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§ 8. A essência da physis e a verdade do ser. A physis na perspectiva do fogo e do cosmos. Aletheia pensada no me dynon pote (physis) enquanto desencobrimento para o desencobrimento do ser. Fragmentos 64, 66, 30 e 124
A essência da physis, pensada como surgimento originário que reúne em si surgimento e encobrimento na harmonia de sua co-pertença, deixa-se aprofundar pela relação com o fogo, o raio, o cosmos e a aletheia, pois aquilo que surge somente pode aparecer enquanto se abre num âmbito de clareira e simultaneamente permanece resguardado no encobrimento; o fogo heraclítico, longe de designar um elemento físico, mostra o caráter iluminador, reunidor e ordenador da physis, enquanto o cosmos nomeia o arranjo originário em que cada ente aparece em sua medida, e a aletheia revela-se como fundamento essencial dessa emergência, não como verdade proposicional, mas como desencobrimento que, preservando o encobrimento, permite ao ser vigorar no aberto.
a) O fogo e o raio como des-envolvimento da claridade. O cosmos enquanto junção habilidosa e inaparente, e o arranjo originário. O Mesmo no fogo e no cosmos: acender e clarear o amplo, em sua doação de medida
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A physis, anteriormente determinada como harmonia, deve ser compreendida como junção em que surgimento e encobrimento se pertencem reciprocamente, de modo que nenhum dos dois existe isoladamente e ambos recebem sua própria essência da relação que os reúne.
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Harmonia não constitui um terceiro elemento colocado entre surgimento e encobrimento, mas a própria junção originária que permite a ambos vigorar em sua diferença e co-pertença.
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A palavra physis deve ser aproximada do fogo não porque Heráclito proponha uma doutrina cosmológica segundo a qual todas as coisas seriam feitas de fogo, mas porque o fogo deixa aparecer, de maneira sensível e originária, o caráter de surgimento e claridade.
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O fogo do forno, o fogo da lareira, a tocha, o fogo das estrelas e aquilo que irrompe e brota pertencem todos ao âmbito do aparecer iluminante, sem que possam ser reunidos simplesmente sob o conceito moderno de matéria ígnea.
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No fogo, acender e extinguir-se, iluminar e escurecer, aparecer e recolher-se pertencem imediatamente um ao outro, tornando-o um aceno para a unidade essencial da physis.
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O caráter do fogo não reside primordialmente em suas propriedades físico-químicas, mas no modo como ele abre claridade, deixa algo aparecer e, simultaneamente, traz consigo a possibilidade de extinguir-se.
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A palavra pyr deve ser escutada na proximidade do brilho e da clareira, não apenas segundo a determinação cotidiana do fogo enquanto substância combustível.
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O raio recebe uma significação privilegiada porque, em sua irrupção súbita, ilumina de uma só vez aquilo que anteriormente permanecia mergulhado no escuro.
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No fragmento 64, o raio “conduz o ente em sua totalidade”, não como poder físico que transporta coisas, mas como acontecimento iluminador que deixa a totalidade aparecer de uma vez no aberto.
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O clarão do raio não ilumina progressivamente uma coisa após outra, mas abre instantaneamente a totalidade do âmbito em que os entes podem mostrar-se.
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A irrupção do raio aproxima-se da physis porque ambos possuem o caráter de surgimento que abre o aparecimento sem necessitar de uma preparação exterior.
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O raio não é mera metáfora decorativa para uma ideia abstrata, mas um fenômeno cuja própria vigência permite experimentar o caráter repentino e iluminador do surgir.
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O fragmento 66, ao dizer que o fogo sobrevém, distingue, reúne e mantém todas as coisas, deve ser pensado a partir dessa mesma essência iluminadora e não como descrição de uma catástrofe física final.
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O fogo distingue porque, ao iluminar, permite que cada ente apareça segundo aquilo que é, separando e reunindo simultaneamente dentro de uma mesma abertura.
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A claridade não nivela as diferenças; justamente ao iluminar, permite que cada coisa se mostre em sua própria configuração.
