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obra:ga68:2-perspectiva

Negatividade. Nada, abismo, ser

1. Delimita-se o confronto (Auseinandersetzung) com a filosofia de Hegel como exigência singular do pensamento posterior, dado que nela não subsiste mais um ponto de vista superior de autoconsciência do espírito, de modo que tal confronto não pode provir de fora nem seguir o modelo de uma crítica valorativa, devendo antes satisfazer duas exigências conjuntas: ocupar um solo mais originário e apreender, na sua determinação e força, aquilo que se revela como a determinação fundamental do sistema hegeliano — a negatividade (Negativität).

  • a relevância efetiva de uma filosofia não se mede pelos “hegelianismos” ou escolas que produziu, nem pela influência imediata sobre a vida do seu tempo, mas pelo modo singular como nela algo do pensar acontece e funda historicamente o seu próprio tempo, de sorte que o afastamento da vida em relação à filosofia jamais constitui deficiência, mas necessidade;
  • fixa-se a linguagem conceitual do confronto distinguindo o ser (Sein), tomado por Hegel em sentido restrito como mera indeterminação e imediatidade, daquilo que ele denomina efetividade (Wirklichkeit) — a apresentabilidade (Vorgestelltheit) da razão absoluta —, reservando-se o termo objetidade (Gegenständlichkeit) para o que Hegel chama de ser, e mantendo-se ser, no sentido essencial e inicial, como palavra fundamental de toda a filosofia ocidental;
  • caracteriza-se preliminarmente o ponto de vista (Standpunkt) de Hegel como idealismo absoluto, no qual o ser é representação e representidade da subjetividade incondicionada, e o princípio como a proposição segundo a qual substância é sujeito, isto é, ser tomado em sentido essencial como devir (Werden), de modo que o começo hegeliano da Lógica não se dá com o ser, mas com o devir enquanto fundamento.

2. Sintetiza-se em vinte e um pontos o itinerário do confronto, articulando o ponto de vista e o princípio da filosofia hegeliana, a caracterização da negatividade como diferença da consciência, a clarificação da negatividade na figura do ser-outro, a impossibilidade de determinar a negatividade a partir do nada hegeliano, a proveniência do conceito de ser a partir do desmantelamento (Abbau) da efetividade absoluta, a dissolução da negatividade na positividade do absoluto, a ausência de questionamento quanto à origem da negatividade, o caráter representacional do pensar desde Descartes, e o encaminhamento, a partir da questionabilidade da diferença entre ser e ente, para o pensamento do abismo (Ab-grund) como o nada que não é nulidade, mas o próprio peso do ser (Seyn).

  • insiste-se em que pensar o nada não é niilismo, mas antes interrogar a verdade do ser e experimentar a necessidade (Not) da totalidade do ente, ao passo que o niilismo consiste precisamente em esquecer o nada na perdição à maquinação (Machenschaft) do ente;
  • observa-se que o domínio dessa maquinação se manifesta de modo mais seguro quando a metafísica, em sua consumação, degrada o ser a mera nulidade vazia — em Hegel, o nada como pura indeterminação e imediatidade; em Nietzsche, o ser como último vapor da realidade que se evapora.

3. Aborda-se o devir (Werden) em sua ambivalência entre a impermanência como mera fluência e passagem, o contínuo transcorrer e a inquietude como permanência das origens, situando-o como o vir-a-si do saber absoluto que, para pensar-se incondicionalmente como si mesmo, deve antes externalizar-se (sich entäußern) ao extremo no mero ser, sendo esse autoexternalização a via pela qual o devir ganha e tem a si mesmo enquanto efetividade.

4. Distingue-se o nada totalmente abstrato e sem conceito, que abre a Lógica hegeliana, da negatividade abstrata em suas duas negações condicionadas e da negatividade concreta e incondicionada enquanto negação da negação, estabelecendo-se que, para Hegel, o primeiro ser verdadeiro — o devir — resulta da diferença nula entre ser e nada, de modo que, não sendo o nada algo diferenciado, a negatividade não pode ser esclarecida a partir dele, mas apenas a partir do próprio ser, que é o mesmo que o nada.

5. Trata-se da negatividade no âmbito do ser-outro (Anderssein), em que algo se torna o um do outro e o outro se torna o outro do um de modo unilateral, até que, tornando-se o um o outro do outro do um, as diferenças deixam de opor-se unilateralmente e passam a fundar-se em seu pertencimento recíproco, de modo que a negatividade incondicionada não se deixa condicionar por nenhum dos dois lados, mas antes os vincula originariamente em sua inter-relação.

