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21. Questão porquê
Besinnung (1938/39), ed. F.-W. von Herrmann, 1997, XIV, 438p.
74. A pergunta “por que há, em geral, ente e não antes nada?” apenas parece radical, pois permanece presa ao primeiro plano do ente representado objetivamente, sem saber o que interroga, uma vez que aquilo que ela conhece como possibilidade contrária à efetividade do ente, a saber, o nada, só pode essenciar-se se o Seyn, único suficientemente forte para necessitar do nada, já essenciar, de modo que a pergunta pelo porquê do próprio porquê só encontra resposta em “por causa do Seyn”, para que sua verdade encontre fundamento e sede no Da-sein.
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Não avançamos, ao pensar-apropriando e interrogando, para além do Seyn, porque o Seyn — mais originariamente do que Hegel supôs — “é” o nada; disso decorre que a meditação sobre a essência do Seyn deve desvelar aquela pergunta pelo porquê, tida por profunda, como sendo ela mesma superficial, mostrando como, a partir da essência do Seyn, se desvela a origem do nada, e como, na abissalidade do Seyn, paira o fundamento do fundamento
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O Seyn, jamais capaz de tornar-se objeto por nunca ser um ente, não se encontra, como um “último” e “supremo” no sentido do pensar metafísico, no âmbito dos νοούμενα, através dos quais se estenderia uma ascensão ou mera “transposição” do ente condicionado ao ser incondicionado; o Seyn essencia de modo diverso do que o pensar habitual do representar explicativo e objetivante ainda insiste em fazer crer
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O sentido próprio do interrogar fenomenológico — a vontade às “coisas mesmas” — só encontra sua necessidade mais própria quando o Seyn é levado a determinar e tornar reconhecível o pensar que lhe pertence, não como modo de apreensão acidental e acrescentado, mas como Ereignung do Seyn pertencente à sua própria essenciação
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O dizer “do” Seyn não é, apesar da aparência contrária e inextirpável para o representar e comunicar cotidianos, um enunciar sobre algo subsistente, mas o dizer-apropriado (Ersagen), a partir do próprio Seyn como Ereignis, de sua essenciação; o “às coisas mesmas” é aqui unicamente um salto, e as decisões só se dão entre arriscamentos que não precisam entender-se num plano “neutro”
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Por que há ente e por que tudo o que se quer conquistado e sofrido para sua representação e produção? Por quê? — por causa do Seyn; mas essa resposta ainda poderia ser reivindicada pelo pensar metafísico, a menos que se entenda que, aqui, o Seyn se torna, ele mesmo, o mais digno de questionamento apenas nessa resposta
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Por causa do Seyn é o ente e também o próprio porquê, o que nos diz que o Seyn essencia na verdade — na clareira — que só é sustentada por aquele saber e aquela meditação que são apropriados pelo Seyn; esse “por causa do Seyn” nomeia o entretanto tão clareado, o essenciar do olhar-contrário criador, no qual deuses e homem não apenas se encontram, mas primeiramente se avistam, despertados para o encontro de sua essência pela fundação do olhar-do-coração
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Para que o Seyn encontre uma guarda da verdade de sua essenciação, o ente “é” na disputa e incalculabilidade de suas adversidades e confusões, na inexplicabilidade de seus ímpetos e iluminações, na trivialidade de seus decursos equilibrados e sem decisão, pois o ente só é tal como guarda do Seyn
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O “porquê”, enquanto palavra interrogativa, nomeia a clareira no passo em direção à qual o homem percorre a dignidade da guarda vigilante da verdade do Seyn; o autêntico responder à essência dessa pergunta só pode ser o interrogar do mais digno de questionamento, único modo pelo qual a clareira é vigiada no ente e o próprio Seyn é protegido do arrastamento para o embotado e cego do mero animal
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Onde tudo é reivindicado como possível e realizável, onde por isso a tudo já se atribuiu sua explicabilidade, ali o “porquê” é definitivamente destituído em sua essência, dando lugar à “crença” sem olhos nem visão na posse antecipada e “sem resto” de todas as respostas, crença na racionalidade pura e simples e na capacidade do homem de ser inteiramente senhor dela, o que constitui a mais extrema alienação em relação ao Seyn por meio do apelo racional ao ente racionalmente pensado e explorado
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“Por quê?” significa: a partir de que fundamento? e rumo a que fundamento? mas a essência do fundamento é o próprio Seyn — o Ereignis abissal do entretanto clareado ao qual o homem (como Da-sein) é arrebatado, e no qual, como o aberto para o encontro de um olhar-contrário dirigido a eles, os deuses são compelidos a se encontrarem a si mesmos
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Aqui a meditação toma o lugar de uma decisão sobre a hierarquia do questionar, mostrando-se de antemão que essa hierarquia é determinada pela originariedade e pelo modo da interpretação do ser, isto é, pela disposição afetiva fundamental que perpassa e determina o vínculo com o “ser”
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A pergunta pelo porquê do ente deve já ter deixado para trás a pergunta pelo o-que do ente; com o o-quê que ele é, seu “que” (Daß) é concedido e experimentado em seu predomínio; mas no espanto (Er-staunen), que arrebata o homem disposto perante o Daß e o Was nele resplandecente, reúne-se apenas então a disposição inicial para o interrogar, de modo que o ente aparece primeiro como o mais digno de questionamento, sendo “o que é — o ente” já uma resposta interrogante que faz irromper a pergunta pelo o-quê: O que é o ente enquanto ente?