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O surgir da physis constitui, assim, uma forma de arranjo originário em que aquilo que aparece recebe seu lugar e sua medida.
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Kosmos não significa originalmente “universo” como totalidade astronômica de corpos, mas arranjo, ornamento, ordem e disposição em que cada coisa encontra seu modo apropriado de aparecer.
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O sentido de “ornamento” não deve ser reduzido a decoração acrescentada exteriormente, pois o verdadeiro ornamento consiste em deixar uma coisa aparecer em sua própria propriedade.
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Arranjar não significa cobrir algo com aditivos ou acessórios, mas permitir que aquilo que se mostra resplandeça segundo sua própria forma.
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O cosmos é, portanto, a junção clareadora na qual os entes aparecem como aquilo que são, não um recipiente universal previamente dado que os conteria.
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O arranjo originário não foi produzido por deuses nem por homens, pois antecede qualquer ação produtora e constitui a própria abertura em que deuses e homens podem aparecer.
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A sentença do fragmento 30 segundo a qual este kosmos não foi feito por nenhum deus nem por nenhum homem impede compreender o mundo como artefato resultante de uma fabricação.
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O cosmos “sempre foi, é e será”, mas esse “sempre” não deve ser interpretado segundo uma eternidade metafísica supratemporal.
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O caráter permanente do kosmos pertence à vigência do próprio surgir, que não começa num momento cronológico nem termina em outro, mas se mantém enquanto abertura do aparecer.
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A palavra aion e as determinações temporais do fragmento não devem ser assimiladas imediatamente à concepção posterior de eternidade como ausência de tempo.
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A metafísica transformará progressivamente o eterno em algo que permanece acima ou fora do tempo, enquanto o pensamento originário ainda experimenta a permanência a partir do próprio vigorar do surgimento.
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“Fogo sempre vivo” não designa substância eterna nem matéria primordial, mas a vigência que continuamente acende e apaga segundo medida.
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O “acender segundo medida” e o “apagar segundo medida” indicam que a abertura clareadora não é um excesso arbitrário, mas permanece submetida a uma medida originária.
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Metron não deve ser entendido primordialmente como quantidade mensurável segundo instrumentos, mas como medida que concede amplitude, limite e proporção ao aparecer.
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A medida não se acrescenta posteriormente ao kosmos; pertence à própria maneira como o arranjo originário deixa cada ente aparecer em seu âmbito.
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O fogo não recebe uma medida de algo exterior, mas vigora segundo medida justamente porque sua essência é uma abertura que delimita e concede o lugar do aparecer.
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O cosmos é a amplitude aberta em que aquilo que aparece pode diferenciar-se e, simultaneamente, permanecer reunido numa junção.
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A claridade do fogo e o arranjo do cosmos dizem, assim, aspectos de uma mesma essência: o surgir que ilumina, reúne, distingue e concede medida.
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Fogo, physis, harmonia e kosmos não são quatro princípios separados, mas palavras distintas que permitem aproximar-se do Mesmo sem reduzi-lo a um conceito único e abstrato.
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O pensamento originário não constrói um sistema no qual esses termos receberiam definições fixas, mas deixa-os corresponder uns aos outros a partir da região comum em que o ser se abre e os entes aparecem.
b) A aletheia como fundamento e origem essencial da physis. A relação essencial do desencobrimento com o encobrimento na physis, pensada originariamente. A aletheia como desencobrimento do encobrimento
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A pergunta do fragmento 16 — “Como alguém pode manter-se encoberto face ao que a cada vez já não declina?” — conduz da physis para a aletheia, porque aquilo que nunca declina vigora como surgimento clareador e, portanto, como abertura na qual encobrimento e desencobrimento podem acontecer.
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Aquele que surge encontra-se necessariamente no âmbito da physis e, por isso, entra numa relação com aquilo que aparece e se encobre.
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Tis, “alguém”, não deve ser imediatamente restringido ao homem, pois pode nomear todo ente capaz de aparecer dentro do âmbito do surgimento.
