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§ 3. A origem que constitui originariamente o a-ser-pensado. Fragmento 16
a) Observação acerca da tarefa de tradução
O fragmento 16 de Heráclito — “Como alguém poderia manter-se encoberto face ao que a cada vez já não declina?” — deve ser acolhido como palavra em que o pensamento originário procura aquilo que constitui o a-ser-pensado, exigindo uma tradução que não substitua a palavra grega por equivalentes modernos aparentemente familiares, mas conserve a força interrogativa, a multiplicidade semântica e sobretudo a relação essencial entre o que “nunca declina”, o encobrimento e o homem, pois somente uma tradução conduzida pela experiência do pensamento pode preservar a palavra como palavra e permitir que nela apareça a origem daquilo que permanece por pensar.
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A tradução não constitui uma operação meramente linguística em que cada palavra de uma língua seria substituída por outra correspondente, pois uma tradução fiel deve trasladar a palavra para o domínio essencial em que aquilo que ela nomeia pode novamente chegar à linguagem.
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Traduzir não significa tornar imediatamente familiar o estrangeiro, mas conduzir o próprio pensamento para dentro da experiência a partir da qual a palavra originária foi dita.
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Quanto mais elevada é a palavra da poesia ou do pensamento, tanto menos suficiente se torna uma equivalência lexical, porque a tradução precisa continuamente interpretar e, ao interpretar, conservar aberta a possibilidade de ser corrigida pela própria palavra originária.
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A tradução proposta para o fragmento deve permanecer provisória, não por insuficiência acidental, mas porque seu verdadeiro sentido somente poderá esclarecer-se à medida que se penetrar no nexo essencial entre dynon, encobrimento e a-se-pensar.
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A frase to me dynon pote pos an tis lathoi não deve ser tratada como sentença já transparente cuja interpretação viria posteriormente, pois tradução e interpretação crescem conjuntamente a partir da pergunta pelo que nela propriamente se diz.
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A fidelidade à palavra não se mede pela literalidade isolada, mas pela capacidade de manter sua força nomeadora e interrogativa sem impor-lhe antecipadamente conceitos posteriores.
b) A questão do que “nunca declina” e sua relação essencial com o “encobrimento”
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A sentença heraclítica apresenta inicialmente dois membros cuja relação deve ser interrogada: aquilo que “nunca declina” e a possibilidade de alguém manter-se encoberto diante disso.
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To me dynon pote não deve ser imediatamente convertido numa expressão nominal fixa, como se designasse uma entidade determinada chamada “o que nunca declina”; a forma verbal conserva a dinâmica própria do declinar e de sua negação.
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Tis, “alguém”, tampouco deve ser previamente restringido ao homem individual, pois a sentença inicialmente deixa indeterminado quem ou o que poderia encontrar-se na relação com aquilo que nunca declina.
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Lanthanein significa estar encoberto e permanecer no encobrimento, de modo que a pergunta de Heráclito não concerne simplesmente ao fato psicológico de alguém passar despercebido por um observador.
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A tradução corrente que pergunta como alguém poderia “esconder-se” daquilo que nunca se põe corre o risco de transformar o fragmento numa relação entre um sujeito que observa permanentemente e outro que procura furtar-se à sua vigilância.
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Essa interpretação aproximaria o que nunca declina de um olho cósmico onisciente, mas tal imagem obscurece o problema propriamente heraclítico e introduz representações estranhas à palavra.
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A forma interrogativa precisa ser preservada, porque uma sentença que parece responder de antemão que “ninguém” pode permanecer encoberto transforma a pergunta numa afirmação retórica e elimina justamente aquilo que nela exige pensamento.
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O questionável não deve desaparecer sob a aparência de uma máxima evidente; importa perguntar de que modo “declinar”, “não declinar” e “estar encoberto” pertencem essencialmente uns aos outros.
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A questão não consiste apenas em determinar quem poderia esconder-se, mas em compreender que espécie de relação permite que encobrimento e não-declínio se enfrentem numa mesma sentença.
