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obra:ga67:metafisica-13a31

Metafísica 13-31

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e Niilismo. Tr. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

13. A metafísica e a pergunta pela possibilidade, mesmo levada a termo por Ser e Tempo, permanece vigente enquanto um ponto de virada, mostrando-se completamente como conformação estrutural da própria metafísica, tanto enquanto pergunta em geral quanto enquanto pergunta pela essência.

  • A pergunta pela essência revela-se como vício de algo constante e que propicie estabilidade, configurando evasão da essencialização enquanto história da verdade do seer no sentido da apropriação em meio ao acontecimento.
  • O universal (koinon, genus) manifesta-se como o comum a todos, o totalmente compreensível que é tornado ainda uma vez comum, cristalizando-se na idéia (idea) enquanto o visível avistado desde o princípio, constantemente e sem mais.
  • A visão de mundo (Weltanschauung) e a ideologia constituem-se como subespécie e forma degradada da metafísica, articulando-se com os pares ideia-perceptum, universalidade-conceito e valor.

14. A pergunta pela possibilidade enquanto modo da pergunta pela essência configura-se como o único modo fundamental do pensamento metafísico, seja no retorno ao a priori, seja no esclarecimento causal a partir das causas supremas.

  • A possibilidade é pensada como possibilitação da essência e da realidade do real, ligação fundamental que se sustenta na representação e no ter-diante-de-si, exigindo que a pergunta pelo ente se mostre como pergunta pela pro-dução.
  • Quanto mais a representação conquista domínio através da subjetividade, tanto mais se elabora a pergunta pela possibilidade, desde a possibilitas leibniziana até a pergunta transcendental kantiana, o idealismo absoluto e o pensamento valorativo nietzschiano, este último constituindo a derradeira variação do pensamento da possibilidade.
  • A verdade do ser, quando entendida como transcendental, abstrai-se totalmente da essencialização do seer, sendo esta a origem da má interpretação de Ser e Tempo como filosofia transcendental, inclusive a partir de certas ambiguidades do livro sobre Kant.
  • A pergunta pela possibilitação permanece indispensável para o entendimento imediato ainda dominado pela metafísica, mesmo quando o pensamento histórico-ontológico reconhece que não pode mais colocar em questão a possibilitação no interior da pergunta pela verdade do seer.
  • A pergunta “por que há o ente e não antes o nada” ainda transcorre sobre o caminho da possibilitação, apontando para a recondução da Metaphysica generalis à própria metafísica e à identidade entre veritas intellectus e veritas rei enquanto idea summi entis.
  • A “diferenciação” entre ser e ente encontra na pergunta pela possibilitação a origem de sua cunhagem, constituindo a barreira que a própria metafísica estabelece em relação à sua superação, barreira da qual ela jamais pode ter a menor noção.
  • A petitio principii, enquanto antecipação do “que torna possível”, constitui a essência autêntica do pensamento metafísico, o único passo pelo qual a filosofia adentra sua posição única.

15. A verdade do seer emerge como aquilo a partir de cuja essência surge a cada vez a essência do próprio homem, articulando-se com o intervalo do ser-situado e negando o privilégio do ente de ser sempre a instância a partir da qual se pergunta sob o fio condutor da possibilidade.

16. “A verdade” articula-se em seis momentos que vão do verdadeiro em relação a uma coisa e ao ente na totalidade até a essencialização da verdade enquanto clareira do seer, passando pela liberdade como fundamento da apropriação do ente no intervalo e culminando na verdade enquanto seer da clareira.

17. Verdade enquanto clareira do seer e correção da representação distingue-se em quatro modos de abertura — do re-presentável, do representar, do próprio que traz para si o re-presentado e do próprio para o próprio no co-representar — sendo esta abertura a essência do intervalo, articulação da clareira do seer enquanto acontecimento apropriativo.

18. A essência da história manifesta-se quando toda base para o estabelecimento de mensurações no ente se torna obsoleta e vige apenas a subtaneidade da clareira do seer, de modo que a história não é cronologia nem eternidade de algo em-si, mas apenas conquanto o seer é.

19. Para a superação da metafísica é necessário não uma interpretação psicológica ou antropológica dos valores, instauração e desvalorização à maneira nietzschiana, mas o saber histórico-ontológico instante da verdade do seer.

20. A correção encontra seu único privilégio como medida da essência da verdade no manter-se de fora (Ausständigkeit) infundado do representar, que se salva na subjetividade do subjectum, constituindo uma determinação histórico-ontológica do ser-situado.