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Pedras, árvores, animais, homens e deuses surgem de modos diferentes, mas todos pertencem, enquanto entes, à abertura na qual podem vir à presença.
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Nenhum ente pode manter-se absolutamente fora da physis se physis nomeia justamente o surgimento que abre o âmbito de sua presença.
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A pergunta heraclítica não indaga se alguém conseguiria esconder-se de um observador onisciente, mas se algo poderia permanecer totalmente encoberto diante da própria vigência do surgir.
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A relação entre physis e aletheia torna-se decisiva porque o surgimento somente pode vigorar como surgimento se algo for retirado do encobrimento e entrar no aberto.
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Aletheia não significa primeiramente verdade no sentido de concordância entre proposição e coisa, mas desencobrimento, isto é, o acontecimento em que aquilo que estava encoberto é conduzido ao aberto.
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Esse desencobrimento não elimina simplesmente o encobrimento, pois o fragmento 123 já mostrou que physis favorece kryptesthai e que o surgimento pertence originariamente ao encobrir-se.
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Aletheia deve, por isso, ser pensada como desencobrimento que conserva o encobrimento enquanto aquilo a partir do qual o desencoberto pode aparecer.
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O encobrimento não é uma deficiência exterior à verdade, mas pertence essencialmente à própria estrutura do desencobrimento.
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A negatividade gramatical do alfa privativo em aletheia não deve ser reduzida à supressão lógica de Lethe, pois o “des-” indica uma luta e uma retirada a partir do encobrimento.
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O desencobrimento é sempre desencobrimento de algo que pode encobrir-se e que continua relacionado com essa possibilidade mesmo quando aparece.
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Aletheia vigora, portanto, no interior da physis e não constitui uma propriedade intelectual acrescentada posteriormente pelo homem ao conhecimento dos entes.
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O surgimento abre aquilo que vem à presença e, ao fazê-lo, já realiza uma forma originária de desencobrimento.
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A ligação entre physis e aletheia não significa que ambas sejam simplesmente sinônimos, mas que o surgir somente pode ser aquilo que é dentro da abertura do desencobrimento.
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O fundamento essencial da physis encontra-se, assim, na aletheia enquanto abertura em que surgir e encobrir-se entram em sua co-pertença.
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A questão do fragmento 16 ganha maior profundidade quando se pergunta não apenas “quem pode esconder-se?”, mas de que maneira o próprio encobrimento pertence àquilo que nunca declina.
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Se a physis fosse somente aparecimento sem encobrimento, a pergunta perderia sentido, pois nada poderia ocultar-se e nenhuma luta entre aparecer e retração seria possível.
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Precisamente porque physis favorece kryptesthai, o encobrimento pertence ao surgir, e aletheia precisa ser pensada como abertura que se conquista e se mantém dentro dessa relação.
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O primeiro fragmento, relido a partir do fragmento 123, já não afirma simplesmente a impossibilidade de esconder-se, mas conduz à questão da essência do próprio encobrimento.
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Aletheia não é exterior à physis; constitui sua abertura fundamental na medida em que permite que aquilo que surge venha à presença como desencoberto.
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A história posterior da metafísica transformará a verdade em propriedade do enunciado correto e, mais tarde, em certeza do sujeito, obscurecendo progressivamente essa proveniência originária.
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A transformação da verdade em correção não é um simples erro conceitual, mas um acontecimento histórico no qual a relação originária entre ser, physis e aletheia se retrai.
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A retomada da aletheia exige, portanto, não apenas substituir uma definição moderna por outra antiga, mas recolocar o pensamento dentro da experiência em que ser e verdade pertencem conjuntamente.
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O encobrimento que funda o desencobrimento não deve ser pensado como obstáculo que o homem precisaria remover definitivamente, pois sua permanência pertence à própria vigência do ser.
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Aletheia é o desencobrimento do encobrimento porque aquilo que se abre somente se abre a partir de uma retração que não desaparece completamente.