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Nessa própria pergunta pelo o-quê, o ente enquanto φύσις é mantido dentro da ἀλήθεια que lhe pertence, de modo que, no espanto, o vínculo com o ente se recolhe na pura percepção, e dessa coleta (λόγος) traz o contraposto à presença, isto é, pensa-o como Uno; a partir da disposição fundamental do espanto determina-se a essência erstanfänglich (do primeiro início) do “pensar”, ao qual a pergunta pelo o-quê permanece a primeira, isto é, a pergunta que tudo perpassa e domina
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Permanece, porém, oculto e, para a posição fundamental do primeiro início, necessariamente não-interrogável, já o Seyn e sua verdade; esse não-interrogável, que contudo já perpassa a pergunta e resposta inicial, constitui o inesgotável da plenitude do primeiro início, condicionando ao mesmo tempo a ambiguidade, jamais eliminada por nunca ter sido atacada, que atravessa toda a história da metafísica: que na entidade do ente se pensa o ser, e no entanto se interroga sempre apenas o ente
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Por que a pergunta explicativa pelo porquê acaba prevalecendo? Porque, após o primeiro espanto, o ente perde cada vez mais sua estranheza e se insere no âmbito do orientar-se e reconhecer-se, de onde retira as formas de sua determinabilidade (enunciado, λόγος, categorias, as “quatro causas”); o primeiro espanto é dominado pela crescente familiaridade do ente, cede a ela e se mistura com o mero admirar-se diante do admirável, isto é, o não imediatamente explicável pela τέχνη
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Na pergunta inicial — o que é o ente — o ser é interrogado e já pensado como “fundamento”, a saber, como fundamento essencial do ente, fundamento que a pergunta pelo porquê jamais atinge, apenas desfigurando-o; historicamente isso significa que o vínculo grego inicial com o ente é cada vez mais soterrado pela exploração explicativa daquilo que ele inicialmente abriu
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A pergunta do outro início (a autêntica pergunta fundamental) é: Como essencia o Seyn? Qual é a verdade do Seyn? — sendo o “como” aqui não o modo explicativo, mas o fundamento a ser fundado por aquilo que, através do Seyn enquanto tal, experimenta sua determinação essencial mais íntima: o homem; o Seyn, porém, não é “reconduzido” ao homem, mas o homem é arrancado à humanização e transformado no Da-sein, onde acontece a fundação da clareira em cujo aberto o Seyn essencia
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O pensar na questão fundamental assume, própria e primeiramente, aquilo mais pesado que se perdeu já no primeiro início — a perseverança diante da admirabilidade do ente enquanto tal —, sob a forma da instância na disposição fundamental do horror (Ent-setzen), que supera todo espanto e nada tem em comum com a mera terribilidade do sentimento comum; esse Ent-setzen situa no abismo frente ao mero ente, transpondo para a verdade do Seyn como fundamento do fundamento
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Caso se comparassem, ainda que impropriamente, o pensar metafísico e o pensar histórico-do-ser, poder-se-ia dizer que aquele se mantém no representar do ente como objeto, ao passo que este se mantém na resolução pensante-interrogante voltada ao Ereignis; aquele calcula até mesmo seu deus criador e sua “onipotente” “providência”, este ousa a distância do que se recusa a si mesmo como o abismo de decisões incalculáveis sobre a fuga e a chegada dos deuses
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O “porquê” parece exprimir a mais alta inquietação do questionar mais profundo, mas, na verdade, ele e o interrogar em sua intenção constituem o afastamento constante da pura instância no e diante do mais digno de questionamento, o Seyn, que só permanece preservado em sua dignidade enquanto o coração se mantém aberto à pura essenciação daquele entretanto para o qual o homem, arrebatado em sua própria essência, ancora o vínculo com o Seyn
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Entrementes, porém, acontece por vezes algo distinto: alguns, resolutos, veem o brilho do fogo oculto de todo ente e pressentem o porvir de seus guardiões, que não vem apenas depois desta era presente como um sonho romântico, mas que já chegou, doando à recordação histórica o Seyn como recusa e deixando o homem saber do Outro de si mesmo
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