21. A superação da metafísica articula-se a partir da pergunta pelo que ela é, de sua própria concepção, história, começo e fim, incluindo o niilismo como transposição para o incondicionado através da transvaloração de todos os valores e da antropomorfia, sendo a superação o instante em que a essência da metafísica se essencializa pela primeira vez histórico-ontologicamente.

22. A superação da “metafísica” reconhece que esta não é doutrina nem opinião, mas a verdade do ente cuja essência permanece infundada desde a αλήθεια até o asseguramento da estabilidade, exigindo que a superação não seja apresentação de outras doutrinas, mas essencialização da verdade mesma enquanto história do seer.

  • A superação enquanto acontecimento apropriativo deixa o ente abandonado recair na ausência de fundamento, tornando necessária a fundação do principialmente infundado, ao passo que a alétheia (αλήθεια) e a homoiosis (ομοίωσις) remontam à adaequatio cartesiana e à certeza do intelecto.
  • A pergunta pela verdade não visa ao asseguramento, à certeza ou à validade do conhecimento, mas está fundada de maneira essencialmente diversa por ser apropriada pelo seer em meio ao acontecimento, ao passo que o domínio incondicionado do poder consiste em compelir à destruição da essência da verdade.

23. A superação deve ser distinguida de toda interpretação falseadora pautada na noção subjetiva e hegeliana de homem, exigindo o silêncio da necessidade e a libertação do seer do predomínio do ente através da força de tração (Winde) e da virada, sem que isto configure jamais uma suspensão (Aufhebung).

24. “Superação” e “o homem” determinam-se a partir da pertencência do homem à verdade do seer enquanto ser-situado, ainda que inicialmente esta ligação seja compreendida desde fora, como doutrina contrária à metafísica, até que se distinga o essencialmente outro; a superação constitui-se como acontecimento apropriativo único, interpretável unicamente a partir de si mesma.

25. A superação da metafísica percorre seis momentos da physis (φύσις) principial e da alétheia (αλήθεια), desde o logos como linguagem e compreensão, passando pela physis enquanto gênero em Aristóteles, pela relação entre physis e técnica (τέχνη) enquanto poder e maquinação, até a inessência da metafísica na técnica moderna.

26. A superação da metafísica reconhece que todos os tratados falam a língua da metafísica ao dizerem o outro — a fundação da verdade do seer —, exigindo que todo discurso sobre conceitos, questões e posições fundamentais seja pensado histórico-ontologicamente como consequência da transposição para o ser-situado e superação de toda subjetividade e antropomorfia.

27. A superação da metafísica em seu fim constitui a superação da “transvaloração de todos os valores” nietzschiana, cuja instauração de valores representa a desertificação extrema da essência da verdade e o niilismo extremo, sendo a superação a superação deste abandono do ser que torna corrente a diferenciação desconhecida entre entidade e ente sob a figura do privilégio do a priori.

28. A superação da metafísica reconhece que na sondagem da verdade do seer inicia-se um outro começo, tornando toda permanência na história da metafísica mera ocupação com o vazio do que se deu até agora, uma vez que a metafísica consiste no salto ignoto por sobre a physis (φύσις) enquanto ser principial que nunca pode ser afastado.

29. A super-ação é somente possível no outro começo, consonante com o modo de ser do ser-situado, não podendo ser levada a cabo através de um “livro” sobre ela, pois constitui a guarda da passagem enquanto história do seer, distinguindo-se de toda “revolução”, que jamais conduz a um começo mas apenas se enreda de maneira mais incondicionada no que se deu até agora.

30. “Visão de mundo” e “ideologia” correspondem-se imediatamente, pois a ideologia é a conformação que se ajusta à obviedade não demonstrada da metafísica das “ideias”, difundindo uma interpretação do ente na totalidade através do logos enquanto razão, em uma equiparação entre visão de mundo e concepção de vida que se encaminha à trivialização e ao nivelamento incondicionados.

31. O fim da metafísica não constitui mera interrupção, mas o início do domínio incondicionado da in-essência sobre a essência, sendo o acabamento a inserção da inessência mais extrema na essência, de modo que, com a “maquinação”, a physis (φύσις) adentra sua inessência, percorrendo o caminho da entelécheia (εντελέχεια) até a realidade enquanto objetividade do assenhoramento, vontade de poder e maquinação.

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