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Pensar a verdade originariamente significa, assim, pensar simultaneamente aquilo que se manifesta e aquilo que permanece resguardado em seu retraimento.
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A physis, enquanto surgir, não deixa simplesmente algo visível; ela mantém o ente no jogo essencial entre aparecer e ocultar-se.
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A relação do homem com a verdade somente se torna possível porque o homem já se encontra previamente inserido nessa abertura e pode responder ao modo como o ser se lhe mostra e se lhe retira.
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A pergunta pela aletheia torna-se, desse modo, pergunta pela própria essência do ser, pois o desencobrimento não é um estado acrescentado ao ente, mas o âmbito no qual o ente pode aparecer enquanto ente.
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O pensamento originário não tematiza aletheia abstratamente como conceito de verdade, mas permanece imerso na experiência em que o ser se dá como surgimento, clareira, encobrimento e desencobrimento.
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O caminho aberto pelos fragmentos de Heráclito conduz, portanto, da physis ao próprio fundamento da verdade, no qual o ser somente vigora como aquilo que, ao aparecer, conserva sua relação essencial com o retraimento.
c) Sobre a escuta e o dizer do ser no pensamento originário: o logos e o sinal. O sinal de Apolo como o assinalamento da physis. Fragmento 93. Sobre a verdade e a palavra do ser na história ocidental
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A determinação da physis como junção, surgimento e desencobrimento conduz necessariamente à questão do logos, pois aquilo que aparece no aberto precisa poder ser acolhido e dito sem ser reduzido a simples informação sobre entes.
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A relação entre ser e palavra não nasce de uma convenção linguística humana, mas pertence à própria abertura em que aquilo que é pode mostrar-se.
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Os sinais de Ártemis — arco, lira e tocha — já indicavam uma relação entre tensão, clareira e aparecimento; com Apolo, essa relação ganha a determinação do assinalar e do mostrar.
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No fragmento 93, o senhor cujo oráculo está em Delfos “nem diz nem encobre, mas dá sinais”, indicando uma forma de manifestação que não se reduz nem à declaração explícita nem ao silêncio ocultador.
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Apolo não deve ser compreendido simplesmente como personagem religioso ou divindade mitológica posteriormente interpretável segundo categorias culturais, mas a partir de sua relação com a essência do aparecer.
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O deus corresponde ao ser na medida em que deixa algo aparecer e assinala, não como causa transcendente exterior aos entes, mas como presença que se manifesta no próprio âmbito da physis.
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Semainein, dar sinais, não significa substituir uma coisa ausente por um símbolo convencional, mas deixar aparecer algo de modo que aquilo que aparece simultaneamente remeta para uma dimensão que permanece não manifesta.
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O sinal não revela tudo nem simplesmente esconde; conserva uma relação entre o que se mostra e aquilo que permanece retraído.
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O dizer originário possui essa mesma estrutura: não consiste em produzir afirmações transparentes sobre objetos, mas em deixar o ser vir à palavra sem eliminar seu encobrimento.
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Legein conserva uma relação com colher e recolher, indicando um dizer que reúne aquilo que aparece e o mantém em sua unidade.
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Logos não deve ser traduzido imediatamente por razão, discurso ou proposição, pois essas determinações pertencem a transformações posteriores de sua essência.
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O logos originário recolhe e deixa aparecer, permanecendo assim na mesma região essencial da physis e da aletheia.
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A escuta torna-se decisiva porque o pensar não produz a palavra originária de si mesmo, mas precisa primeiro acolher aquilo que se mostra e se deixa ouvir.
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Escutar o ser não significa receber sons misteriosos, mas permanecer aberto ao modo como o ente aparece e, nesse aparecimento, deixa entrever aquilo que o sustenta.
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O pensamento originário é, por isso, essencialmente escuta antes de ser construção, cálculo ou demonstração.
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A palavra do pensador não inventa arbitrariamente sentidos, mas procura corresponder ao aceno que já provém do próprio ser.
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O sinal de Apolo indica precisamente essa correspondência entre mostrar e ocultar, pois o deus não explica nem silencia, mas assinala.
