialmente outra: a história do ser — os “futuros” (die Zukünftigen) em sentido essencial.
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