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obra:ga66:22

22. Ser e devir

Besinnung (1938/39), ed. F.-W. von Herrmann, 1997, XIV, 438p.

75. A via mais trilhada, desde a exteriorização do primeiro início do pensamento ocidental, para determinar o ser é sua contraposição ao “devir” (Werden), o que traz à luz a interpretação do ser como não-devir no sentido de subsistência, ao passo que Hegel e Nietzsche, de modo inverso e por isso mutuamente pertencentes, realizam a inclusão do ser no devir sem jamais tocar a interpretação erstanfänglich (do primeiro início) já fixada de ambos e de sua referência ao “pensar”, consumando neles a metafísica ocidental.

  • O “devir” vale ora como a violação e a deformação do ser, na queda platônica comum, ora o devir supera o ser, na medida em que este, como quietude estável (Still“stand”), nega o devir e, portanto, a “vida”; a essas exclusões recíprocas pode suceder uma interpretação que une ambos na unidade de um e outro, sempre dentro do significado pré-determinado desde o início da metafísica
  • Porque ambos pensam até o fim as possibilidades extremas da unidade recíproca de ser e devir (espírito absoluto — eterno retorno na vontade de poder) sem jamais tocar a interpretação inicial fixada de ambos, o homem da modernidade, na era dessa consumação incipiente, sabe-se, sem meditar propriamente sobre essas posições metafísicas fundamentais, na posse de todas as possibilidades de interpretação da “vida” (Nietzsche) e da “efetividade” (Hegel)
  • O homem moderno começa a compreender essa posse e a interpretá-la como o fato fundamental de que ele mesmo (isto é, “a” vida, o povo) é o fim, o âmbito, a medida e o cumprimento de si mesmo, transformando-se a incondicionalidade do absoluto hegeliano na determinação fundamental da “vida” nietzschiana, individualizada em povos e raças como unidades vitais
  • O nada, o mais alto e primeiro brotado do Seyn, não é compreendido, mas, deformado pela plena falta de pensamento, é afastado como o mais terrível dos terrores, sem sequer ser seriamente temido, muito menos experimentado no horror
  • O pensamento histórico-do-ser pensa-apropriadamente não apenas a verdade do Seyn, mas o próprio Seyn como origem segundo sua essência mais oculta, que não pode ser medida por nenhuma determinação da entidade; o ser sai, pensado metaficamente, da contraposição ao devir e é ele mesmo a essência do devir, sendo o nada o primeiro a “devir” no fundamento do Seyn
  • Para Hegel, “Seyn” e nada são o mesmo por força de seu pensar metafísico, segundo o qual a entidade, tomada como objetividade, é o indeterminado e imediato de todo opinar; essa mesmidade funda-se em que o ser é pensado a partir do nada como o simplesmente não-ente, já dentro da mediação previamente fixada, na qual tanto ser quanto nada são o suprimível
  • Isso não provém apenas do modo pessoal de exposição de Hegel e da força de sua destruição e construção dialéticas, mas manifestam-se aqui necessidades da história do Seyn, à luz das quais o “ser” hegeliano só pode tornar-se a mais extrema exteriorização da objetivação já há muito ocorrida no representar
  • O saber absoluto que se consuma na Lógica de Hegel é, como saber da entidade do ente em seu conjunto, o completo não-poder-saber do Seyn, porque a certeza absoluta sobre o ser como representabilidade exclui toda possibilidade de uma outra necessidade de perguntar e poder saber
  • A “atuação” da metafísica de Hegel consiste em nada menos que no esquecimento do ser do ente, esquecimento que se apresenta, sob a máscara do “positivismo”, como proximidade finalmente alcançada à “vida” e à “efetividade”, levando o homem moderno a encontrar, em sua maior descoberta, sua própria “essência”: a de fazer “da vida” uma “vivência” e tornar todas as possibilidades de vivência igualmente acessíveis a todos
  • A incondicionalidade da “vida vivente” significa a instauração do “devir” como o “ser” propriamente dito e, com isso, ao mesmo tempo, a fixação da ausência de questionamento do próprio ser; o nada torna-se, assim, a nulidade mais indiferente, que deveria ser ainda mais questionável que o ser
  • Ser, nada e devir são meros nomes do não-questionado e do vazio; a metafísica tornou-se, por sua própria consumação, supérflua, o que não significa que tenha se dissolvido em impotência, mas que seu poder é agora a mais despercebida obviedade dentro do mar do que se entende por si mesmo
  • O esquecimento do esquecimento é o processo mais oculto da humanização do homem, ao qual corresponde que ela mesma promove aquilo que espalha a aparência de sua contra-essência, a saber, a historiografia em sentido amplo, que hoje se desdobra na política cultural, isto é, na hostilidade entre as diversas pretensões de ser guardião e promotor da “cultura”
  • O homem histórico-cultural assume, assim, a execução daquele desígnio que, no esquecimento do esquecimento do ser, empurra a humanização do homem para um abismo que pode tornar-se fundamento para uma transformação essencial do homem, desde que ele não passe ao largo desse abismo já cego para tudo o que é sem-fundamento e mesmo abissal
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