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O assinalamento preserva a ambiguidade essencial daquilo que aparece, deixando que o visível remeta para aquilo que não se oferece como objeto imediatamente disponível.
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O sinal não deve ser concebido segundo o modelo moderno de um código no qual cada marca corresponde univocamente a um significado.
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A tentativa de transformar todo sinal em cifra decifrável pertence à vontade moderna de tornar absolutamente disponível aquilo que aparece.
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O pensamento essencial precisa suportar que o sinal permaneça sinal, isto é, que mostre sem consumir aquilo que mostra numa explicação definitiva.
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A relação entre sema, semainein e physis permite compreender por que o surgir não se esgota no aparecimento imediato de objetos, mas conserva sempre uma dimensão indicativa.
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Aquilo que aparece aponta para o próprio acontecimento do aparecer, embora o entendimento cotidiano costume fixar-se somente na coisa aparecida.
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A palavra originária procura recolher precisamente esse aceno e conduzi-lo ao dizer.
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O dizer do ser não significa atribuir linguagem ao ser como se este fosse uma pessoa que falasse, mas reconhecer que a abertura do ser possui uma estrutura mostradora à qual a palavra humana pode responder.
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A correspondência entre ser e dizer funda a possibilidade de uma verdade que não é primeiramente correção, mas manifestação.
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O verdadeiro não se reduz ao que pode ser calculado, comprovado ou representado com exatidão, pois a exatidão pressupõe previamente um âmbito em que algo já tenha podido aparecer.
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A modernidade tende a interpretar clareza como transparência completa e verdade como determinação inequívoca, mas o pensamento originário conhece uma clareira na qual aquilo que aparece ainda preserva sua retração.
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A clareza essencial não elimina o mistério; oferece-lhe precisamente o espaço em que pode mostrar-se como mistério.
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A distinção entre o verdadeiro e o falso não esgota a essência da verdade, pois ambas as possibilidades já pressupõem a abertura mais originária da aletheia.
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Pensar significa escutar o não-dito no dito, não para inventar arbitrariamente significações ocultas, mas porque toda palavra essencial permanece ligada a um âmbito que nenhuma formulação pode exaurir.
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A sentença to me dynon pote pos an tis lathoi conserva sua força precisamente porque não oferece uma explicação completa, mas mantém aberta a pergunta pela relação entre surgimento, encobrimento e desencobrimento.
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A palavra originária preserva a possibilidade de uma decisão histórica sobre a relação do homem com o ser, razão pela qual não pode ser tratada como simples documento antiquário.
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A história ocidental depende do modo como essa palavra originária foi acolhida, transformada e progressivamente esquecida.
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O destino histórico da verdade encontra-se ligado à transformação da aletheia em correção e da physis em natureza, assim como à transformação do logos em razão e linguagem proposicional.
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A possibilidade de um pensamento futuro depende de reaprender a escutar o que permaneceu não dito dentro dessas transformações, sem imaginar que se possa simplesmente regressar historicamente aos gregos.
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O começo não é um passado morto, mas aquilo que continua determinando a história precisamente porque sua essência ainda permanece por pensar.
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A escuta da palavra de Heráclito exige, portanto, abandonar tanto a apropriação filológica que a reduz a documento quanto a apropriação filosófica que a converte imediatamente numa antecipação de doutrinas posteriores.
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Pensar essencialmente significa manter-se na proximidade daquilo que a palavra assinala sem pretender possuí-lo inteiramente.
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O fragmento 93 torna visível que o dizer mais originário pode permanecer entre dizer e ocultar, como sinal que mostra e, ao mostrar, conserva o retraimento.
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Essa estrutura corresponde à própria physis: aquilo que surge mostra-se, mas sua essência não se esgota no aparecimento; permanece resguardada na junção de surgimento e encobrimento.
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Logos, sinal, physis e aletheia convergem, assim, para uma mesma região de pensamento na qual ser, aparecer, recolher, dizer e ocultar-se pertencem conjuntamente.