6. Examina-se a negatividade sob a figura da alteridade (Andersheit), não como diferença do outro em relação ao um, mas como a outridade do outro no próprio outro, que a este pertence como seu fundamento e ao mesmo tempo dele se diferencia, definindo-se a alteridade absoluta como o relacionar-se incondicionado de si consigo mesmo.

7. Articula-se a negatividade como diferença da consciência (Bewußtsein), enquanto relação sujeito-objeto, com a pergunta pela essência da verdade e pela essência do homem, sustentando-se que a negatividade hegeliana não deve ser compreendida a partir do nada e de sua identidade com o ser, pois nessa identidade não há ainda diferença alguma, ao passo que o ser, enquanto negativo de suas próprias negações, é já algo diferenciado.

8. Determina-se o conceito hegeliano de ser como indeterminação e imediatidade absolutas, em contraste com o ente enquanto aquilo que é de algum modo determinado e mediado, mostrando-se que a ausência de diferença entre ser e nada, no início da Lógica, é a expressão de uma renúncia (Verzicht) à diferença ontológica (ontologische Differenz) entre ser e ente, renúncia que se converte no próprio começo do absoluto e na inversão, ao final da metafísica, daquela relação entre totalidade do ente e ser que caracterizava o início grego do pensamento.

  • sustenta-se que essa renúncia à diferença fundante não é arbitrária, mas pertence à essência da metafísica absoluta e é levada a cabo com a própria efetuação da metafísica, permanecendo, ainda que velada, a condição de que o pensamento incondicionado depende sem jamais a admitir;
  • afirma-se que, no início histórico, o ser mais em ser é a totalidade do ente enquanto physis, ao passo que, no fim da metafísica, a totalidade do ente se dissolveria no puro ser como pensabilidade do pensar incondicionado, sendo todo retorno a um ser tomado como decadência.

9. Interroga-se diretamente a origem da negatividade absoluta em Hegel, perguntando-se se consciência e diferença são cooriginárias e, em caso afirmativo, como o são, bem como se a negação deve ser apreendida originariamente como oposição da qual se destaca o não formal, ou como diferenciação formal que primeiro torna possível a relação de oposição, permanecendo em obscuridade, apesar da onipresença da negatividade no idealismo absoluto, a proveniência do não formal enfrentado já por Kant.

10. Estabelece-se que, para Hegel, a separação é o poder absoluto e a fonte mais íntima de toda atividade, sendo a morte o senhor absoluto e a vida do espírito absoluto o sofrimento e o trato com essa morte, de tal modo que a negatividade se converte simultaneamente em sublação (Aufhebung), em tremor absoluto que abala tudo, e a permanência do espírito junto ao negativo transforma o nulo em ser, sem que jamais advenha catástrofe ou ruína efetivas, porquanto tudo já está incondicionalmente assegurado e conciliado na positividade do absoluto.

11. Retoma-se, em cinco pontos, a questão da origem da negatividade em Hegel e na metafísica ocidental enquanto tal, situando-a sempre a partir do pensar, articulando-se pensar e metafísica, pensar e juízo (o “é”) e negação, ser e ente enquanto efetivo — a efetividade (Wirklichkeit) e a ideia enquanto actualitas —, e remetendo-se, por fim, à questão de ser e tempo.

12. Estabelece-se que Hegel põe a diferença como negatividade — a autodiferenciação do eu em relação ao objeto —, sendo esta a autodiferenciação essencialmente tripartida do saber absoluto como relacionar-se a si mesmo, e que a separação constitui o poder absoluto e a fonte mais íntima de toda atividade, de modo que o negativo, longe de ser mero afastamento, é a falta pertencente ao próprio saber absoluto e, assim, a energia do pensamento absoluto, permanecendo em aberto se a negatividade é mero recurso formal para caracterizar a diferenciação tripartida do saber absoluto ou se, inversamente, a diferenciação da certeza absoluta do eu penso constitui o fundamento evidente da possibilidade da negação.

13. Distingue-se a mera distinção — o um afastado do outro e apenas afastado, o diferenciar como rejeitar, deixar cair, passar adiante — da diferença propriamente dita, em que se retém o comum enquanto o mesmo em relação ao qual algo se diferencia, chegando-se à implicação, pela qual o diferenciado é apenas o ponto de partida de sua sublação no pertencimento recíproco, e à decisão como momento último dessa articulação.