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O fragmento deve ser mantido aberto como pergunta, pois aquilo que parece inicialmente óbvio — que ninguém poderia esconder-se de algo sempre presente — pode ser justamente a representação que impede alcançar o sentido originário.
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A palavra to me dynon pote contém um aceno para uma essência que não pode ser pensada a partir de um ente determinado, nem mesmo de um ente supremo permanentemente desperto.
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A aproximação decisiva exige abandonar a imagem de um observador cósmico e perguntar pelo próprio dynon, isto é, pelo declinar enquanto acontecimento essencial.
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O verbo dyo e suas formas remetem ao entrar, mergulhar, afundar e declinar, como no declínio do sol que desaparece no horizonte.
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Pensado de maneira grega, declinar não significa simplesmente cessar de existir, mas entrar no encobrimento, retirar-se do aparecimento e recolher-se na ocultação.
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O declínio do sol não significa que o sol seja aniquilado; ele desaparece da abertura do aparecimento ao entrar no encobrimento.
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Dunon deve, portanto, ser ouvido em proximidade essencial com lanthanein, pois o declinar é uma modalidade do recolher-se ao encoberto.
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O fragmento reúne, assim, duas determinações do encobrimento: de um lado, o declinar; de outro, o permanecer encoberto expresso por lanthanein.
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Se aquilo que nunca declina não entra jamais no encobrimento, a pergunta passa a exigir que se pense como qualquer coisa poderia permanecer encoberta diante daquilo cuja essência não se recolhe.
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Essa relação não se resolve pela representação de uma vigilância universal, mas conduz à questão acerca daquilo que, por não declinar, possibilita justamente aparecer e encobrir-se.
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A tradução “nunca declina” deve permanecer provisoriamente próxima do fenômeno do pôr-se do sol, porque essa imagem ainda conserva a experiência grega de entrada e retraimento no encobrimento.
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O pensamento moderno tende a interpretar aquilo que “não declina” como permanente, universal e invariável, aproximando-o do universum e das determinações metafísicas do ente supremo, mas essa interpretação pode desviar imediatamente do sentido heraclítico.
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A palavra latina universum, como reunião do todo numa unidade, pertence a uma experiência histórica posterior e não deve ser projetada sobre o fragmento.
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Também a pergunta pelo “homem” precisa permanecer suspensa, pois não está decidido que tis nomeie exclusivamente o homem nem que o fragmento coloque em primeiro plano uma relação antropológica.
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A sentença exige, antes, reconhecer uma conexão essencial entre não-declínio e encobrimento, conexão que somente poderá ser esclarecida quando as próprias palavras forem novamente experimentadas em sua proveniência.
c) O caráter morfológico da palavra legada to me dynon e sua discussão através da questão orientadora do pensamento metafísico (Aristóteles)
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To me dynon apresenta uma estrutura morfológica ambígua, pois dynon é particípio e, como tal, participa simultaneamente do caráter verbal e nominal, razão pela qual não deve ser imediatamente substantivado como “o não-declinante”.
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O particípio conserva o acontecer verbal do declinar e, ao mesmo tempo, permite que aquilo que declina seja nomeado, mantendo numa única forma aquilo que a gramática posterior separará em verbo e nome.
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A riqueza dessa forma gramatical oferece um caminho para perceber como a linguagem grega pode conservar uma experiência do ser anterior à separação rígida entre coisa e acontecimento.
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Dyo significa declinar, mergulhar, afundar; dynon pode, portanto, indicar tanto aquilo que declina quanto o próprio vigorar do declinar.
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O problema não pode ser resolvido por uma análise gramatical isolada, pois a gramática somente fornece um aceno exterior para uma diferença que pertence originariamente ao pensamento.
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A questão decisiva torna-se saber se o fragmento pensa primordialmente uma coisa que possui a propriedade de não declinar ou o próprio não-declinar como vigência.
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Para aproximar-se dessa diferença, torna-se necessário considerar a questão que orienta o pensamento metafísico desde Platão e Aristóteles: ti to on, “o que é o ente?”
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Aristóteles determina explicitamente essa pergunta como aquela que, desde sempre, agora e continuamente, permanece procurada e constitui a questão do pensamento.
