obra:ga49:ga49-3-tritulo-tratado-schelling

§3 Esclarecimentos sobre o título do tratado

  • O tratado de Schelling, intitulado Investigações Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana e os Objetos com ela Conectados, representa o ápice de um percurso intelectual iniciado em 1809, servindo como a conclusão de um conjunto de investigações previamente selecionadas pelo autor para fundamentar sua ontologia. A arquitetura dessa obra pressupõe a compreensão de momentos fundamentais que a precedem na trajetória do pensamento do autor:
    • Do Eu como Princípio da Filosofia, ou sobre o Incondicionado no Conhecimento Humano (1795).
    • Cartas Filosóficas sobre Dogmatismo e Criticismo (1795).
    • Tratados sobre a Elucidação do Idealismo da Doutrina da Ciência (1796-1797).
    • Sobre a Relação das Artes Plásticas com a Natureza: Um Discurso Acadêmico (1807).
  • A estrutura terminológica do título revela uma profundidade metafísica que transcende a mera escolha de um tema arbitrário, articulando a zētēsis filosófica com a investigação da essência humana como centro da possibilidade interna e fundamento da realidade absoluta. A conexão entre a liberdade e os objetos a ela vinculados remete ao conceito de sustasis, ou sistema, sugerindo que os elementos da filosofia não se encontram isolados, mas organizados em um nexo orgânico onde a liberdade não é um tópico periférico, mas o ponto central que determina a totalidade do edifício especulativo.
  • A tese de que o tratado constitui o centro mais íntimo da filosofia permite caracterizá-lo como um sistema da liberdade, opondo-se à visão de que se trata de uma reflexão isolada ou de um estudo particular da vontade humana nos moldes da tradição kantiana. Nessa perspectiva, a essência do humano é pensada em sua relação intrínseca com o absoluto, de modo que o estudo da liberdade se confunde com o estudo das condições de possibilidade da própria manifestação do ser.
  • A crítica de Hegel, que classifica o tratado como uma obra de caráter profundo e especulativo, porém isolada do desenvolvimento sistêmico, revela uma incompreensão fundamental acerca da natureza do projeto schellinguiano. O que Hegel interpreta como algo que se mantém à parte é, em verdade, o próprio centro do sistema que se recusa a ser reduzido à exigência de desenvolvimento dialético linear que o idealismo absoluto hegeliano impõe, permanecendo a questão sobre se tal exigência faz justiça à especificidade do pensamento de Schelling.
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