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obra:ga55:5

§5

§ 5. Exposição do nexo essencial entre surgimento e declínio. Fragmento 123

A relação entre o “surgimento incessante” pensado a partir do fragmento 16 e o encobrimento nomeado no fragmento 123 não pode ser compreendida como contradição lógica entre aparecer e desaparecer, pois physis, entendida originariamente como surgimento, não exclui o declínio nem se opõe exteriormente ao encobrir-se, mas possui com ele uma co-pertença essencial na qual o surgir somente é aquilo que é enquanto permanece referido à possibilidade de retração, de modo que a sentença physis kryptesthai philei deve ser libertada das interpretações dialéticas e metafísicas que procuram reconciliar contrários mediante conceitos posteriores e acolhida como indicação de uma unidade originária ainda anterior à oposição lógica entre afirmação e negação.

  • A aproximação entre to me dynon pote, traduzido provisoriamente como “surgimento incessante”, e physis permite reconhecer que as palavras fundamentais do pensamento originário não constituem termos isolados, mas convergem para uma mesma região essencial.
  • A sentença physis kryptesthai philei — “o surgimento favorece o encobrimento” — introduz uma dificuldade aparentemente insuperável, pois aquilo que surge parece, à primeira vista, excluir precisamente o recolher-se no encobrimento.
  • Se o surgimento for pensado superficialmente como simples entrada no aparecimento e o encobrimento como seu contrário, a sentença heraclítica parecerá conter uma contradição evidente.
  • A dificuldade torna-se ainda maior porque o “surgimento incessante” do fragmento 16 parece excluir todo declínio, enquanto o fragmento 123 afirma uma proximidade essencial da physis com o encobrir-se.
  • A necessidade consiste, portanto, em pensar conjuntamente surgimento, declínio e encobrimento sem recorrer de imediato às categorias da lógica ou da dialética.
  • A palavra philei não deve ser reduzida a “amar” no sentido sentimental, pois indica uma afinidade, favorecimento ou inclinação essencial segundo a qual physis e kryptesthai pertencem reciprocamente.
  • O surgimento não se relaciona exteriormente com o encobrimento como dois acontecimentos independentes que ocasionalmente se encontram, mas traz em sua própria essência a possibilidade do recolhimento.
  • A interpretação que transforma imediatamente essa relação numa “contradição” já pressupõe o princípio lógico da não-contradição como medida universal de todo pensamento e, desse modo, pode impedir a escuta da palavra originária.
  • A lógica, enquanto disciplina, nasce historicamente no interior da metafísica e não pode ser tomada sem mais como forma originária e intemporal de todo pensar.
  • Desde Platão e Aristóteles, a determinação do pensamento como logos desenvolve-se em direção àquilo que mais tarde recebe o nome de lógica, mas essa história não autoriza projetar suas estruturas retrospectivamente sobre Heráclito.
  • A própria afirmação de que Heráclito seria um pensador “dialético” já transporta para sua palavra uma concepção posterior de oposição e mediação.
  • Mesmo quando Hegel reconhece na contradição o princípio do movimento especulativo e vê em Heráclito uma antecipação dessa estrutura, permanece uma diferença histórica decisiva entre a dialética metafísica e o pensamento originário.
  • A sentença physis kryptesthai philei não diz que duas determinações contraditórias devam ser superadas numa unidade superior, mas deixa aparecer uma pertença originária em que surgir e encobrir-se ainda não foram separados como termos lógicos.
  • O pensamento comum, habituado a decidir imediatamente segundo “ou isto ou aquilo”, tende a imobilizar-se diante dessa co-pertença e a classificá-la como absurdo, paradoxo ou contradição.
  • Essa imobilização do entendimento constitui precisamente um primeiro indício de que a palavra originária exige abandonar temporariamente as evidências habituais e permitir que a questão permaneça aberta.

a) A “contradição” entre surgir e declinar. O fracasso da lógica e da dialética diante dessa “contradição”