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To on, “o ente”, apresenta a mesma estrutura participial: pode significar aquilo que é e, simultaneamente, o próprio ser daquilo que é.
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A pergunta ti to on pode ser entendida como “o que é o ente?”, mas essa tradução corre o risco de transformar imediatamente o particípio numa coisa substantivada e de perder a força verbal do einai, ser.
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O ente é aquilo que é, mas aquilo pelo qual o ente é ente não pode ser novamente apenas um ente entre outros.
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A metafísica pergunta pelo ente enquanto ente, procurando aquilo que pertence a cada ente no que ele é e torna possível dizer dele que “é”.
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Aristóteles chama ousia aquilo a partir do qual o ente é compreendido em seu ser, mas ousia não deve ser reduzida imediatamente à posterior tradução latina substantia.
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O caminho da tradução de ousia por substantia contribuiu para consolidar uma compreensão nominal do ser e para obscurecer a proveniência verbal da experiência grega.
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Platão e Aristóteles estabelecem a metafísica ao perguntar pelo ser dos entes a partir do próprio ente, procurando aquilo que permanece comum ao ente enquanto ente.
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O pensamento metafísico desloca-se, assim, do acontecimento verbal do ser para a determinação da entidade do ente.
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Essa transformação oferece um exemplo histórico decisivo para compreender o perigo de tratar dynon imediatamente como substantivo.
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Assim como to on conserva uma ambiguidade essencial entre “ente” e “ser”, também to dynon deve ser mantido na tensão entre aquilo que declina e o declinar.
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O particípio constitui uma forma linguística particularmente apta a preservar a oscilação entre presença nominal e vigência verbal.
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A questão não consiste em escolher arbitrariamente um dos dois significados, mas em perguntar qual deles possui primazia no pensamento originário.
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A experiência posterior da metafísica tende a privilegiar o substantivo e a entidade, enquanto o pensamento inicial pode exigir que se escute primeiramente o acontecer verbal.
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A dificuldade de traduzir o fragmento decorre, portanto, não de uma peculiaridade filológica marginal, mas do modo como a própria linguagem conserva a diferença entre ser e ente.
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A pergunta metafísica ti to on torna visível como uma forma participial pode tornar-se o centro de uma história inteira do pensamento.
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O esclarecimento de dynon precisa, por isso, permanecer atento à possibilidade de que Heráclito não esteja nomeando simplesmente “algo” que nunca declina, mas pensando o próprio não-declinar em sua vigência.
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A relação com o encobrimento ganha então maior profundidade, pois já não se trataria de um ente permanente diante do qual outros entes não conseguem esconder-se, mas de uma vigência em cuja abertura encobrimento e desencobrimento se tornam possíveis.
d) Reflexão explícita em torno das palavras “ser” e “é”
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A familiaridade cotidiana com as palavras “ser” e “é” encobre a estranheza de seu significado, pois elas são continuamente pronunciadas sem que se pergunte aquilo que propriamente nomeiam.
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A palavra “é” aparece em cada frase e em cada relação ordinária, mas precisamente sua ubiquidade faz com que passe despercebida e pareça não exigir pensamento.
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Aquilo que se apresenta como mais simples pode ser o mais difícil de pensar, porque a familiaridade cotidiana produz a impressão de que já se compreendeu aquilo que apenas se utiliza.
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Perguntar pelo “é” não consiste em buscar uma definição lexical, mas em interrogar aquilo que permite dizer de qualquer ente que ele é.
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A palavra “ser” parece extremamente vazia porque pode ser aplicada a tudo, mas essa aparente vacuidade pode esconder justamente a amplitude de sua vigência.
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O homem move-se constantemente numa compreensão do ser, mesmo sem tematizá-lo, porque todo relacionamento com qualquer ente já pressupõe que o ente seja compreendido como ente.
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Essa compreensão prévia não constitui conhecimento conceitual elaborado, mas o horizonte silencioso no qual coisas, pessoas, obras e acontecimentos podem aparecer.