14. Caracteriza-se o negativo, em Hegel, como a diferença — o eu penso algo, o pensar do entendimento, a separação, o poder absoluto —, enquanto princípio motor tanto do eu quanto do objeto, seja este o objeto mesmo, a consciência enquanto sabedora, ou o pensamento que se sabe a si mesmo, permanecendo em aberto se a negação e a diferenciação são anteriores à consciência, posteriores a ela, ou cooriginárias.

15. Situa-se a questão do ser e do nada a partir da origem (Ursprung) do não — o não do ente, que é o ser, e não o nada, e o não do ser, que é o nada originário —, sustentando-se que toda diferenciação e separação já pressupõem o não e o nada, na medida em que se fundam na diferenciabilidade daquilo que pode ser diferenciado, isto é, o ser, remetendo-se, a partir daí, o nada à pergunta metafísica pelo motivo de haver ente em vez de nada, e à essência do fundamento (Grund), da verdade e do ser (Seyn), distinguindo-se ainda o pensar do nada do niilismo.

16. Determina-se o conceito hegeliano de ser em sentido estrito como indeterminação e imediatidade — “o ser é o imediato indeterminado” —, mostrando-se que esse conceito fixa como horizonte da interpretação do ser a determinação e a mediação, isto é, o pensar incondicionado, de sorte que o ser em sentido estrito equivale à impensidade (Ungedachtheit) pura e simples, ao passo que o ser em sentido amplo é a pensabilidade desse mesmo pensar, evidenciando-se que tais pressupostos não expressam um ponto de vista exclusivamente hegeliano, mas a posição básica ocidental na relação do homem com o ente, cuja essência só pode ser esclarecida pela meditação sobre o pensar, sobre a interpretabilidade do ser e sobre a verdade do ser (Seyn).

17. Determina-se o ponto de vista da filosofia hegeliana como o do idealismo absoluto, no qual o pensar incondicionado é, ele mesmo, aquilo que há de ser pensado em sua pensabilidade, de modo que o absoluto, como saber absoluto e ideia absoluta, dispensa qualquer ponto de vista por ser, em toda parte, o já acessível a si mesmo — a presença que se espelha em seu presenciar —, perguntando-se, contudo, se esse incondicionado em si é também incondicionado para si, uma vez que sua constante externalização (Entäußerung) na impensidade constitui a condição, dissimulada, de seu próprio vir a ser incondicionado, condição que reside no desmantelamento (Abbau) e na renúncia (Verzicht) à fundamentação da diferença entre ser e ente.

18. Enumera-se, em sete pontos, as pressuposições pensantes do pensamento hegeliano — o desmantelamento da pensabilidade incondicionada mediante a externalização condicionante, e a renúncia à distinção entre ser e ente, sua interrogação e fundamentação —, contrapondo-se a posição de Hegel à de Kant, em quem a diferença ontológica é tornada explícita, ainda que não fundamentada, de modo que o idealismo absoluto surge apenas como beneficiário dessa omissão kantiana, permanecendo em questão se é sequer apropriado falar aqui de uma “distinção”.

19. Esclarece-se que as pressuposições do pensamento hegeliano do ser, em sentido estrito e em sentido amplo, não constituem um déficit deixado para trás, mas antes uma pró-jeção (Vor-wurf) lançada adiante daquilo que um dia haveria de ser retomado, de sorte que o próprio começo do pensamento ocidental já realiza as pressuposições mais amplas e veladas, sendo a pressuposição decisiva, ainda por retomar, a irrefletida ausência de fundamento (Grundlosigkeit) da verdade não interrogada do ser (Seyn), cuja retomada não consuma o começo, mas constitui, ela mesma, um novo e mais pressupositivo começo — o ser (Seyn) enquanto abismo (Ab-grund).

20. Retoma-se o confronto com Hegel e com a metafísica ocidental centrando-o, de acordo com as exigências já postas, na negatividade, esclarecida a partir da distinção entre algo e outro, e reafirma-se que a diferenciação que se diferencia a si mesma constitui a consciência, devendo a negação hegeliana ser entendida não como mero negar, mas como síntese e determinação elevadora.

21. Interroga-se, por fim, o sentido da pressuposição enquanto tal — se ela é premissa para um pensar calculador ou proposição primeira que nem sempre chega a ser proposição básica —, situando-se a antecipação (Vorwegnahme) e a preapreensão como momentos constitutivos de todo comportamento que já está adiante de si mesmo ao fazer uso da abertura, e concluindo-se que o Dasein não é algo simplesmente subsistente que se tornaria acessível por uma investigação regressiva, mas antes o salto conquistador (Er-springung) que transforma o ser humano a partir da interrogação daquilo que é mais digno de questionamento.

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