  • Ao ouvir que “o surgimento favorece o encobrimento”, o entendimento ordinário conclui imediatamente que o fragmento afirma simultaneamente algo e seu contrário, pois surgir seria aparecer e encobrir-se seria desaparecer.
  • Essa interpretação repousa, contudo, na pressuposição não examinada de que surgimento e encobrimento constituem determinações mutuamente excludentes.
  • A experiência originária de physis não corresponde ao simples aparecer de uma coisa já pronta, mas ao emergir que somente pode vigorar enquanto traz consigo a possibilidade de retração.
  • O nascer, o crescer, o florescer e o amadurecer mostram que aquilo que surge não permanece numa exposição imóvel, mas percorre uma vigência na qual o retirar-se pertence ao próprio aparecer.
  • A sentença heraclítica não deve ser trivializada mediante exemplos cotidianos em que algo aparece e posteriormente desaparece, pois não se trata apenas de sucessão temporal entre dois estados.
  • O decisivo é que o encobrimento pertença à própria essência do surgimento, e não apenas que venha cronologicamente depois dele.
  • A expressão “o luminoso é o obscuro” seria incompreensível para o entendimento lógico se tomada como identidade imediata entre contrários, mas pode indicar que claridade e obscuridade se determinam reciprocamente numa relação mais originária.
  • A obscuridade de Heráclito não resulta de uma linguagem voluntariamente contraditória, mas da dificuldade de pensar aquilo que não se deixa submeter imediatamente às divisões ordinárias.
  • A qualificação de Heráclito como “dialético” nasce do desejo de acomodar suas palavras a um esquema histórico conhecido e, assim, retirar-lhes a estranheza.
  • A dialética não resolve a dificuldade se apenas reconduz os contrários a uma síntese superior, pois também essa síntese pertence a uma determinada história do pensamento.
  • O princípio da não-contradição, formulado decisivamente por Aristóteles, possui validade dentro do domínio que lhe corresponde, mas não pode ser convertido sem exame na origem universal de todo pensamento.
  • A lógica não é simplesmente idêntica ao pensar correto, pois aquilo que hoje se chama “lógico” resulta de uma tradição que transformou o logos originário numa disciplina de regras formais.
  • A expressão cotidiana “isso é lógico” geralmente significa apenas “isso corresponde ao que já se esperava”, mostrando como o termo pode afastar-se da questão originária do logos.
  • O pensamento comum procura coerência entendida como ausência de contradição, mas essa exigência pode impedir o acesso a relações essenciais nas quais os contrários ainda não se encontram separados segundo categorias fixas.
  • A lógica pode estabelecer corretamente que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, mas essa formulação não decide antecipadamente aquilo que Heráclito pensa com physis e kryptesthai.
  • A tentativa de demonstrar que Heráclito viola ou antecipa o princípio da não-contradição já pressupõe que sua palavra esteja situada no mesmo campo conceitual da lógica posterior.
  • O pensamento originário exige uma mobilidade capaz de não se deter na aparência de incompatibilidade, mas também sem procurar uma conciliação fácil.
  • A imobilização diante do “incompatível” pode ser preparatória quando impede o pensamento de precipitar-se em explicações prontas.
  • O perigo surge quando essa imobilização se transforma em julgamento definitivo e declara o fragmento absurdo, obscuro ou meramente paradoxal.
  • A interpretação filológica que oferece traduções aparentemente exatas também pode fugir da exigência mobilizadora da sentença quando substitui o problema por uma equivalência lexical.
  • Traduzir physis kryptesthai philei por “a natureza ama esconder-se” parece familiar, mas introduz imediatamente o conceito moderno de natureza e o sentimento subjetivo de amar, afastando-se da experiência originária.
  • Mesmo a tradução “a essência gosta de ocultar-se” altera decisivamente o sentido ao substituir physis por “essência” e pode produzir uma aparência de profundidade que não pertence necessariamente à palavra grega.
  • A exigência de tornar tudo imediatamente inteligível constitui uma das formas modernas de violência contra a palavra originária, pois elimina a estranheza necessária antes que ela possa ser pensada.
  • A tradução deve preservar o desconcerto produtivo diante da relação entre surgimento e encobrimento, permitindo que a sentença continue a interrogar em vez de oferecer uma solução pronta.
  • A tarefa não consiste em escolher entre lógica e dialética, mas em perguntar se ambas já pertencem a uma história posterior em relação àquilo que Heráclito procura nomear.
  • O salto para o pensamento essencial começa precisamente quando se suporta a impossibilidade de resolver a palavra segundo os esquemas disponíveis e se permanece junto ao que nela ainda não foi pensado.