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A linguagem é continuamente atravessada pelo “é”, mesmo quando ninguém o pronuncia expressamente, pois toda palavra que nomeia algo já se move no âmbito em que esse algo pode ser compreendido como sendo.
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O homem, determinado tradicionalmente como zoon logon echon, é o ente que possui a palavra, mas essa posse não significa dominar a linguagem como instrumento; antes, o homem permanece colocado pela palavra na abertura do ser.
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Mesmo pinturas, templos, sons e gestos somente podem manifestar algo porque já se encontram numa abertura de sentido em que aquilo que aparece pode ser compreendido como aquilo que é.
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A ausência da palavra “ser” numa expressão não significa ausência de sua vigência, pois o “é” pode permanecer silenciosamente pressuposto em todo dizer e mostrar.
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A familiaridade extrema com “ser” torna possível o esquecimento extremo do ser: justamente porque o homem já sempre compreende de algum modo o “é”, pode deixar de interrogá-lo inteiramente.
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A perda dessa compreensão não seria comparável a uma catástrofe exterior, pois significaria a destruição do próprio âmbito em que algo pode aparecer como ente.
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O esquecimento do ser não consiste, contudo, na simples ausência completa de qualquer compreensão, mas no fato histórico de que o homem continua relacionando-se com entes enquanto deixa impensado aquilo que torna possível essa relação.
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Mesmo a metafísica permanece numa relação com o ser quando o esquece em sua proveniência, pois sua própria determinação dos entes pressupõe continuamente aquilo que não interroga originariamente.
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Platão e Aristóteles são chamados “vigias” do ser dos entes porque fundam a pergunta metafísica pela entidade, embora com eles comece também a história na qual a questão originária do ser é progressivamente deslocada.
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Nietzsche, como último pensador da metafísica, interpreta o ser a partir da realidade entendida como vontade de poder, levando a história metafísica à sua consumação.
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A afirmação nietzschiana segundo a qual “ser” seria um “vapor” ou erro derradeiro da realidade não elimina a questão do ser; antes, testemunha a culminação histórica do esquecimento da diferença entre ser e ente.
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O niilismo não supera o ser simplesmente por declarar sua inexistência, pois a própria interpretação da realidade como vontade de poder permanece uma decisão acerca do ser dos entes.
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A possibilidade de experimentar o esquecimento do ser como esquecimento pressupõe ainda alguma relação com aquilo que foi esquecido.
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Uma humanidade inteiramente privada de qualquer compreensão do ser deixaria de poder experimentar entes enquanto entes e, portanto, deixaria de ser aquilo que historicamente se compreende como homem.
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O retorno à palavra “é” não constitui exercício linguístico secundário, mas preparação para a questão fundamental que o fragmento de Heráclito mantém aberta.
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Se dynon deve ser compreendido verbalmente, torna-se necessário reaprender a escutar palavras fundamentais como “ser”, “é” e “declinar” antes que sejam transformadas em substantivos disponíveis ao pensamento.
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A reflexão sobre o “é” prepara a possibilidade de compreender que o “nunca declinar” talvez não indique primordialmente uma coisa permanente, mas uma vigência da qual depende todo aparecer e encobrir-se.
Repetição
1) Tradução e interpretação. A necessidade de uma compreensão mais original a partir da inquietação que se experimenta no Mesmo
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A tradução do fragmento 16 permanece necessariamente provisória: “Quem pode manter-se encoberto face ao que a cada vez já não declina?”
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Toda tradução perde algo, mas uma tradução verdadeiramente pensante pode, em determinados casos, revelar aspectos que uma equivalência aparentemente mais literal deixa ocultos.
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A tradução de uma palavra essencial jamais consiste numa operação neutra, pois todo traslado já interpreta aquilo que traduz.
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O exemplo de uma tradução de Sófocles mostra que a tradução pode aproximar-se da palavra originária somente quando se move no horizonte do pensamento e não apenas no da equivalência lexical.
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Tradução e interpretação não são duas etapas independentes, porque compreender a palavra exige traduzi-la e toda tradução pressupõe uma compreensão daquilo que nela se diz.
