1.1 História do Ser
1. “A história do ser” (die Geschichte des Seyns) designa a tentativa de repor a verdade do ser enquanto evento (Ereignis) na palavra do pensar, confiando-a assim a um fundamento essencial dos seres humanos históricos, à palavra e à sua dizibilidade, sem que se possa jamais discernir por cálculo se o dizer aqui tentado pertence ele mesmo ao evento e participa, com isso, da quietude daquilo que é sem exercer nem carecer de efeito.
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A tentativa permaneceria inteiramente fora de seu próprio âmbito se não soubesse que seria mais apropriadamente designada “Ao próprio limiar” (An der Schwelle), ainda que essa indicação desvie novamente da coisa mesma para a mera aproximação a ela.
2. A história do ser há de ser narrada somente na palavra simples, tal como a diz o intermédio que, transformando toda relação ao ser, sustenta abissalmente aquilo que os homens são em geral capazes de suster nesse âmbito inceptivo, articulando-se em mundo, terra, disputa, homens, deus, contraposição, clareira, sustentação, história, abertura da apropriação e evento apropriador.
3. A filosofia ocidental é, em seu fundamento essencial, metafísica porque é, em sua essência, “física”, sendo a “física” aqui entendida como saber, isto é, preservação da verdade da φύσις, determinação do ser encontrada no início e que, por isso, rege toda a história da filosofia ocidental, restando em aberto por que e de que modo a física vem a ser meta-física, o que significa φύσις propriamente, e se e por que ela é, ou é sequer determinante para, a interpretação do ser dos entes na totalidade encontrada no início.
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Cabe perguntar se tudo isso não seria apenas “filosofia da filosofia”, desdobramento degenerativo de um excesso que constitui sinal de desenraizamento, ou se algo diverso se anuncia; o que aqui fala não é “filosofia da filosofia” nem filosofia alguma, mas presumivelmente uma prontidão para a filosofia que ordena sua essência a partir de um fundamento profundo, prontidão que é a fundação de um pertencimento ao ser.
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Um enraizamento abre o caminho ao fundamento, um evento apropriado a partir da recusa do ser, nem fabricado nem inventado, mas atento pensantemente à suavidade do livre, entregue à quietude que domina soberanamente na vinda do que mais vem a ser vindouro, de modo que parece perguntar-se pela filosofia quando em verdade se pergunta apenas pelo ser, do qual a filosofia permanece a história de um pertencimento essencial ao qual um pensador é, de tempos em tempos, admitido, não cabendo nesta reflexão a filosofia enquanto algo engendrado.
4. A verdade do ser jamais até agora reconhecida, embora tivesse de vir à tona no âmbito aberto pertencente ao próprio início da filosofia ocidental, ainda que não como verdade do ser, e por isso jamais tenha entrado em seu questionamento, teve sua primeira aparição, ainda inteiramente velada, doravante soterrada, sem que pudesse ou possa, contudo, ser eliminada, só podendo ser interrogada a partir da necessidade do ser, conforme indica a interpretação da Física B, 1 de Aristóteles, com um aceno à verdade do ser proveniente do τò γὰρ αὐτò de Parmênides.
5. Quem somos nós, onde estamos, em que instante nos encontramos e, de novo, quem somos: essa configuração de perguntas faz surgir uma única questão que jamais se refere a “nós”, mas sempre “conforme” ao ser, estado de coisas inquietante em que o ser se apropria, nunca de modo “dialético”, nunca como jogo de opostos, mas inteiramente como evento apropriador, algo singular.
6. A pergunta “quem somos nós” e mesmo “somos nós, de fato” reconduz à questão do que significa “ser”: se “somos” porque e na medida em que nos deparamos conosco mesmos do mesmo modo como nos deparamos com uma árvore ou uma casa, e se, de fato, nos deparamos conosco desse modo, e se, ainda assim, com isso alcançamos o modo como somos, permanecendo em aberto quem decide sobre o “ser”, ou se é o próprio ser que decide sobre todo “quem” e todo questionar, o que é o ser, como deveria ser desvelado e trazido à sua verdade, e o que é a verdade — questões na região mais extrema das quais nos encontramos.
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A apropriação (Ereignis) e a suavidade da soberania suprema, que não requer poder nem “luta”, mas um separar-se crítico e originário, constituem um reger sem-poder (machtloses Walten).
7. O Da-sein, a clareira do ser, e o ser o fundamento fundante dessa clareira não se identificam ao ser-humano enquanto tal, mas antes a este como guarda e fundação, havendo no aí (Da) um rastro na ἀλήθεια da φύσις que há muito se apagou e que jamais pode simplesmente ser retomado, devendo antes ser reencontrado a partir da própria trilha.
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O emaranhado de interpretações equivocadas que o conceito de Da-sein reuniu em Ser e Tempo, não menos em Jaspers, cujo nivelamento é o mais desolador, deixa em suspenso de onde ainda se poderia esperar um ouvido, um olhar e — um coração.
8. O ser, em sua hora determinada, há de repelir a fabricação humana e tomar a seu serviço até mesmo os deuses, lançando fora a corrupção de sua essência mais própria: a maquinação.
9. Por permanecer a ἀλήθεια apenas uma ressonância e sem fundamento, a própria pergunta pela clareira já se mostra inteiramente inquietante, podendo a pergunta pelo ser desdobrar-se somente a partir dela, permanecendo o ser ainda mais oculto e, contudo — a viravolta (die Kehre)!
10. Que a verdade seja, em sua essência, sem-fundamento, e que o ser humano reivindique verdades sem verdade, é algo que a humanidade histórica talvez jamais venha a compreender como o não-fundamento de toda a história contemporânea.