b) A imobilidade do pensamento comum diante do “incompatível” e o salto para o pensamento essencial. Apreensão das traduções filológicas como fuga da exigência mobilizadora do fragmento

  • O entendimento comum procura eliminar imediatamente a incompatibilidade aparente entre surgimento e declínio, recorrendo ora à alternância temporal, ora à combinação causal, ora à afirmação de que uma coisa surge enquanto outra desaparece.
  • Essas soluções permanecem exteriores porque transformam a co-pertença essencial numa simples sucessão ou coexistência de processos.
  • Explicar que a primavera sucede ao inverno ou que o fruto desaparece para dar lugar à semente não alcança ainda aquilo que significa physis favorecer o encobrimento.
  • A incompatibilidade não pode ser resolvida colocando surgimento e declínio em momentos diferentes, porque a sentença heraclítica exige pensar sua relação no próprio vigorar da physis.
  • O entendimento representa habitualmente cada determinação como algo já definido e procura posteriormente combiná-las, enquanto o pensamento essencial precisa perguntar se cada uma não recebe sua essência justamente da relação com a outra.
  • Se surgir for concebido apenas como oposto de encobrir-se, o próprio conceito de surgir já foi previamente empobrecido.
  • A resistência do fragmento às categorias comuns é valiosa porque interrompe a segurança do entendimento e pode preparar uma mudança no modo de perguntar.
  • Essa interrupção não constitui ainda pensamento essencial, mas apenas a possibilidade de um salto para fora das representações habituais.
  • O salto não significa irracionalidade, abandono de rigor ou exaltação mística, mas disposição para pensar a partir de um domínio que não está previamente submetido às categorias da metafísica.
  • A discussão prolongada não procura demonstrar superioridade sobre o entendimento comum, pois também o pensamento filosófico permanece constantemente ameaçado pela tendência de retornar às representações já familiares.
  • Mesmo Hegel, Schelling e os grandes pensadores do idealismo não podem ser simplesmente descartados como “dialéticos”, porque a força de suas obras exige confrontação mais rigorosa do que uma rejeição terminológica.
  • O problema não está em usar ou não a palavra dialética, mas em permitir que um conceito posterior determine antecipadamente aquilo que deve ser escutado na palavra de Heráclito.
  • O chamado circulus que surge quando cada fragmento é compreendido a partir do todo do pensamento e o todo a partir de cada fragmento não constitui necessariamente um círculo vicioso.
  • Toda interpretação essencial se move num círculo porque precisa antecipar provisoriamente uma unidade para compreender as partes e, ao mesmo tempo, deixar que as partes transformem a compreensão dessa unidade.
  • A diferença decisiva está entre um círculo vivo de interpretação e uma imposição dogmática que apenas força cada palavra a confirmar aquilo que já havia sido decidido.
  • A filologia permanece indispensável para estabelecer palavras, variantes e contextos, mas não pode determinar por si mesma a experiência de pensamento que sustenta o fragmento.
  • Traduções “exatas” podem transmitir a impressão de segurança justamente onde o essencial permanece mais questionável.
  • A versão “a natureza ama esconder-se” é filologicamente tradicional, porém conduz imediatamente à representação moderna de natureza e transforma philein numa disposição afetiva.
  • A tradução “a essência gosta de ocultar-se”, associada à interpretação de Bruno Snell, desloca physis para “essência” e cria outra configuração conceitual que também precisa ser interrogada.
  • A pergunta por aquilo que uma tradução deixa ver é mais decisiva do que a busca de uma equivalência definitiva, pois a tradução pensante deve permanecer aberta ao que ainda não se compreendeu.
  • A investigação de physis não pode começar por definições historiográficas estabelecidas, mas precisa libertar a palavra dos significados acumulados de “natureza”.
  • A palavra originária somente pode ser ouvida quando se resiste ao impulso de convertê-la no equivalente mais familiar possível.
  • A familiaridade com o moderno conceito de natureza torna-se obstáculo porque parece dispensar a pergunta acerca daquilo que os gregos experimentavam em physis.
  • A distância histórica não deve ser anulada mediante atualizações, mas assumida como condição para uma escuta capaz de perceber a diferença.
  • A comemoração historiográfica do passado pode transformar o originário em objeto cultural morto quando o mede apenas segundo categorias contemporâneas.
  • Pensar historicamente significa deixar que o começo se aproxime como exigência ainda vigente, e não simplesmente reconstruí-lo como etapa ultrapassada.
  • O pensamento essencial precisa, por isso, libertar-se tanto da pressa erudita por resultados quanto da pressa comum por explicações imediatamente compreensíveis.
  • A palavra physis kryptesthai philei deve permanecer diante do pensamento em sua estranheza: “O aparecimento favorece o desaparecimento.”
  • Essa formulação não pretende solucionar a sentença, mas acentuar o nexo problemático entre aquilo que vem ao aberto e aquilo que se recolhe.