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Mesmo a língua materna necessita continuamente ser “traduzida” para uma compreensão mais originária, pois a familiaridade ordinária com as palavras pode ser precisamente aquilo que mais oculta sua essência.
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A pretensão de compreender imediatamente um pensador porque suas palavras parecem familiares constitui uma das formas mais persistentes de incompreensão.
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O pensamento originário esconde aquilo que diz como um tesouro que não se entrega à leitura apressada, exigindo repetidos retornos à mesma palavra.
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Não existe um intérprete que possa possuir definitivamente “a melhor tradução”, pois a grande palavra permanece maior do que qualquer tradução singular.
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A compreensão pode ser continuamente retomada porque o mesmo a-se-pensar não se esgota numa interpretação determinada.
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A inquietação diante do mesmo constitui uma condição do pensamento: aquilo que já parecia compreendido volta a tornar-se questionável e exige nova escuta.
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A superioridade do pensador não reside em possuir de antemão respostas definitivas, mas na capacidade de permanecer exposto à exigência renovada daquilo que deve ser pensado.
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A tradução deve, portanto, conservar a estranheza necessária da palavra, em vez de fazê-la desaparecer mediante uma adaptação confortável ao idioma de chegada.
2) O “declinar” pensado no modo grego e a questão da essência de sua palavra
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O verbo empregado por Heráclito precisa ser libertado da compreensão moderna e ouvido a partir da experiência grega do declinar como entrada no encobrimento.
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O exemplo do pôr do sol mostra que declinar não é simplesmente deixar de existir, mas desaparecer da abertura visível, recolhendo-se para aquilo que permanece encoberto.
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A tradução por “pôr-se” pode conservar parcialmente essa experiência, desde que “pôr” não seja entendido como simples deslocamento espacial de um corpo celeste.
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A poesia de Stefan George e Jean Paul mostra que a imagem do sol declinante ainda pode conservar, na língua moderna, algo da experiência de entrada no ocultamento.
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O declínio não é pura aniquilação; aquilo que declina recolhe-se e permanece numa relação com aquilo de onde desapareceu.
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Pensar dynon exige, portanto, abandonar a representação segundo a qual um ente simplesmente some e deixar aparecer o movimento de retração que o leva ao encobrimento.
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A modernidade tende a substituir essa experiência por explicações astronômicas, físicas ou perspectivísticas, corretas em seu âmbito, mas incapazes de responder à questão essencial da palavra.
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As observações de Copérnico ou da ciência moderna sobre o movimento aparente do sol não tornam falsa a experiência do declinar, porque o problema não é determinar cientificamente o movimento astronômico, mas compreender a estrutura do aparecer e desaparecer.
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A palavra poética mantém aberta uma experiência do fenômeno que a explicação científica pode deixar de lado quando transforma tudo em processos objetivos.
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As referências a Nietzsche e ao niilismo mostram o perigo de interpretar imediatamente o “nunca declinar” como permanência de um ente supremo ou princípio metafísico fixo.
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A vontade de poder nietzschiana não deve ser projetada retrospectivamente sobre Heráclito sob a aparência de uma suposta identidade entre ambos.
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Não se deve corrigir simplesmente Nietzsche mediante uma historiografia mais exata, porque a questão decisiva não é quem teria interpretado “corretamente”, mas que transformação histórica do ser tornou possíveis essas leituras.
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O acesso ao fragmento exige abandonar modelos históricos que tratam pensadores antigos como estágios preliminares de sistemas posteriores.
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O pensamento originário precisa ser escutado a partir de sua própria palavra, ainda que essa palavra somente possa ser alcançada através da história que a transmitiu e deformou.
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Dunon, declinar, conduz novamente ao encobrimento e mostra que o primeiro movimento interpretativo deve partir dessa relação, não de uma suposta entidade permanente que jamais se põe.
3) Esclarecimento do to dynon através das articulações morfológicas da questão orientadora do pensamento metafísico (Aristóteles, Platão). Sobre o problema da interpretação reconduzida: os pensadores originários e o início posterior da metafísica
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A questão aristotélica ti to on, “o que é o ente?”, constitui um caminho privilegiado para perceber a estrutura do particípio dynon, pois to on apresenta a mesma oscilação entre significado verbal e nominal.
