25. Ser e tempo
Besinnung (1938/39), ed. F.-W. von Herrmann, 1997, XIV, 438p.
79. O λόγος de Heráclito, a ἰδέα de Platão, a ἐνέργεια de Aristóteles, a Mônada de Leibniz, o “Eu penso” kantiano como “liberdade”, a “Identidade” de Schelling, o “Conceito” de Hegel e o “eterno retorno” de Nietzsche dizem o mesmo, a saber, o ser, sendo esse dizer não uma enunciação de “proposições” sobre um objeto colocado à distância, mas o próprio ser dito e elevado à “palavra”, palavra que aqui não é expressão linguística qualquer, mas o próprio Seyn tornado verdade (clareira), de modo que o não-dito dos pensadores essenciais permanece sempre mais simples que o seu dito, exigindo por isso que o pensar seja sempre reconduzido ao início, sendo esse reinício apenas efetivo quando o pensar-apropriador do Seyn se torna, a cada vez, mais inicial, o outro início do pensar interrogando então a verdade do Seyn.
Sein und Zeit
A verdade (abertura da clareira) do Seyn é primeiramente pensada, pelo pensamento histórico-do-ser, como o Zeit-Raum (espaço-tempo), fundamento da unidade entre “tempo” e “espaço” que os deixa brotar, em sua pertença mútua, como trajetórias e amplitudes de arrebatamento da clareira do abismo; e, visto que o “tempo” revela essa unidade de arrebatamento de modo mais insistente que o “espaço”, igualmente arrebatador porém de outro modo, o esforço de tornar pensável a verdade do Seyn (isto é, seu “sentido”) deve partir do “tempo”, razão pela qual o próximo desdobramento da questão do ser reiniciada leva o título de “Ser e Tempo”
-
“Tempo” aqui nomeia algo que nenhuma “mera” discussão de conceitos temporais antigos ou atuais pode esclarecer, mas que é predeterminado, de modo incomparavelmente distinto, pela pergunta pela clareira do próprio Seyn como a essenciação que a ele pertence; esse “tempo” assentado no pensamento histórico-do-ser já vigora como horizonte não interrogado e outrora não interrogável para a “presença” e “permanência” (οὐσία), para a coletividade (λόγος) e a percepção (νοῦς), para a representabilidade (ἰδέα) e a objetividade, horizonte que, ao longo de toda a história da metafísica, predeterminou o ser como entidade
-
Dentro da história da metafísica, porém, o pensar do ser jamais reconhece esse horizonte que lhe cabe como pensar-apropriador (Er-denken), mantendo-se antes o pensar “filosófico” por suficientemente fundado na distinção de que a filosofia pensa o ser (entidade, categorias) enquanto as “ciências” e a opinião comum representam e explicam o ente, distinção que, mesmo quando alcança sua máxima clareza em Kant, é logo desfigurada em “teoria do conhecimento”, pois Kant concebe a entidade como objetividade e restringe os objetos ao acessível pela experiência
-
A filosofia, como interrogação do ser, é sempre pensar, mas justamente por isso esse pensar deve, como originário, determinar-se a partir daquilo que pensa-apropriando, isto é, a partir do Seyn; exigir, então, formalmente “Ser e Tempo” em lugar de “ser e pensar” não significa abandonar o pensar em favor de um “irracionalismo” ou de uma “disposição afetiva”, mas, ao contrário, forçar o pensar-apropriador à agudeza da abissalidade de seu horizonte até então impensado, isto é, da verdade originária do Seyn
-
O bedenken (meditar sobre) o pensar, no sentido de interrogar a clareira em que ele se move como pensar-apropriador do ser, não é uma “reflexão” nomeável pela fórmula “pensamento do pensamento”, pois a história da metafísica já realizou essa “reflexão” em grande estilo na era do idealismo alemão, ao ponto de a própria “reflexão” ser retomada no conceito absoluto do saber incondicionado, tornando a meditação sobre o horizonte do pensar cada vez mais desnecessária e, portanto, impossível
-
A questão pelo “sentido” do Seyn, como questão pelo âmbito de projeção do pensar-apropriador do Seyn, sua abertura e fundação, nunca é assunto de uma “reflexão” sobre o pensar e o “eu penso”, exigindo antes a questão inicial o salto para fora do homem como “sujeito” e, com isso, também para fora da relação com o “objeto” e deste mesmo, pois uma simples volta ao “objeto” não supera o “subjetivismo”, mas antes o deixa intacto em sua quietude e firmeza