Repetição

Sobre a relação essencial entre surgimento e declínio. Recusa das interpretações lógicas (dialéticas)

  • A construção to me dynon pote contém uma dupla negação: me nega o declinar e pote determina que essa negação vigora “a cada vez”, de modo que a tradução “surgimento incessante” procura exprimir afirmativamente o sentido dessa estrutura.
  • Transformar a dupla negação em formulação afirmativa não elimina necessariamente sua força, desde que se preserve a relação originária com aquilo que é negado.
  • A aproximação entre to me dynon pote e physis permite escutar ambas as expressões como palavras fundamentais de uma mesma região de pensamento.
  • Se physis for tomada apenas como aquilo que surge e kryptesthai como aquilo que se encobre, a sentença do fragmento 123 parece declarar que o surgimento “ama” seu próprio contrário.
  • A aparência de contradição surge somente quando ambos já foram definidos como termos mutuamente excludentes.
  • O pensamento lógico posterior formula o princípio segundo o qual uma coisa não pode possuir simultaneamente predicados contraditórios sob o mesmo aspecto.
  • Aplicar imediatamente esse princípio ao fragmento significa pressupor que Heráclito já pensa physis e kryptesthai como predicados fixos atribuídos a uma mesma coisa.
  • A palavra heraclítica pode, porém, mover-se num domínio anterior a essa determinação predicativa e categorial.
  • A designação do fragmento como “contraditório” não explica nada enquanto não se perguntar de que experiência provém a própria oposição entre seus termos.
  • Hegel reconhece na contradição o motor do movimento especulativo e sustenta que o espírito é capaz de estabelecer, suportar e superar a contradição.
  • Na dialética hegeliana, o verdadeiro não consiste na simples exclusão do contraditório, mas no processo pelo qual os opostos são preservados e superados numa unidade mais elevada.
  • Essa concepção é incomparavelmente mais profunda do que o uso cotidiano do princípio da não-contradição, mas continua pertencendo à metafísica e não pode ser identificada com Heráclito.
  • A contradição dialética hegeliana possui como fundamento o movimento do absoluto em direção à sua própria manifestação, horizonte estranho ao pensamento originário.
  • Kierkegaard leva a relação com o paradoxo e a contradição para outra direção extrema, mas também esse desenvolvimento pertence à história posterior da metafísica e do cristianismo.
  • Arrastar rapidamente Heráclito para a lógica ou para a dialética significa privar sua palavra da possibilidade de mostrar uma relação mais originária entre surgimento e encobrimento.
  • A opção metodológica consiste, portanto, em abandonar temporariamente tanto a leitura lógica quanto a dialética, não por julgá-las falsas, mas porque ambas podem antecipar uma resposta antes que a pergunta seja suficientemente experimentada.
  • A interpretação precisa permanecer junto à aparente incompatibilidade sem solucioná-la, permitindo que o próprio fragmento mobilize o pensamento.
  • O surgimento deve ser pensado como pertencente a uma relação essencial com o declínio e o encobrimento, ainda que a natureza dessa relação permaneça por enquanto indeterminada.
  • O objetivo não é afirmar que surgimento e declínio sejam simplesmente a mesma coisa, mas descobrir de que modo podem co-pertencer sem serem reduzidos a uma identidade indiferenciada.
  • A inquietação diante dessa co-pertença constitui o caminho pelo qual o pensamento pode abandonar a evidência do entendimento comum e abrir-se para outra experiência do ser.
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