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Aristóteles afirma que aquilo que sempre foi procurado, agora é procurado e continuará sendo procurado é a questão do que é o ente.
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A questão não pergunta primordialmente pelas características particulares de pedras, plantas, animais, homens ou deuses, mas por aquilo segundo o qual qualquer um deles pode ser chamado ente.
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Perguntar “o que é o ente?” significa interrogar o ser do ente, e não acrescentar mais uma informação particular sobre um objeto.
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A perspectiva metafísica busca aquilo que pertence universalmente a todos os entes enquanto entes.
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O universal metafísico não deve ser confundido com uma generalização empírica que elimina diferenças, como se se produzisse uma categoria abstrata pela comparação de árvores, animais e homens.
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A entidade do ente é aquilo a partir do qual cada ente, em sua singularidade, pode ser compreendido como ente.
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Platão e Aristóteles instauram uma forma de pensar em que o ser é interrogado a partir dos entes e em direção ao fundamento de sua entidade.
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Essa passagem constitui o início da metafísica, mas não deve ser retroprojetada sobre os pensadores originários como se estes já colocassem a mesma questão da mesma maneira.
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Parmênides, Heráclito e Anaximandro não devem ser simplesmente classificados como “pré-platônicos” ou “pré-socráticos”, porque tais nomes os definem a partir daquilo que veio depois e ocultam sua posição própria.
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A interpretação historiográfica tende a considerar os pensadores anteriores como formas ainda incompletas de Platão e Aristóteles, transformando o começo numa etapa rudimentar de uma evolução posterior.
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Aristóteles, ao interpretar seus predecessores, já os lê a partir da pergunta metafísica pela entidade e procura neles antecipações das próprias determinações.
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Essa leitura não constitui simples erro individual, mas pertence à transformação histórica pela qual o primeiro começo é reinterpretado desde a metafísica.
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O pensamento posterior pode compreender o anterior apenas a partir de suas próprias questões, mas uma meditação histórica precisa tornar visível essa distância em vez de apagá-la.
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A representação historiográfica do tempo coloca o passado atrás do presente numa sequência cronológica, fazendo o começo parecer algo definitivamente ultrapassado.
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A história essencial exige inverter essa orientação comum: o começo não está simplesmente atrás, mas permanece por vir na medida em que sua essência ainda não foi pensada.
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A origem somente pode ser encontrada mediante um movimento que abandone a mera sucessão cronológica e procure aquilo que, desde o começo, continua determinando silenciosamente a história.
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Pensadores originários e metafísicos não devem ser nivelados numa linha progressiva, porque a diferença entre eles concerne ao próprio modo da pergunta acerca do ser.
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A questão do particípio on revela como a metafísica começa a privilegiar a entidade e a substantivação do ser, oferecendo uma advertência decisiva para a interpretação de dynon.
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O fragmento de Heráclito não deve ser forçado a responder antecipadamente à pergunta aristotélica, embora a análise dessa pergunta possa ajudar a reconhecer uma diferença que o pensamento posterior tende a encobrir.
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A tarefa consiste em deixar a morfologia da palavra abrir uma via para a experiência originária, sem transformar a gramática numa instância capaz de determinar por si só o pensamento.
4) O caráter morfológico de dynon. A primazia do significado verbal frente ao nominal (participial)
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O particípio dynon reúne verbalidade e nominalidade, mas a interpretação do fragmento exige perguntar se a primazia deve pertencer ao acontecer verbal do declinar em vez de ao significado nominal de “aquilo que declina”.
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A tendência ordinária consiste em transformar imediatamente o particípio numa coisa: “o não-declinante”, como se Heráclito já estivesse nomeando um ente determinado.
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Tal substantivação pode repetir, sem perceber, o movimento histórico pelo qual a metafísica privilegia a entidade e deixa em segundo plano a vigência verbal do ser.
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Se dynon for escutado verbalmente, o fragmento deixa de perguntar primordialmente por uma coisa que nunca declina e começa a perguntar pela essência do próprio não-declinar.
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Essa mudança não é um artifício gramatical, mas uma tentativa de permanecer mais próximo do modo como a palavra originária ainda conserva em sua forma o acontecer que nomeia.
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O fato de dynon poder significar simultaneamente “declinante” e “declinar” testemunha uma riqueza que a separação moderna entre substantivo e verbo tende a empobrecer.
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A palavra “ser” oferece o caso mais decisivo dessa dificuldade, pois pode transformar-se num nome extremamente abstrato e, contudo, sua proveniência permanece verbal.
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O “é” cotidiano é pronunciado constantemente e, ao mesmo tempo, permanece quase completamente impensado, mostrando como aquilo que está mais próximo pode ser também o mais esquecido.
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Heráclito não oferece uma definição pronta daquilo que “nunca declina”; sua sentença mantém o pensamento numa abertura em que declinar, não-declinar e encobrimento precisam ser experimentados conjuntamente.
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A pergunta deve permanecer sem resposta enquanto não se esclarecer se o “nunca declinar” constitui apenas uma modalidade de ser entre outras ou se nele se anuncia algo essencialmente ligado ao próprio ser.
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Transformar imediatamente a sentença numa doutrina acerca de um ser eterno significaria abandonar prematuramente a pergunta e impor ao fragmento uma metafísica posterior.
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A abertura da questão exige reconhecer que a história da interpretação se encontra sempre próxima, e que nenhuma aproximação ao pensamento originário acontece fora dessa história.
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O homem contemporâneo já pensa espontaneamente segundo determinações produzidas por Platão, Aristóteles e pela tradição metafísica, mesmo quando desconhece essa proveniência.
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A distância histórica não pode ser anulada por erudição filológica, pois se encontra inscrita no próprio modo habitual de compreender palavras fundamentais como ser, ente, verdade, realidade e natureza.
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O caminho para Heráclito exige, por isso, um desaprendizado cuidadoso da evidência conceitual acumulada durante séculos.
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Pensar dynon verbalmente significa tentar devolver à palavra sua mobilidade originária e resistir à tendência de convertê-la imediatamente numa coisa ou num princípio.
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Essa tentativa prepara a pergunta decisiva: como pode alguém manter-se encoberto diante do próprio não-declinar, se o não-declinar estiver essencialmente relacionado com aquilo que deixa tudo aparecer?
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A sentença de Heráclito permanece propositalmente aberta, porque a resposta só poderá surgir quando se esclarecer mais originariamente a relação entre declinar, encobrimento, aparecer e ser.
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A familiaridade cotidiana com o ser constitui simultaneamente condição e obstáculo para essa investigação: condição porque todo homem já compreende de algum modo o “é”; obstáculo porque essa compreensão habitual parece dispensar a pergunta.
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O esquecimento do ser manifesta-se justamente no fato de o homem mover-se incessantemente entre entes sem interrogar aquilo que permite que eles sejam experimentados como entes.
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Mesmo a consumação metafísica em Nietzsche, que reduz o ser a um conceito vazio e interpreta a realidade como vontade de poder, permanece historicamente determinada por aquilo que pretende abandonar.
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A declaração de que o ser seria o último “vapor” da realidade revela não a superação do problema, mas a extrema distância em relação ao começo em que a palavra ainda permanecia ligada à vigência originária.
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Se o homem perdesse totalmente a compreensão do “é”, não perderia apenas uma palavra ou um conceito, mas o próprio âmbito no qual qualquer ente poderia aparecer-lhe como ente.
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O fragmento 16 conduz, por isso, para muito além de uma sentença acerca de algo permanentemente desperto: ele exige reaprender a pensar o não-declinar como acontecimento essencial e perguntar de que maneira esse acontecimento pertence ao encobrimento.
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A formulação provisória — “Quem pode manter-se encoberto face ao que a cada vez já não declina?” — deve continuar sendo ouvida como pergunta e não como resposta disfarçada, pois somente sua abertura pode preservar o acesso àquilo que Heráclito deixa a-se-pensar.
